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A L E A NEVE

OBRAS DE FERREIRA DE CASTRO
EM PORTUGAL:
EMIGRANTES
 SELVA
ETERNIDADE
TERRA FRIA
PEQUENOS MUNDOS (2 vols.)
 TEMPESTADE
A VOLTA AO MUNDO (3 vols.)
A L E A NEVE
A CURVA DA ESTRADA
A MISSO
O INSTINTO SUPREMO
AS MARAVILHAS ARTSTICAS DO MUNDO OS FRAGMENTOS
EDIES ILUSTRADAS ,
A SELVA e PEQUENOS MUNDOS (Esgotados) - A VOLTA AO MUNDO 
(Esg.) - OBRAS COMPLETAS (E"g.) -EMIGRANTES (Esg.) - AS MARAVILHAS ARTSTICAS DO MUNDO - TERRA FRIA

NO BRASIL:
A SELVA, Moura Fontes, Rio - ETERNIDADE,
Livros de Portugal, Rio -A L E A NEVE, Editorial Vitria, Rio -A TEMPESTADE, Editorial Inqurito, Rio -TERRAS DE SONHO, alguns captulos de Pequenos Mundos, Saraiva Editores, S. Paulo - A CURVA DA ESTRADA, Difuso Europeia do Livro, S. Paulo -OBRAS COMPLETAS, em trs volumes, Editora Jos Aguilar, Rio - A SELVA, ed. Verbo, S. Paulo -A SELVA, ed. comemorativa, e O INSTINTO SUPREMO, na Civilizao Brasileira Editora, Rio

OBRAS TRADUZIDAS DE FERREIRA DE CASTRO
ALEMANHA
Die Kautschukzapfer, trad. de A Selva por Richard A. Bermann, ed. de Gebruder Enoch, Hamburgo.
Die Kautschukzapfer, ed. para a juventude, de Droste Verlag, Dusseldrfia.
Kautschukzapfer am Amazonas, um volume com alguns captulos de A Selva para as escolas superiores. Seleco de Rudolf Fuhr. Ed. Finken Verlag. Oberursel, Taunus.
Karge Erde, trad. de Terra Fria, pelo Dr. Elfriede Kaut, Bremen.
Karge Erde, ed. especial da Bucherguild Gutenberg, Francoforte.
Wolle und Schnee, trad. de A L e a Neve pelo Dr. Elfriede Kaut, Bremen.
Auswanderer, trad. de Emigrantes, por Herbert e W. Ferruge, Berlim - Viena.
ARGENTINA
La Experincia, trad. de A Misso em castelhano, por Carmen Alfaya5 Buenos Aires.
Lana y Nieve, trad. de A L e a Neve em castelhano, por Raul Navarro, Buenos Aires.
BLGICA Em Francs:
Fort Vier g, edio especial de L'Amiti par l Livre, Bruxelas.
Fort Vierge, outra edio especial do Club du Livre "Biblis", Bruxelas.
Terre Froide, edio especial de L'Amiti par l Livre, Bruxelas.
Em Flamengo:
Onvrochtbare Aarde, trad. de Terra Fria, por L. Roelandt, Gand.
De Schaapjes ds Heren, trad. de A L e a Neve, por L. Roelandt, Gand. Het Oerwoud, trad. de A Selva, por L. Roelandt, Gand.
BULGRIA
Caukuch Zeleniath Demonh, trad. de A Selva, por Lobenh Jristobh, Sofia.
CANAD
Jungle, trad. de A Selva, em ingls, por Charles Duf f, ed. Lovat Dickson, Lda.} Toronto.
CHECOSLOVQUIA
Em Checo:
Stin Kaucuku, trad. de A Selva, por Milada FJiederov, Praga.
Vysthovalci, tr. de Emigrantes, por Jakub Frey, Praga
Vecnost, trad. de Eternidade, por M. Fliederov, Praga.
Chladna Zeme, trad. de Terra Fria, por Milada Fliederov, Praga.
Ulna a Snih, trad. de A L e a Neve, por Jakub Frey, Praga.
Em Eshvaco:
Emigranti, trad. de Emigrantes, por Stefan Kyska, Bratislava.
V Zajati Kaucuku, trad. de A Selva, por Stefan Jaoasyy Bratislava.
Ulna a Sneh, trad. de A L e a Neve, por VTadimir Oleriny, Bratislava.
ESPANHA
El xito Fcil, trad. de O xito Fcil, por Jos Andrs Vazquez, Sevilha.
Los Emigrantes, trad. de Emigrantes, por Rodriguez Len e Amado Herrero, Madrid.
La Selva, trad. de A Selva, por Rodriguez Len e Amado Herrero, Barcelona.
Tierra Fria, trad. de Terra Fria, por Eugenia Serrano, Madrid.
Novelas Escogidas '(Emigantes, A Selva} Eternidade, Terra Fria, A L e a Neve e A Misso), trad de Eugenia Serro e Jos Ares, ed. Aguilar, Madrid.
ESTADOS UNIDOS DA AMRICA
Jungle, trad. de A Selva, por Charles Duff, ed. Viking Press, Nova Iorque. Emigrants, trad. por (Dorothy Bali, Nova Iorque.
FRANA
Fort Vierge, trad. de A Selva, por Blaise Cendrars, edies correntes, Grasset, Paris.
Fort Vierge, edio especial do Chib du Beau Livre de France, Paris.
Fort Vierge, outra edio especial do Club du Livre du Mis, Paris.
Fort Vierge, outra edio especial do Club de Ia Femme, Paris.
Fort Vierge, edio do "Livre de Pocho, Paris.
Emigrants, trad. de Emigrantes, por A. K. Valre, Paris.
Terre Froide, trad. de Terra Fria, por Louise Delapierre, Paris.
Ls Brebis du Seigneur, trad. de A L e a Neve, por Louise Delapierre, ed. corrente de Pierre Horay, Paris.
Ls Brebis du Seigneur, edio especial do Club Franais du Livre, Paris.
Ls Brebis du Seigneur, outra edio especial do Club ds Libraires de France, Paris.
L Renoncement de Don lvaro, trad. de A Curva da Estrada, por Rene Gahisto, Paris.
La Mission, trad. de A Misso, por Louise Delapierre e Rene Gahisto, Paris.
Mourir Peut-tre, trad. de O Instinto Supremo, por Georgette Tavares Bastos, Paris.
HOLANDA
De Paradys Plantage, trad. de A Selva, por A Gerson, Amesterdo.
HUNGRIA
Honkeresok, trad. de Emigrantes, por Kords Ferenc, Budapeste.
Napfnyes Hazik, trad. de A L e a Neve, por Csatls Jnos, Budapeste.
Orokkvalsag, trad. de Eternidade, por Szalay Sndor, Budapeste.
A Rendhz, .traduo de A Misso, por Szalay Sndor, Budapeste.
INGLATERRA
Jungle, trad.deASelva, pelo Dr. Charles Duff,Londres. The Mission, trad. de A Misso, por Aon Steveas, Londres.
Emigranti, trad. de Emigrantes, por A. R. Ferrarirn, Ed. Caraibba-Lanciano.
La Selva delle Amazzom, trad. de A Selva, por G. Mediei e G. Beccari, Milo.
Uomini Come Noi, trad. de A L e a Neve, por Antnio Fiorillo, Milo.
IUGOESLV1A
Kaucuk Zelini Demon, trad. de A Selva em croata, por Dragutin Biscan, Zagreb.
Iseljenici, trad. de Emigrantes em croata, por Ante Rojnic, Zagreb.
NORUEGA
Gummitapperne Ved Rio Madeira, trad. de A Selva, por Leif Sletsjoe, Oslo.
POLNIA
Emigranci, trad. de Emigrantes', por Aleksandry Oledzkiej, Varsvia.
Misje, trad. de A Misso, pelo Prof. Florian Smieja, ilustrada por Danuta Przybos, Varsvia.
ROMNIA
Padurea Virgina, trad. de A Selva, por Al-Popesco Telega, Bucareate.
Oile Domnului, trad. de A L e a Neve, por Dan Botta, Bucareste.
RSSIA
A L e a Neve, traduo de A. Torres e A. Ferreira, Moscovo. Emigrantes, trad. de David Vigodsky, Leninegrado.
SUCIA
Urskog, .traduo de A Selva por Aslg Davidson,
Estocolmo.
SUA
Em Francs:
La Mission, traduo de A Misso, ed. da Guilde du Livre, Lausana.
Em Alemo: Selva, trad. de A Selva, por R. Caltofon, Zurique.
FERREIRA DE CASTRO?
A L E A NEVE
ROMANCE
12." EDIO
GUIMARES & C.* EDITORES
68, Rua da Misericrdia, 70 - LISBOA - 2
Reservados para todos os pases todos os direitos de traduo, reproduo e adaptao
Copyright b u Fe r
by Ferreira de Castro
Composto e impresso em Maio de 1976 na Imprensa LUCAS & C-*, L da. Rua do Dirio de Notcias, 61 -LISBOA
PHINTBD IN PORTUGAL

Os primeiros teares criaram-se, em j difusos e incontveis dias, para a l que produziam os rebanhos dos Hermnios. O homem trabalhava, ento, no seu tugrio, erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam tambm e vinham rondar, famintos, a porta fechada do homem. A solido enchia-se dos seus uivos e a neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque s a p ou a cavalo a podiam vencer, parecia incomensurvel, muito maior do que era, e de todos os seus recantos, de todos os seus picos e refegos brotavam supersties e lendas - histrias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas.
O homem viera para ali h muitos sculos, mas poucos tinham sido e poucos eram ainda os que levantavam o seu abrigo de granito nos stios mais propcios; e, quando o faziam, achegavam-se uns aos outros, como se se quisessem defender da bruteza circundante. Os gnios da montanha e as frias do cu possuam, assim, quase toda a majestosa extenso da serrania, ermticos domnios onde podiam transitar com passos de fantasmas ou bramir livremente.
No comeo do Vero, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braos possantes, fiada depois, a l subia, um dia, ao tear. E comeava a tecelagem. O homem movia, com os ps, a tosca construo de madeira, enquanto as suas mos iam operando o milagre de transformar a grosseira matria em forte tecido. Constitua o acto uma indstria domstica, que cada qual exercia em seu proveito, pois a serra no dava, nessas recuadas eras, mais do que l e centeio.
Pouco a pouco, porm, foi sendo tradio no reino que os homens da Covilh e suas redondezas eram mestres, como nenhuns outros, em tecer bifas, almafegas e buris. Ento, os monarcas e seus aclitos acabaram atentando nesses teceles dispersos pelas abadas da serra; e com ordenaes, pragmticas, alvars e regimentos, ora os estimulavam em seu solitrio labor, ora os constrangiam sob pesadas sisas. Da Flandres vinham panos concorrentes, que exibiam mais esmerada tessitura; apesar disso, os humildes teares continuavam a mover-se, alimentados pelos rebanhos da Estrela.
Depois, Portugal descobriu longnquas terras e tambm a rota martima da ndia; e houve que vestir a muitas gentes exticas, a troco do que elas, foradas ou voluntariamente, entregavam aos descobridores. E os teares da serra multiplicaram-se. Cada, tecelo trabalhava, ainda, no seu casebre, de lume aceso no Inverno e porta escancarada no Estio. A maior casa pertencia, ento, ao deus do povoado. Mas, um dia, na Covilh, ergueu-se uma casa maior do que a do deus. Era a primeira fbrica de tecidos. Muitos teceles deixavam a faina individual e iam trabalhar em conjunto. Da Inglaterra e da Irlanda chegavam outros homens para lhes ensinar os ltimos progressos da sua arte. A l da serra j no bastava; ia-se merc-la ao Alentejo e a outras terras do pas. E os teares comearam a vestir os exrcitos reais. Cada sculo aportava novos aperfeioamentos  tecelagem e levantava novas fbricas nas margens das duas ribeiras que desciam da serra, cantando, a um lado e outro da cidade.
Um dia, tudo se revolucionou. J no se tratava de melhores debuxos, de mais gratas cores, mas de coisa mais profunda da produo automtica. L nas nevoentas terras inglesas o padre Cartwright inventara o tear mecnico. A gua, fazendo girar grandes rodas, comeara a produzir o movimento dado, at a, pelos ps do homem. Mas continuam a ser precisos os homens junto das novas mquinas.
Os serranos, que, nas solides da Estrela, ora pastoreavam as suas ovelhas, ora teciam a l que elas forneciam, tornaram-se cada vez mais raros. A maioria entrara nas fbricas. Eles tinham de regrar, agora, a sua vida por um salrio fixo, chegasse ou no chegasse para as exigncias de cada dia. Isso, porm, carecia de importncia; ningum pensava em aumentar-lhes os ganhos, pois havia de se ter sempre em conta o preo da mo-de-obra para a concorrncia dos tecidos nos mercados.
Os homens passavam os dias e as noites dentro das fbricas, s saindo aos domingos, para esquecer o crcere. J no viam as ovelhas, nem ouviam o melanclico tanger dos seus chocalhos nos pendores da serra, ao crepsculo; viam apenas a sua l, l que eles desenrugavam, que eles lavavam, cardavam, penteavam, fiavam e teciam, l por toda a parte.
A indstria ia crescendo sempre. Agora no eram grandes apenas a casa do deus dos homens e as casas das fbricas; ao lado destas, outras casas grandes tinham surgido. as residncias dos industriais. E todo o pas falava da prosperidade da Covilh.
Mais tarde, operou-se nova revoluo. As enormes rodas que giravam nas ribeiras detiveram-se: o poder da gua fora substitudo pelo da electricidade.
E fbricas existiam onde j laboravam pais, filhos e netos. Os centos de teceles que, outrora, viviam nos lugarejos da serra, tinham-se multiplicado e constituam, agora, milhares. Lneas personagens, que, de magros dinheiros dispondo, compravam o fio a uns, mandavam-no tecer a outros e a terceiros vendiam os panos, acabaram desaparecendo tambm, devoradas pelos industriais poderosos. E s ficavam as grandes fbricas, com seus milhares de operrios.
A l do pas j no chegava; tinha-se de a procurar em terras estrangeiras. Da Austrlia, da Nova Zelndia, da frica do Sul, passaram a vir grandes carregamentos. Rebanhos distantes alimentavam, atravs dos mares, as fbricas quase escondidas nas ribeiras da Estrela.
A indstria sofria, porm, constantes oscilaes. Ora fabricava sem descanso, ora, por escassez de matria-prima ou parco consumo, diminua os dias de seu trabalho. Ento, homens e mulheres, que  l haviam entregue a sua vida, defrontavam-se com uma misria mais descarnada ainda do que a normal. Com seu fabrico reduzido, a Covilh, em vez de exportar panos, passava a exportar raparigas para o meretrcio de Lisboa.
A sujeio ao destino comum criara, todavia, alguns vnculos entre os descendentes dos primeiros teceles. No sculo XX, mais do que sons de flautas pastoris descendo do alto da serra para os vales, lubiam dos vales para o alto da serra queixumes, protestos, rumores dos homens que, s vezes, se uniam e reivindicavam um pouco mais de po.

A L E a NEVE
PRIMEIRA PARTE
OS REBANHOS
LOGO que as cabras e as ovelhas entestaram  corte, o "Piloto" deu por findo o seu trabalho. E antes mesmo de o pastor, que lhe aproveitava os servios, se dirigir a casa, ele meteu ao extremo da vila. Rabo 'entre as pernas, focinho quase raspando a terra, ia triste, cismtico, como perro vadio de estrada, descorooado da vida. Subitamente, porm, sorveu no ar -algo que lhe era conhecido. A cauda ergueu-se num pice, formando volta que nem cabo de guarda-chuva; a cabea levantou-se tambm e nela luziram os olhitos at a amortecidos. "Piloto" estugou o passo. O caminho estava cheio de tentaes, de paragens obrigatrias, estabelecidas por todos os ces que passiaram ali desde que Manteigas 'existia, desde h muitos sculos. Forado a deter-se, at regava,  esquerda e  direita, rudes pedras, velhos castanheiros, velhos cunhais, mas fazia-o alegremente e com o visvel modo de quem leva pressa. Em seguida, voltava a correr no faro do seu dono. Cada vez o sentia mais perto e cada vez era maior o seu alvoroo. Por fim, lobrigou-o. Horcio estava junto de Idalina, tambm
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conhecida de "Piloto"; estavam sentados num dorso de rocha que emergia da terra, ao cabo das decrpitas e negrentas casas do Eir, no cimo da vila. E to atarefado parecia Horcio com as palavras que ia dizendo  rapariga, que no deu, sequer, pela chegada do co. Vendo-o assim, "Piloto" hesitou um instante, enquanto agitava mais a cauda e tremuras de alegria lhe percorriam o corpo. Logo se decidiu. E, humilde, foi colocar o focinho sobre a coxa do amo, como era seu costume quando este o chamava,  hora da comida, nos dias em que os dois andavam pastoreando o gado, l nos picarotos da serra. S ento o amo deu por aquela presena. Ele regressara nessa tarde do servio militar e, no entusiasmo de ver pai e me, os vizinhos e, sobretudo, Idalina, no se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porm, afagava-lhe a cabea e metia, enternecido, um parntesis na narrativa que estava fazendo:
- Olha o "Piloto"! O meu "Piloto"!
Idalina desviou ligeiramente os olhos para o co e voltou a fix-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silncio e Horcio volveu ao ton de voz anterior:
- Como eu ia a dizer, o quartel de artilharia antiarea prantava-se mesmo  beira do mar. Viam-se passar os navios, que iam para Lisboa. As vezes, era cada um, to grandalho, que dentro dele ningum podia ter medo de afundar-se. Ali perto ficava o Estoril. Tu j ouviste falar no Estoril? Aquilo  que  uma terra bonita!  como um jardim a perder de vista. S te digo que l at os pinheiros parecem rvores mansas! Nalguns, as roseiras trepam por eles arriba at chegar mesmo aos galhos. E todas as estradas so mais limpinhas do que o cho de uma igreja! Nas horas de dispensa, eu nunca me fartava de ver aquilo. H l automveis
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por toda a parte e pessoas que falam o raio de umas lnguas que a gente no percebe nada...
De sbito, Horcio ps freio  sua loquacidade. Pela atitude e teimoso silncio de Idalina, compreendeu que ela, desinteressada de quanto ouvia, pensava noutra coisa, aguardando que ele voltasse ao caminho de onde se desviara. Com a mo, Horcio afastou da sua perna a cabea do "Piloto" e justificou-se:
- Eu estava a falar disto s por mor das casas... Tu no podes imaginar! As dos industriais daqui nada so comparadas com as que l se vem! H-as de todos os feitios e lindas a valer! Todas esto no meio de jardins e, mesmo no pino do Inverno, tm flores. Eu passava horas a andar em frente delas e a olhar para dentro. Ento eu ia pensando que ali  que se podia viver bem e ter muitos filhos e no aqui, na nossa terra. Depois, eu via que no gostava muito daquelas casas grandes. Parecia-me que, se uma delas fosse minha, me perderia l dentro. Aquilo estava bem para gente com outros costumes, gente rica, que gosta de se deitar em quartos separados e de ter muitas salas. No para mim, que quero dormir sempre agarrado a ti...
Horcio riu, contemplandoHa e desejando contagi-la com o seu fervor. Mas o sorriso dela foi to melanclico, coisa to a despegar-se dos lbios, tanto de deitar fora, que ele protestou:
- No ponhas essa cara de enjoo, que at me ds raiva! O que eu pensei no  nada contra ti. Vais ver! -Tornou a mudar de tom:- Um dia, fui alm do Estoril, a um lugar chamado Parede, que fica ali perto.  de menos luxo, mas tambm muito limpo. Foi l que eu encontrei uma casa pequenina, mas engraada a valer. Se a visses! -A sua mo indicou o fim da congosta: - Olha: pouco mais ou menos do tamanho daquela ali, da tia Luciana, mas, em vez de ser assim negra, era toda branquinha e com as janelas pintadas de verde. E, em
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volta, muitas plantas. Eu pensei logo que uma casita assim  que estava mesmo a calhar para ns, no l, j se v, mas aqui. Podia ter outro feitio, para ficar ainda mais barata. O que eu queria era ter uma casa asseada e alegre e no com burros por baixo, como se vem por a. Foi por isso que eu te disse que devamos deixar para mais tarde o nosso casamento... Pela primeira vez, depois que ele alvitrara aquilo, Idalina pronunciava-se:
- Ests muito mudado... Se ainda gostasses de mim, no me dirias isso...
Ele olhou-a com olhos sorridentes e glutes:
- Ora essa! Se estivssemos num lugar em que ningum nos visse, havia de te morder tanto a boca que j no falavas assim! Se  tambm por ti, minha tola, e pelos nossos filhos! Pois eu quero que me ds muitos filhos, que se paream contigo. Percebes? Ainda esta manh eu vinha no comboio a pensar como serei feliz quando tivermos crianas. Mas eu no quero que elas vivam num chiqueiro, como vivem muitas daqui. Se tu visses como l, no Estoril, se tratam as crianas! Aquilo, sim,  que  saber criar filhos! Eles andam em carrinhos quando tm poucos meses e, depois, quando so mais crescidos e vem o Vero, brincam na praia e nos jardins das casas, que  mesmo um regalo v-los. Tu sabes que eu sempre gostei de crianas. E, at por causa disso, uma vez apanhei l um susto. Eu estava a ver uns petizes a brincarem num jardim, quando o dono da casa, que ia a entrar, me disse com maus modos: "Se voc continua aqui a desinquietar a minha criada, eu fao queixa ao seu comandante!" Eu nem vira nenhuma criada, mas no pude explicar-lhe, porque ele voltou-me logo as costas. Parece que o homem tinha adivinhado que eu estava h pouco na tropa e que ainda era lorpa. Durante alguns dias andei com medo de vir a ser castigado... Bom! Est bem de ver que os nossos filhos no podem ser criados como os de l, porque ns somos pobres,
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mas podemos ter uma casinha limpa para eles e para ns. Demais a mais, no foi s no Estoril que eu vi casas assim; em muitas partes as h. Eu, antigamente,  que no reparava nelas...
Idalina interrompeu:
- E onde tens tu o dinheiro ?
Optimista e confiiante naquele poder de adaptao e de trabalho que ele sentia, instintivamente, em si prprio, Horcio no vacilou:
- Arranjo-o! No o tenho, mas arranjo-o! Por quatro ou cinco notas compro ao tio Bernardo um pedao de monte, ali em cima, que  lugar soalheiro. E se no for ali, ser noutra parte. Eu no desejo grande coisa. Com meia dzia de contos devemos pr a casa em p. Basta que ela tenha dois quartos, um para ns, outro para quando as crianas forem crescidas, uma sala de jantar, a cozinha e uma latrina pegada. Se adregar haver perto uma pedreira, j faremos uma economia. Eu mesmo, aos domingos e em todas as horas que puder, arrancarei a pedra. Mas,  claro, sempre so precisos pedreiros e carpinteiros. E, para isso, tenho de arranjar maneira de poder forrar algum dinheiro. J pensei muito no caso, que julgas? A guardar ovelhas  que eu no morro! Hei-de arranjar outro trabalho, onde ganhe mais. -Baixou a voz, como numa confidncia: - Quando me licenciaram e antes de vir para aqui, eu procurei em Lisboa... A ver se me empregava... Enquanto estive no quartel, ensinaram-me alguma coisa de ler e de escrever, pois eu, quando fui para a tropa, era uma desgraa: pouco mais sabia do que as primeiras letras. Assim, sempre posso governar-me melhor. Ainda ontem, de manh, fui a duas casas, a dois armazns de vinhos, no Poo do Bispo. No arranjei emprego porque no tinha ningum de peso que me recomendasse. O pai de um soldado que se tornou meu amigo acompanhou-me, mas como  gente pobre, quando ele falava eu percebia que os patres ligavam-lhe pouca importncia. Foi por isso...
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Mas eu tenho outras pessoas. No garanto que possa forrar num ano ou dois todo o dinheiro preciso para a casa; mas estando a ganhar bem, logo arranjo quem me empreste o resto, para eu pagar, depois, aos poucos. Mas... que tens tu?
Duas lgrimas desciam pelas faces de Idalina. Ele repetiu, surpreendido:
- O que tens? Por que choras? Ela comeou a soluar:
- Se tivesses muito amor por mim, no tinhas querido ficar em Lisboa, depois de sares da vida militar... Quando comeou a guerra, eu nem podia dormir. Como tu eras soldado e muitos diziam que Portugal, mais dia, menos dia, tambm havia de entrar na guerra, at se me partia o corao por tua causa. Bem tola eu era! Eu, aqui, a padecer e tu, agora, sem nenhuma pressa de vires. Porque mentiste h pouco, dizendo que estavas mortinho por me ver?
Horcio exaltou-se:
- E estava! Deixa-te de tolices, anda! Uma coisa no tem nada com a outra! Eu estava doido por vir, por te ver... Mas era por tua causa que eu ficava se tivesse arranjado alguma coisa de jeito...
- Cada vez te vejo mais mudado... choramingou ela ainda. - Essas terras por onde andaste fizeram-te mal...
Horcio tentou sorrir:
- O que diriam os outros recrutas se te ouvissem falar! Eles que ficaram cheios de inveja quando eu fui mandado para a artilharia antiarea! Todos eles gostavam de ir, porque assim podiam ver Lisboa, que ficava a dois passos... Mas v; deixa-te disso! Limpa-me essa cara! Se eu mudei, foi para melhor. Pegou-lhe numa das mos, apertou-lha e olhou os olhos dela: -Compreendes?
Com as costas da outra mo, Idalina enxugou o rosto de faces largas, morenas, e boca de lbios
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grossos - lbios que a ele apeteciam veementemente, embora preferisse ver o de cima sem essa penugem que anunciava um futuro bigodito, semelhante ao da me dela...
- Bem... Porque no nos casamos e, depois, vamos fazendo a casa, pouco a pouco?
Ele acorreu em defesa do seu critrio:
- No  a mesma coisa! Tambm j pensei nisso, mas vi que no era a mesma coisa. Vm os filhos, h mais responsabilidade e no se pode pr vintm de lado. Pensei muito nisso. Ou julgas que s tu tens pressa? -A sua mo apertou mais a mo dela:- Se soubesses!
- Alugvamos uma casa, como se tinha combinado... - teimou Idalina.-  o que todos fazem. Poucos so os que tm casa sua. Por que havemos de querer ser mais do que os outros?
- Eu no quero ser mais do que os outros. Mas quero ter uma casa que me d alegria. A gente aluga um destes poleiros aqui, acostuma-se, vai-se desmazelando e deixando ficar. Quando menos nos precatamos, a famlia cresceu e -pronto! - j no se pode fazer nada. No quero isso! Quando fizermos a boda, o quarto e toda a casa ho-de ser novos e s nossos. E quando ficarmos sozinhos, eu hei-de atirar-me a ti, como um lobo... aos beijos. Assim... - Ele estendeu os lbios: - Assim... Muitas vezes, eu imaginava isto, quando me deitava l no quartel e apagava a luz. Comeava a pensar em ti e era como se j tivssemos acabado de casar. Pensava tanto que no podia dormir e at me vinham dores de cabea...
Anoitecia. Nos topes da serra ainda havia rsea claridade, mas, c em baixo, boiavam sombras cada vez mais densas. Com suas altivas lombas, as ramificaes da montanha cercavam, de todas as bandas, a vila postada quase no fundo do grande vale, ao p do Zzere, que na paz crepuscular adquiria voz forte, correndo e cantando entre os penedais do seu
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leito. A luz parecia desprender-se, como um. vu, da imensurvel cavidade, deixando ainda vermelhar a telha francesa das casas abastadas, enquanto os negros telhados dos pobres se somavam j  escurido que avanava. Nas encostas, os pinheiros formavam mancha compacta e, nos vastos soutos, os castanheiros, de arredondadas frondes, dir-se-iam sem troncos apenas largas copas pousadas nos pendores, como um acampamento aguardando a noite.
Idalina procurou soltar a sua mo de entre as mos de Horcio:
- Vou-me embora. Faz-se o que tu quiseres.  pena, porque eu e a minha me j tnhamos arranjado umas coisitas para o enxoval e todo o povo estava  espera de que o nosso casamento fosse logo depois de tu voltares da vida militar, como tnhamos dito.
A sua voz mostrava-se to melanclica, to passiva, que ele comoveu-se:
 - No se faz o que eu quiser, no, senhor! S se faz o que eu quiser, se tu quiseres tambm. Eu acho que  uma asneira, pois somos ainda novos e podamos esperar. Tu ainda no fizeste vinte anos e eu pouco mais tenho Dois ou trs anos levaramos a levantar a casa e podamos comear a nossa vida em melhores condies. Mas se tu no quiseres, pacincia! As vezes, at desejo que tu no queiras... Porque eu estou a dizer-te isto e, ao mesmo tempo, estou mortinho por fazer o contrrio. Compreendes?
Ela no respondeu logo. O "Piloto", que havia desaparecido, voltara a deitar-se junto da rocha, aos ps deles. A sombra da noite ia j meia encosta e l em baixo, na ruela, a tia Joana Pucareira passava com um molho de lenha  cabea.
No seu silncio, Idalina transigia, lentamente. Depois das ltimas palavras de Horcio, aquela Ma
acamava-se, com mais facilidade, no seu esprito. Agora, ele parecia-lhe sincero.
- Talvez seja melhor como tu dizes murmurou ela, por fim.- Pensando bem, talvez seja melhor. Custa-me muito, mas faz-se assim, como tu queres...
- J te disse que tambm a mim me custa. Alis quando penso que, ao voltar do trabalho, tu estars  minha espera numa casinha nova ie que as crianas tero um cho limpo, sinto uma grande alegria. Havemos de ser muito felizes, vers!
Num impulso, estendeu os braos, para apert-la. Ela afastou-o:
- No... No... Podem ver-nos! Vamos-nos embora, que j  tarde...
O lusco-fusco apardaara toda a terra, desde o vale s cristas das Penhas Douradas. Dir-se-ia que uma poalha escura e flutuante envolvia tudo, as casas dos homens e os fojos dos lobos, nos declives abruptos, e se apossava do prprio cu.
Os dois levantaram-se. Depois do longo dilogo, ela voltava a olhar, direito, para ele. Parecia-lhe, na tnue obscuridade, ainda mais forte, mais msculo do que quando partira dali. Ela, agora, sentia orgulho de vir a t-lo por marido e, ao mesmo tempo, melancolia por no o ter j.
Iam caminhando, calados, um ao lado do outro. Por vezes, os seus corpos tocavam-se. Esse roar de ombros, que parecia casual, provocava-o Horcio, obediente a uma ideia fixa. A cada passo, os olhos dele vasculhavam os derredores. No havia ningum. A luz, que saa de frinchas e de postigos, projectava-se sobre as pedras e a lama da ruela e tornava-se cada vez mais viva na noite nascente. Um vulto surgiu, ao longe, mas logo entrou num dos casebres. Ao passarem sob as janelas da tia Luciana, ele ainda olhou para cima. Encontravam-se fechadas. Idalina dera pelas precaues dele, pressentia o seu intento e desejava a mesma coisa, mas fingia-se distrada.
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"Ainda seria melhor -pensou- do que no penedo, que estava mais  vista."
Horcio estendeu o brao e atraiu-a a si. Ela ainda simulou reagir, mas logo as suas bocas se colaram. E j uma das mos dele descia para os seios dela, numa carcia, quando se ouviu algo que rangia, timidamente. Horcio levantou os olhos e adivinhou, mais do que viu, a caratula da velha Luciana  sua janela acabada de abrir.
Idalina ficara perturbadssima. Ele, porm, sorriu, bonacheiro, e falou para cima:
- Bico calado, tia Luciana, se no quer que lhe caia um raio em casa. Entendeu?
A velha, em vez de responder, fechou estrepitosamente a janela, mas logo voltava a abri-la, curvava-se no peitoril e gritava, furiosa e escandalizada, para Idalina:
- Pouca vergonha! Andar a pelos caminhos, como as cadelas! No pode esperar, a princesa! V-se cada coisa nestes tempos!
Antes que recebesse troco, tia Luciana cerrou a janela, novamente com. violncia.
Idalina comeara a andar, apressada. Ele seguiu-a com dificuldade, sorrindo ainda, ocultando o seu nervosismo. Percebeu que ela chorava.
- Deixa l! consolou.-  feitio da velha, bem sabes. No casou, no teve quem a quisesse. No te rales... Ora esta! Ento o diabo no queria que eu passasse tanto tempo fora daqui e, ao voltar, nem ao menos te beijasse? O estupor esteve, com certeza, a espreitar-nos por detrs dos vidros toda a tarde...
- Vai encher tudo, por a...-murmurou Idalina.
- No vai... Mas se for, acabou-se! No vamos ns casar?
Tinham comeado a descer a congosta. Era uma rua estreitssima, que cheirava a burros, a porcos e a fumo de verdes. Dela partiam outras tor
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tuosas vielas, que terminavam em ptios ou dobravam em cotovelos, cruzando-se, avanando para sombrios recantos, numa sugesto de labirinto. As casas, negregosas, velhentas, colavam-se umas s outras, com a parte inferior de granito escurecido pelo tempo e a parte cimeira com folhas de zinco enferrujadas a revestirem as paredes de taipa, mais baratas do que as de pedra. Este e 'aquele casebre exibiam apodrecidas varandas de madeira e outros, mais raros, umas escadas exteriores, coroadas por um patamarzito quadrado, logradoro do nulherengo nas horas do paleio com as vizinhas. Algumas dessas portas e janelas estavam abertas e, atrs delas, pairava a rbida claridade do fogo que, l dentro, cozinhava a ceia. Figuras de homens, mulheres e crianas, as suas caras tocadas pelo fulgor do lume, andavam no acanhado espao domstico, cirandavam numa confuso de movimentos humanos e de trapos dependurados.
Calcando as pedras abauladas e irregulares da rua onde, no Inverno, as enxurradas faziam correr todos os detritos, os detritos que, no Vero, secavam, cheios de moscas, ao bom sol da serra, Horcio procurava distrair Idalina:
- Vs?  isto que eu no quero. Quanto melhor  uma casinha como a que eu penso!
Ela no respondia, sempre lesta no seu passo curto, zape-zape ladeira abaixo. Por fim, deteve-se. Estavam em frente da sua casa, igual  maioria das outras, com duas portas sobre a rua, uma sempre fechada, que eles, de to pobres, no podiam ter nem porco nem onagro na loja escura, e outra dando para a escada interna, estreitos degraus de madeira que ligavam ao primeiro piso.
- At amanh... 
- At amanh... E no te apoquentes! Aquilo no tem importncia. Mesmo nenhuma!
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Ele falava assim, mas estava, tambm, enervado, sobretudo pelo mal-estar que sentia em Idalina, ao despedir-se. Decidiu de repente:
-Vou dar a salvao aos teus pais.
E, com ela adiante, temerosa do que iria acontecer, meteu s escadas. A senhora Januria, que estava para o fundo da habitao, ao pressentir a entrada da filha, admoestou de l, com sua voz roufenha:
- Boas horas de voltar, no haja dvida!
Ao ver, porm, a cabea dele emergir na abertura do soalho, retraiu-se:
- Ah, tu vens tambm!...
- Nosso Senhor lhes d boas-noites. Como tm passado?
- Vem com Deus. C vamos indo... E tu?
- No h mal que me chegue... Vaso ruim no quebra...
A senhora Januria, cinquenta anos bem contados, pele arregoada e to escura que nem a de uma cambojana, avanava para ele:
- O meu homem ter gosto em ver-te. No queres subir?
O piso em que se encontravam era formado por uma diviso estreita, atravancada com duas arcas de pinho, alfaias agrcolas e roupas velhas dependuradas. Ao fundo estava um quarto - simples tapume contornando, rente, a cama, como era costume nas casas pobres. Horcio lanou-lhe um olhar, condutor de voluptuosas ideias, por saber que Idalina dormia ali. Mas j a senhora Januria fazia o gesto de lhe franquear a outra escada, como se lhe tivesse aberto uma porta. Ele comeou a subir, por entre os irmos mais novos de Idalina, que, tendo sentido presena estranha, haviam corrido de cima, aglomerando-se nos degraus.
- Ests muito crescido... E tu tambm... E tu tambm... - ia-lhes dizendo.
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O segundo piso, todo negro de fuligem, era ocupado pela cozinha, sem chamin, e um outro quarto, maior do que o de baixo, pois alm da tarimba conjugal havia nele, a um dos lados, uma enxerga sobre o soalho, para as crianas. E como nas demais casas de operrios, jornaleiros e pastores da vila, os dois andares, com estreitura de corredor, terminavam num meio forro, sob a telha v, para o qual se marinhava por uns escadotes de vindimas. Ali, a uma banda, se espalhavam as batatas que a famlia pudesse cultivar e, na outra, dormiam, sobre palha, os filhos mais velhos.
O tio Vicente, fraco de ouvidos, s deu por Horcio quando este e a senhora Januria se puseram em frente do seu nariz. Estava deitado no quartelho, de porta aberta, esperando a hora da ceia. Saltou da cama:
- Viva! J sabia que tinhas vindo. E, ento, como te deste por l?
Os outros irmos de Idalina, o Romo, o Zeca, j uns homens, aproximavam-se tambm. Ele cumprimentou-os, inquiriu da sade de todos, e,  medida que ia contando a sua vida na tropa, ia dobrando, dobrando cada vez mais, sob nascente covardia, a ideia que o fizera, de sbito, trepar ali. "No, no diria nada nessa noite. Tinha de pensar primeiro como havia de dizer aquilo. Era conversa para depois, quando tivesse arranjado novo trabalho e se encontrassem sozinhos, sem o Romo e o Zeca."
Estavam todos de p e o tio Vicente puxou uma banca:
-'No queres sentar-te?
- No, muito obrigado. Hoje no posso demorar-me. J  tarde. Vim apenas para os ver.
Comeou a desandar para a escada, falando ainda. Pareceu-lhe, porm, que Januria farejava na alma dele, pois ao topar os seus olhos vira-os com uma expresso incerta, vagamente pesquisadora, que no lhe conhecia.
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Idalina esperava-o no primeiro piso. Sussurrou-lhe:
- Disseste-lhes alguma coisa?
- No. Fica para outro dia. Olha: se tiveres ocasio, diz-lhes tu...
A luz do candeeiro projectou na parede, deformando, a sombra da mo dele ao afagar, de partida, a face de Idalina.
J na rua, de dedos nos bolsos e passo vagaroso, Horcio comeou a assobiar. "No fora grande coisa o dia da sua chegada. Pensara que Idalina acharia logo boa a resoluo dele e, afinal, tivera de gastar um ror de tempo para a convencer. E, ainda assim, parecia que ela no estava l muito convencida..."
O "Piloto" continuava a seu lado. Depois, adiantou-se e meteu a cabea a uma porta que se encontrava apenas encostada e que, com a sua passagem, se entreabriu. Horcio entrou tambm e subiu os degrauzitos que davam para o primeiro andar, sobre a loja destinada ao "vivo" -aos animais domsticos- como nas outras casas.
- Que fumaceira!-protestou, ao chegar acima. Mal via a me acocorada sobre a pedra onde o
fogo comeava a pegar. Mais adiante, sentado num cepo de carvalho, o pai cosia as solas de uns velhos sapatos. O senhor Joaquim no era sapateiro, mas sobrava-lhe jeito para aquilo. Remendos, meias solas, taces, tudo quanto no exigisse mquina, punha-os to bem e com maior pontualidade do que os profissionais de banca e tripea  porta, seus inimigos de lngua solta, porque ele, 'assim sentado em casa, sem pagar contribuies, trabalhava mais barato. Para o tio Joaquim aquilo constitua ocupao apenas de horas vagas, pois nas outras, a menos que fosse semana de pastorear o gadito prprio e o alheio, ele cuidava das duas reas que possua ao p da encosta ou alugava os seus braos para a terra de outrem.
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Horcio tirou o chapu e, passeando os olhos desde a figura do pai at s negras paredes da cozinha, disse, como se falasse sozinho:
- Est tudo na mesma...
De tarde, ao regressar de Lisboa, nem reparara na casa, comovido como se encontrava. Agora, aquela cena lembrava-lhe todos os comeos de noite que ele passara ali, na infncia, at ser pastor do Valadares, e nos dias que antecederam a sua partida para a vida militar.
O velho Joaquim ergueu os olhos da sola que cosia:
-.Est na mesma o qu?
- Isto. Tudo isto.  tal qual como quando eu abalei...
- Ento tu querias que estivesse diferente? -No, no. Digo isto por dizer...
Voltou a olhar a quadra, toda negra e surja, com uma cama de ferro l ao fundo, onde dormiam os pais, uma arca rstica, a cantareira com pratos e tigelas, sobre a lareira o canio para as castanhas e, em frente, a porta do seu quarto. Ao lado da porta, os safes, o alforje, o capote e o seu chapu de pastor, como se ele, durante a sua ausncia, tivesse ficado, sem corpo, dependurado naquele prego.
Famlia pequena, a casa era tambm mais acanhada do que a maioria das outras: contava apenas a loja e aquele pisito por cima, onde eles cozinhavam e dormiam, onde se instalara a vida deles. Havia electricidade na vila, mas nenhuma casa pobre a tinha; a luz,  noite, dava-a um candeeiro de petrleo ou trmula candeia de 'azeite.
Horcio sentou-se em frente do pai e ficou calado, de braos sobre as coxas, as mos soltas entre as pernas, a cabea vergada. A ideia de se casar e de viver num casebre assim atafegado e sombrio, parecia-lhe, agora, ainda menos aceitvel do que quando, momentos antes, a repelira junto de Idalina.
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-porque h diferena, h -afirmou, lentamente, o tio Joaquim. - Tu  que no reparaste. Estou mais velho... Quando tu foste, ainda eu via bem e agora mal enxergo o buraco da sovela. Fazem-me falta uns culos, mas no tenho tido dinheiro...
Horcio tornou a olhar o pai. Estava, com efeito, mais engelhadito, as costas mais dobradas. S a me, abanando pachorrentamente o lume, que comeava a levantar cristas sob a panela, parecia no ter sofrido alterao alguma. H dez anos que ela dir-se-ia insensvel ao tempo, com a sua tez queimada pelo sol, as faces secas, de ossos salientes, os lbios pregueados sob um nariz pequeno. O povo, ao v-la trafegar na vida dura, fosse nas suas territas, fosse a auxiliar os demais, a troco de alguns escudos, dizia que ela, apesar dos seus sessenta anos bem contados, havia de assistir ao enterro de todos os moradores da vila. "Qual! -protestava a senhora Gertrudes.- Cada vez tenho mais brancas!" Protestava, mas, no fundo, sentia orgulho da sua resistncia. "L feita de manteiga, como essas raparigas de agora, no era ela, isso no, louvado fosse Nosso Senhor!"
- D-me um tio, me.
A senhora Gertrudes passou-lhe um garaveto a arder.
- Resolvi adiar o casamento... Combinei, agora, com a Idalina...-'disse Horcio, acendendo o cigarro.
- Adiaste o casamento? - estranhou a velha. O pai, de sovela na mo e um sapato entre as pernas, olhava tambm para ele, surpreendido. -No seria mau, no, porque isso sempre traz despesas e agora no nos fazia jeito - volveu a senhora Gertrudes. - Mas porque adiaste?
Ele narrou, ento, a sua ambio - aquela casita que trazia nos olhos, o seu desejo de comear a vida de casado num lugar airoso e limpo, para eles
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e para os filhos. O pai, sem o interromper, ia aprovando com a cabea. A senhora Gertrudes, de olhos fixos nele, parecia suspensa no do que ouvia, mas do que ele ainda no dissera. E quando Horcio se calou, perguntou-lhe:
- Olha l! E como vais arranjar isso?
Era a segunda vez que, naquela tarde, ele tinha de defrontar-se com a mesma interrogao - a mesma dvida na boca da me e na de Idalina. Mas a sua confiana em si prprio continuava, absoluta. Estendeu os braos com as mos fechadas e sorriu:
- Com estes! Pois como h-de ser? Tenho c umas ideias... ou entrar para as fbricas ou arranjar um emprego...
- Mas como?
- Depois se ver!
A senhora Gertrudes esperou, algum tempo, que ele adiantasse mais. Mas como Horcio prosseguisse nos seus modos reservados, ela ergueu-se e caminhou para a pequena mesa. Apertou algumas couves na mo esquerda e, com uma faca, comeou a cort-las.
- Ento tu pensas deixar o Valadares?
- Pois! No  guardando o rebanho dele que levantarei cabea...
- Mas ele contava contigo. Tinha-se combinado que ele no meteria outro moo, para que tu no ficasses  boa vida quando voltasses...
- Est bem... Se eu arranjar outro trabalho, dou-lhe uma desculpa...
- O Valadares no vai ficar satisfeito e com razo. Para poder guardar o lugar para ti, ele no tem pastor. So os filhos que tm tomado conta do gado. E como os rapazes lhe faziam falta nas terras, teve de pagar a jornaleiros...
Horcio cortou:
 - Eu no gosto do Valadares, me! H muito tempo que no gosto dele. Nunca disse nada, porque vossemec, sempre que eu fazia alguma queixa, no
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me ligava importncia; dizia que eu era um fedelho e que no sabia o que era a vida. Mas vossemec est enganada. Se ele guardou o lugar para min, no foi pelos seus bonitos olhos, nem para me fazer favor. Foi no interesse dele. Ele mesmo, s vezes, dizia que no havia ningum como eu para saber fazer queijos e tratar bem o rebanho...
- Parece que te estragaram, l na vida militar... Ests com uma vaidade! Se o Valadares dizia isso  porque  boa pessoa e gostava de ti. Outro, mesmo que fosse verdade, calava-se.
- ... gostava de mim! Duas vezes que lhe pedi aumento de soldada, no me deu nem mais um chavo. Acostumou-se a pagar-me como quando eu era garoto, quando comecei a acompanhar o tio Lus - e nada! Vossemec bem sabe o trabalho que teve para ele me dar mais alguma coisa quando eu fiz dezanove anos. Foi preciso vossemec ir l com choradeiras...
- Eles tambm no so ricos -desculpou a senhora Gertrudes.- Tm aquelas terras que 'lhe tomam todos os braos e por isso no podem cuidar do gado. Mas no  que a riqueza por l abunde...
- Vossemec j pensou quanto eles teriam de pagar, agora, por um moo que fosse para o meu lugar? Pouco, que isto de ser pastor  uma desgraa, mas com certeza muito mais do que a mim. Se eu puder deix-lo, deixo-o! Eu j tinha resolvido isso mesmo antes de ir para a tropa. Estava s  espera de arranjar outra coisa. Pois como  que eu poderia manter uma casa com o que ele me paga? Mesmo que arrendasse uma courela para a Idalina amanhar, no podamos viver s com isso e a minha soldada. No  verdade?
A senhora Gertrudes no disse nada. Ps as couves num alguidar, lavou-as e, por fim, meteu-as na panela. O pai debruara-se mais sobre o sapato, mostrando-se muito atento aos buracos que ia abrindo
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com a sovela. Horcio estranhava-os. Nunca eles haviam defendido assim o Valadares, que, embora pequeno proprietrio, era um dos trs nicos donos de ovelhas que fruam alguma prosperidade em terras de Manteigas.
A senhora Gertrudes tapou a panela, tornou a espevitar o lume e, depois, foi fechar as janelas que abrira pouco antes, para sada do fumo. Quando voltou, colocou-se em frente do filho, as gretadas mos postas sobre as ancas, os braos em forma de asas de cntaro, como era seu costume sempre que se exaltava ou tinha de falar com solenidade a algum.
- Pode ser que tu tenhas razo... No digo que no... Mas ns no podamos adivinhar o que tu tinhas resolvido. O teu pai adoeceu, esteve  morte. Nunca te mandei dizer toda a verdade, para no te afligir. Mas eu pensei que tu nunca mais o verias. At c veio o doutor, oito vezes. E os remdios custavam uma fortuna. Foi-se tudo o que tnhamos, que bem pouco era. Vendi todas as nossas ovelhas. Ficmos reduzidos s trs cabras. E eu precisava ainda de mais quinhentos mil ris. Um dia, botei-me at a  casa desse malandro do Rufino. Pensei que ele ainda tivesse uns restos de corao, mas aquilo  pior do que um cigano. Prometi que lhe pagaramos em dois anos. Ele respondeu-me que emprestar, no emprestava; mas que no tinha dvida em comprar, por trs contos, a nossa courela que est pegada s suas terras. Eu vi logo a inteno dele. Como no tnhamos querido vender aquilo das outras vezes, mesmo quando ele oferecera quatro contos, o maroto, ao ver-nos com a corda na garganta, queria aproveitar-se da ocasio. Eu, ento, disse-lhe que guardasse para ele todo o seu dinheiro. Que eu preferia atirar-me, viva,  cova onde enterrassem o meu homem, do que ver a nossa courela nas mos dele! E preferia!
A senhora Gertrudes fez uma pausa e deu outro tom  sua voz:
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- As lgrimas que eu chorei depois, quando vim para casa! Foi, ento, que me lembrei do Valadares. Mais ruim do que o Rufino no podia, ser. Fui at l. Ele recebeu-me bem e emprestou-me os quinhentos mil ris, para descontar nas tuas soldadas...
- O qu?! Nas minhas soldadas?
- Pois foi... Eu no podia adivinhar... Se soubesse que tu no querias voltar para casa dele, eu no tinha aceitado isso...
- Ento foi o Valadares quem falou em descontar?
- Eu prometi-lhe, como ao Rufino, que pagaria em dois anos. Mas ele disse-me: "No vale a pena incomodar-se. Desconta-se nas soldadas do rapaz."
Horcio levantou-se e caminhou at o janelo que a me havia fechado. Abriu-o e nele meteu a cabea a receber o ar de fora. Tornou a cerr-lo:
- Quer dizer que eu tenho, agora, de trabalhar para ele um ror de meses... Se eu j no tivesse resolvido adiar o casamento, tinha agora de o adiar por isto...A 
me no respondeu. Mas o pai, que at a se conservara em silncio, um silncio humilde, como se ele, por haver estado doente, fosse o culpado de tudo aquilo, disse:
- No vale a pena ralares-te. Ns tnhamos pensado, em ltimo vender a courela, para tu casares. Se quiseres, vende-se. No ao Rufino, claro, mas a outro qualquer... Com tempo,sempre se h-de arranjar quem fique com ela... Assim como assim, essas territas eram para ti...
orcio. fez um gesto negativo. Ele sabia que os pais dificilmente poderiam viver sem aqueles dois degraus abertos na anca da montanha, alguns metros de cho onde cultivavam centeio e batatas, seu principal alimento. Com isso, os tostes da sovela, alguns jornais que ganhavam e o rendimento das
onze ovelhas, se mantinham. Agora, vendidos os bichos, bem teriam de apertar a barriga, pois sem o dinheirito da l e do queijo no poderiam mercar todas as coisas precisas numa casa, mesmo o po, j que o das courelas mal chegava para quatro meses.
- No quero... Foi para a sua sade, est bem. Mais que fosse!
A me olhou-o, inquiridora:
- Que pensas fazer?
No respondeu. Sentou-se e prolongou a sua mudez, um minuto atrs de outro e outro e outro, com o lume crepitando e a senhora Gertrudes a soltar, de vez em quando, um suspiro. Finalmente, ergueu a cabea:
- Ainda demora muito a ceia?
- Est quase pronta.
Vendo-o assim preocupado, o pai, ansioso de desanuvi-lo, meteu-se a contar histria avulsa. Ele mal o ouvia. Consultara o relgio e impacientara-se: "Eram quase nove horas; come e no come, no saa dali antes das nove e meia. Quando chegasse, o vigrio era capaz de j estar deitado." O pai sentia que ele pensava noutra coisa, mas continuava o seu monlogo, com aquela voz dbil e afvel que parecia pedir desculpa de falar.
Sentaram-se, por fim,  mesa. Ele soprou a sopa, comeu, soprando de novo, e, quando chegou ao po e ao conduto, devorou-os mais rapidamente ainda. Com a ltima fula a dilatar-lhe a face esquerda, abalou.
Em breve palmilhava a estrada que dividia a vila em duas partes. Meteu a uma ruela que ali desembocava, dobrou a segunda e enfiou noutra ainda. De passagem, reconheceu, ao longe, a voz de Anbal, que falava num grupo; tinha vontade de o ver, de o abraar, seu amigo desde os ninhos, mas no se deteve.
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A casa do padre Barradas, toda de granito bem cortado, nua de cal como parede de bastio, mas aligeirada na severidade por dois vasos de sardinheiras em cada janela, parecia adormecida na rua sossegada. Uma lmpada de iluminao pblica, que existia em frente, lavava-lhe toda a fachada e no deixava perceber, por frincha de porta ou de ventana, se l dentro havia tambm luz ou se estavam todos deitados. Horcio hesitou e, depois, bateu, timidamente, com a aldrava. Aguardou, aguardou, sempre de ouvido  escuta, mas no ouviu rudo algum. Considerou que se j no era muito cedo, muito tarde no era tambm, tanto que o relgio de Santa Maria no dera ainda as dez; pensou que, sem saber a resposta do< padre Barradas, no podia buscar outro rumo para a sua vida e, assim impelido, bateu, de novo, com mais fora. Sentiu, ento, l dentro, uns passos que se acercavam lentamente. Pouco depois, a porta abria-se e, na sua frente, recortava-se a senhora Alice, ama do abade, com gestos pesados e fofas carnes nos seus quarenta anos.
Ele salvou-a, humildemente, desejoso de colher-lhe a simpatia quela hora que tinha por molesta.
- Eu precisava de falar ao senhor vigrio... Ele j sabe o que ... Se no fosse muito incmodo...
Alice advertiu:
- O senhor vigrio, com certeza, j no pode falar-lhe hoje. Mas eu vou ver...
Desandou e, pouco depois, volveu:
-  o que eu tinha dito. O senhor vigrio diz que venha amanh...
- A que horas?
- Bom... Ele no me disse. Mas o> melhor ser aparecer por a de tarde...
Horcio agradeceu, pediu de novo desculpa de haver incomodado, lanou o desejo de boa noite e partiu. Ia calcorreando as pedras, contrariado: "Assim, j no podia aproveitar a camioneta no dia seguinte, para a Covilh, se aquilo no desse
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resultado. E outra camioneta s havia dali a trs dias."
Ainda no dobrara a esquina quando ouviu um "pst!", "pst!", "pst!", cada vez mais forte, rasgando o sossego da rua. Voltou-se. A senhora Alice estava outra vez  porta e acenava-lhe, para que retrocedesse.
Logo que ele se aproximou, ela disse-lhe:
- O senhor vigrio esteve a pensar que, amanh, tem o dia todo tomado. Depois da missa, tem de ir s suas terras do Sameiro. E,  noite, h a novena. Que voc entre agora...
Ele sentiu alma nova, embora turbada pela emoo que lhe dava o entrar, pla primeira vez, na casa do proco. Alice ia  frente, no corredor, com as suas grandes ndegas estremecendo,  direita e  esquerda, conforme o movimento das pernas.  porta que estava iluminada, ela deteve-se:
- Entre.
Ele avanou e logo viu o padre Barradas, que procurava adaptar-se, comodamente, ao cadeiro de braos onde acabava de se sentar, com um palito nos dentes. Era homem mais forte, mais entranado ainda do que a sua ama. Tinha na cara redonda, de faces e nariz avermelhados, uns olhitos pequenos e vivos, que contrastavam com os seus lbios grossos, descados e levemente austeros. Contava cinquenta e quatro anos, mas Horcio, que dele recebera a comunho, em criana, e a ele se confessara vrias vezes, sempre o tivera por um homem velho.
Agora, o padre Barradas, ouvidos os cumprimentos, perguntava, tirando o palito da boca:
- Quando chegaste?
- Saiba o senhor vigrio que cheguei hoje mesmo.
O padre considerou-o de alto a baixo e afirmou, amvel:
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- Fez-te bem a tropa. At parece que cresceste mais! E aprendeste a ler e a escrever bem, dizes-mo na tua carta...
- O senhor vigrio desculpe o meu atrevimento. Se calhar ela est cheia de erros... - Hesitou, ps-se a rodar a aba do chapu entre os dedos e, como o padre fizesse um gesto de absolvio e dissesse "no, erros no dei por eles", animou-se: -. Eu peo muita desculpa. Mas estive a pensar e vi que no tinha mais ningum a quem fazer um pedido assim. Ainda andei vai e no vai para escrever directamente ao senhor Martins, a ver se ele me metia l na sua fbrica... Mas depois disse, c de mim para mim que, sem um empenho, o senhor Martins decerto no faria nada. Por isso escrevi ao senhor vigrio, que  o amigo dos pobres...
Sentia-se perturbado. Desde pequeno habituara-se a respeitar o padre, que lidava com as coisas divinas, fizera estudos, pertencia a outra classe e exercia vasta influncia na sua freguesia metade da vila que era como um condado. Quando ele se encontrava no quartel, esse prestgio do abade esmorecera com a distncia, tanto mais que outro recruta, o Jangada, anticlerical, no passava um dia sem lhe contar histrias mariolas de frades e de curas. Agora, porm, de p em frente do padre Barradas, que continuava sentado e com as suas mos gordas e macias pousadas nos braos da poltrona, o antigo respeito volvia a renascer, tolhendo-lhe os gestos e dificultando-lhe as palavras. O proco escutava-o, atentamente, mas,  medida que ele tartamudeava, ia pondo uma cara de desconsolo. Por fim, comunicou-lhe:
- Eu tratei de fazer-te a vontade, logo que recebi a tua carta. Falei ao senhor Martins, como me pedias. Tambm falei ao senhor Fragoso e, ainda ontem, toquei no caso ao senhor Cabral. Mas todos eles me disseram mais ou menos a mesma coisa. Tm os quadros cheios e no precisam de mais pessoal.
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Antigamente, eles metiam quantos aprendizes quisessem, mas agora no podem meter mais de vinte por cento em relao ao nmero de operrios. Tu compreendes? Se uma fbrica tem cem operrios e empregados, no pode ter mais de vinte aprendizes... Percebeste?
Horcio fez um gesto afirmativo. O padre Barradas continuou, com expresso desolada:
Eu tenho muita pena de no poder ser-te til.
Ainda pensei em falar com mais alguns industriais, mas o senhor Cabral disse-me que era tempo perdido. Como os patres tm de pagar quatro dias de salrio por semana, mesmo que no haja trabalho para os operrios, ningum quer ter gente que no seja absolutamente indispensvel. Alm disso, os outros industriais pertencem  outra freguesia e os da outra freguesia, como sabes, no gostam de fazer nada em favor da nossa...
O padre calou-se. Em frente dele, sempre de p, Horcio ficou silencioso, de olhos postos no cho. To imvel estava que a prpria aba do seu chapu deixara de lhe rodar entre os dedos, com aquele movimento inconsciente que ele lhe dera at ali.
Olha l - volveu Barradas, como se houvesse
tido um sbito pensamento. - Por que queres deixar a vida de pastor? Uma vida to bonita, que at os santos gostavam dela e os poetas antigos a cantavam! - A voz do padre tornara-se mais doce, evocativa, como se ele prprio sonhasse: - O cu por cima, o ar livre, ao nascer do sol visto l do alto...  noite, s estrelas... No tens visto figuras de pastorinhos, com suas flautas, nos altares e nos prespios? No h dvida que os poetas antigos tinham razo!
- Eu queria casar-me -disse Horcio- e, por isso,  que pensei mudar de vida. A guardar gado no ganho o suficiente. Ainda se as ovelhas fossem minhas ou os meus pais tivessem alguma coisa de seu... Mas, como o senhor vigrio sabe, o que temos
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e nada  a mesma coisa... Vejo-me um homem, quero trabalhar e no sei o que hei-de fazer. Os meus pais no puderam dar-me estudos, mas, agora, que aprendi alguma coisa, tinha pensado...
O padre Barradas, depois de um ligeiro bocejo, interrompeu:
- Bem. Tu l tens as tuas razes. No quero contrariar-te. Desta vez no tiveste sorte, mas podes ir descansado que, se aparecer alguma coisa, eu no me esquecerei de ti. No queres um copo de 1 vinho?  Alice! Alice!
- No, muito obrigado, no quero!
- Toma! Toma! Eu vou deitar-me, que amanh tenho de me levantar cedo.
Padre Barradas bocejou de novo e levantou-se. Horcio repetiu:
- Eu agradeo muito ao senhor vigrio. Se eu tivesse aqui outra pessoa, no o teria incomodado. Mas assim...
- No incomodaste nada. Vai com Deus! -E para Alice, que aparecia  porta: - D aqui um copo de vinho...
Ele saiu da sala, humilde, modesto, cabea baixa, com a sensao de se encontrar no fundo de um poo, respirando mal. No corredor, disse:
- Eu no quero vinho, senhora Alice. Muito obrigado, mas no tenho vontade.
A ama insistia, empurrando-o para a cozinha:
- Ande l! Ande l! Uma pinga no faz mal a ningum.
J com o copo na mo e enquanto Alice punha uma fatia de queijo sobre a fatia de po que cortara, ele pensou: "Talvez aquilo fosse desejo de Nosso Senhor, para bem dele. Sempre ouvira dizer que a indstria da Covilh era muito mais importante do que a de Manteigas. L os teares eram de ferro e muitos teciam fio de estambre; ali eram de pau e s havia fio cardado. Por mor disso, os teceles da Covilh ganhavam mais do que os de Man
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teigas. E talvez o Manuel Peixoto ou o padrinho lhe conseguissem alguma coisa, pois a Covilh j era uma cidade grande."
Mais aliviado do pesadume e com a esperana de novo a bulir-lhe na alma, olhou, enquanto bebia, as prateleiras pintadas de branco, os grandes tachos de cobre areado, para o dia do sarrabulho, as janelas e caarolas esmaltadas, dzias de pratos, vrias malgas e, ao fundo, o grande fogo, tudo muito em ordem, tudo muito limpo, a bem dizer dos cuidados da senhora Alice. Os olhos fugiam-lhe para aquilo. "Assim  que ele gostaria de ter uma cozinha. No precisava de ser to grande, nem com tantas coisas, nem com tanto luxo, mas assim asseada como a do senhor vigrio, que era mesmo um gosto v-la."
II
QUANDO desceu da camioneta, na Covilh, voltou a olhar o seu fato. Durante o servio militar, como andava de farda, poupara-o; apesar disso, j estava lustroso e ficava-lhe, agora, apertado. As calas, especialmente, despraziam-lhe. Formavam joelheiras e mostravam-se mais (estreitas em baixo do que as usadas nas cidades. "Era pena que ele no pudesse ir bem posto, pois quem sabia se o padrinho no lhe arranjaria um emprego no comrcio?" Abotoou o casaco e ajeitou o chapu. No obstante o descontentamento que o fato lhe produzia, sentia-se muito mais senhor de si do que das duas outras vezes que viera  Covilh. A cidadezita serrana, de ruas tortuosas e ngremes, no lhe impunha, agora, aquele acanhamento de homem do mato que ele tinha, perante ela, antes de conhecer Lisboa e o Estoril. A Covilh parecia-lhe, desta feita, muito mais pequena do que antigamente.
Ao chegar s Portas do Sol, deteve-se, um instante, a ver as obras do mercado novo. Pensara tanto, durante a noite e enquanto vinha na camioneta, sobre o que diria ao padrinho Marques e o que dele poderia ouvir, que a sua vontade, agora, era no pensar no resultado - pela incmoda incerteza que este lhe dava. Novamente a andar, lembrava-se do mercado que havia ao ar livre, no dia
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em que ele, ainda garoto, viera ali, com o pai, trazer umas trutas que o Dr. Couto, de Manteigas, enviara ao Dr. Caetano, da Covilh. Mas logo a outra ideia se sobreps. Por muito que se esforasse, ele no conseguia dominar aquela preocupao. Ora desejava falar imediatamente com o padrinho, ora surgia-lhe o desejo de demorar um pouco mais esse momento. Por fim, decidiu-se e estugou o passo, encosta abaixo. O estabelecimento do Marques ficava perto, na rua afogada entre duas filas de velhas casas. Era uma mercearia de bairro pobre. Ao fundo, no centro da prateleira que cobria totalmente a parede, havia uma porta em arco, dando para soturna diviso que, de fora, mal se enxergava. Foi de l que, chamado pelo marano, surgiu o padrinho.
- Ol, rapaz! H que tempos no te vejo! Por pouco no te conhecia!-E estendeu-lhe a mo.
O Marques era um homem baixo e gordo. Comeara a vida com uma taberna em Manteigas e fora nessa poca que o tio Joaquim o convidara para seu compadre. Mais tarde, tomara de trespasse aquela mercearia da Covilh e, por sua vez, trespassara a taberna a um irmo. Nos primeiros anos, ainda voltara a Manteigas, no Estio, para tomar banhos nas caldas. Depois, deixara de o fazer. Desde ento, Horcio s o vira uma vez. Mas, pelo Natal, Marques enviava-lhe sempre vinte escudos e uma carta desejando felicidades a toda a famlia. Ao receb-la, a senhora Gertrudes dizia: "Tem de se pedir  Romana que lhe escreva em teu nome, a agradecer. Ele nunca se esquece de ti e tu tambm nunca te deves esquecer dele. O compadre no tem filhos e hoje conta muito dinheiro;  hora da morte deixa-te, com certeza, alguma coisa." A senhora Gertrudes s renunciara a falar assim quando se soubera que o Marques, alm da mulher, tinha por sua conta uma amante de pouco mais de vinte anos. Contudo, porque o padrinho era estabelecido numa cidade, Horcio creditava-lhe larga importncia social.
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Agora, Marques interrogava-o sobre a sade dos pais e de outras pessoas de Manteigas e, como Horcio lhe dissesse que havia regressado na vspera de Lisboa, ps-se a elogiar a capital, que ele tinha visitado tempos antes:
- Aquilo  que  uma cidade!
Por fim, mudou o tom de voz e lanou:
- Ento o que te traz por c?
- Queria cumprimentar o padrinho e, ao mesmo tempo, ver se me fazia um favor...
Marques ficou em inquieta expectativa, no fosse sair dali pedido de dinheiro.
- Dize l... - murmurou.
Ele, ento, falou, atabalhoadamente, da sua vontade de deixar a vida de pastor e de conseguir um emprego na Covilh.
Pelas expresses e movimentos de cabea que o padrinho comeara a fazer, mal ele desvelara a sua ambio, Horcio compreendeu que teria fraca resposta. E ia continuar a insistir naquilo em que podia e no podia trabalhar, quando entrou uma mulher. Marques abandonou-o prestemente, feliz por essa apario, que lhe dava tempo de raciocinar. E, adiantando-se ao marano, ps-se em frente da freguesa, com as mos apoiadas no balco:
- Bom dia, senhora Ana. Como tem passado? Ento que deseja?
Do seu canto, Horcio viu-o pesar acar e arroz e, depois, embrulhar uma vela de estearina.
Por fim, a mulher saiu e Marques voltou para junto dele:
-  muito difcil o que tu queres, meu rapaz... Muito difcil! Vontade de te ajudar no me falta, j se v; mas no vejo ponta por onde lhe pegue. Quem tem um emprego no o larga, mesmo que ganhe muito pouco; e ningum quer meter mais gente. Andam por a muitos homens ao alto. E aqui ainda  pouca coisa, porque em Lisboa e no Porto parece que  muito pior. No estrangeiro, nem se fala! Todos
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os dias vejo coisas nos jornais que  de se ficar pasmado. Terras ricas como a Amrica, onde parece que havia de haver trabalho a rodos, tinham milhes de desempregados... O que lhes est a valer  a guerra, que mata uns e d que fazer a outros... Se no fosse isso, no sei o que havia de ser. C no nosso Portugal, que vive em paz,  o que se v...
Marques ficou um momento em atitude pensativa e, depois, acrescentou:
- Eu compreendo a tua situao... Compreendo muito bem... Tu o que querias era ganhar mais alguma coisa. Vs-te sem futuro, no  isso? Mas os tempos esto maus, rapaz. -Estendeu o queixo, indicando o empregadito: - Olha: vs aquele ali? Quando se soube que eu precisava de um marano, porque o outro tinha morrido de tifo, apareceram-me mais de vinte. E com cada recomendao! At o presidente da Cmara me recomendou um! E a alguns deles as famlias ofereciam-nos mesmo sem ordenado: s pela comida e pela roupa. Eu  que no gosto de explorar ningum. -Olhou para o marano com ar superior: - Fiquei com aquele e pago-lhe vinte e cinco escudos por ms. As coisas so assim. So sempre mil ces a um osso. Tu s pastor e tens o teu emprego. Queres um conselho? Deixa-te estar! Ganhas pouco e um moo de pastor nunca levanta a cabea,  certo. Mas tem pacincia! Espera melhores dias!
O humilde sorriso de Horcio desaparecera completamente. Ao ver-lhe o rosto, Marques procurou tornar mais afectuosa a sua voz:
- Eu queria ser-te agradvel, l isso queria. Mas que posso eu fazer? -Calou-se, como se estivesse a investigar na memria. - No, no vejo nada... -disse, depois.- Antigamente, ainda os armazenistas, quando lhes fazamos um pedido, procuravam atender-nos. Mas, hoje, no nos ligam nenhuma. Foi o que nos trouxe esta guerra. Toda a gente ficou malcriada. Se se vai comprar alguma coisa, parece
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que nos fazem um favor em vend-la. Os empregados j no do ateno, como antigamente. Quem quer, quer; quem no quer, que v a outra parte! - Marques voltou a olhar, com sobranceria, o seu caixeiro: - Outro dia, at aquele bisbrrias, que ainda no largou os cueiros, estava aqui a tratar uma freguesa com duas pedras na mo. Imagina, uma freguesa que gasta muito e paga sempre a pronto! Claro, obriguei-o a pedir-lhe desculpa e se ele no pedisse, eu punha-o no olho da rua! Que os outros sejam como quiserem, mas no em minha casa. Em minha casa no admito ms-criaes!
Preocupado consigo mesmo, Horcio mal o ouvia. Marques continuou a falar e, depois, mudou o tom:
- Se eu souber de alguma coisa, mando prevenir-te. Mas j te digo que no deves guardar muitas esperanas. No calculas a pena que tenho, pois sou muito teu amigo e dos teus pais. Aquilo  gente de cara direita!
Horcio saiu confrangido. Tanto como a negativa, desorientavam-no as palavras que ao Marques ouvira. Parecia-lhe que todos se haviam combinado, pois em Lisboa tinham-lhe dito quase a mesma coisa. E agora ele lembrava-se de que, desde pequeno, ouvira sempre falar de pessoas que queriam trabalho e no o tinham, dos muitos passos que davam, dos pedidos que faziam, muitas vezes passando fome e sem arranjar nada. No era, portanto, coisa s de agora; era coisa j antiga. Ele  que no dava, nesse tempo, ateno ao caso, por ser ainda garoto.
To aborrido ia, que, em vez de subir a rua, como lhe convinha, descera-a. Metendo a outra, passara em frente do quartel da Covilh, depois ladeara vrias fbricas, sempre a caminhar ao acaso, sempre a magicar naquilo. "At o padrinho vira que ele estava sem futuro!" Reagiu: "No; em moo de pastor no acabaria ele! Iria falar j ao Manuel Peixoto. Decerto o Manuel Peixoto no lhe diria que no. Era melhor, l isso era, um emprego no
comrcio, do que entrar para as fbricas. No comrcio, se ele estudasse de noite, podia vir a ser algum. Mesmo um homem importante, como se tinha visto com outros. Mas j que no tinha lugar, pacincia!"
Esgueirou-se entre a parede e um camio que, parado na rua estreita, lhe dificultava a passagem; voltou na primeira travessa e, pouco depois, cruzava, de novo, o centro da Covilh. Ao chegar ao jardim da Praa da Repblica, examinou o seu relgio. Eram onze horas e vinte cinco. Da,  Aldeia do Carvalho mediam-se sete quilmetros e ele tinha de voltar a tempo de tomar a camioneta. Comeou a descer apressadamente a estrada, com os olhos a correrem sobre as fbricas de fiao e tecelagem que se estendiam l em baixo, nas margens da Ribeira da Carpinteira - o maior conjunto industrial da Covilh. Ele olhava para aquilo de maneira muito diferente do que o fizera da outra vez que passara ali. Descobrira o casaro da firma Azevedo de Sousa, de que Manuel Peixoto tambm lhe havia falado, por nele trabalhar, como mestre, o seu irmo e diminuiu o passo para melhor o contemplar. "Se Manuel Peixoto conseguisse met-lo na indstria, decerto seria para aquela fbrica que ele viria" pensou. E demorava-se a fixar o longo e comprido edifcio, de dois pisos e muitas janelas, erguido entre outros, tambm compridos, mas mais velhos. Em seu redor no se via ningum. S um vago rumor de mquinas atestava o labor humano dentro das paredes.
A estrada salvava a ribeira e, voltejando, subia. Agora, Horcio enxergava vrios homens estendendo tecidos nas rmulas, por detrs das fbricas. Ele voltou a dar pressa s suas pernas. A estrada continuava deserta. O rudo fabril ficara para trs e ali havia silncio um silncio de sol em terra abandonada. Logo, porm, que ele ultrapassou a Borralheira, que espairecia, com suas casitas, na
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encosta, a expresso da estrada modificou-se. O que era mudez e solido enchera-se de gentes e de falas. O meio-dia estava a cair e numerosas mulheres e crianas, com cestos na cabea ou nas mos, corriam a levar o almoo aos operrios. Essa revoada feminina em breve, porm, desapareceu. Aos grupos foram-se sucedendo figuras isoladas e, em seguida, a estrada mostrou-se novamente solitria.
Pouco depois, Horcio entrava na Aldeia do Carvalho. O lugar, de ruelas sinuosas, becos soturnos, casas a derrurem de velhice e de pobreza, assemelhava-se, no seu aspecto fsico, carregado de negrume, a quase todos os povoados beires. A Aldeia do Carvalho distinguia-se de muitas outras apenas porque, em vez de se entregar somente  vida pastoril e agrcola, a maioria dos seus habitantes trabalhava nas fbricas da Covilh.
Horcio viera ali s uma vez; apesar disso, lembrava-se bem da casa de Manuel Peixoto, companheiro de pastoreio nos altos da serra. Justamente porque Maio ia no fim, ele temia que o amigo houvesse j abalado para as pastagens dos cimos. Mas, mal bateu  porta, a mulher, que veio abrir, tranquilizou-o:
- Ele anda a para riba, a tratar das chaves de uns borregos que esto mal armados.
- Aonde?
A mulher saiu  rua, estendeu o brao e indicou-lhe, com bastas explicaes, o caminho que ele devia seguir. Horcio agradeceu <e ps-se a atravessar a aldeia, enquanto mastigava o po e o pedao de queijo que havia trazido consigo.
Foi encontrar Peixoto num campo sobranceiro ao povoado. Dois dos seus filhos sopravam o lume que ele acendera debaixo de uma panela, fincada sobre trs pedras e na qual se coziam as batatas destinadas a amolecer os chifres dos carneiritos. Perto dali, o rebanho aguardava o incio da operao, metido den
tro do bardo - uma cerca de rede de corda, segura por estacas
Reconhecendo Horcio, Peixoto caminhou ao seu encontro:
- Que novidade! Tu, por aqui? Quando chegaste? O convvio na serra, durante vrios Estios, nas
horas em que os seus rebanhos confluam aos limites das reas concedidas a Manteigas e  Aldeia do Carvalho, criara, entre os dois, grande intimidade, apesar de Peixoto ser mais velho do que Horcio quase trinta anos. Este tratava-o sempre por "senhor" ou por "vossemec"; o outro dirigia-se-lhe, muitas vezes, com um tom paternal, mas essa diferena de tratamento no influa nos seus longos dilogos, travados nos ermos alpestres, onde Peixoto confidenciava at as volpias que tivera com mulheres, como se ambos fossem da mesma idade. Agora, Peixoto abraava-o:
- Que alegria! Que alegria! Deixa-me ver-te bem!
Pusera-lhe as mos sobre os ombros, afastara-se ligeiramente e examinava-o de alto a baixo:
- Como te deste l na tropa? Anda! Conta! Senta-te aqui.
Os dois sentaram-se no cho. E Horcio ps-se a responder  pergunta do amigo. Os filhos do Peixoto tinham-se esquecido do lume que ardia sob a panela e seguiam todos os seus gestos. Horcio falou da vida militar e de Lisboa, do que vira e do que passara. Por fim, o palreio transitou para a vida na serra. Peixoto queixou-se do Inverno:
- Um tempo medonho! J no sabia que dar de comer ao gado. Cheguei a arrendar, por quatro notas, um lameiro que no valia um pataco.
Sempre  espera de momento azado para expor a razo que o trouxera ali, Horcio aproveitou o primeiro silncio que lhe pareceu propcio:
- Pois  verdade... Eu queria falar a vossemec...
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Pelo seu tom de voz, Peixoto julgou ser caso para ficarem sozinhos. E fez um gesto aos filhos.
- No  assim coisa de segredo... - interveio Horcio.
Os garotos afastaram-se. Ao Marques, no quisera ele falar do seu casamento. Agora, a Manuel Peixoto, contava tudo, a ideia que tivera, o motivo porque adiava a boda.
- Eu queria ver se vossemec pedia ao seu irmo para me meter numa fbrica... Naquela onde ele  mestre ou noutra qualquer...
- Numa fbrica? Na tua idade? - perguntou Peixoto, admirado. Logo, ao reparar na. expresso dele, consertou:-Bom! L falar, falo. E podes ter a certeza de que se ele no o fizer a mim, no o far a mais ningum. Mas isso no  coisa que se possa arranjar assim de p para a mo. Se dependesse s do Mateus, estava bem; mas no depende. H sempre muitos pedidos feitos ao patro. Depois, com os anos que j tens... O que  que tu querias ser?
- Eu queria ser tecelo...
Peixoto meditou um momento e logo volveu  sua:
- Tu j pensaste que tinhas de entrar como aprendiz?
- J...
- Eu digo-te isto, porque um aprendiz ganha muito pouco. E, s vezes, passa muito tempo antes de chegar a operrio. So coisas boas para os garotos. Em vez de andar por a na brincadeira, vo pegar fios e aprender um ofcio. Sempre recebem, alguma coisa e ajudam os pais. Mas tu s um homem, que at j foste s sortes. No sei se pensaste bem...
- Pensei. Fiz as contas. Dinheiro, ganharei mais do que me d o Valadares.  claro que l no pago comida e aqui terei de a pagar. Mas  uma coisa de mais futuro. Se chego a tecelo, j serei compensado. Que isto de ser pastor, no  vida! Para
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vossemec, est bem, porque o gado  seu. Mas ganhando noventa escudos, que  quanto me pagam, no se resolve nada.
Calou-se. De cara magra e negra de barba, um casaco remendado em cima da camisa suja e sem colarinho, Peixoto deixou, tambm, correr o silncio.
- Tu l sabes...-disse, por fim, o velho pastor. - Mas talvez pudesse arranjar outra coisa...
- Qual o qu! Julga que tambm no pensei nisso? Em Lisboa bati vrias casas e, agora mesmo, antes de vir falar consigo, estive com o meu padrinho, na Covilh. Com o Marques, aquele que tem uma mercearia abaixo do mercado novo. Todos me dizem o mesmo. No basta um homem querer trabalhar;  preciso arranjar trabalho e a  que est a coisa. Eu nunca imaginei que fosse to difcil! Depois, no tenho quem me proteja. Amigo verdadeiro, s vossemec... No tenho outro.
- E em Manteigas? Nas fbricas de l? Sempre ficavas com a famlia...
- Pois isso era o que eu queria! At por causa da rapariga. Se eu Vier para aqui, fico muito longe dela... Mas no arranjei nada. Escrevi ao vigrio, ainda eu estava em Lisboa, e ontem fui saber a resposta. Ele pediu por mim a vrios industriais e todos lhe disseram que no. Tambm no me admirei muito. L todas as fbricas so pequenas e  muita gente a querer entrar.
Veio novo silncio. Peixoto fixara os olhos no bardo e deixou-os assim fixos, como se estivessem mortos. Foi Horcio quem voltou a falar, perguntando com ansiedade:
- Diga-me, senhor Manuel: no lhe parece que  melhor ser operrio do que pastor?
Peixoto respondeu:
- O meu pai entregou o gado a mim e mandou o meu irmo para as fbricas. Eu tambm vou mandar dois filhos para l, assim, que eles tiverem idade. Mas eu te digo: o meu pai teve bom olho. Para o
meu feitio no h como a liberdade. L passar os dias metido entre as quatro paredes de uma fbrica no  comigo! Claro que se eu estivesse no teu lugar j seria outra coisa...
Peixoto levantou-se e destapou a panela. O vapor da gua fervente subiu at o seu rosto, mal lhe deixando ver as batatas que l dentro se encontravam.
- Olha l: ests com muita pressa?
- Eu tenho de tomar a camioneta s cinco menos um quarto, na Covilh. Porqu?
-  que talvez pudesses dar-me uma ajuda, pois com os garotos no se pode contar. S servem para atrapalhar.
- Ainda tenho tempo - disse Horcio, levantando-se tambm. E, apanhando os trapos e o gadanho que ali estavam, caminhou, com Peixoto, que levava a panela, para dentro do bardo. Junto do rebanho, notou:
- Vossemec, agora, tem mais cabras do que ovelhas...
- No me fales nisso! No sabes a minha arrelia. .. H pouco, no te disse nem metade do que foi o Inverno. Pasto, nenhum! Depois de arrendar dois lameiros, fiquei sem dinheiro para arrendar mais. Fiquei depenado de todo e o gado sem ter onde comer! Foi ento que me resolvi... Fiz como tinham feito os outros. Vendi umas ovelhitas e comprei cabras... As cabras roem tudo, tudo lhes serve. As ovelhas querem bons pastos, como sabes... Que havia eu de fazer? O que tem acontecido em Cortes, vai acontecer tambm aqui. Agora, na Aldeia, s h trs rebanhos de ovelhas. O resto  tudo cabras. Os pobres no podem manter ovelhas. O rendimento das cabras  mais pequeno, mas sempre lhes vai dando o leitito, at colherem o centeio e as batatas. Mas eu que no posso com cabras! - A sua voz entristeceu:-No imaginas a ralao que tenho tido! Nunca pensei que tivesse de findar em ca
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breiro... Quando vi levarem as ovelhas que eu tinha vendido, parecia que me separava de pessoas de famlia, Deus me perdoe...
Peixoto moveu a cabea e ergueu os ombros, como se quisesse sacudir o seu desgosto. Depois saiu atrs de feltroso carneirito que se escapava por entre as ovelhas, fura aqui, fura ali, fugindo sempre.
Horcio seguia a cena, sem a ver. Havia pensado pedir a Manuel Peixoto o dinheiro que os pais deviam ao Valadares e libertar-se do patro, logo que disso carecesse. Agora, as dificuldades que o amigo lhe revelara aumentavam as suas prprias dificuldades. "Se, de um dia para o outro, o irmo de Peixoto lhe arranjasse um lugar nas fbricas, como poderia ele deixar o Valadares sem, antes, lhe pagar?"
- Eh, Horcio! Anda!-gritou Manuel Peixoto.
Havia filado o bicho e metera-o sob os seus joelhos. Horcio aproximou-se. De gadanho em punho, tirou da panela uma grande batata e passou-a para o trapo. O carneirito mostrava dois chifres mui petulantes, a atestar a sua juventude. Com um gesto rpido de Horcio, um desses rebentos sumiu-se, enterrado na batata escaldante. O animal teve um estremecimento e a haste amoleceu rapidamente. Horcio ps-se, ento, a retorc-la, para que ela, ao crescer, no fosse tapar a vista do bicho ou mesmo penetrar-lhe no pescoo, como sucedia muitas vezes, quando os pastores se descuidavam de intervir.
Trouxe outra batata e repetiu o acto na ponta que ainda se arrebitava sobre a cabea do borrego. Em breve os dois chifres pendiam, retorcidos, para o cho, como convinha a um carneiro que se prezasse, a um bom futuro padreador que quisesse bonitas e avantajadas armas, sem ser, ele prprio, ferido por elas.
Amarrados os cornos a um pedao de pau, que assim esfriariam mantendo a forma recebida, Peixoto lanou-se a pegar segundo borrego.
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Ia em meio a tarde quando Horcio se despediu, j longe da aldeia, para onde o amigo tinha vindo a caminhar com o seu rebanho. Peixoto tornava a repetir:
- Vou tratar do que me pediste. O pior  a tua idade... Mas vamos a ver o que se arranja... Eu abalo l para cima, com o gado, depois de amanh. Tu tambm vais qualquer dia destes no  verdade?- E como visse Horcio fazer um gesto incerto:- Bom! De qualquer maneira, o que eu souber mando dizer-te...
De regresso, a camioneta entrou em Manteigas ao fim do dia. No meio do vale,  beira do Zzere, a vila, com as alvas torres das duas igrejas e o punhado de casas em derredor, parecia uma construo infantil, um burgo de Liliput, no fundo de grande concha verde. Da terra linda dir-se-ia terem sado ciclpicas figuras, ptreos vultos que haviam ficado  sculca, protegendo e vigiando o povoado, de sobre as altssimas lombas que corriam das Penhas Douradas at os Cntaros.
Horcio desceu da camioneta e dirigiu-se a casa de Valadares, no fundo da vila.
O patro acolheu-o afavelmente. Era um homem alto, seco, cara rstica, toda queimada pelo sol nos trabalhos dos campos. Fora tambm pastor de seu gadito antes de ser dono de copioso rebanho e daquelas terras que comprara com o dinheiro que, por indirectas vias, a mulher recebera do pai, um cura de Gouveia em transes de conscincia  beira da morte.
- Ento como tens passado? Como te deste por l?
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Perante a resposta e a expresso de Horcio, ele quedou-se a contempl-lo, sorridente mas inquiridor:
- Pensei que estivesses zangado comigo...
- Nada, no... Por qu?
- Como chegaste h dois dias e ainda no tinhas aparecido... -Sorriu mais:- Estiveste a matar saudades da rapariga?
Horcio tomou por til aquela justificao e fez um gesto vago.
- Eu virei amanh. Valadares mostrou-se generoso;
- No, no venhas. Disseram-me que te queres casar e eu sei o que isso . Necessitas de uns dias de folga. Prepara as tuas coisas e vem no fim do ms. O meu filho, o Tnio, anda com o gado e pode andar mais um tempo.
- Eu resolvi adiar o casamento... Posso vir amanh.
- Adiaste? Porqu? -Perante o silncio do seu pastor, Valadares no insistiu. - Bem; tu l sabes da tua vida... Queres comear, ento, amanh?
- Sim, senhor. Amanh irei ter com o Tnio. Tudo aquilo fora rpido. Valadares murmurou:
- Como queiras...
Horcio ainda perguntou pela sade da senhora Ludovina, que ele sentia andar l por dentro, na trafega domstica - e saiu. Atravessou a vila a passos largos, a caminho de casa. Desde que comunicara ao Valadares que voltaria a pastorear-lhe as ovelhas, aumentara a sua ternura por Idalina, o desejo de se encontrar ao seu lado. Parecia-lhe que, junto dela, agora que o casamento se tornara mais difcil, ele teria maior coragem e seria menos infeliz. "O que ele precisava era convenc-la a esperar, mas convenc-la a valer. Porque, agora, no se tratava s da casa; tratava-se mesmo do dinheiro para eles viverem. Se casassem j, com que iam passar os primeiros meses, se a soldada fora recebida adiantadamente?
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 E o pior  que a sua me no queria, decerto, que ele dissesse aquilo..."
Ao empurrar a porta da sua casa, viu, l dentro, os pais de Idalina. Estavam sentados em frente dos pais dele e tinham uma cara severa.
Horcio soltou um "boa noite" cordial, mas a senhora Januria e o marido responderam friamente.
Foi a me dele quem procurou romper o mal-estar que envolvia os seres e as prprias coisas:
- Vieste to tarde! Que aconteceu?
- To tarde? -estranhou ele.- A camioneta chegou ainda no h meia hora...
A senhora Gertrudes olhou-o, ansiosamente, aguardando outro esclarecimento, mas ele desviou os seus olhos e no disse mais coisa alguma. Ento, a me preveniu-o:
- Aqui o senhor Vicente e a tia Januria h j um bocado que esto  tua espera. Querem falar contigo...
Como no' havia mais bancos, ele encostou-se  parede, para ouvir. Mas os pais da Idalina continuavam calados. A senhora Januria, o tronco envolvido num xaile preto, tinha os braos cruzados no peito e os olhos postos nos joelhos. Sobre o seu lbio inferior, repuxando para dentro, desciam, nos cantos, os cabelos negros do lbio superior, retorcidos como miniaturas de chifres de carneiro. E na terra onde, naqueles apuros, os homens cediam sempre a iniciativa s mulheres, o senhor Vicente, alm de tudo desconfiando de seus ouvidos, no desejava tambm antecipar-se. Foi ainda a me de Horcio quem tornou a afastar o silncio:
- Eles no querem que se adie o casamento. Eu j estive a explicar-lhes, mas eles...
S ento, ao ouvir aquilo, a senhora Januria irrompeu, com a sua voz fanhosa:
- Est bera de ver que isso no tem jeito nenhum! A rapariga estava comprometida contigo,
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toda a gente o sabe, e, agora, se o casamento no se faz, o povo comea por a com murmuraes...
- Mas que murmuraes podem fazer, se eu no falto ao prometido? Se  s uma questo de deixar para mais tarde e toda a gente pode saber porqu... Demais a mais, eu no devo nada  sua filha. Hei-de casar, porque gosto dela. Que  que podem dizer?
A senhora Januria exaltou-se:
 Muita coisa! Honra, creio que no lhe deves! Mas tambm te digo que se lha devesses e no pagasses, quando no houvesse mais ningum que te tirasse a vida -ela olhou, assanhada, para o marido -, estava eu aqui! Mas que tu andas a desacreditar-me a rapariga, no h dvida! A tia Luciana j encheu os ouvidos do povo com as poucas-vergonhas que viu ontem. A minha primeira teno foi partir-lhe a cara, mas, depois, pensei se no seria verdade o que ela andava a espalhar. E, afinal, era. L a rapariga j apanhou duas bofetadas, para no ser desavergonhada como tu. Mas nisto so sempre os homens que se adiantam e tu j ficas prevenido...
Os nervos da senhora Gertrudes comearam tambm a excitar-se, no por encontrar falta de razo nas palavras de Januria, mas porque a irritava a forma como a outra se dirigia ao seu filho. Alm disso, ela j assentara que, para os seus interesses, o melhor era, efectivamente, adiar o casamento. A senhora Gertrudes conteve-se, porm, durante o pequeno silncio que Januria fez. To-pouco os outros falaram. O tio Joaquim continuava, como na vspera, debruado sobre a soda de um sapatorro, como se no ouvisse coisa alguma; e o pai de Idalina no passara de uma expresso carregada, para mostrar que apoiava a clera da mulher.
Encontrando o campo livre, a senhora Januria voltou:
- Isso da casa estaria muito bem, se a pudesses fazer j. Mas podes?
Horcio hesitou. A sua prpria me tornava a contempl-lo, ansiosamente, como h pouco.
- J, j, no posso - disse, por fim. - Tem de correr algum tempo, at ver se arranjo outro modo de vida.
-  o que eu pensava! -exclamou Januria.-  o que eu pensava! Quem sabe l quando ser isso! Pode ser daqui a muitos anos, pode no ser nunca. E a rapariga que fique a  espera, como se fosse um traste usado.
Antes mesmo de Horcio responder, a senhora Gertrudes gritou, nervosa:
- No posso ouvir uma coisa dessas, tia Januria! Se voc e a sua filha esto assim com tanta pressa, ela que case com outro. L favores desses no queremos, nem precisamos...
Horcio acenou  me, pedindo-lhe que se calasse. Januria recuou:
- Agora no se cuida disso. Isto  falar por falar. -E voltando-se para Horcio:- Vocs podiam casar agora e, depois, com tempo, tratar l da tua ideia...
- Eu j expliquei tudo  Idalina -defendeu-se ele.- Mas no lhe disse?
A tia Januria fez um gesto que nem afirmava nem negava, Horcio continuou:
- Vossemec no tem mais gosto de v-la casada do que eu de casar com ela. Acredite nisto que lhe digo! Mas mesmo sem pensar na casa, eu no poderia fazer agora a boda... -Perante o olhar da me, acrescentou: - Ganho muito pouco...
- Ora essa! Mas quando tu resolveste casar j sabias isso... Ganhavas a mesma coisa.
- Pois , mas...
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A senhora Gertrudes interveio, apressadamente, no fosse vir ainda  baila que ela tinha recebido, adiantado, o salrio do filho:
- Est tudo cada vez mais caro... -disse.- A mim tambm me parece melhor esperar mais algum tempo.
- A senhora pode ter a certeza de que eu caso com a Idalina. E no h-de demorar muito. Mas deixe-me arranjar as coisas. Estou farto de dizer que isto de ser moo de pastor no  ofcio! No s se ganha uma misria, como se vive longe da mulher. Quando eu penso que tinha de deixar a Idalina aqui e ir passar meses seguidos na serra ou l para a Idanha, sinto logo vontade de largar aquilo. No; quando eu casar,  para estar junto dela e dos filhos que vierem.
Tanto amor  sua filha no bastava para convencer a senhora Januria. Ela comeara a pressentir que, alm da casa, havia ali algo mais, que contrariava no s os desejos dela, mas os do prprio Horcio e da famlia.
- Bem; eu no quero nada  fora. O que eu tenho medo  da lngua do povo. Mas se tu continuas com tenes de casar...
Foi o pai de Horcio quem respondeu;
- J se v que continua, mulher! Se ele no casasse, tambm ns ficvamos desgostosos...
Era a primeira vez que o tio Joaquim, interrompendo o seu trabalho, intervinha na discusso. O senhor Vicente, perante aquele exemplo, decidiu tambm dizer alguma coisa:
- Pois era isso que ns queramos saber. - E voltando-se para a mulher:-No  verdade?
Pouco depois, os dois saam. E a senhora Gertrudes, de nervos j apaziguados, comentava:
- Pressa assim nunca vi! Porem-nos a faca ao peito!...
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- Coitados! - desculpou-os o tio Joaquim. - Tm uma data de filhos e esto mortos por ficar com uma boca a menos.
A senhora Gertrudes colocou um prato na mesa, para Horcio:
-Com certeza a ceia j est fria. Olha l: sempre vais para o Valadares?
Perante o gesto do filho ela ficou tranquila.
A serra corre de Nordeste a Sudoeste, como imensurvel raz de outra cordilheira que rompesse longe do seu tronco. Belo monstro de xisto e de granito, com terra a encher-lhe os ocos do esqueleto, ondula sempre: contorce-se aqui, alteia-se acol, abaixa-se mais adiante, para se altear de novo, num bote de serpente que quisesse morder o Sol. Ao distender-se, forma altivos promontrios, dos quais se pode interrogar o infinito, e logo se ramifica que nem centopeia de pesadelo, criando, entre as suas pernas, trgicos despenhadeiros e tortuosas ravinas, onde nascem rios e as guas rumorejam eternamente.
Vista de alto, sugere um fabuloso rptil, anfbio e descomunal, cortando em dois o grande vale que teria surgido aps haver secado o lago que aquele habitava. Examinada de banda, vem-se-lhe inmeras patas estendidas e, a trechos, o lombo serrilhado. Esse gume com muitas mossas , porm, ilusrio. Contemplado de perto, o dorso da serra, como o dos cetceos, mostra largas superfcies, ora chatas, ora abauladas, umas limpas de acidentes, outras cercadas de frages, que, com estranhos perfis e enigmticas atitudes, parecem defender as terras solitrias. O ser humano tem volume mais mesquinho do que uma velha giesta, do que uma velha urze, nesses planaltos que se alargam entre altas vagas de terreno,
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entre montanhas que cresceram no cimo da montanha. E uma luz de mistrio, ao clarear as chapadas e pendores, enche de temveis sombras os silentes penedais, os rochedos majestosos, todos esses gigantescos vultos de granito que povoam a serra, como seus feros senhores.
O homem instalou-se, primeiro, nos vales, depois foi acendendo a sua lareira a quinhentos, a oitocentos, a mil metros; daqui, porm, no passou o tecto do seu abrigo permanente. Mas, mais para cima, desde que as neves se derretiam at que outras viessem, expunha-se ao sol uma efmera riqueza nos vastos plainos. E, para aproveit-la, o homem subiu ainda, j sem casa e acompanhado apenas do seu gado. Assim, a grande serra e seus mistrios foram conquistados mais do que com fundas, lanas ou arcabuzes, com homens pastoreando ovelhas e cabras.
Desde ento, em Abril, se o gelo j se sumiu, ou em Maio, se a invernia se prolongou, ouve-se tilintar, encostas arriba, as campainhas e os chocalhos dos rebanhos.  essa msica matinal que anuncia a Primavera na serra. Seria grato ouvi-lo distanciar-se lentamente e continuar deitado, embrulhando-se mais na roupa, nessas manhs ainda frgidas da montanha. Mas no pode ser. Cada pastor leva ovelhas ou cabras de trs, quatro, cinco donos e cada um destes se reveza uma semana no pastoreio. Os que ficam, saltam, tambm, da cama, trocando o cajado de pegureiro pela enxada de cavador, que nas rampas da serra todos eles criam gado, duas ou trs dzias de cabeas, e cuidam do seu agro - duas ou trs pobres courelas. E se algum raro, por ter prdios maiores, pe um moo ao seu servio,  que zagal assalariado, que lhe substitua o filho no pascio alpestre, fica mais barato do que jornaleiro pago ao dia para substituir o segundo nos amanhos da terra.
Os rebanhos partem e s volvem em Junho, para a tosquia; partem de novo e a sua msica de regresso s se torna a ouvir quando o Outono comea a acobrear as folhas dos castanheiros.
Desta feita, porm, e pela primeira vez na sua vida de pastor, Horcio no carece de levantar-se com a alba. O gado de Valadares h trs semanas j que anda na serra e ele encontr-lo- quando, meio-dia passante, o rebanho surja na Nave de Santo Antnio. Horcio ouve o velho relgio do pai dar seis horas; ouve, depois, dar as sete; sente a me lidar na cozinha e o tio Joaquim sair - e continua deitado. J no dorme, que as preocupaes da vspera voltaram, e de manh ele v sempre tudo mais difcil, mais triste; mas ao corpo continua a agradar a cama. S s nove se levanta, boejante. Roupa de pastor no se gasta com lavagens, mas a me teve tempo de lavar a do filho durante o ano e meio em que ele esteve no quartel. Horcio esvazia os bolsos do fato futriqueiro, veste as calas e o casaco de surrobeco, mete os ps nos sapatorros ferrados de brochas e pega nos rsticos safes, feitos, por ele, de uma pele de ovelha que morreu de parto. Ao amarr-los s pernas, parece-lhe, confusamente, que se amarra, ele prprio, no  l ensujalhada e ainda com manchas de sangue que mudou de cor, mas a algo mais forte do que aquilo, a algo que o escraviza. A me tem o caldo quente e d-lhe uma malga cheia. Ele toma-o, pe, em seguida, o chapu de abas anchas, acomoda, sobre o ombro, o alforge e a manta, agarra no cajado e assobia ao co.
- Bem; adeus. At  vista - diz  me.
- Vai com Deus, meu filho.
Ela fica, um momento, a v-lo afastar-se e ele, j  porta, assobia de novo - um assobio autoritrio, mal-humorado.
O "Piloto" rompe, que nem flecha, de um negro boqueiro de bairro e, ao v-lo assim vestido, festeja-o, lana-lhe aos joelhos as patas dianteiras,
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enquanto o seu rabo se agita nervosamente e o seu focinho parece querer chegar at  boca dele. Tomba, impelido pelo andamento das pernas do amo, e logo corre para a esquerda e para a direita, cheira aqui, cheira ali, tudo  pressa e sem ateno, s por fazer alguma coisa, doido de contente, como se a ruela se houvesse tornado para ele a via da felicidade. O dia est enevoado, cinzento, triste; mas "Piloto" dir-se- haver descoberto um sol individual para sua completa volpia.
Em casa de Valadares, a mulher veio  porta, tornou a desaparecer no corredor e tornou a voltar. E Horcio comeou a encher os alforges com o po de centeio, o pedao de queijo e o pedao de toucinho que ela lhe entregou.
- Batatas ainda o Tnio tem l que bonde - disse a senhora Ludovina, depois de o haver abastecido.
Ele partiu, com o "Piloto" sempre  frente e sempre com aquela cauda erguida, aqueles passos midos e aquele ar de co feliz. Quando atentava nele, Horcio odiava-o, por essa alegria. Mas o "Piloto" continuava, como se a vida tivesse comeado, para ele, nesse dia perene de novidades e de encantos. Horcio vergou-se, ergueu-se e assentou-lhe uma pedrada. O co ganiu, voltou-se e olhou-o surpreendido, percebendo que fora ele quem o agredira. Depois, a gemer de novo, deixou-se cair de lado, dobrou-se e comeou a lamber a perna atingida.
Horcio volveu  sua perplexidade. Desde a vspera ele estava ansioso de tornar a falar a Idalina, de ouvi-la, de lhe dizer no sabia bem o qu, de convenc-la - de tranquilizar-se a si prprio. A ideia de que encontraria a senhora Januria fazia-o, porm, hesitar. Por fim, decidiu-se: "No podia partir assim, sem a ver."
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Foi um dos garotos, irmo de Idalina, que veio  porta, quando ele bateu:
- Ela est para o prdio do senhor Vasco.
- Qual?
- O da beira da estrada...
Ele abalou rapidamente, satisfeito por no ter visto a senhora Januria. O "Piloto" ia, agora, atrs dele, focinho baixo e triste, rabo entre as pernas - e coxeando Horcio meteu  estrada. A propriedade do senhor Vasco ficava entre a humilde capelita da Senhora dos Verdes e as Caldas. Descia, em degraus, desde a beira da via at a margem do Zzere e continuava para alm da margem oposta. Industrial de lanifcios, Vasco da Gama Sotomayor, de ascendentes fidalgos, havia adquirido, pouco a pouco, por herana de famlia e por compra em momentos aflitos dos pequenos pastores e agricultores, muitas das melhores terras do vale. Ele explorava umas directamente, outras arrendava-as aos operrios, aos pobres, algumas vezes at queles ou aos filhos daqueles que haviam sido donos delas. Entre os vrios industriais, Sotomayor era um dos mais respeitados do povo, pelo muito trabalho que dava na sua fbrica e nos seus campos. Havia numerosas famlias que viviam apenas para ele. Enquanto alguns dos seus membros criavam o gado cuja l ele comprava, outros, na fbrica, transformavam a l em tecidos e outros, ainda, amanhavam as terras que Sotomayor adquiria com o lucro obtido nos lanifcios. Todos os industriais tinham muitos afilhados, que os pobres, ao pedirem-lhe o apadrinhamento dos seus filhos, j futuravam um lugar nas fbricas para estes, logo que chegassem a rapazes; Vasco da Gama Sotomayor contava, todavia, mais afilhados do que qualquer outro. A princpio, ainda se escusava, se no por si, pela mulher, que considerava aquilo repetida maada; um dia, porm, j bem longnquo, tendo os operrios de Manteigas esboado um protesto contra os baixos salrios, Sotomayor verificara que, na
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sua fbrica, os afilhados no haviam acompanhado os camaradas, no por ganharem mais, mas, decerto, com a esperana de que ele lhes deixasse alguma coisa em testamento. E, desde ento, nunca se negava a apadrinhar qualquer recm-nascido.
Agora, contemplando aquele vasto prdio em socalcos, um dos muitos que Sotomayor tinha dispersos no vale, Horcio lamentava-se novamente: "At naquilo tivera pouca sorte. Se em vez de os seus pais haverem pedido ao Marques, houvessem pedido ao senhor Vasco para ser seu padrinho, outro galo lhe cantaria. Estaria, agora, a trabalhar na fbrica e no ali, de alforge s costas, a servir o Valadares, como um criado."
Avistou Idalina l no fundo, entre outras mulheres e homens, cuidando de terra de milho,  beira do rio. Foi descendo lentamente. O co seguia-o, procurando a extrema dos botarus, para evitar saltos, pois, agora, andava apenas com trs patas a quarta encolhida junto do ventre.
Idalina s os Viu quando ambos estavam perto. Largou a enxada e avanou para Horcio, os olhos postos na sua andaina de pastor. Ele sentia-a surpreendida e s soube dizer:
-Vou para o gado...
Ela continuava a contempl-lo, intrigada, e ele, com a garganta a apertar-se-lhe, s pde repetir:
- Vou para o gado...
- Mas, ento, no podias ficar mais uns dias? Pensei...
Ele sentia uma emoo cada vez maior.
-  para acabar mais depressa...-murmurou. Queria poder dizer-lhe que era por ela que partia
j, para mais rapidamente pagar a dvida, ser livre e trabalhar apenas para os dois. Mas o desejo, que ele adivinhara na senhora Gertrudes, de que aquilo no se soubesse, detinha-o.
Idalina voltava a olh-lo com expresso de ternura e de pena:
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Desde que se adia, tanto faz uma semana a
mais ou a menos... E eu mal te vi. Estiveste tanto tempo fora e, agora, abalas de caminho!
Pois ... Mas eu quero a boda o mais depressa
que possa ser. Assim vamos ganhando tempo. Os teus pais estiveram ontem l em casa, sabes?
Ela fez apenas um movimento com a cabea um movimento que o sensibilizou ainda mais, porque parecia de indiferena, mesmo de desacordo, com a atitude tomada pela senhora Januria e seu marido.
No h-de demorar muito... -volveu ele.-
O vigrio prometeu-me interessar-se por mim e ontem botei tambm  Aldeia do Carvalho, a falar com um amigo que tenho l. Aqui ou na Covilh, hei-de entrar para uma fbrica... - Calou-se um momento e, como ela tambm se conservasse silenciosa, acrescentou com outro tom de voz: -Era isto que eu queria dizer-te...
Ambos sentiam-se pletricos de palavras a pronunciar, mas a emoo retinha-as - a emoo e aqueles golpes de enxadas na terra, ali pertinho, que pareciam marcar, sonoramente, os minutos de Idalina.
- E quando  que nos voltamos a ver? - perguntou ela.
- Para a tosquia. Para a tosquia, venho com o gado. A no ser que antes aparea lugar numa fbrica...
Idalina continuava a ouvir o rudo das enxadas - tape, tape, tape- a chamar por ela, jornaleira paga para amanhar a terra e no para estar ali de palreio, coisa de que o senhor Vasco no gostaria se o soubesse.
- Bem. Ento, adeus. Tenho que ir... - E parecia seca de alma, ao despedir-se assim, j uma face voltada para ele, outra para o lugar onde os demais ganhes trabalhavam.
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Horcio olhava-a, com um misto de carinho e de infelicidade, enquanto lutava com aquela pergunta que ora lhe vinha  boca, ora recuava, para vir de novo, como uma tortura. Por fim, soltou-a:
- Tu esperas, no  verdade? Ela viirou-se para ele:
- Espero o qu?
- Pormim.... - balbuciou, timidamente.
Os olhos de Idalina mostraram-se novamente surpreendidos :
- Que tolice  essa ? Pois no havia de esperar!
- Ento, adeus...
Ele voltou a cortar os campos, desta vez para a estrada. Atravessou as Caldas, a ponte sobre o rio, logo o flanco da mata nacional. O dia tornara-se mais sombrio. E ele caminhava inquieto. S agora lhe acudiam as palavras que devia ter dito a Idalina, as que deviam t-la convencido definitivamente. Parecia-lhe que no dissera as suficientes, parecia-lhe que a despedida fora brusca, que tudo ficara em suspenso, que ela no tomara um verdadeiro compromisso.
Ia no vale estreito, profundo, sufocado, que antecede a nascente do Zzere. Era um corredor quase recto e compridssimo e dir-se-ia rasgado pelo casco de um navio, que ali imprimira a sua forma de U, acrescentada, na base, pela inciso da quilha, onde deslizava o rio. O Zzere, ainda infante, mal se enxergava entre os esbranquiados penedos que se erguiam no seu leito e as urzes que o ladeavam. Nas declivosas orlas, pacientes braos haviam semeado de centeio quantos escassos metros eram propcios e construdo uns casebres de pastores, tudo metido l em baixo, como no fundo de um abismo. Em cima, muito ao alto, as beiorras da serra corriam quase a pique e por elas passavam, ligando-as um instante, farrapos de neblina.
Horcio trilhava, h mais j de uma hora, a estrada que acompanha a fenda gigantesca, quando
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sentiu que algo 'lhe faltava. Voltou-se  sua procura. L vinha, ao longe, arrastando-se nas trs patas. Trazia o focinho roando o cho, pensativamente. De quando em quando, deitava-se, repousava um momento e volvia  andana, a manquejar grotescamente, como se cumprisse um destino. Horcio detivera-se a seguir-lhe, com os olhos, o penoso avano. O "Piloto" no o vira ainda a olhar para ele e s quando- o assobio lhe chegou aos ouvidos levantou a cabea. Ps-se, de sbito, alegre, a cauda no ar, os olhitos muito vivos a sorrirem com humildade. Quis correr, acercar-se depressa, para que o dono no tivesse de esperar. Ora punha a pata doente no cascalho, ora a levantava, dorida, e prosseguia, desequilibrado, cada vez mais caricato, nas trs pernas. Por fim, deixou-se descair de novo, vencido, a dez passos, sempre a olhar para o amo, humildemente. Horcio aproximou-se, pegou nele ao colo e continuou a andar. Sentia, agora, vontade de lhe pedir perdo.
De sbito, Horcio reconheceu, ao longe, a figura de Valadares, que marchava em sentido oposto ao dele. Logo estranhou v-lo assim de mos livres, sem enxada, sem cajado, sem coisa alguma que indicasse jornada de trabalho. "Que andaria o patro a fazer por ali, to longe de casa, quela hora? Por mor de recado para o Tnio no era, seno tinha-o encarregado a ele de o dar. Queijos tambm no levava..."
Valadares aproximava-se e saudava-o:
- Bom dia! Vais-te chegando, nem? O Tnio anda mesmo a em cima. Eu vim ver o alqueive que temos no Covo da Metade... Quando a outra malhada estiver estrumada, hs-de levar as ovelhas para l... O que tem o co?
- Est coxo...
Parecia a Horcio que o patro no lhe falava com a naturalidade habitual, mas j Valadares se despedia e continuava o seu caminho. Ele prosseguiu, tambm, estrada acima.
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Da banda da Nave de Santo Antnio surgira uma baforada de nevoaa, logo outra e outra e, em seguida, compacto nevoeiro, que descia para o vale. Pouco depois, baixavam no cu uns rumores surdos, prolongados, como se o Deus das alturas estivesse a arrastar os seus mveis. Pumba, deixara tombar um! E o silncio, um silncio hmido de fim de mina, volvia.
O "Piloto" comeara a mostrar-se nervoso nos braos do seu dono. Estavam o homem e o co ao p da nascente do Zzere e a mudez da terra era, agora, quebrada pelo som de dispersas campainhas. Horcio ouviu a voz de Tnio praguejar, irritada, contra as ovelhas, mas no via coisa alguma no meio da nvoa que o cercara. Os seus olhos estavam cheios de branco, um branco espesso e frio, que se movimentava, mas que, de perto, parecia esttico, como uma branca e lgida eternidade.
Horcio deps no cho o "Piloto" e chamou:
- Tnio! Tnio!
O outro respondeu-lhe de longe:
- Estou aqui... Vem c!
Ele arriscou alguns passos atravs da bruma, em direco  voz. Mas, pouco depois, voltava a gritar:
- Tnio! Eh, Tnio! Onde ests?
- Estou  entrada do Covo da Metade...
Comeou a orientar-se pela estrada, que branquejava sob os seus ps. O som das campainhas era, agora, mais ntido e, de quando em quando, ouvia-se um balido de ovelha, perdida na cerrao.
Horcio divisou os sapatos e a ponta do cajado de Tnio, antes mesmo de lhe ver o rosto, que o bulco envolvia. Estava encostado a um rochedo, na atitude de quem se resigna, impotente. Mas, ao ver Horcio, largou o varapau e abriu os braos, num alvoroo:
- D c esses ossos! - E abraou-o fortemente. - Ento, como ests ? A modos que a tropa te fez bem...
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Era o primeiro gosto que Horcio tinha naquele dia. De toda a famlia do Valadares, s por Tnio, o filho mais velho, ele lavrava quente estima. Haviam passado juntos quase toda a adolescncia e comeo da mocidade. Separados no Vero, quando Horcio pastoreava na serra, logo que as ovelhas eram levadas para a Idanha, os dois conviviam todos os dias, iam crescendo e trabalhando lado a lado nas mil tarefas que, com sua casa e terras, Valadares descobria sempre para os filhos e para o moo assalariado. Havia horas em que Tnio parecia mais seu amigo do que do prprio irmo e fora at por intermdio dele que Horcio, por duas vezes, pedira, inutilmente, aumento de soldada ao Valadares.
Agora Tnio dizia:
- J sabia que tinhas voltado, mas no pensei que viesses para aqui to cedo... No ias casar?
Ele fez um gesto vago e Tnio ficou um momento a olh-lo, em silncio. Depois, Tnio considerou que ia ser-lhe mais difcil do que, a princpio, lhe parecera, dizer a Horcio aquilo de que o haviam encarregado.
Na encosta prxima, um chocalho badalou, solitrio:
- Por onde aquela anda! -comentou Tnio, para afastar as suas prprias preocupaes.- H um bocadinho, o gado tresmalhou-se de repente. Nesta semana  a segunda vez que isto me acontece. Houve uns dias de muito sol e, depois, os nevoeiros vieram outra vez...
De quando em quando, passava, por eles, uma ovelha, passava como numa paisagem submarina e a sua l branca parecia diluir-se, tornar-se tambm nvoa. De cajado estendido, Tnio procurava desviar-lhe o rumo, met-la na abertura que se adivinhava entre o nascimento de duas pedras,  flor da terra. Mas, com trs passos, a ovelha desaparecia na fumarada, como se, numa rpida tremura, se
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houvesse desfeito. Junto deles via-se somente o focinho do "Lanzudo", que parecia no ter corpo, que parecia ser apenas uma cabea de molosso suspensa no ar.
- Diz-me uma coisa: Como te deste por l? Horcio teve um sorriso melanclico:
- A princpio, custou-me muito, mas, depois, habituei-me, que remdio!
- Hs-de contar-me como isso . Quando me lembro de que se o vigrio no tivesse metido empenhos por mim, eu tambm teria de ir, at tremo!
A neblina comeara a esgarar-se para a banda do vale, batida por uma aragem mais forte. E, por cima deles, voltaram a fazer-se ouvir os tumultos celestes. Por fim, o nevoeiro rasgou-se, um momento, e Horcio examinou o cu suspeito:
- Parece-me que no posso chegar com o gado  Nave sem apanhar uma carga de gua...
-  o que eu j tinha pensado - concordou Tnio. - O melhor  ficarmos c dentro, nas cabanas, at isto passar.
Agora, a bruma desprendia-se da terra, em volta deles. E, nos acidentados derredores, cheios de urzes e de penedos, apareciam, pastando tranquilamente, vrias ovelhas. Tnio chamou-as:
- Tchi! Tchi! Velhinhas!
Uma e outra obedecia logo e, s que faziam ouvidos moucos, ele enviava uma pedrada. O "Lanzudo", j mostrando todo o seu enorme corpo de co da serra, foi, de andar pesado e com o "Piloto" a cheirar-lhe o rabo, postar-se atrs das ovelhas teimosas, para as decidir  obedincia.
Junto de Horcio e de Tnio viam-se, agora, dois altssimos frages. Mostravam uma abertura que dir-se-ia cortada a prumo por mo fabulosa e servia de porta natural para o circo onde nascia o Zzere, porta que parecia dar para o tmulo de um
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deus. Atravs dela, as ovelhas, chamadas, enxotadas ou apedrejadas, iam passando, enquanto Tnio as contava.
- Faltam quatro, mas talvez j estejam l dentro.
Os dois entraram. No Covo da Metade, a bruma, encarcerada por vastas massas ptreas, elevava-se mais lentamente do que c fora. Mas j se via a terra plana, de uma banda coberta de verde cervum, que o rebanho ia devorando, da outra vrios alqueives e, ao centro, o rio correndo, aos ziguezagues, sob aquela fumaceira, como se fosse a ferver.
Tnio recontou as ovelhas e tranquilizou-se: estavam todas. Depois, fez um cigarro e ofereceu o tabaco e o papel a Horcio. Esse momento pareceu-lhe prprio para lanar a ideia, mas deteve-se. "Talvez fosse melhor noutra ocasio e quando estivessem sentados. Tinha de fazer um grande rodeio, pois Horcio era esperto e ele no devia comear logo a falar daquilo."
Em frente deles viam-se vrias "cabanas" abrigos que velhos pastores tinham erguido no fundo do Covo da Metade, como no fundo de uma grande cratera. Eram formados por trs paredes e pedras soltas arrumadas a uma fraga, pouco maiores do que casota de co e onde, pela porta estreita e baixa, s como um co se podia entrar. Tnio foi encaminhando Horcio para um dos abrigadoiros e ao seu portelho se sentaram.
A bruma subia cada vez mais, deixando a descoberto os contrafortes speros, medonhos, do bero do Zzere. Uma rotunda imensa, grave, misteriosa, de contornos imprevisveis, comeava a aparecer, como se as nvoas do princpio do Mundo a abandonassem pela primeira vez. Iam-se desvendando enormes moles de granito, ao fundo,  direita,  esquerda, pedra de todos os milnios, basties de um s bloco e rude traa, que se apresentavam com uma soberba, uma majestosa solenidade. Essa muralha
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ciclpica e irregular, cheia de arestas, de vincos, crescia rapidamente, atrs do nevoeiro que se retirava. Cada vez se mostrava mais alta, mais arrogante cada vez , assim tapada nos cimos, dir-se-ia no ter fim. Pouco depois, porm, tripartia-se, libertando as suas trs cabeas das toucas de algodo em rama e um relmpago recortava num fundo gneo, l nas alturas, as formas orgulhosas, absurdas, fantsticas, dos trs Cntaros. Logo veio o trovo. O "Piloto" ergueu o focinho para o cu e desatou a uivar lugubremente, interrompendo Horcio, que, puxado por Tnio, falava da vida militar.
O anfiteatro colossal em que eles se encontravam exibia-se, agora, em toda a sua imponncia. Era de uma grandiosidade severa, essa rotunda propcia para um templo de mitos alpestres. Estava metida entre assombrosas floraes de granito e terminava no Cntaro Magro, que lembrava a carcaa de imensurvel castelo de outrora, do qual se aproximassem fulminantes coriscos. Dir-se-ia que a Natureza quisera defender e impregnar de mistrio a nascente do Zzere fechando-a como numa fortaleza. E, contudo, parecia que o rio fora apenas um pretexto. Era uma pobre, trmula fita de gua, ora muito estreita, ora mais larguita, s vezes quase invisvel, que se lanava l do alto por um sulco ou diclase da rocha negra, aberta para lhe dar melhor caminho. Ao seu lado, porm, tudo se agigantava. Sob os frequentes relmpagos, alguns trechos dos paredes, cheios de estrias, de salincias, de avanos e de recuos, pareciam oriundos de uma floresta petrificada. Outros, poliformes, laminados, lpides desmesurveis coladas umas as outras, sugeriam livros de gigantes incrustados na montanha, escuros, e corrodos pelo tempo, no meio de um caos de linhas verticais, tocadas de irrealidade.
Havia um contnuo trovejar. A tempestade apix>- ximava-se e o cu ia escurecendo cada vez mais, como se a noite fosse cair sobre o meio-dia. Uma
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guia veio remando de longe, lentamente, e pousou nos topes do Cntaro Raso. Deu dois pulinhos, perscrutou a distncia borrascosa e, depois, volveu o bico adunco para baixo, para o stio onde Tnio e Horcio estavam. Da porta da sua lura, eles seguiam-lhe os movimentos e viram-na desaparecer numa cavidade da rocha. Mas j outras guias acorriam ali, acossadas pelo temporal.
Agora, por detrs dos Cntaros surgiam, estendendo-se sobre o circo, grandes, pesados, grvidos bandos de nuvens. Em seguida, um relmpago, uma enfiada de troves e ainda outra fasca rabiante, ali pertinho, ali por cima, no pico do Cntaro Magro. O ar chiava e houve um gemer de pedra, fino, cortante, que pairou, a enervar tudo, uns segundos. Horcio e Tnio voltaram, repentinamente, a cabea para a escurido do abrigo. Parecia-lhes que aquele golpe de luz lhes havia ferido os olhos, que o raio havia cado nas suas prprias pupilas, trespassando-as como um punhal em brasa. Logo se deu, por cima deles, uma exploso de catstrofe csmica, que fez estremecer a terra transida e ps tudo a vibrar, deixando errante na atmosfera um grito humano, lancinante, que vencia o ecoar longnquo do ribombo. Horcio fechou os braos em volta da cabea, receando que as pedras da cabana se desmoronassem sobre o seu corpo.  porta, o "Piloto" ladrava para as nuvens, desesperadamente. De novo, outros relmpagos laceraram a escurido e de novo reboou aquele grito de desespero impotente, de alucinao, um grito de cristal, que dir-se-ia vir das entranhas da rocha e morrer em temerosos desfiladeiros. Receando pelos seus olhos, Horcio descerrou as plpebras. Via. Quedou  escuta, no grande silncio que se fizera no circo, com o "Piloto" subitamente calado, com o cu calado, com o grito morto. Tnio escutava tambm. Nada. Os dois levantaram-se e vieram  rotunda, esquadrinhar, com a vista, as redondezas. O silncio prosseguia, tudo estava 
quieto e parecia
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tambm em expectativa, como eles. S as nuvens, por cima), se moviam, grossas, alvacentas, cada vez mais carregadas. Mas j o "Piloto", dando gozo  ccuriosidade, arrastava a perna e ia meter a cabea naporta do ltimo abrigo. Horcio e Tnio caminharam para ali e, ao assomar  abertura, viram, l dentro, estendido no cho, um garotelho de olhos vidrados, to inchados de pavor que dir-se-iam fora das rbitas e prestes a rebentar. -.Eh, rapaz! Que fazes a? No respondeu. Continuava a olh-los com aqueles seus olhos esbugalhados, como se no os visse nem os ouvisse. Mas todo ele tremia e uma baba escura sujava-lhe a boca.
- Foste tu que gritaste? Continuou calado.
-  alma do diabo, tu no sabes falar? Devia ter nove, dez anos, estava vestidito de
remendos e continuava a tremer. Fez um esforo, viu-se que queria dizer alguma coisa, mas ficou sem palavra. Horcio entrou e, ento, deu conta de que era uma dessas crianas que os pais mandavam pastorear seu gadito por silvedos, valados e caminhos dos derredores da vila, como a ele, outrora, quando pequeno. Por detrs do garoto, na escuridade, estavam cinco ovelhas, muito juntas, de cabeas encostadas umas s outras.
Horcio levantou o corpito e conduziu-o para a beira do rio. Tnio reconheceu-o:
-  o mais novo do tio Avelino. Molharam-lhe a testa vrias vezes e continuaram
a falar-lhe, no desejo de lhe colher resposta. Ele continuava mudo, mas o espanto ia-se levitando dos olhos arregalados e a excitao diminua. Horcio sentou-o e ofereceu-lhe do seu po. Ele no lhe pegou. As suas pupilas adquiriram outra expresso,
mas volviam-se numa consulta de medo, para o Cntaro Magro, para a gigantesca mole que atraa os
raios.
- Porque diabo vieste para aqui?
A vozita saiu-lhe difcil, ainda entrecortada de tremuras:
- As ovelhas vieram andando... L em baixo tinham pouco que comer... Depois veio a trovoada...
- Parece-me que tambm eu te conheo... Ontem, quando fui tomar a camioneta, tu no ias para a escola?
- Ia, sim, senhor.
- E ento no foste hoje?
- O meu pai precisou do meu irmo para o campo e eu vim no lugar dele...
A chuva desabara, finalmente. Horcio e Tnio, com o pastorito entre eles, correram para a caseta onde haviam estado e nela se recolheram. O "Piloto" sentara-se  porta, com o focinho de fora, muito quieto, a olhar,
-'As minhas ovelhas...-murmurou o garoto.
Horcio tranquilizou-o:
-.Deixa l as ovelhas... Elas no fogem... E c est o co para os lobos...
O pequeno sorriu e aceitou o naco de po.
Tnio enervava-se com aquela presena.
- Se queres ir, vai... - disse-lhe. Mas j Horcio protestava:
- No! Isso no! Ia-se molhar todo e, daqui a pouco, estava outra vez com medo.
Cada vez mais contrariado, Tnio renunciou a insistir.
A chuva, que comeara por bagos gordos e raros, transformara-se, rapidamente, em grossas cordas lquidas. E prosseguia, ininterrupta, meia hora, uma hora, num dilvio, enquanto Tnio ia falando de coisas vagas e Horcio lhe respondia tambm monotonamente. Perto deles, o Zzere, ainda to pequenito ao atravessar a alfombra da rotunda, crescera
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num instante, transbordava atravs dos magotes de juncos e urzes das margens e regougava, adquirindo subitamente voz de adulto ao despenhar-se na sada do grande circo.
Por fim, o cu principiou a clarear. Tnio voltou-se para o garoto antes mesmo de a chuva acabar de todo:
- J podes ir s tuas ovelhas...
O pastorito levantou-se e, timidamente, sem dizer palavra, saiu.
Tnio sentiu-se aliviado por ter vencido aquela primeira dificuldade. Deixou o silncio correr alguns momentos e, depois, lanou:
- H pouco no me disseste porque voltaste para o servio do meu pai antes de casares...
- Resolvi adiar o casamento...
- Porqu?
Horcio encolheu os ombros, de novo mal-humorado.
- Foi por falta de meios? - insistiu Tnio.
- Por que havia de ser?
Tnio ficou calado, como se meditasse. Abriu o seu alforge, tirou po e queijo e ps-se a mastigar.
- No comes?
- No. Ainda no tenho vontade.
O "Piloto" voltara-se para eles, de olhos pedinches. Em frente da casinhola, sob a aba de uma laje, estava o rebanho de Valadares, com o "Lanzudo" ao p. Tnio chamou o seu co. E entre este e o "Piloto" dividiu quanto po lhe sobejava. Depois disse, olhando para a chuva rala, miudinha, que subsistia:
- Talvez eu saiba como podes arranjar dinheiro. ..
Horcio voltou-se, surpreendido, para ele:
- Como?
Tnio no respondeu logo. Olhou novamente atravs da chuva e ps-se a mastigar com mais rapidez,
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para desimpedir a boca. Sentia, ao seu lado, a ansiedade de Horcio, mas ele prprio hesitava, agora, em falar daquilo.
- Bem... Eu no sei se deva dizer-te... Mas, enfim... tu s quase como meu irmo... Mudou o tom de voz: - Tu juras que no contars nada a ningum, mesmo que no queiras fazer o que eu te disser?
Horcio olhava-o, espantado. Tnio baixara a vista e aguardava.
- Homem, est bem, juro! De que se trata?
Tnio parecia vacilar ainda. Ia tirando, lentamente, as migalhas que lhe haviam ficado coladas na ponta dos dedos e contemplando os dedos, como se neles se encontrasse o seu segredo.
- Eu tenho confiana em ti... -murmurou.- Sim, eu penso que tu no eras capaz de dizer fosse o que fosse que me pudesse fazer mal... No  verdade?
Horcio estava impaciente:
- Podes falar  vontade! E, demais a mais, para eu ganhar dinheiro!
- uma coisa simples... A questo  tu quereres. com as florestas... Em volta de Manteigas j no h um nico pasto, como sabes. Todas as encostas esto cheias de florestas do Governo e no se vem seno rvores. O povo, se quer manter o seu gado, tem de andar lguas e lguas e ir para os picotos da serra, para os infernos. E se, ao passar nas canadas, as ovelhas ou as cabras entram, mesmo contra nossa vontade, numa floresta zs! vem logo uma multa. Ainda o ano passado apanhei uma sem ter nenhuma culpa. De duas notas, deram-me de volta dez mil ris. Imagina: cento e noventa mil ris sem um homem ser culpado. O meu pai ficou furioso! Ao senhor Vasco sucedeu a mesma coisa. O rebanho dele ia para as bandas do Poo do Inferno, quando apareceu um guarda e bumba!- passa para c duzentos mil ris. O senhor Vasco meteu
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empenhos para no pagar, mas foi o mesmo do que nada. Ento ele foi aos arames! No por mor do dinheiro, est claro, que o dinheiro no lhe fazia falta, mas porque tomou aquilo como uma desconsiderao para um homem to importante como ele.
- No sabia que o senhor Vasco tinha, agora, um rebanho.
- Teve, mas j no tem. Comprou-o para ajudar o Marcelino. O Marcelino estava rebentado, tinha mesmo de se desfazer das ovelhas, mas os outros pouco lhe davam por elas. Ento o senhor Vasco, com pena dele, comprou-lhas e deixou-o como pastor, como se os bichos fossem ainda do Marcelino. Mas aquilo durou pouco. Quando foi da multa, o senhor Vasco ficou to aborrecido que resolveu vender o gado e no se importar mais com aquilo. Nas outras terras, os rebanhos aumentam de dia para dia; aqui, por causa das florestas, cada vez h menos ovelhas e s aumentam os pinheiros.
Tnio fez uma pausa, para os seus olhos perscrutarem os de Horcio. Depois, continuou:
- Antigamente no era assim. O meu av ainda se lembra de os pastos estarem mesmo ao p da porta. Os pastores tinham queimado as rvores dos tempos antigos e havia ovelhas por toda a parte. Agora  o que se v... Todos se queixam, mas ningum faz nada de jeito. A princpio, ainda algum pastor ia deitando fogo onde podia... Mas depois que h a Torre de S. Loureno, com um homem, a vigiar, l do alto, as florestas e a telefonar c para baixo mal v um pouco de fumo, j no h fogo que pegue a valer...
Horcio sabia aquilo, ouvia falar daquilo, quase com as mesmas palavras, desde criana.
- Est certo -interrompeu.- Mas que tem isso que ver com eu ganhar dinheiro?
Tnio disse, lentamente:
- Se eu puser fogo em dois ou trs lugares na mesma tarde, eles no podem acudir a toda a parte.
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Acodem ao que virem primeiro. Mas o primeiro seria s para os chamar para l. O segundo  que seria a srio. Trs ou quatro homens lanavam fogo, de ponta a ponta, a uma floresta e, com vento de feio, aquilo ia num instante. Quando os outros voltassem do primeiro incndio, alm de estarem cansados, j seria tarde. Um fogo seguido, ningum o podia apagar... E, no ano seguinte, j haveria pastos com fartura e tenrinhos perto da vila. Com duas ou trs florestas queimadas, cada qual podia criar mais ovelhas. At uma vez, antes da multa, o senhor Vasco tinha dito que se no fosse a falta de pastos ele teria um grande rebanho. Como ele tem de comprar l para a fbrica, ficava-lhe tudo em casa. Os outros industriais dizem que no vale a pena para eles terem ovelhas, mas o senhor Vasco no pensa assim...
Em Horcio desaparecera o entusiasmo inicial:
- Ento eu seria um dos que...
- Se quisesses. Receberias cinco notas da primeira vez. E mais cinco de cada vez, se se tornasse a fazer.
- E quem paga? Tnio titubeou:
- Bem... Algum paga. No importa saber agora. Eu mesmo te entregaria o dinheiro.
-  o teu pai?
- No, que ideia!
- Ento  o senhor Vasco...
- Nem o meu pai nem o senhor Vasco tm nada com isso! E no so para aqui chamados protestou Tnio.-  escusado quereres adivinhar quem , que no acertas. E eu no posso dizer mais. O que preciso saber  se aceitas ou no.
Horcio no respondeu logo. De dentro do abrigo os seus olhos iam seguindo, abstractamente, o pastorito que, com um ramo na mo, atrs das suas cinco ovelhas, regressava a Manteigas, sob os ltimos chuviscos.
- Quinhentos mil ris  quanto devo a teu pai. No vou, por isso, arriscar-me a dar com os ossos na cadeia...
- Mas quem te disse que tu ias para a cadeia? Est tudo bem pensado. E, depois, toda a gente de Manteigas nos encobria, se fosse preciso.  uma coisa para o bem de todos. Todos tm o mesmo interesse. De vez em quando, aparece um fogo na serra e ningum pode garantir que  fogo posto...
- Est bem... Est bem... No digo que no. Mas eu no tenho ovelhas e por cinco notas no vou arriscar-me. E olha l: no dizem' que as florestas fazem bem  lavoura, que trazem mais chuvas, que prendem as terras quando h enxurradas e que ainda por cima do quanta lenha se quer? J uma vez ouvi que no haveria campo que se aguentasse  beira do rio, que tudo ficaria cheio de calhaus, se no fossem as florestas.
- Isso dizem os que recebem dinheiro do Governo, para as conservar. Que haviam eles de dizer, se vivem disso?
Horcio comeara a sentir-se menos amigo de Tnio:
- Por que no pes tu sozinho o fogo?
- J te disse que um homem s no faz nada de jeito! Os dos servios florestais vm e apagam logo. Arde meia dzia de pinheiros - e pronto!
- E, ento, quem ia connosco? Tnio voltou a tartamudear:
- So pessoas de confiana... Por ora no posso dizer o nome... Tu depois saberias... S falta um e por isso te falei... Mas se tu no queres -acrescentou, de mau humor-, pacincia!
Ficaram os dois calados. A chuva passara completamente e o rebanho voltara a desunir-se, pastando, tranquilo, sobre a relva.
- Hei-de pensar nisso... -declarou, por fim, Horcio. - Depois te direi. Como s no pino do Vero a coisa pode pegar, ainda temos muito tempo...
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Tambm Tnio sentia esmorecer a sua amizade por Horcio.
- Est bem... Mas no tardes a resolver, porque, se no quiseres, tenho de arranjar outro...
O cu j estava quase lmpido e a luz solar tornava a encher o covo. Tnio ainda se demorou a dar mais pormenores do projecto - coisa certa, que no falhava e no trazia perigo a ningum e, finalmente, levantou-se:
- Vou-me embora! As ovelhas, agora, so cento e dezasseis. E trs cabras. As ferradas e o resto esto nos penedos, ao fundo da malhada,  esquerda de quem olha para Manteigas. O sinal  uma pedra grande e uma pequena, em cima de um graveto. Eu agora por l e levo os queijos... - Ps aos ombros o alforge e a manta, pegou no cajado e no chapu e, hesitante, murmurou:-Adeus...
- Adeus.
Tnio deu alguns passos fora da casota e voltou-se, ainda apreensivo:
- Se eu no tivesse a mesma f em ti que tenho em mim, nunca te diria o que te disse. Portanto, v l...
- Vai descansado. J jurei, que queres mais? Horcio viu Tnio desaparecer no fim do grande
circo e levantou-se tambm. Reuniu as ovelhas e, pouco depois, subia, com elas, a encosta coberta de altas urzes e adustas penedias, que dava para a nave de Santo Antnio, principal pastagem. Pela ltima vez, divisou, na lonjura,  esquerda, l no extremo do compridssimo corredor por onde, remotamente, deslizaram tremendos glaciares e onde, agora, corria o Zzere recm-nascido, a sua pequena vila de Manteigas. Era um trecho apenas, umas pinceladas de branco, vermelho e escuro num fundo verde de campos agricultados e de florestas. Logo ao burgozito se associou outra imagem. E rapidamente Horcio amoleceu de saudades, como se fosse para longe,
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muito longe. "Raio de vida! Ia estar apenas a trs horas de caminho, mas com tantos dias sem ver Idalina, como se estivesse no fim do Mundo."
O rebanho entrou, finalmente, na Nave de Santo Antnio, vasto planalto, ao fundo do qual se levantavam espectaculosos conjuntos ptreos, arestosas lombas que corriam desde a pesada grandeza dos Cntaros at o Espinhao do Co, tudo serrilhado. O Sol vencera as derradeiras placentas que a tempestade deixara no cu e prateava, agora, o verde, muito fresco, da grande manta de cervum que cobria a Nave.
Quando Horcio ali chegou com as ovelhas de Valadares, j outros rebanhos iam rapando a erva, enquanto desgarradas cabras, trepando pelos alcantis prximos, buscavam, para roer, solitrias folhitas. Dispersos, sentados ou de p, os pastores vigiavam, corrigindo com gritos e pedradas, a lenta mas constante deslocao do seu gado. Um ou outro, reconhecendo Horcio, acenava-lhe de longe. E dois deles, o Canholas e o Papagaios, deixando, por momentos, os seus rebanhos, acercaram-se. Como estava, como no estava, como era e no era aquilo da vida militar, depois destas vinham aquelas outras palavras que j comeavam a irrit-lo: "Pensei que ias casar antes de voltares para a serra. Quando casas?"
Horcio respondia de boa cara, mas sentindo uma raiva surda, no sabia porqu, nem para quem. "Parecia que as pessoas no sabiam falar de outra coisa!" Os pncaros petrificados, a grande bacia relvada aberta na sua frente, os zimbros que, mais alm, se lanavam sobre pedras como polvos envolventes, as speras encostas, toda essa brava paisagem das alturas, cheia de corcovas, de ondas, de cristas e de esbarrondadeiros, que constitura, para ele, durante muitos anos, um mundo familiar, aparecia-lhe agora odiosa, sufocante, inimiga da nsia que ele sentia, opressivamente, dentro do seu peito. Reconhecia tudo, at as moitas de urzes que haviam crescido
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durante a sua ausncia,  beira do regato que cortava a Nave; mas via tudo isso com raiva, como se houvesse tido um conflito com tudo quanto o cercava, vegetal, mineral e animal, com o prprio milhano que, no cu agora limpo, traava lentas voltas e que ele desejaria abater com um tiro de escopeta, para vingar-se de alguma coisa.
De longe, por entre o tilintar das campainhas dos rebanhos, veio um som alegre de flauta. Ele distendeu a vista, mais irritado ainda, e descobriu o tocador, mas no pde identific-lo quela distncia.
- Quem ?
-  o Chi-co da Levada - informou o Canholas. Horcio sentia-se afrontado com a alegria que o
outro parecia fruir e tinha, ao mesmo tempo, a sensao de que o haviam roubado. Durante anos ele fora o nico que trouxera uma flauta para a montanha. Os pastores de Manteigas vinham para ali como para um presdio, sem ganas de se divertir, sempre a revezarem-se e sempre a pensar nas temtas e nos trabalhos que os aguardavam na vila. S ele, pastor efectivo, todo o Vero na serra, se entretinha a quebrar o silncio e a solido dos cimos com aquela velha flauta que comprara a um homem de Nespereira e  qual, antes de ir para a tropa, estimava mais do que a um amigo. Agora, porm, a msica que vinha de longe dava-lhe desejos de chorar.
- O Chico, antigamente, no tocava...
- Pois ... - concordou o Canholas. - Toca desde que lhe morreu a mulher. Diz que no pode estar sozinho sem fazer alguma coisa, seno do-lhe muitas saudades dela...
Pouco depois, os outros dois pastores acorriam aos seus rebanhos. Horcio quedou-se sobre uma pedra a mastigar um pedao de po, que a garganta dificilmente deixava passar. Estava, agora, crente de que no errara ao nomear, horas antes, o Valadares e o Vasco Sotomayor. "Era um. deles, ou os
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dois juntos, no havia dvida. Quando encontrara o Valadares no caminho, com ar encavacado, decerto ele vinha de falar no caso ao filho. Por isso, o Tnio, em vez de ir direito da malhada  Nave, com o gado, fora descendo para a banda do Zzere, pois assim fazia companhia ao pai at ao comeo da estrada. Mas ele  que no estava pelos ajustes. Primeiro, havia de falar com Manuel Peixoto. No se ia arriscar a perder a sua liberdade para ser agradvel ao forreta do Valadares. Depois, todas as pessoas que sabiam alguma coisa diziam que as florestas davam cabo do gado, era verdade, mas que, por outro lado, eram boas para o povo. At o vigrio Barradas, h anos quando tinha havido muitos incndios, falara nisso, numa prtica, na missa."
As ovelhas iam avanando e ele acompanhou-as. Tudo aquilo lhe parecia montono, lento, interminvel. Nunca tarde alguma de pastoreio se lhe apresentara to longa. Sentia o tempo como uma vontade fria contrria  sua, contrria quela nsia de que chegasse o dia seguinte, para ele ouvir de Manuel Peixoto a resposta ao pedido que lhe fizera. De quando em quando, a flauta do outro pastor rompia, de sbito, a quietude da montanha, com aqueles sons alegres, curtos, agudos e ele entristecia mais.
Finalmente, o rebanho atingiu o extremo da Nave e volveu. Todos os dias ocorria a mesma coisa. Quando o crepsculo se aproximava, as ovelhas tomavam, espontaneamente, o caminho do lugar onde deviam dormir. Dir-se-ia conhecerem, com preciso de relgio, o tempo de que careciam para alcanar a malhada, antes de a noite cair.
Os rebanhos regressavam a petiscar, aqui, ali, acol, ervita que,  ida, escapara  sua fome. Regressavam lentamente, enchendo de melancolia a serra, com a dolncia das suas campainhas nas derradeiras horas do dia. E sempre, a perturbar a sua msica sempre igual, arrastada e triste, os sons jocosos,
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saltitantes, da flauta do Chico da Levada, a quem morrera a mulher.
 luz do poente, que doirava os pncaros, os pastores seguiam atrs dos rebanhos, como guiados por eles; nos flancos marchavam os ces, uns e outros atentos a que no se tresmalhasse alguma ovelha, pois se alguma quedasse ali seria ceia de lobos. O Chico da Levada vinha atrs de todos e atrs dele estendiam-se as primeiras sombras da noite.
O rebanho de Valadares foi, pouco a pouco, afastando-se dos outros, meteu por entre grupos de fragas e chegou, por fim,  sua malhada. Era um alqueive plano, rodeado de afloramentos de pedra e coberto com excrementos de ovelhas. Por toda a parte onde as florestas do Estado no tinham fechado ao sol lombas e pendores, a crosta verdoenga da montanha apresentava numerosas malhadas semelhantes quela. Algumas, com as formas irregulares de quanta terra fora possvel aproveitar, escondiam-se entre gigantescas famlias de rochedos, enquanto outras pareciam escorregar pelas prprias declividades. Os habitantes dos povoados serranos, vivendo em acanhados vales e as melhores terras na posse de industriais, padres e outros senhores lugarenhos, haviam ido, desde remotas eras, s adustas alturas e, onde descobriram baldio propcio a um punhado de centeio, cavaram-no e regaram-no com o seu suor. Mas o cho era pobre: por baixo dele, a um metro, s vezes ainda menos, jazia a rude ossatura de xisto ou de granito. Por cada ano que dava po, a terra alta tinha de descansar, em esterilidade, um ano ou dois. Assim, perto ou longe de uma searazita, quem a semeara possua sempre, prprio ou arrendado, outro tracto devoluto, o alqueive onde as suas ovelhas vinham dormir, adubando a terra que criaria o po no ano vindoiro.
A malhada de Valadares no era maior do que as dos outros, mas ele contava mais duas nas redondezas.
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Um bardo cercava o trecho a estrumar e nele o rebanho entrou.
O lusco-fusco apardaara j a montanha, comeando a dissolver as formas das suas quebradas e baixios. A flauta do Chico da Levada vinha aproximando-se, cada vez mais, cada vez mais e, por fim, calou-se. Um grande silncio dominou a serra.
Horcio procurou as pedras que indicavam o esconderijo - duas aqui', duas alm, sobre um garaveto, at um dos magotes de rochedos que se erguiam na sua frente. Entre os primeiros e os ltimos vultos granticos, em estreito espao, encontrou uma rima de batatas e os utenslios para fazer o queijo. Pegou em trs grandes latas - trs "ferradas" - e volveu ao bardo. Mas, ao ordenhar, no procedia com a rapidez que mostrava antes de ir para a tropa, uma dzia de apertes em cada bere e logo outras tetas entre os dedos. Parecia-lhe que as prprias ovelhas, to passivas, para ele, outrora, se rebelavam agora contra as suas mos, que haviam perdido o jeito antigo. Contudo, o leite, muito branco l no fundo da vasilha, ia subindo e expulsando lentamente aquela poalha escura com que a noite prxima enchera a ferrada e tudo quanto em volta existia.
Horcio avanava, de ccoras, entre as ovelhas, empurrando para trs de si as que j mungira. Por fim, ordenhou as trs cabras que faziam parte do rebanho e trouxe as ferradas para entre os penedos. Uma ave nocturna passou na escuridade, soltando um agudo pio. Ele levantou os olhos, mas j no a viu. Aquele silncio de terra molhada e altaneira comeara a desagradar-lhe. Dir-se-ia que, em vez de ar, era esse silncio frio que lhe descia para os pulmes, que lhe enchia a boca, o nariz, os ouvidos, que lhe penetrava a prpria pele. Horcio admirava-se de como, outrora, o suportava sem pensar sequer nessa mudez das coisas, nessa solido da noite, habituado quilo, to habituado que, no quartel, o que mais lhe custara, nos primeiros tempos,
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fora dormir com outros soldados, na grande quadra comum. Pensava, agora, que no lhe comprazia nenhuma das duas situaes e que s quando ele trabalhasse numa fbrica e dormisse em sua casa a vida lhe seria apetecvel.
Sentados na sua frente, o "Piloto" e o "Lanzudo" no tiravam os olhos dele. Estavam quedos, mas ansiosos, sabendo que no comeriam sem ele fazer, primeiro, o queijo e sofriam por v-lo com gestos to lentos. Horcio coava o leite, derramando-o das ferradas cheias para uma grande ferrada vazia, na boca da qual estendera um pano. Os ces seguiam-lhe todos os movimentos. Viram-no colocar no leite assim filtrado o pedao de cardo que devia produzir o coalhamento e ficaram mais nervosos. Era a sua hora. Mas ele continuava com uns vagares de arreliar. O "Lanzudo", consciente de seus direitos de molosso, chegou mesmo a estender a cabea para uma das ferradas e a cheirar o leite das cabras, que se destinava apenas a eles trs.
A escuridade aumentara mais. Uma estrela, ainda plida, surgira no cu, para as bandas das Penhas Douradas. Ento Horcio comeou a esfarelar po sobre a ferrada que o "Lanzudo" e o "Piloto" contemplavam, famintos. E quando o po ficou embebido de leite, empurrou a lata para a frente dos ces - renunciando  sua parte.
Os dois companheiros comeram, ruidosos na sua gula, e quedaram, de novo,  espera. Ele fixou a rima de batatas, mas desistiu de as cozer. Abriu o alforge, contentou os bichos com mais po e, lascando um naco para si, cobriu-o de toucinho e ps-se a tasquinh-lo lentamente, de olhos vagueando no cu, agora todo estrelado. Uma voz soou na noite:
- Horcio...
Ele estremeceu. De entre os penedos no via ningum. O "Lanzudo", na sua importncia de grande
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senhor sem medo, limitou-se a olhar para a banda de onde a voz sara; o "Piloto", mais plebeu, ladrou. A voz repetiu:
- Horcio...
Era uma voz discreta, quase tmida, como se tivesse receio de acordar a serra ou de espantar a noite. Horcio conhecia-a, mas no conseguiu identific-la.
- Quem ?
A voz parecia encontrar-se, agora, mais perto:
- Sou eu... O Chico... Onde ests? Horcio saiu do esconderijo e encaminhou-se para
a malhada. A sombra humana esboava-se junto do bardo e, ao divis-lo, acercou-se. As suas palavras tremiam:
- Ento como passaste por l?
- Eu passei bem... Tu, j sei que tiveste um grande desgosto...
No chegou a dizer mais. O Chico da Levada baixara a cabea, cruzara, depois, as mos sobre os olhos e pusera-se a soluar, como se tivesse vindo ali somente para aquilo. Horcio agarrou-o e f-lo sentar-se numa pedra, ao seu lado.
- Tem pacincia, homem! Acontece a toda a gente... Quando morreu a Lusa?
- H trs semanas...-murmurou o Chico da Levada, chorando cada vez mais forte.
Horcio no sabia que dizer. Via a mulher do outro, to nova como ele, de ps de arvola e feies delicadas, usando sempre, mesmo depois de casada, blusas de chita multicolor, na terra em que quase todas as mulheres se vestiam de negro, como se andassem de perptuo luto pela sua prpria vida. Via-a assim, airosa, nas ruelas de Manteigas e lembrava-se de que, muitas vezes, ele mesmo desejara o seu corpo. E, agora, sentia-se sem jeito para encontrar uma palavra de consolo.
- Tu desculpa-me... -disse o Chico da Levada, procurando dominar-se. - No tenho esta noite ningum
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na malhada. Foi a irm do Canholas que me trouxe os acinchos. Ela no podia, j se v, dormir comigo e foi para a malhada do irmo. Assim sozinho, se eu no falasse agora com algum, parece-me que rebentava. Por isso vim. De dia ainda me vou aguentando, mas,  noite, se estou sem companhia,  um tormento. Estou sempre a pensar na que Deus levou e parece-me que a vejo, coitadinha, andar na escurido, sempre em meu redor, como se tivesse pena de mim. Ento, julgo que endoideo!
Horcio continuava a no saber como dar conforto.
- De que morreu ela?
- Ela morreu... nem me quero lembrar! Uma coisa assim! Ela teve uma criana e parecia que tudo ia bem. Aos trs dias, como era a minha vez de tomar conta do gado, vim por a acima. Eu tinha deixado a meio cavar o campito para milho que temos arrendado. Ela, ao quarto dia, levantou-se e andou por casa. Ao quinto, pegou na enxada e foi para o campo acabar aquilo, pois estava a passar o melhor tempo. Quando voltou, tinha muita sede e bebeu gua fria na fonte da Senhora dos Verdes. Logo nessa noite se sentiu mal. E, no dia seguinte, tinha febre. L a comadre disse que muitas mulheres, depois de dar  luz, ficavam com febre - e no lhes acontecia nada. Fizeram umas rezas e queimaram umas ervas, para ver se aquilo passava. Quando eu voltei, vi-a muito mal. Mandei de caminho chamar o doutor, mas j ela estava perdida... Coitadinha, morreu abraada  filha e lanou-me um olhar to triste que, s de pensar nisso, se me parte o corao...
Voltou a soluar.
- Tu o que no devias era andar, agora, na serra, para no estares sozinho...
- Pois era... Tenho pensado muito nisso... A pequenita est com a av e se eu estivesse junto dela talvez me consolasse mais. Mas que vou fazer? Agora s me faltam trs dias para acabar a semana
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que me compete, mas, quando chegar de novo a minha vez, tenho de voltar. Os outros tambm no podem, coitados! Que o meu gado cada vez  menos. Vendi trs cabeas para pagar as despesas do enterro e, na segunda-feira, um lobo deu-me cabo de mais duas...
- Onde? - perguntou Horcio, alarmado.
- Aqui mesmo, ao lado, na malhada do Pimenta. Foi uma noite como a de hoje. Para no estar sozinho, fui ter com o Canholas e a irm dele e o diabo do co seguiu-me... Eu no devia largar o gado, bem sei, mas que queres? Quando voltei e vi o co atrs de mim, tive um pressentimento. Corri para o bardo e ainda vi o bicho fugir... Ainda assim, tive sorte. As ovelhas eram minhas; se fossem dos outros, seria pior, pois perdiam a confiana em mim. - Mudou o tom de voz:-Peo-te que no digas nada disto a ningum. S a ti e ao Canholas eu disse a verdade. Parece que,  noite, depois de falar da Lusa, se falo de como o lobo veio  malhada no posso mentir... Mas aos outros eu contei uma histria que arranjei, se no ainda por cima se riam de mim...
Calou-se. Horcio olhava na direco da malhada do Pimenta, auscultando o grande silncio nocturnal. O Chico da Levada acabou por sentir a mesma preocupao:
- Hoje o co ficou l. Em todo o caso, no me posso fiar nele. No presta para nada. Vou-me embora. .. - disse, mas continuou sentado, sem se mover. Os seus olhos ergueram-se para o cu e demoraram-se como se estivessem a contar estrelas. - Olha l, Horcio! Tu pensas que no outro mundo a nossa alma ter a mesma cara que ns temos c na terra? No deixaremos de ter um corpo igual ao que temos aqui?
Horcio fez um gesto vago.
- No sei. Como posso eu saber?
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Eu queria tornar a ver a Lusa, mal tal qual
ela era antes de morrer. Com a mesma cara, com o mesmo corpo... No como dizem que  uma alma, assim como um fantasma. Se ela estivesse igual ao que era, eu no me importava de morrer tambm.
- Tem juzo! - protestou Horcio. - Tens agora uma filha a criar...
Ele levantou-se vagarosamente.
Pois ... Tenho a pequenita.  isso que me
prende... seno deitava fogo s florestas e depois dava cabo de mim.
Horcio olhou para ele, surpreendido:
- Por conta de quem?
Tambm o Chico o olhava pasmado, vendo sarcasmo na pergunta:
- Por conta de quem, o qu? No percebo...
- Homem, no dizes que deitavas fogo as florestas?
- Pois deitava... E at com quanto petrleo eu arranjasse. Se me vissem, que importava? Antes de me apanharem, j 'eu me teria morto. Se no fossem as florestas, eu andaria com o gado perto de casa e no deixaria que a Lusa fosse para o campo assim to cedo...
- Isso parece-te a ti, agora. Quantas mulheres se levantam ao fim de trs ou quatro dias e trabalham sem que os homens andem longe de casa! A questo  haver preciso.
- Eu c no deixaria a Lusa trabalhar naquelas condies, coitadita! Podes crer que no deixaria... - A voz sara-lhe novamente trmula, enternecida. Durante um momento ele quedou-se em silncio e, depois, comeou a afastar-se lentamente. - At amanh...
Enquanto o Chico da Levada se sumia na noite, Horcio dirigiu-se ao esconderijo, para acabar de fazer o queijo. O leite estava j coalhado. Com ele atestou os acinchos, os arcos de folha que, postos sobre quadrados de madeira, davam  massa lctea
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forma redonda e baixa e pelos seus orificiozitos deixavam o soro escorrer livremente.
Horcio respirou alvio: da sua parte, aquilo estava pronto; na casa do Valadares poriam sal nos queijos e acabariam de prepar-los.
A noite esfriara. Os dois ces 'haviam-se deitado  entrada do bardo e o cu e a terra continuavam cheios de silncio. Horcio escolheu o stio mais propcio e deitou-se tambm no cho, enrolado na sua manta, junto do rebanho. Com o sono arisco, ps-se a divagar: "O Chico da Levada at faria aquilo de graa, porque todos os pastores eram contra as florestas. A ele, ao menos, pagariam quinhentos escudos. Quinhentos escudos no resolviam a sua vida, mas chegariam para ele se ver livre do Valadares." A humidade da terra molestava-lhe a face e Horcio meteu entre a face e a terra o seu alforge. Divagou novamente: "O vigrio no era homem que mentisse. Se lhe dissera aquilo,  porque aquilo era verdade. Mas, com certeza, os pastores antigos no eram iguais aos de hoje, seno os santos e os tais poetas no iam gostar da vida deles."
Adormeceu para acordar, de repelo, a horas altas. O seu ouvido de pegureiro, que dir-se-ia continuar desperto quando o resto do corpo dormia, acusava a quebra do silncio alpestre. Com a ideia nos lobos, Horcio olhou, rapidamente, para o bardo. Mas antes mesmo de divisar os ces deitados, identificou a flauta do Chico da Levada, tocando na noite morta, enquanto rebanhos de nuvens erravam no cu, a pastar as estrelas. Pareceu-lhe que a alma da Lusa tambm andava em volta dele e quis 'mal ao Chico da Levada por t-lo acordado. Voltou a 'adormecer com a flauta ainda a tocar e, quando tornou a si, j para o lado dos Cntaros vadiavam as primeiras claridades do dia. Ainda com o crebro ensonado, Horcio pensou em Manuel Peixoto: "Ia, finalmente, saber a sua resposta!"
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A serra continuava silente, mas, quela hora, por todas as malhadas, nas que se expunham sobre os declives e nas que, entre fragas, s do cu se viam, comeava a faina dos pastores. Horcio pegou nas ferradas e ordenhou, de novo, as ovelhas. Queijou, repetiu as operaes da vspera, as operaes que ele havia de repetir, de manh e  noite, at o fim de Junho, quando os beres secavam. E, tudo pronto, abriu o bardo. De andaina humedecida, e cajado na mo direita, no brao esquerdo uma ferrada com batatas, partiu atrs do rebanho.
As ovelhas, ao princpio de lesto e decidido passo, logo que venceram o fraguedo vizinho da malhada, abrandaram a marcha, pondo o focinho a quanto pasto lhes verdejava. E uma hora aps outra, pelas dez, j ao largo dos Poisos Brancas, Horcio via surgir de todos os desvos da serra, metendo a encostas e plainos, numerosos rebanhos.
A manh pintara-se com as suas melhores cores. Um sol de prata a arder estadeava-se em cu azul e de tanta limpidez, que a grande redoma dir-se-ia mais espaosa do que noutros dias; e a luz matinal, vinda do alto, desquitava a montanha das suas duras linhas, dilua as suas rudezas de outras horas, fazendo branquejar, num transparente flux, o eterno negror dos Cntaros e de quantos brutos penhascais cortavam o passo aos olhos.
Resvs  terra, a louania era maior ainda: os humildes sargaos mostravam-se todos garridos com suas amarelas floritas, as agulhas das giestas estavam enfloradas tambm ao lado de moitas de urzes, sobre cujas brancas flores saltavam ledos insectos. Annimas folhas retinham ainda lgrimas da noite, que o sol, agora, irisava; e as prprias carquejas, rasteiras e speras no seu verde-escuro, dir-se-iam mais verdinhas e macias sob a manh de mil fulgores. As campainhas dos rebanhos iam enebriando com a sua msica a majestade da montanha, enquanto  frente das ovelhas se levantavam, em voos rpidos,
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cotovias e grilos cantadores e esvoaavam bandos de borboletas. Aqui e mais alm e depois novamente, outro cntico surgia, suave, baixinho, ininterrupto, que assim cantavam as ribeiras da serra, correndo para os vales as suas guas frescas, entre grandes pedras que elas arredondavam e macios de abetoiros em flor.
Mas nenhum dos homens que, na montanha, acompanhando rebanhos, esgotavam a melhor parte da sua vida, primariamente vestidos, sumariamente alimentados, trazia esprito vazio de ralaes, alma livre para fruir o esplendor da manh. De expresso resignada, um vago fatalismo nos olhos sombrios, mesmo quando riam, mesmo quando cantarolavam, eles dir-se-iam apartados, por uma velha maldio, dessa alegria de viver que se revelava em seu redor, no voo das aves, no voo dos insectos, no florir dos vegetais e na rtmica toadilha que as guas soltavam na montanha.
De cajado estendido, Horcio correu a deter a marcha do seu rebanho, que metera a terra que lhe era defesa. A montanha estava dividida em vrias zonas de pastoreio cada uma delas reservada a um dos concelhos serranos, pois s assim se conseguira pausa nas bravas discusses 'entre pastores, nas brigas que manchavam de sangue as encumeadas. Murmrio fio de gua, um cordo de rochedos, por vezes uma torrezita de pedras soltas um "talegre" indicavam os extremos de cada rea e transp-los seria desafiar a razo, a clera e o varapau dos pastores da outra banda.
Retidas, as ovelhas de Valadares mostravam-se inquietas e uma e outra, mais afoita e alheia aos acordos humanos, saltava a linha convencional que separava a parte da serra atribuda a Manteigas daquela onde s deviam campear os rebanhos da Aldeia do Carvalho. Com pragas e pedradas, Horcio ia obrigando a recuar as atrevidas, quando viu, finalmente, recortar-se sobre uma lomba a figura de
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Manuel Peixoto. Atrs do seu rebanho, o amigo acercava-se lentamente e, mesmo quando chegou  fala, parecia no ter pressa de o sossegar. Pairou sobre muitas outras coisas e s depois, ante o teimoso silncio com que ele o ouvia, disse:
L falei com o meu irmo... O que tu queres
no  fcil. Mas ele prometeu-me fazer o que puder.  o que eu pensava: alm de haver falta de lugar, tu j passaste da idade. S por muita preciso ou grande cunha eles metem aprendizes com mais de dezasseis anos... O Mateus diz que a lei  assim. Mas desde que ele prometeu, decerto arranja. O patro tem respeito por ele e em ele lhe pedindo, faz-lhe a vontade...
Horcio continuava ansioso:
- E demorar muito, senhor Manuel?
- Isso  que eu no sei. Pode ser uma semana, pode ser meses.  questo de haver vaga ou aumentar muito o trabalho.
O crepsculo, posta a um canto a enxada com que labutara o1 dia inteiro, pessoa da famlia de cada pastor, um filho, um irmo, a maioria das vezes a mulher, empreendia o caminho da serra, com um burro  frente. E, por canadas e atalhos, grimpava dez, doze, mais quilmetros, ora em silncio fatigado, ora soltando cantiga que espairecesse o seu cansao. Todas as encostas eram vencidas 'assim, ao sol poente, por estas isoladas figuras, subindo para as malhadas. Ao chegar, j noite fechada h muito, cada qual descarregava do onagro o po e o conduto que o pegureiro e seus ces comeriam no dia seguinte e os acinchos vazios para os novos queijos a fazer. Depois, rendido da caminhada e do labor dirno, o familiar recm-chegado deitava-se na terra, junto do pastor, at que o tecto celeste, que a ambos cobria, ameaasse clarear. Ento, acomodados sobre o burro os queijos feitos na vspera, os parentes dos ovelheiros abalavam de novo, agora serra abaixo, anda, anda, a toda a pressa, para casa, para a enxada - para outro trabalho.
 malhada de Valadares era um dos filhos deste o Tnio ou o Leandro - que ia l todas as noites. Nunca mais, porm, Tnio voltara a falar a Horcio da sua proposta. Parecia at que evitava referir-se a tudo quanto pudesse record-la. Tambm Horcio no aludia ao caso, embora sentisse, muitas vezes,
que os dois pensavam na mesma coisa, quando, deitados de faces para o cu, na escurido, ficavam calados antes de adormecer. Na manh seguinte, Tnio partia;  noite, vinha o Leandro e os dias iam fluindo e parecendo, a Horcio, sempre iguais, enervantemente iguais, densos de uma monotonia que, para ele, s Manuel Peixoto quebrava ao surgir, com suas ovelhas, na serra. O amigo, porm, dizia-lhe sempre o mesmo: "Que tivesse pacincia, que desse tempo ao tempo."
Horcio sentia-se cada vez mais desventurado. Os outros pastores, porque cada rebanho pertencia a quatro e cinco donos, revezavam-se, de sete em sete dias, no pastoreio enquanto ele ficava sempre ali. Todas as semanas chegavam uns e partiam outros, deixando-lhes a sensao de que a vida, para ele, era mais ruim, de que ele andava ali como um degredado. Os outros viam as mulheres, os filhos, os pais; ele, aparte Manuel Peixoto, no via a ningum que estimasse, pois com Leandro no simpatizava e de Tnio era cada vez menos amigo. Comeara a contar os dias, ansioso de que chegasse o perodo da tosquia, para ele se encontrar, de novo, com Idalina.
As ovelhas haviam j estrumado o primeiro alqueive e dormiam, agora, no segundo. O tempo aquecera. s vezes ainda surdia uma tempestade, com nuvens brancas explodindo em raios e troves, mas isso era coisa que se passava abaixo das cristas da serra, conflito de elementos que os pastores viam, de cima, a deitar grandes sombras sobre os vales, enquanto o cu continuava azul e o Sol a brilhar.
Vrios rebanhos tinham j partido para ser tosquiados, sem que Valadares mandasse dizer que o dele partisse tambm. Mas, uma noite, pelo S. Joo, Tnio trouxe, finalmente, a ordem to desejada: Horcio devia baixar, com as ovelhas, no dia seguinte.
Partiram, os dois ao alvorecer. Tnio conduzia o burro com os ltimos queijos e ele dirigia o rebanho.
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O tempo continuava quente. Tnio comentou o facto e acrescentou:
- At a carqueja j estala debaixo dos ps! O pasto ser cada vez pior...
Ao ladearem a floresta que se estendia desde a Fonte Santa t alm do Poo do Inferno, Tnio comeou a olhar para os pinheiros, de forma demorada, ostensiva. Horcio adivinhou-lhe o intento, mas no disse coisa alguma. Ento, baixando a vista para a terra, Tnio murmurou:
- C em baixo est tudo seco...
Horcio continuou calado. As ovelhas haviam metido a uma canada, tortuosa, estreita, atravancada de pedregulhos, como o leito de um ribeiro; o burro ia. atrs delas e, atrs do burro, os dois homens desciam com dificuldade e em silncio.
Subitamente, Tnio voltou-se:
-J resolveste aquilo?
Horcio respondeu secamente:- No resolvi nada. Arranja outro.
De novo calados, continuaram a descer o spero caminho, fundo regueiro aberto entre a linde da floresta e a terra maninha. Mais abaixo, Tnio lembrou:
- Foi aqui que, no ano passado, me multaram. - E mudou o tom da sua voz: - Se quiseres, recebers, da primeira vez, seis notas...
As ovelhas iam muito apertadas, roando-se os seus corpos uns pelos outros nas curvas da canada. O "Lanzudo" e o "Piloto" acompanhavam o rebanho, mas pela parte de cima, fora do caminho. Por entre os pinheiros j se divisavam o hotel das termas e outras edificaes das Caldas. Horcio tardou a responder.
- Hei-de ver isso...-disse, por fim.
- Mas quando? Est-se a perder o bom tempo!
A voz de Tnio soava, pela primeira vez, a irritao. As ovelhas continuavam a descer. Via-se, agora, o balnerio e a muralha que, ali, subia do Zzere.
- Amanh... o mais tardar depois de amanh.
Nos arredores das Caldas, o rebanho pastou, algum tempo, num campito que Valadares possua ali. Tnio havia partido e, ao meio-dia, Horcio meteu as ovelhas  estrada. Pouco depois via, entre a Senhora dos Verdes e o Outeiro, os dois castanheiros de que Tnio havia falado. J l o esperavam,  sombra das largas frondes, o tio Marrafa, a mais afamada e cara tesoura de Manteigas, e outros tosquiadores. Nas mos de Marrafa cada ovelha dir-se-ia massa inerme, plstica, sem fora nem vontade. Em dois movimentos ele "apernava-as" - amarrava-lhes as quatro patas, sentava-as entre as suas pernas e metia-lhes a tesoura  vizinhana do pescoo. A l, cortada cerce, ia-se arregaando suavemente e descendo em ondas fofas, sem nunca se romper em volta do corpo. De quando em quando, deixava a descoberto, agarrado  pele da ovelha, que nem verruga negra, um repugnante carrapato, outro e outro. Se algum lhe ficava a jeito, Marrafa cortava-o em dois, resoluto. Um derradeiro instinto de defesa animava o parasita, que, embora de cabea decepada, continuava a fugir, largando sangue. Mas nem pelos mutilados, nem pelos inteiros, Marrafa desviava jamais a tesoura de seu caminho. Ele considerava que, em dia de tosquia, as ovelhas pastavam pouco e os carrapatos que elas comiam nas costas umas das outras, logo que tosquiadas, lhes serviam de alimento, pois lhes devolvia o prprio sangue delas.
O velo continuava a descer. A l saa numa nica pea e sem um s esgarce, como um vestido que no fora sequer desabotoado.
A tosquia do rebanho durou dois dias. Na primeira noite, ao p de Idalina, Horcio esqueceu as suas agruras na serra. Tudo isso lhe parecia j mui remoto, como se o instante que ele vivia agora fosse o nico da sua vida e encerrasse todos os destinos do Mundo. Dissera a Idalina que teria um lugar certo
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na Covilh, mais dia, menos dia; ela mostrara-se muito alegre com aquilo e, desta vez, no lamentara ter de sair de Manteigas, logo que casassem. Idalina no lhe fizera perguntas e s abandonara a mo dele, naquele recanto do Eir, submerso no lusco-fusco, quando sentira passos na ruela.
Na segunda noite, vspera de S. Joo, o povo acendera grande fogueira numa praa da vila e, em sua volta, largara a danar, enquanto, no coreto, a banda da freguesia de S. Pedro tocava. Eles danaram tambm e, depois, somaram-se aos ranchos que, em descantes, ao som de pfaros e harmnicas, iam s orvalhadas, para a banda das Caldas. A estrada enchera-se de grupos. A noite estava clida e estrelada. De toda a parte vinham sons musicais e nas termas, em frente do balnerio, haviam acendido outra fogueira.
Horcio foi retardando o passo e deixando os demais distanciarem-se. Depois, com a mo no brao de Idalina, seguiu a estrada que contornava as Caldas, pela parte de cima, em direco  ponte. Quando se sentaram, no havia ningum perto deles. Mas via-se, l. em baixo, a fogueira e os pares que bailavam  sua roda. A noite estava cheia de canes de raparigas e de uma mornido voluptuosa. A terra que sucedia  estrada era em suave declive e eles deixaram-se deslizar. Beijando Idalina e com a mo a acariciar-lhe as mais inflamveis zonas do seu corpo, ele sentia correr, em si, toda a volpia da noite e toda a fome que sofrera a sua carne celibatria, vagueando na soledade da serra, soledada propcia, como a de um crcere,  constante evocao do amor. Mas continha-se. Outras vezes, como agora, ele pudera tentar aquilo, mas sempre se contivera, sob a fora dos vetos tradicionais. Ela seria dele quando casassem.
Estavam deitados, um ao lado do outro, em silncio, a ouvir a noite, as cantigas da noite, a msica que chegava at ali com as canes, vindas l de
baixo. O fulgor da grande fogueira espalhava-se para alm do Zzere e ia doirar, do outro lado, a fmbria da floresta. Ele contemplou, um momento, os pinheiros distantes, de formas mal definidas, e, depois, visionou aquele mesmo claro a ampliar-se, a ampliar-se sempre, a iluminar toda uma encosta do vale, a iluminar a noite, no aquela mas uma outra noite, no aquelas chamas baixas da fogueira, mas outras, altas, muito altas, rompendo de entre os pinhais, com homens de p, lutando contra elas, sudorosos, bronzeados pelo fogo, enquanto ele fugia nas trevas e se ocultava algures, como um lobo. "Seis notas... Pega l. Para outra vez ters outras seis." E, depois, um dia, um guarda em frente dele: "Vem comigo." Quando os seus olhos voltaram  fogueira, estranharam, um segundo, que quem em seu redor andava no estivesse a apag-la e sim a bailar e a cantar, rapazes e raparigas, como eles dois, enlaados na noite de S. Joo. Sentia a Idalina to sua, to pronta a entregar-se a ele, to pronta a esperar por ele, que mais uma vez venceu a tentao de aceitar a proposta que lhe haviam feito. Na manh seguinte, ao tirar o gado das cortes que Valadares possua perto dali, disse Tnio:
- Sobre aquilo, no temos nada feito. Eu no quero.
- Est bem. Ningum te obriga - ripostou Tnio, com um sorriso plido.
Ele voltou para a serra com o rebanho. E ia contente consigo prprio. Arrumara aquela indeciso que o moera muitos dias e, por outro lado, vira e falara  tia Januria sem que ela lhe fizesse observao alguma. Quanto a Idalina, parecia que cada vez gostava mais dele.
S a meio da encosta, com as ovelhas subindo vagarosamente, o seu estado de esprito se alterou. Ao voltar-se para o vale, que se mostrava cheio de sol matinal e cromtico no casaredo, verde na moldura das florestas, todo de uma beleza tranquila,
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lembrou-se de que, nesse dia de S. Joo, ningum trabalhava e entristeceu de repente. "Se no fosse o raio daquele ofcio que ele tinha, estaria tambm na vila e passaria a tarde com Idalina, em vez de andar por ali a rebentar pedras com os ps. E de agora em diante seria sempre pior, pois o Valadares, furioso por ele no lhe fazer a vontade naquilo de deitar fogo, havia de o tomar de ponta."
No mais lhe voltara a satisfao de h pouco. Sentia-se, agora, como antes de descer a Manteigas, com as mesmas impotncias, as mesmas dvidas, o mesmo futuro confuso. "Se Idalina se mostrara assim como se mostrara,  porque ele lhe dera muitas esperanas e pintara tudo cor-de-rosa. Mas ele sabia l quanto tempo teria ainda de passar feito pastor! E se, depois do que dissera, se casava sem mudar de vida, ainda se iam rir  sua custa."
Passou manh e tarde a batalhar consigo prprio, a lutar com quanta ideia contrariava os seus desejos. Esperava topar Manuel Peixoto e desanuviar-se com ele, mas tambm o amigo no sara da sua aldeia nesse dia. Na vastido da serra, s encontrou o Chico da Levada. J no trazia flauta. Estava mais magro e de olhos fundos, fatigados. Falava com voz triste, mas parecia resignado. Agora a sua malhada ficava muito distante da terceira de Valadares - a ltima a estrumar.
 noite, Horcio dormiu sozinho. Porque os bres das ovelhas comeavam a secar, sendo cada vez menos o queijo que o seu leite produzia, somente na noite seguinte Tnio apareceu. No denunciava ressentimento algum. Ao contrrio do que Horcio pensara, ele at parecia mais afvel e mais falador do que tempos antes. Dir-se-ia apenas desejar que no houvesse um momento de silncio entre eles. E, desde essa noite, Tnio voltara a alternar com Leandro nas suas vindas  serra. No ltimo dia do ms, mal chegara, tirou do bolso algumas moedas e disse:
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- Est aqui a tua soldada. O meu pai aumentou-te dez mil ris. E manda dizer que se no quiseres descontar nada, l na dvida, no faz mal...
Horcio quedou-se a olhar para Tnio, sem pegar no dinheiro que ele lhe estendia. Depois, desviou a vista :
- Quero ! Quero descontar toda a soldada, menos vinte mil ris. E d l os meus agradecimentos ao teu pai. Mas se  com medo de que eu diga alguma coisa, escusava de me aumentar... Se eu no valia mais at agora, tambm agora no valho.
Sentira-se, subitamente, forte, ao lembrar-se de que tinha aquele segredo. Ao contrrio, Tnio mostrou-se nervoso:
- . Sempre tens cada ideia ! J te disse que o meu pai no tem nada com o caso e, demais a mais, j se desistiu disso...
As ovelhas deixaram de dar leite. Uma manh, Tnio pusera sobre o burro os utenslios, agora inteis, para fazer queijo, e despedira-se de Horcio at  prxima semana. E porque os alqueives, j estrumados, dispensavam a presena nocturna do gado, os rebanhos de oitenta, noventa, cem cabeas, juntaram-se, como todos os anos, naquela poca, para economizar pastores, em rebanhos de mil e mais ovelhas cada uma delas ostentando, no lombo, a marca do seu dono, letra ou nmero feito com pez e tinta, com "pesgo". Dois pegureiros, acompanhando cada uma das multides de ovelhuns, faziam agora o mesmo trabalho que, antes, exigia dez ou doze.
Valadares era o nico que, por birra antiga com outros proprietrios de gado, no queria reunir as suas ovelhas s dos demais. E, assim, o rebanho dele, que, no comeo do pastoreio, se apresentava o
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maior de todos, tornava-se, de um momento para o outro, o mais pequeno de quantos andavam na serra.
De dia, as ovelhas deambulavam pelos pascigos e, depois, dormiam onde a noite as colhia. Estavam no perodo da cobrio e os carneiros, desenfreados  retaguarda das fmeas, ao recordar a Horcio o acto reprodutivo, exaltavam-lhe os nervos e punham-lhe no crebro e no sangue a imagem de Idalina, como uma sede permanente. A solido tornara-se maior, pois contavam-se pelos dedos os pastores que se divisavam, durante o dia, atrs dos enormes rebanhos. Agora, Tnio s vinha ali aos sbados, trazer po, batatas e toucinho. Entregava aquilo, quedava-se uns minutos a pairar e voltava logo para Manteigas. Horcio pedira-lhe, uma vez, que passasse por sua casa e dissesse  me que lhe enviasse a flauta. Mas quando, na semana seguinte, Tnio lha trouxe, ele lembrou-se da razo porque o Chico da Levada soltava aqueles sons alegres, saltitantes, meio-loucos - e no tocou. Parecia-lhe que tambm ele levava alguma coisa morta dentro do peito e que a flauta se tornara fnebre e lhe daria m sorte.
O seu nico prazer era encontrar-se com Manuel Peixoto. Mas este deixara de aparecer diariamente nos limites de Manteigas. Tinha, agora, mais cabras do que ovelhas e muitos dias pastoreava o seu gado nas encostas prximas da Aldeia do Carvalho. Quando vinha ali, Horcio esperava sempre ouvir-lhe a palavra desejada; muitas vezes, porm, Manuel Peixoto nem sequer se referia ao caso, por no ter novidade alguma a dar-lhe e no estar a repetir o que j lhe havia dito.
Ao morrer de Julho, a serra voltou a mostrar copiosas presenas humanas. As famlias dos pastores e os pastores que no andavam de guarda s ovelhas, haviam subido do vale  montanha, para ceifar as searas. Por todas as encostas e mesmo nos plainos cimeiros viam-se, nessa poca, pequenas e isoladas manchas amarelas, contrastando, num so
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berbo efeito, com o verdor da serra onde elas se exibiam. Era o centeio maduro aguardando a foice dos que o semearam. Homens e mulheres chegavam, com seus burros, e lanavam-se  tarefa, em vrios dias de canseiras e noites dormidas ao relento. Sega, sega, quando a messe estava por terra, transportavam as gavelas para a mais prxima rocha que brindasse lisa superfcie e ali as malhavam. Existiam pobres to pobres que mesmo esse fraco cho altaneiro, outrora baldio e  merc de quem o quisesse ocupar, tinham de tom-lo de arrendamento aos descendentes daqueles, mais felizes, que para si o haviam chamado a tempo. Assim, colhido o gro, eles comeavam logo a medi-la, pondo de banda o que competia ao dono do terreno, consoante a quantidade obtida. Depois, o que restava era, de novo, dividido, uma parte destinada ao po desse ano, outra  seara do ano vindoiro. A semente j no saa dali. Cavada a terra que acabava de frutificar e quedaria em descanso, a comer os seus restolhos, homens e mulheres, em fins de Agosto, antes de volver definitivamente ao vale, dobravam-se sobre as malhadas que haviam ficado um ano inteiro em poisio e semeavam-nas.
Durante essas manhs de Vero, a serra adquiria vida diferente da habitual. Daqui, dali, de messes e alqueives ocultos entre penedos, elevavam-se vozes, rudos do trabalho, muitas vezes cantigas que voavam para longe, quebrando o silncio da montanha.
Desejoso de convvio que metesse pausa nas apoquentaes que o roam, Horcio encaminhava o rebanho, todas as tardes, para a vizinhana dos homens e mulheres que ceifavam ou malhavam. Era sempre perto de uma das improvisadas eiras ou de seara a abater que as ovelhas agora dormiam. E enquanto no se punham todos de ventre para o cu, derreados pela labuta diurna, ele ia parolando com um e outro, tudo gente conhecida, desde o Fataunos,
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com quem, em pequeno, jogava o pio, ao Serafim Caador, amigo de seus pais.
Uma noite, noite de claridade estival, estavam j para se deitar, quando a Josefa, mulher do Canholas, descobriu que, para as bandas de Manteigas, o cu apresentava outra cor.
-  um fogo, no ?
Todos olharam na direco apontada e nenhum deles teve dvidas. Mas aquilo pareceu-lhes coisa de pouca monta, um desses fogarus que, num e noutro Vero, se ateavam ningum sabia como e para apagar os quais os guardas da floresta bastavam. S Horcio ficara calado e atento. Pouco depois, o que era, de incio, dbil fulgor, alastrara e tornara-se enorme claro, que ia aumentando mais e mais a cada instante.
- Ena, que  um grande fogo! - exclamou Serafim Caador.
-  por riba das Caldas... No lhes parece? - perguntou Canholas, apertando o cs das calas, que ele j havia desabotoado para se deitar.
-Deve ser... - respondeu-lhe a mulher. - E, com este ventinho, vai levar tudo a eito, at a estrada.
- Isso  que  preciso! -disse, por detrs de um dos penedos, uma voz cansada, na qual Horcio reconheceu a do velho Jernimo Latc'eiro. - Deus queira que no fique uma s rvore!
De todas as searas e restolhos prximos surgiam outras figuras e os comentrios prosseguiam. As copas da floresta que se estendia na frente deles no lhes permitiam ver seno aquele imenso claro, sempre maior, a doirar a noite, a doirar o cu por cima do vale, do vale que mal se adivinhava ao longe. Ento, uns atrs dos outros, todos correram para o pncaro que se erguia  direita. E l se quedaram, um momento, em silncio, a contemplar as cristas das chamas, cada vez mais numerosas e mais extensas, na vertente oposta.
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- No h dvida,  por riba das Caldas. A mata ali no  grande, mas pode pegar  outra - admitiu algum.
- Qual pode pegar! J pegou,  que !
Houve novo silncio. Vieram mais homens e mulheres ofegantes. Quase todos sentiam desejos de intervir e mediam mentalmente a distncia que os separava do incndio e o tempo que levariam a chegar l. Alguns, de ouvido mais sensvel, captavam os sons longnquos dos sinos de S, Pedro e de Santa Maria, tocando, a rebate, em Manteigas. Para esses, aquilo era como um aguilho, picando-os, impelindo-os para a outra encosta.
- Com- quase toda a gente na serra, no h quem lhe acuda a valer... -voltou um deles a murmurar.
Ningum respondeu. Mas,  parte o tio Jernimo Latoeiro, todos os outros se sentiam empuxados por esse antigo e quase instintivo sentimento de solidariedade que, ao surgir um incndio na terra onde no havia bombeiros, levava as classes populares da vila, velhos e novos, homens e mulheres, a sair de suas casas com panelas, cntaros, ferradas e quantos outros recipientes pudessem transportar gua e a dispararem para a casa que ardia - fosse ela a de um inimigo.
Agora, de todos os pendores e cumes que cercavam Manteigas, desde ali s Penhas Douradas, ao Campo Romano,  Fraga da Batalha, mais longe ainda, as famlias pobres da vila, que haviam subido  montanha para colher o seu po, olhavam o enorme incndio e sentiam, antes mesmo de raciocinar, a nsia de correr a extingui-lo.
- E se ns fssemos l ? - props Serafim Caador, mesmo ao lado de Horcio.
O velho Jernimo bradou, indignado:
- Vocs sois uns estpidos! Uns estpidos chapados! Porque estamos aqui? Porque  que no temos terras de centeio e pastos junto de casa? - E voltando-se para o Serafim. Caador: - Anda!
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Responde!-Como todos se mantivessem calados, acrescentou: - O que vos falta  juzo! Juzo, juzo,  o que vos falta!
O silncio continuava. A voz do tio Jernimo adquirira um tom de monlogo:
- No estava mal a coisa, no... Para termos um selamim de po,  o que se v! E as ovelhas, onde esto elas agora? Com tantas terras que havia mesmo ao p da vila! Agora temos de dormir ao relento, se queremos ter alguma ovelha ou algum po. E ainda vocs querem acudir! Que o diabo leve todas as florestas! Todas! Quando vocs forem velhos e comearem a berrar com dores de reumatismo, como eu, pelas noites que tive de passar fora de casa, j no pensam assim...
Todos pensavam como ele. Mas, ao mesmo tempo, todos se sentiam atrados pelo incndio. Serafim Caador volveu:
- Vossemec, por um lado, tem razo; mas, por outro lado...
No concluiu a frase, no encontrou claro argumento para a completar. Mas tambm no era preciso. Todos sentiam que havia um "outro lado", que nunca lhes tinha sido explicado suficientemente, at os convencer, um "outro lado" que era contra os seus interesses de pastores e de pequenos agricultores das encumeadas, mas que existia, fosse em benefcio da agricultura do vale, como os doutores diziam, fossem quais fossem as razes.
- Qual por outro lado, qual carapua! -gritou, de novo, o tio Jernimo Latoeiro. - O que ns todos somos  uns molengos, se no h muito que as florestas tinham acabado.  ver como os pastores antigos faziam! Sempre que podiam -zs!-, pegavam-lhes fogo!
Uma outra figura apareceu. Vinha esbaforida e mal descortinou, de sobre a ptrea iminncia, a rea incendiada, comeou a carpir-se, desesperadamente:
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- Ai, meu Deus, que perco tudo! O fogo est perto das minhas courelas e vai dar cabo das videiras que tanto trabalho me custaram!
Parecia alucinado. Olhou, de novo, o incndio, que lanava, cada vez, maior claro no cu e abalou, a correr, por entre os penhascos. Os outros no hesitaram mais e seguiram-no, correndo tambm. S ficaram ali o tio Jernimo, o Chico da Levada, Horcio e duas mulheres.
- Scia de burros! - exclamou, com desprezo, o velho. E, depois, ruminando a sua discordncia, calou-se como os demais.
Horcio continuava a contemplar o incndio e tinha um sorriso frio ao pensar no seu patro: "Agora ele compreendia porque Valadares no viera ainda nem mandara os filhos ceifar o seu centeio. No havia dvida, estivera  espera de um dia em que o vento trabalhasse por conta dele."
O Chico da Levada sentara-se ao lado do tio Jernimo, pusera os cotovelos sobre os joelhos, a cara entre as mos e parecia dormitar. As duas mulheres caminharam para a malhada mais prxima. Horcio afastou-se tambm e foi deitar-se junto do rebanho.
Manh nascida, ele voltou ali. Os homens no tinham ainda regressado e l longe havia, agora, em vez de labaredas, uns tnues rolitos de fumo. Horcio calculou a parte da floresta que fora destruda e concluiu ter sido mais pequena do que ele julgara de noite e muito menor do que, decerto, Valadares queria. Esta ideia deu-lhe sbito prazer. E, assobiando, abalou com as ovelhas para a sua andadura quotidiana.
No sbado, ao trazer-lhe os mantimentos, Tnio comeou a falar, sem parana, de muitas coisas, como sempre que no desejava falar de uma coisa determinada
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Depois, sentindo que, apesar disso, o silncio se intrometia com ele, dada a teimosa mudez de Horcio, perguntou de repente:
- Viste o fogo do outro dia?
- Vi.
- Tu pensaste logo que fui eu ou mais algum comigo... Dize l: no pensaste?
Horcio no respondeu.
- Com certeza que pensaste - insistiu Tnilo. - To certinho como eu estar aqui. Pois enganas-te! Eu no tive nada com isso. Aquilo de que te falei, ps-se de parte, como j uma vez te disse... -Ao ver em Horcio um sorriso incrdulo, ajuntou: - No acreditas, estou mesmo a ver... Pois podes acreditar! No ia fazer assim uma coisa to mal feita como aquela. No reparaste que o fogo foi s num stio, em vez de ser em dois ou trs, como eu tinha dito? Assim, o povo e os homens dos servios florestais s tiveram de correr para uma banda e deram cabo daquilo.
Horcio objectou, matreiro:
- Ouvi dizer que o fogo pegou logo muito forte...
- Pegou. Mas c para mim no foi fogo posto, como alguns querem crer. Com tanta gente para baixo e para cima, por mor de colher o po, deitaram, sem dar por isso, alguma ponta de cigarro... E o vento  que fez o resto. Tem acontecido muitas vezes.
Horcio olhava-o fixamente e pensava, irritado: "s esperto, mas a mim no me enganas tu."
Parecia que Tnio adivinhara o seu pensamento:
- Demais a mais, no valia a pena -disse.- Os servios florestais mandavam, pela certa, semear outras rvores...
Ento Horcio perguntou, de mau humor:
- Quando  que vocs vm apanhar o centeio?
- Para a semana. Temos estado a ver se o meu irmo melhora e...
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- O Leandro est doente? - interrompeu Horcio.
- Est. H j uma porrada de dias. O doutor Couto tem andado a v-lo. Parece que ele tem maleitas. Mas o meu pai j perdeu as esperanas de ele sarar a tempo de vir c acima e vai mandar um jornaleiro comigo...
Efectivamente, na semana seguinte, Tnio apareceu, no com um, mas com dois auxiliares, nas searas que o pai tinha na montanha. Ceifaram, malharam, cavaram os restolhos e volveram a Manteigas. Em fins de Agosto, tornaram ali, para semear os alqueives do ano anterior. E, quando partiram definitivamente, a serra voltou ao seu silncio. Terminara a faina agrcola nas alturas; todas as famlias haviam j regressado  terra baixa. Agora s se viam, na montanha, os ovelheiros pastoreando os grandes rebanhos.
A inquietao de Horcio tinha-se agravado. Ele desesperava-se diariamente. "Se Manuel Peixoto no lhe arranjasse lugar na fbrica, que ao menos chegasse Outubro para ele abandonar a serra, pois, l em baixo, sempre passaria alguns dias com Idalina, enquanto no fosse levar o gado  Idanha." Mas Outubro ainda estava longe e o tempo parecia decorrer cada vez com maior lentido. Horcio acabara por vencer a fnebre repugnncia que lhe causava a flauta e comeara a soprar-lhe nas horas de mais intenso enervamento.
Em Setembro, seguindo o velho costume, o gado foi, de novo, apartado. Vieram os donos das ovelhas que se haviam reunido em enormes rebanhos e, pelos sinais pintados nos lombos, cada qual foi separando as suas, que era a poca de se lhes aproveitar outra vez o esterco.
Novamente a serra se cobriria de pequenas ovelhadas. E cada grupo, com um. s pastor, como o rebanho de Valadares, voltava a dormir em ponto
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certo, para deitar a primeira adubadela  terra que, esse ano, criara centeio.
Por fim, Outubro chegou. Os cimos arrefeceram, as noites tornaram-se longas e, muitas vezes, durante elas, as chuvadas molhavam os pastores sob as prprias lapas onde se abrigavam. Era o tempo de partirem, mas eles iam resistindo, porque ali sempre o gado encontrava umas folhitas, ao passo que em Manteigas e noutros povoados da montanha os pastos eram raros ou custavam rios de dinheiro. O primeiro a despedir-se de Horcio foi Manuel Peixoto: "Que ficasse tranquilo, que assim que ele soubesse alguma coisa mandava-lhe um recado a Manteigas." Depois, foi o Canholas com o seu rebanho. Logo abalaram outros, que cada vez havia mais nevoeiros e mais chuvas na serra. Um dia, Horcio no divisou, desde que sara da malhada, ao alvorecer, at chegar, pela tarde,  Nave de Santo Antnio um nico rebanho alm do que ele conduzia. Havia, agora, um frio perene, o sol raramente rompia o cu plmbeo e a montanha adquirira, no seu abandono, uma rude severidade, to forte, to spera, que o seu prprio silncio dir-se-ia agressivo. S de longe a longe se via um insecto e as aves j no voavam, numerosas e lacres, como antes, por cima de sargaos e torgas. Os prprios lobos, sempre no rasto dos rebanhos, tinham-se ido acercando das povoaes, onde seria mais fcil obter carnia. A vida animal abandonava a montanha, que se preparava para entrar no Inverno com uma trgica desolao, at que a neve a transfigurasse.
Horcio indignava-se porque Valadares tardava em mandar dizer que ele descesse com o gado. "O patro no tinha nenhuma considerao por ele. Aquilo parecia mesmo de propsito. J no tempo da tosquia fizera o mesmo. Mas se ele quisesse falar, j no seria assim..."
Um dia, porm, Tnio apareceu na Nave. No trazia o burro desta feita e nem um cajado nas mos.
Auxiliou Horcio a encaminhar o rebanho para Manteigas e, ao fim da tarde, as ovelhas entravam nas suas cortes, perto das Caldas, perto da erva que Valadares semeara entre o milho e, agora, cortado este, lhes servia por alguns dias de pastagem.
  noite, Horcio dizia a Idalina, vencendo as ltimas indecises que o haviam tolhido at ali:
- O lugar que me prometeram est a demorar e eu no quero empatar-te mais tempo. Se eu no o tiver at ao fim do ano, casamo-nos mesmo assim.
Fez um silncio e, depois, perguntou:
- Ficas contente?
- O que tu quiseres, est bem. O Valadares disse  tua me que te aumentara a soldada. Mas se for preciso esperar mais, eu espero...
- Aumentou-me a soldada! Olha o aumento! Com dez mil ris a mais no se remedeia nada!
- Ento...? - inquiriu ela, timidamente.
- Tenho de me arranjar de outra maneira... Ele falava em tomn decidido, mas, na alma, ia-lhe
grande confrangimento. Pouco antes, caminhando para ali, sentira-se vexado, ao lembrar-se de que, pela tosquia, havia dita a Idalina que entraria em breve para uma fbrica da Covilh e no entrara. Pusera-se, ento, a esmiuar as mais pequenas possibilidades da sua vida. Conclura que, em Dezembro, estaria quite com Valadares e, vendendo as quatro borregas a que tinha direito, lhe sobrariam alguns mil ris. "Esse dinheiro -pensou- no chegaria sequer para aquilo que o senhor vigrio costumava levar por um casamento; mas ele pediria um novo emprstimo ao Valadares, um conto ou um conto e quinhentos, que, depois, pagaria quando pudesse. O Valadares no lhe ia dizer que no. Fossem ou no fossem o Tnio e o Leandro que, a mando do pai, tivessem deitado aquele fogo, o certo  que tinham querido deitar um ainda maior - sabia-o ele muito bem. Ele no diria nada, j se v; jurara que no diria e no diria; mas o Valadares havia sempre
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de ter medo de que ele desse com, a lngua nos dentes. E, decerto, emprestaria o dinheiro e esperaria o tempo que fosse preciso. Era claro que a vida deles, depois de casados, seria uma misria, porque ele no era homem que ficasse a dever nada a ningum e muito menos ao Valadares... Seria trabalhar para o po de cada dia e para pagar a dvida. Mais nada. Mas j que tinha de ser pronto, acabara-se!"
Agora, depois de haver resolvido assim, sentia o corao oprimido ao pensar que se lhe ia a casita que ele sonhara.
Ao seu lado e alheia  sua luta ntima, Idalina estava contente. Notando a alegria que havia nos olhos dela, Horcio enervou-se:
- O que eu fizer,  por ti que o fao, compreendes?  para que no estejas mais tempo  espera... Pois eu terei de continuar com o gado...
Ela ouviu aquilo, entendeu ser aquilo natural e continuou contente:
- No faz mal... Depois, a gente combina com o Valadares e, em vez de serem os filhos dele, sou eu que vou l, todos os dias, buscar os queijos e ver-te... E arrendamos umas terras, para as batatas... E a casa... -Hesitou, como se voltasse a si, aps ter-se distrado: - Ento tu desistes da casa nova?
Horcio quis falar com a mesma deciso de h pouco, mas no pde. As palavras saam-lhe vacilantes e num tom de angstia:
-'No... Quer dizer... depois veremos...
Ela contemplou-o um momento e, em seguida, baixou a vista. Perdera a sua alegria e as lgrimas vinham-lhe aos olhos.
- Assim no quero... - disse. - Se tu fazes isso s por mim, contra a tua vontade, no quero!
Ele sentia-se, agora, melhor - sentia-se melhor desde que tambm ela sofria. E logo lhe surgiu o desejo de consol-la:
- No  s por ti ; tambm  por mim. Mas no digas nada a ningum por ora. Se tiveres de dizer  tua me, que ela guarde segredo...
No dia seguinte, Idalina comunicou-lhe:
- A minha me acha bem o que tu resolveste. Ela diz que vamos acabar o que falta para o enxoval, pois j estava quase todo pronto quando tu voltaste da vida militar...
Ele interrompeu-a:
-  melhor esperar mais um pouco... Eu ainda no perdi a esperana... O Manuel Peixoto prometeu-me e s se o irmo dele no puder  que no far...
Encontrava-se com estado de esprito diferente do da vspera, sem aquela sensao de vexame que sentira ao ver Idalina aps os meses que estivera ausente.
-   melhor esperarmos mais algum tempo. . . - repetiu.
Passaram-se vrios dias, passaram-se semanas e Manuel Peixoto no enviara notcia alguma. Os dois pastores que haviam ido  Idanha, como todos os anos, arrendar pastagens para o Inverno, tinham regressado h muito. Novembro avanava e, com o frio, cada vez mais forte. J cara neve na Torre e nas Penhas e as ervagens de Manteigas estavam esgotadas. Era a poca em. que, anualmente, se iniciava a transumncia, levando-se o gado para longnquas campinas, onde a invernia se fizesse sentir menos. O primeiro rebanho a abalar, para a viagem de cinco, seis dias, que tanto exigia a caminhada dali at  Idanha, fora o do Oanholas, com ovelhas de mais quatro pastores. Outros partiram depois e, por fim, o de Valadares, o do velho Jernimo Latoeiro, o do Aniceto e o da tia Lueiana largaram
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tambm, num s grupo, para poupar condutores. Eram quase trezentas ovelhas, brancas e negras, mosaico que cobria toda a largueza da estrada, a caminho da terra baixa.  frente e aos lados, mantinham guarda o "Lanzudo" e outros ces, menos o "Piloto", que fora considerado dbil para a longa jornada. Atrs marchavam Horcio, o Tnio, o Aniceto, o Libnio, filho do tio Jernimo, e um burro por cada homem. Os onagros transportavam bardos e ferradas; e os seus alforges, com alimentos no fundo, guardavam espao para recolha de cordeiros que dessem em nascer, como sempre acontecia, durante o trnsito. As ovelhas ora marchavam lestas e muito juntas no seu passo curto, se gritos ou pedradas a isso as impeliam; ora abriam clareiras no rebanho e cortavam  esquerda e  direita,  cata de pasto vizinho da estrada. s vezes, os seus focinhos orientavam-se para folhagem que tinha dono sempre pronto a barafustar contra as ladras; e, por mor dessas queixas e at de multas policiais, outras pedras e outros berros caam sobre as famintas, que retomavam o caminho, na esperana de serem, alm, mais felizes. Por Belmonte, Caria e Capinha, elas iam seguindo o seu destino, dormindo onde a noite tombava, longe dos povoados, que nas redondezas destes a cama era-lhes proibida, e levantando-se mal clareava o cu, para continuarem a marcha, sempre com os ces  testa e nos flancos, sempre com os burros  cauda e, atrs dos burros, os homens. E brancas e negras, sem outro rudo que o marulho dos seus passos e rebeldes somente quando alguma folhita verde, to humilde como elas, se debruava na estrada, a desafiar-lhes o apetite, as ovelhas acumulavam gratido no esprito de Horcio e de seus parceiros por nenhuma haver ainda parido. Ao terceiro dia, porm, a "Farrusca", que pertencia a Aniceto e exibia barriga redonda que nem pipa, deu em balir.
- J c fazia falta! - exclamou Tnio.
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Aniceto no gostou de que fosse sua a causadora do mau humor do companheiro; mas logo, pelo andar dos bichos, o seu olho esperto assinalou que, mesmo se a "Farrusca" no existisse, algumas ovelhas de Valadares obrigariam, em breve, o rebanho a deter-se. E sentiu-se vingado.
Estavam entre um desfiladeiro que se abria, quase a prumo,  direita da estrada, e uma vasta propriedade, com muro branco, que se erguia  esquerda. Os quatro homens comearam, ento, a apressar o rebanho, enxota, grita e apedreja, para que a forada paragem se desse ao menos em stio de algum pascigo. Mas a "Farrusca", j com dores, deitou-se por terra, alheia  fome das demais.
- Rais te parta! -praguejou Aniceto. E, metendo-lhe os braos por debaixo do corpo, ergueu-a e ps-se a correr com ela na estrada. Mas adiante do muro branco havia outro prdio e outro e outro. O rebanho j ficara para trs e Aniceto continuava a correria. Contra o seu peito a ovelha pernejava e estorcia-se. "Rais te parta! Podias esperar que chegssemos  Idanha! Rais te parta a ti e aos donos destas terras! Raios vos partam!" - ia ele murmurando. Ao mesmo tempo sentia ternura por ela, ao pensar nas dores que estaria sofrendo.
Por fim, lobrigou, junto de pequena ponte, um pinhal sem vedao, com alguns sargaos e chamias  beira da estrada. Aquilo pareceu-lhe pssimo, mas no havia tempo para escolher. Pousou a ovelha, acendeu um cigarro e sentou-se numa pedra, junto do bicho. A "Farrusca" contorcia-se, agora, violentamente. Aniceto ia tirando fumaas e lanando-lhe, de quando em quando, uma olhadela. A bexiga de gua aparecera e rebentara. O sexo dilatava-se e a ovelha continuava a contorcer-se.
O rebanho aproximou-se. Horcio avanou e cortou-lhe o caminho, postando-se  entrada da ponte. As ovelhas, indiferentes  sorte da "Farrusca", passaram junto dela e espalharam-se na linde do pinhal.
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- Como vai isso? - perguntou Tnio.
- Regular.
Silenciosa, a "Farrusca" prosseguia nas suas contores, ora de olhos fechados, ora apresentando-os cheios de nvoa, como se fosse morrer. Logo, duas patitas seguidas por tenra cabecita se mostraram  vista de Aniceto. O corpo veio depois, de jacto, como se um aude de sangue se houvesse rompido. A ovelha quedou-se ainda uns momentos estendida, a respirar docemente. Tambm Aniceto sentia alvio e melhor respirao. Mas j a "Farrusca" se levantava, levando as preas dependuradas do sexo, como tripas cheias de bolitas sangrentas. Num instante, ela cortara, com os dentes, o cordo umbilical e, lambe, lambe, pusera-se a assear o filho. A sua lngua ia colhendo e mandando para o estmago todas as viscosas imundcies que ele trouxera da madre. E com tal af o fazia, que o cordeirito, mal se sustendo ainda nas pernas, cambaleava frequentes vezes sob esse frenesi materno. O seu olhar morno vagueava, inocentemente, no mundo onde ele acabava de entrar. Era a estrada, eram os pinheiros  esquerda, uns sobreiros junto da ponte, umas alminhas no princpio do caminho que ali perto desembocava. Ele no fixava coisa alguma, como se tudo isso fosse indigno da pureza de seus olhos cndidos, feitos para contemplar uma paisagem celeste. s vezes arriscava um passo e logo a "Farrusca" avanava tambm, sempre a lamb-lo. As outras ovelhas, dispersas ao longo das valetas e no comeo do pinhal, iam devorando quanta folha propcia se lhes deparava.
Entretanto, Horcio, Tnio e Libnio conversavam e riam em grupo. Fora o Tnio quem contara a histria que os fizera gargalhar e, agora, preparava-se para soltar outra.
- Ouve l, que esta  boa!-disse ele para Aniceto, desejando obter tambm o prmio do seu riso.
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O entremez era longo. Todos os homens estavam atentos, risonhos, gulosos do desfecho. Aniceto esquecera a "Farrusca" e o seu anho. Tnio sentia-se lisonjeado pela ateno dos companheiros e prosseguia na anedota. Antes mesmo de acabar, j todos os outros gargalhavam.
Libnio ria ainda quando os seus olhos divisaram aquilo. Perante o alarme que ele deu, Aniceto voltou-se e correu, aflitivamente, para a "Farrusca". J era, porm, tarde. A ovelha, na nsia de enxugar a barriga do filho, comeara a roer-lhe o cordo umbilical. Aquilo parecia-lhe a mais e quanto mais o puxava, quanto mais o roa, mais comprido ficava. O cordeirito debatia-se, tentava escapar-se, empregando as primeiras foras da sua vida para libertar-se das dores que o esmero da me lhe causava. Mas a "Farrusca", obstinada no trabalho, continuava a prend-lo, a esvazi-lo por aquela fita quente, gomosa, sangrenta, que ligava o seu ventre  boca materna. Quando Aniceto acudiu, ainda ele estava de p, mas pouco depois tombava, vencido. No lugar do cordo, havia, agora, tripas.
Os trs homens juntaram-se em volta de Aniceto, comentando e lamentando o sucedido. Ele no dizia palavra e odiava a Tnio e  ovelha. "Se no fosse Tnio t-lo distrado -pensou, com raiva- aquilo no se daria. Ele j sabia que a "Farrusca" era assim, pois no ltimo ano chegara a roer o rabo do filho. Ao Valadares, borrego a mais ou a menos no fazia diferena; mas a ele, que era pobre, que tinha s aquelas trinta cabeas, aquilo fazia-lhe muita falta."
O rebanho voltou a caminhar. Os homens iam, agora, silenciosos, a capa mui chegada ao pescoo, o chapeiro enterrado at s orelhas, sob o sol que no conseguia anular o frio.
Ao atravessar a ponte, a "Farrusca" comeara a balir pelo filho - e Aniceto irritou-se ainda mais.
Pouco depois, detiveram-se de novo. Mas a paragem 
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foi curta. A ovelha do tio Jernmo, que se deitara na valeta, s demorara um quarto de hora a aliviar-se. E o cordeiro, logo que se vira limpo, pusera-se a seguir a me, com suas pernitas tontas, muito abertas para fora. Do acto no ficara ali seno um pouco de terra humedecida de sangue, porque o "Lanzudo" voltara atrs e devorara, num instante, as preas e mais membranas que haviam acompanhado o nascimento.
A marcha do rebanho continuou. Antes do pr do Sol, os homens comearam a inspeccionar as margens da estrada, em busca de abrigo para a noite invernal. Horcio falava de umas lapas onde dormira uma vez, mas no se lembrava se estavam muito perto, se ainda longe. Por fim, encontraram-nas. Era um grupo de rochedos com algumas cavidades naturais, ao p de um matorral e de um fio de gua. Acampados, com os burros a pastarem em derredor e as ovelhas famlicas a no quererem entrar no bardo que lhes haviam armado, Aniceto acendeu, entre trs pedras, uma fogueira e sobre ela ps a sua ferrada. Depois, sacou do alforge o filho da "Farrusca" e principiou a esfol-lo.
Libnio, ao passar junto dele, cuspiu para o cho:
- Vais comer isso?
Aquele "isso" estava cheio de repugnncia. Aniceto no respondeu. Levantou-se e, agarrando pelo pescoo o cordeiro j sem pele, foi lav-lo no regato, Ao voltar, viu Horcio, Tnio e Libnio ajoelhados junto de uma ovelha,  entrada do bardo. Ele aproximou-se com o cadver do filho da "Farrusca" na mo. Adivinhou o que se estava passando e soltou as suas primeiras palavras desde que a "Farrusca" havia morto o filho:
- O que h?
-O borrego est atravessado - respondeu Tnio.
Aniceto verificou que era uma ovelha do Valadares e, pela primeira vez nesse dia, sentiu-se feliz.
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O sexo do bicho mostrava-se semiaberto e sangrento, abaulado e de pelecas muito retezadas. Tnio e Libnio seguravam a ovelha, que se contorcia desesperadamente, e Horcio tentava introduzir os dedos, para encarreirar o anho na direco normal. Mestre nesses frequentes transes, Aniceto via que s a muito custo me e filho poderiam salvar-se - e assistia, calado e contente.
- No  preciso que eu ajude? - perguntou, sabendo que no era preciso.
- No - respondeu Horcio, que j tinha as mos cheias de sangue.
A noite descia. Aniceto voltou para junto da fogueira, cortou em pedaos o cordeirito e p-lo dentro da ferrada. Na gua fervente, os tassalhos iam e vinham, mostrando-se e escondendo-se. Aniceto ora seguia essa emerso e submerso do seu prejuzo, ora olhava para os companheiros ajoelhados em redor da ovelha. Aquilo demorava. Ele conhecia todos os gestos necessrios na circunstncia e ia acompanhando, mentalmente, o parto tormentoso. s vezes parecia-lhe que a ovelha j estava perdida, mas logo compreendia que ainda existiam esperanas.
Finalmente, viu os trs pastores pegarem nos alforges e dirigirem-se ao regato, para lavar as mos. Escurecera e ele s tornou a v-los nitidamente quando se aproximaram da fogueira. Todos eles vinham j mastigando o seu po e o seu conduto.
- Que tal?
Foi Tnio quem respondeu:
- Deu-nos um trabalho dos diabos, mas salvmo-la.
Aniceto agarrou-se  ltima hiptese consoladora:
- E o borrego?
Tambm l est, vivo.Os trs sentaram-se em volta do fogo. Os ces estavam ao lado, engolindo o po que Tnio e Libnio
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lhes atiravam. "Burro de sorte, o Valadares" - remoeu Aniceto. E desatou, ento, a falar, a falar de outra coisa, para que no adivinhassem o seu despeito. Depois, afastou a ferrada do lume, escorreu-a e ofereceu o cordeiro aos demais. Ningum queria. Aniceto principiou a mastigar. De tenra, a carne desfazia-se-lhe na boca. E estava insossa, que ele se esquecera de lhe pr sal. Dois anos antes ele comera, com outros pastores, um borrego do Canholas, morto nas mesmas condies. Ningum ia deitar fora o bicho e todos haviam gostado. Mas, agora, tambm a ele aquilo causava asco. Os ces, sentados em frente, olhavam-no com ateno. Ele esforava-se por comer, mas a garganta fechava-se-lhe. Adivinhando o sorriso de Tnio e de Litonio, teimou ainda. A boca repelia a carne e a garganta apertava-se mais. Subitamente, Aniceto ergueu-se e deu um pontap na ferrada. Os ces acorreram logo, enquanto ele, levando a manta e os alforges, se dirigia, sem palavra, para um buraco dos rochedos.
Os outros seguiram-no, com a vista. Depois, Tnio ps-se a rir:
- Como ficaria ele se, em vez do anho, tivesse morrido a ovelha?
Libnio riu tambm. Repentinamente, Horcio sentiu pena de Aniceto.
A fogueira morria e a noite gelava cada vez mais. Os trs levantaram-se e foram deitar-se na mesma cavidade onde Aniceto se estendera.
De manh, tudo branco, tudo coberto de geada, enrolaram o bardo e puseram-se, outra vez, a caminho. Havia um novo cordeirito, mas to inteiriado pelo frio, que foi preciso met-lo num alforge. As prprias capas dos homens estavam endurecidas e o orvalho congelado, que penetrara na terra solta, estalava sob as botifarras.
Anda agora, pra logo, torna a andar, torna a parar, por mor de novas parturies, o rebanho acercava-se de Pedrgo, sempre com mais cabeas.
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Algumas ovelhas caminhavam arrastando ainda as preas, outras mostravam no sexo um globo sangrento, como uma bola de sabo vermelha. ODos anhos recm-nascidos, alguns, como o de Libnio, contavam logo com as pernas e marchavam atrs do todo, mui tmidos, desajeitados e mimosos. Outros, porm, apresentavam-se to dbeis, que os alforges dos burros se iam enchendo com os seus corpitos. E, no dia seguinte, nas redondezas de Proena-a-Nova, j s havia lugar nos alforges dos homens. Tnio resmungava:
- Algum nos rogou uma praga! J vamos atrasados dois dias e estes demnios no acabam de parir!
- Ora! Ora! O ano passado pariram muitas mais! Tu  que no vieste - disse Aniceto, de modo consolador. Ele, agora, estava resignado. Na vspera, trs outras ovelhas suas haviam parido tambm, filhos e mes caminhavam sem precalo e ele habituara-se j  perda que a "Farrusca" lhe dera.
Finalmente, ao stimo dia, vencida a estrada imensa, cruzando vales, grimpando serras, os condutores do rebanho transumante, todos sujos, cara negra de barba, corpos esgotados pela andana, viram, ao longe, as campinas da Idanha, seu ltimo objectivo.
Horcio levava, s costas, uma ovelha doente. Libnio conduzia outra. E Tnio e Aniceto, que marchavam leveiros, em breve os revezariam no transporte dos animais. Dos alforges de todos eles saam cabeas de borreguinhos. Iam oito ali, outros oito sobre os burros, que avanavam lentamente, cansados tambm. Os ces levavam a lngua de fora. E todos os do desfile pastoril caminhavam esfomeados, todos menos os anhos que iam por seu p e mamavam nas mes sempre que lhes apetecia.
As crianas,  porta das casas pobres erguidas  beira da estrada, viam passar os cordeiros em cima dos burros, com as ternas cabecitas a sair dos alforjes,
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 como se fossem numa janela andante, e achavam aquilo bonito.
Mais adiante, outra criana, que era rica, mimada, caprichosa, e estava, com a me, no terrao de uma moradia nova, pediu:
- Mam, d-me aquele carneirinho que tem as orelhas esticadas...
- Est >bem; logo to dou.
Mas ao ver que a me no fazia movimento algum e, entretanto, o cordeirito se ia afastando, metido no alforge, a criana comeou a chorar e a bater com 'as mozitas fechadas sobre a balaustrada do terrao:
- Eu quero o carneirinho! Eu quero o carneirinho que tem as orelhas esticadas!
J na plancie, prestes a confiarem o rebanho aos trs pastores que ali guardariam, durante o Inverno inteiro, todo o gado de Manteigas, Horcio viu correr ao seu encontro o Chico da Levada. Desde longe fazia-lhe grandes gestos e, ao acercar-se, disse-lhe:
- Parece que vocs nunca mais vinham! Andei de camioneta e de comboio para chegar depressa e, afinal, estou aqui parado desde ontem,  tua espera!
- Mas o que  que h?
O Chico da Levada mal respirava:
- A tua me manda dizer-te que o Manuel Peixoto te arranjou um lugar na fbrica e que tu deves voltar j para casa. Ela quis escrever-te, mas como no tens aqui direco, teve medo de no receberes a carta e mandou-me a mim. O recado do Peixoto foi j h (trs dias...
Com uma expresso alvar, Horcio pousou na terra a ovelha que trazia s costas. Depois, bruscamente, atirou fora o seu cajado de pastor, deu um salto, abriu os braos e abraou o Chico da Levada.
SEGUNDA PARTE
COM o seu ba, as suas saudades de Idalina e nutrida confiana no futuro, Horcio acomodou-se em casa de um fiandeiro - o Ricardo Soares. Nela no havia maior espao, nem menor nmero de crianas do que nas dos outros operrios a quem Manuel Peixoto em vo falara para lhe darem albergue; mas Ricardo e a mulher, considerando que podiam colher daquilo algum provento, decidiram aceit-lo como hspede.
A porta exterior do casebre ligava com a escada do sobrado uma s diviso com pequena janela aberta no granito. Ali dormia Antero, o filho mais velho de Ricardo, que tambm, j 'andava nas fbricas como apartador; e foi ao lado da sua cama que armaram outra para Horcio.
Em baixo, junto do nascimento dos degraus, havia uma porta interior e, por ela, se passava para os dois trres compartimentos. O primeiro, era cozinha e quarto do casal e de seus filhos menores; o segundo, um cubculo escuro, ocupava-o a me de Ricardo, octogenria de todo surda e quase cega. Quem estava em baixo ouvia os passos de quem andava em cima e quem estava em cima apreendia todos os rudos que se produziam em baixo.
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Horcio viera para ali na vspera de entrar na fbrica e logo nessa primeira noite o molestara a permeabilidade que o soalho oferecia ao som. Fora, primeiro, a voz de Jlia, berrando aos filhos que tardavam a aquietar-se; fora, depois, o ressonar da velha, ora pesado, ora estrdulo; fora, por fim, quando o silncio se fizera longo, aquele leve ranger de cama, aqueles movimentos que ele adivinhava serem cautelosos, aqueles sussurros mal sufocados que o seu ouvido captava, trazidos pela noite, envoltos em imagens lbricas.
Horcio percebia que Antero se encontrava tambm acordado, embora simulasse dormir, para que o hspede no soubesse que ele ouvia, igualmente, o surdo rumor materno.
Muitas vezes, em sua prpria casa, quando era ainda garoto, Horcio escutara essas mesmas inconfidncias da noite. E ficava descontente com os pais. Agora, porm, ele sentia uma perturbao diferente. A mulher de Ricardo, que, de tarde, lhe parecera ludra e feia, apresentava-se-lhe, na escuridade, com fascinaes irresistveis. Ele via-a, em baixo, j esgotada nos braos do marido e via-a, simultaneamente, ao seu lado, a enfebrec-lo, a domin-lo completamente. Ele queria resistir-lhe e no podia, porque a presena de Jlia no seu crebro era mais forte do que a vontade dele. E acabara tendo-a imaginariamente, evitando qualquer rumorejo que o denunciasse ao filho dela, que fingia dormir ao seu lado. Ao findar da noite, foi ainda a voz de Jlia a primeira que ele ouviu na casa. O marido respondia-lhe com tom sonolento, mal-humorado. Horcio sentia os passos da mulher l em baixo, o acender do lume, a colocao da panela na cadeia e ia acompanhando, mentalmente, a figura de Jlia na tarefa domstica, iniciada mesmo antes de o dia nascer. O soalho deixava passar uns leves fumos de carqueja e de razes de torga, que se lhe metiam nas narinas, imcomodamente. Antero dormia agora, a todo o pano.
Ele estava tambm com sono, porque, ainda inadaptado ao meio e com toda a excitao da noite, mal conseguira pregar os olhos. E j ia perder de novo o entendimento, quando ouviu trs fortes pancadas no soalho. Jlia devia bater com a ponta de uma vara ou cabo de vassoura e no confiava, decerto, no primeiro aviso, porque repetiu as pancadas.
Uma vaga claridade comeava a entrar pelas frinchas do janelico. Antero saltou da cama, acendeu o coto de uma vela e, sem dizer palavra, vestiu-se apressadamente. Ele levantou-se tambm. Mas ainda no havia enfiado as calas e j o outro corria escada abaixo.
Horcio ouviu a voz de Jlia deter o filho, com um tom de estranheza, quando ele abria a porta da rua:
- Ento hoje no tomas nada?
Antero resmungou uma palavra ininteligvel e fechou, atrs de si, a porta.
Agora, Horcio ouvia, tambm, os passos e a voz de Ricardo. O fiandeiro dialogava com a mulher e, em seguida, os dois comearam a falar em surdina, como se temessem ser ouvidos por ele. Pouco depois, Jlia gritou do fundo da escada:
- J est pronto? Pode vir comer o caldo.
Horcio desceu e entrou no quarto cozinha. Ricardo estava sentado  mesa, esperando-o. Era um homem muito magro e moreno, de quarenta anos bem puxados e melanclica expresso. Horcio saudou-o e sentou-se tambm. Em frente de seus olhos ficava a cama do casal, de cobertores revolvidos, e, do outro lado, a cama de quatro crianas, que dormiam ainda, com os braos fora da roupa. Num. bero encontrava-se o filho mais pequeno, de cara para baixo, deixando ver apenas a cabecita de cabelo ainda ralo. Agora, a claridade do dia nascente golfava-se pelo postigo que havia numa das paredes da casa.
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Jlia pusera diante de Horcio uma tigela com sopa e outra junto do marido. Os dois principiaram a comer. Horcio sentia-se constrangido, j por falta de intimidade com o casal, j pela participao que tivera nos segredos da noite. Constantemente, procurava afastar os seus olhos da cama vazia e do corpo de Jlia, que perdera, de novo, o seu efmero interesse nocturno. A cama teimava, porm, em atrair-lhe a vista e em lembrar-lhe a brusca sada de Antero. "O rapaz tinha razo pensou Horcio. Ele, no seu lugar, tambm no ficaria satisfeito.  o que tinham aquelas casas. Mas a sua no seria assim."
Ricardo engolia, apressadamente, o caldo.
-  j tarde! - disse. - No podemos perder tempo!
Era, sobretudo, Ricardo e essa espcie de secreta e promscua sociedade que tivera com ele, que molestavam Horcio. Mas Ricardo preocupava-se, apenas, com a hora de entrar na fbrica:
- Vamos!
Os dois saram, cada qual levando num cesto o almoo que Jlia preparara. O sol no nascera ainda nessa manh de Novembro. E um vento frio e seco fustigava-lhes a pele.
Na estrada, caminhavam muitos outros operrios, em direco  Covilh: homens de faces quase ocultas nas golas erguidas de velhos sobretudos; mulheres muito embrulhadas nos xailes escuros e garotos de doze, catorze anos, vestidos com remendadas roupas e uma das mozitas metida no bolso, enquanto a outra segurava o cesto da comida. Todos marchavam lestamente, que a entrada nas fbricas era s oito menos cinco e se chegassem um minuto depois poderia ser-lhes descontada uma hora no salrio.
H muito tempo que os cabeos e encostas dos subrbios da Covilh viam, de manh, aquelas filas negras de cardadores, penteadores, fiandeiros, urdideiras
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e teceles avanarem para o trabalho, houvesse sol ou chuva, poeira ou lama nos caminhos. Todos os mestres da indstria txtil da Covilh tinham ali, a servi-los, dinastias de operrios, os pais metendo, em cada gerao, os filhos nas fbricas, mal estes iniciavam o trnsito da infncia para a adolescncia. E os novos pareciam herdar dos velhos, por via do prprio sangue, a arte de transformar em tecidos os velos das ls.
Companheiro de raras falas, Ricardo deixara Horcio acertar o passo pelo seu e caminhava em silncio. O frio, a pressa e o sono que a maioria ainda tinha, faziam com que os outros pouco falassem tambm. Os vultos negros, isolados ou em grupos, iam avanando na estrada branca com uma nica preocupao chegar! chegar!
Quando atingiram o alto de onde se avista a Carpinteira, com suas fbricas ribeirinhas, Horcio viu, no declive oposto, outras centenas de negros vultos que desciam da Covilh para o trabalho. Nessa altura, as sereias fabris deram o primeiro sinal. Horcio ia apreensivo e simultaneamente curioso sobre a sua iniciao. A cada passo, porm, brotavam-lhe, de entre as preocupaes, quentes esperanas, nessa manh que marcava novo perodo da sua vida.
Em frente do casaro de Azevedo de Sousa pareceu-lhe que, de sbito, ficava desamparado. Ricardo, que trabalhava noutra fbrica, despedira-se simplesmente, como se ele j estivesse habituado quilo:
->At logo.
Horcio deteve-se junto do largo porto. Operrios vindos da Covilh passavam ao seu lado e entravam. No conhecia nenhum deles. E, no meio de tanta gente, sentia-se sozinho. Decidiu avanar atrs dos outros. O porto dava para uma calada, ao fim da qual se erguia a fbrica. Ele procurava, ansiosamente, com os olhos, o Mateus, irmo de Manuel Peixoto, mas no o via em parte alguma. Os operrios desapareciam, agora, por uma das portas da
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fbrica e ele entrou tambm, timidamente. Mateus estava, l, metido num fato-macaco, aberto em cima, para deixar ver a camisa com gravata. Tinha o tipo de soldado de cavalaria, forte, alto, espadado. Era muito mais novo do que o irmo e, agora, Horcio descobria nos seus olhos uma expresso de mando que no lhe descortinara na antevspera, quando lhe falara na companhia de Manuel Peixoto.
- Bom dia! -respondeu Mateus  sua saudao.- Venha comigo.
Atravessaram as instalaes trreas e subiram uma escada para o andar superior. L do fundo vinham operrios, uns j sem sobretudo, outros com casacos mais velhos do que aqueles com que haviam entrado. E cada qual ia-se colocando ao lado de uma das muitas mquinas que, em vrias filas, enchiam a fbrica.
Mateus deteve-se junto das "self-actings" as carruagens de fiao.
- Voc, como lhe disse anteontem, comea por aprendiz de pegador de fios.  por aqui que um bom operrio deve principiar. -E chamando o encarregado da fiao, que passava ao lado deles: - Olha l,  Sampaio: este  o rapaz de quem te falei. Coloca-o a, em qualquer carro.
Sampaio olhou para Horcio, olhou, em seguida, para as oito mquinas e pareceu hesitar. Por fim, disse:
- Est bem. Eu tenho agora que fazer, mas volto j. Pode ficar aqui. - E dirigindo-se a um dos rapazes que se encontravam junto da primeira mquina: -  tio Pedro, este aprendiz fica contigo.
O jovem pegador de fios olhou Horcio de alto a baixo e no disse nada. Entretanto, Mateus e Sampaio retiravam-se. No foi grato a Horcio esse rpido exame visual que o seu novo companheiro lhe fizera, mas j a sereia soltava o ltimo apito e, instantaneamente, as mquinas comearam a funcionar em toda a fbrica.
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As carruagens de fiao eram uns maquinismos compridos e baixos, dos quais uma parte, cheia de fusos e com rodas deslizando sobre frreos trilhos, ora se acercava, ora se afastava da outra parte, num contnuo movimento de abrir e fechar. No espao, que se alargava ou encolhia entre a seco fixa e a seco mvel, quando esta recuava ou avanava, havia sempre centenas de fios muito juntos e paralelos, que a mquina ia estirando e torcendo. Quatro rapazes acompanhavam, correndo, esse vem-e-vai da carruagem, olhos atentos e mos lestas sobre os fios que se partiam, para lig-los de novo, sem paragem do conjunto. A correr tambm com a sua mquina e como que levado por ela, Pedro deixara Horcio especado na coxia que separava as "self-actings" dos aparelhos de penteao. Assim isolado, ele sentia-se ali a mais, inepto, incerto no gesto a tomar, sem saber que fazer dos braos e onde pousar os olhos. Das penteadeiras, um robusto operrio contemplava-o com sarcasmo e enviava olhares irnicos a outro companheiro, como se lhe perguntasse: "Quem  aquele grandalho, que aparece agora aqui?" Pouco depois, Horcio verificava, tambm, que os garotos pegadores de fios, aprendizes como ele, que acompanhavam as correrias das mquinas, volviam, de quando em quando, as suas cabeas, miravam-no, assim quedo indeciso, e sorriam entre eles. Vexado, adivinhava que esses risos tinham por causa a sua idade, ali onde raros vinham aprender o ofcio aps os doze e cada vez se sentia mais deslocado no meio estranho. O prprio Pedro, j operrio feito, era, sem dvida, mais novo do que ele.
Por fim, Sampaio voltou. Chamou-o e levou-o para a seco fixa da mquina. No era hbito de Sampaio gastar seu tempo a ensinar os garotos que entravam ali como aprendizes de pegadores de fios. Confiava-os aos operrios e eles que fossem aprendendo por si prprios, um ms aps outro ms, um
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ano a seguir a outro ano. Fora assim que ele aprendera tambm, no tempo em que ainda se trabalhava de sol-nado a sol-posto. E muitas bofetadas apanhara, coisa que hoje j no se dava. Mas tendo em conta a idade de Horcio e pensando que Mateus, por isso mesmo, lhe atribura um salrio maior do que o dos outros aprendizes, decidira proceder diferentemente.
- Isto  simples -disse, pondo-se atrs da mquina, na "bancada". - Aqui, est o desengrosso, estas bobinas cheias de mecha. Estas mechas parecem fitas de l, mas no esto torcidas. Se lhe mexssemos muito, desfaziam-se. Agora veja... Elas passam por acol e a mquina vai desengrossando-as. Est vendo? O carro, quando recua, estira-as, porque as pontas esto amarradas nos fusos que o carro tem. E assim elas vo ficando cada vez mais finas. Olhe agora... Quando o carro chega ao fim, os fusos rodam e torcem o fio. Compreendeu?
Horcio no ousou responder afirmativamente. Sampaio fez um gesto de impacincia:
- Venha comigo! Aproximou-se dos carros e mandou parar um. - Est a ver como ?
A voz de Horcio soou, timidamente:
- Estou... Estou...
- Bem! O principal, por agora,  aprender a pegar fios. O resto aprende com o tempo.
Sampaio estendeu a mo e quebrou um dos fios:
- Veja. A pegadura faz-se assim: ligam-se as duas pontas do fio partido e torce-se, num instante. Depois, a mquina acaba de torcer. No fio cardado, d-se um n, mas neste, que  penteado, o n no  preciso. Basta fazer como eu fiz. -E voltando-se para Pedro:- Podes seguir!
O carro tornou a andar. Nas suas idas e vindas partiam-se vrios fios. Os operrios e os aprendizes ligavam-nos rapidamente, mesmo com a mquina em movimento.
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- Veja agora como se faz.  assim que tem de fazer. V! Ponha-se ao lado de Pedro! -E dirigindo-se a este, com um gesto de forada resignao, Sampaio concluiu: - Vai-o ensinando. Tem pacincia. ..
Horcio comeou a correr, tambm, atrs do carro. Aquele "tem pacincia" quedara-se-lhe nos ouvidos humilhantemente.
Trs horas passadas, ele conseguia ligar o primeiro fio sem deter o carro. Pedro dissera-lhe: "Est bem,  assim mesmo. Mas  preciso fazer a pegadura ainda mais depressa." Pouco depois, ele repetia o acto com outro fio que se partira. Pedro no fizera observao alguma. Ento, o seu optimismo volvera e com ele a sua confiana no futuro, uma confiana que brotava, espontnea, no de longo raciocnio, mas de secretas, obscuras foras da sua juventude.
 hora do almoo, foi ainda junto de Pedro que ele se sentou, no refeitrio, para comer o caldo, o po e as sardinhas que Jlia havia metido no cesto. Outros operrios mais idosos iam falando, enquanto mastigavam, de um companheiro que fora despedido- o Paredes. Todos se lhe referiam com simpatia, lamentando o seu destino. Mas, pelas prprias palavras que ouvia, pareceu a Horcio que eles no diziam tudo quanto pensavam, como se ali houvesse presena que os trasse. O mais impetuoso era o Tramagal, o penteador que o fixara sarcasticamente quando ele ficara isolado, de manh, ao p das mquinas. No meio dos seus indignados comentrios, dirigia sempre a Horcio um vesgo olhar. Algum afirmava agora:
- Isso de o despedirem por ele ter faltado, durante o ano, quatro dias sem justificao,  uma desculpa. Despediram-no porque estava velho. J no dava grande rendimento. A mesma coisa ho-de fazer a mim...
Horcio olhou o operrio que assim falava. Era um homem de cabelo j muito ralo e embranquecido,
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olhos encovados e dois nicos dentes rompendo de sob o lbio superior.
- A mim e a todos ns, quando no pudermos dar mais - repetiu.
Houve um pequeno silncio. Algumas bocas deixaram de mastigar o seu po. Mas j Tramagal garantia:
- O Paredes era, ainda, um bom operrio. Ningum conhecia uma penteadeira ou uma "Jntersecting" como ele. Nisso ningum lhe levava a palma. Ele no fez outra coisa na sua vida seno trabalhar nas fbricas. Agora estava velho,  verdade, mas tomaram muitos novos chegar aos ps dele. - E, ao dizer isto, Tramagal volveu os olhos para Horcio e, depois, para um rapaz que se sentara  esquerda de Pedro:-Despediram-no, porque queriam dar o lugar a outros! Empenhos!... Proteces!
O rapaz que Tramagal fixara, protestou:
- Eu no meti nenhum empenho, ouviu?
- Bem sei! Mas passando tu a penteador, ficava um lugar vago na fiao. Pedro passava de aprendiz a pegador de fios e no seu lugar j se podia meter outro...
Pedro voltou-se e ia a dizer qualquer coisa, mas Tramagal atalhou: - Tu no tiveste culpa nenhuma.
Houve novo e incmodo silncio. Horcio olhou, sombriamente, para Tramagal. E no pde dominar-se:
- Se  comigo que vossemec fala, est muito enganado! No lhe admito isso, fique sabendo! Eu no meti empenhos para que despedissem fosse quem fosse. Se eu soubesse que algum era despedido por minha causa, nunca teria pensado em vir para aqui... Compreende?
Tramagal encolheu os ombros e disse com tom depreciativo:
Cada um enfia a carapua que lhe serve...
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Horcio levantou-se num repente. Pedro agarrou-o por um brao:
- Aqui, no! No pode haver desordens na fbrica. Seramos todos despedidos...
Os outros seguraram, por sua vez, o Tramagal, que se erguera tambm e gritava:
- Pois ! Isto aqui  a casa da me Joana. Com certeza h, por a, filhos de operrios que precisam de entrar nas fbricas e no encontram lugar. E vem um de fora, mete uma cunha e logo se arranja! Daqui a pouco, os nossos filhos andam a pedir esmola, enquanto os matules de outras terras enchem as fbricas daqui. At alfaiates e sapateiros, uns tipos j  beira dos trinta, tm entrado na indstria, contra o regulamento, que diz que no se deve meter aprendizes com mais de dezasseis anos. Se  por haver agora mais trabalho, por que puseram na rua o Paredes? Sempre queria saber o que o Sindicato faz!
Horcio ia ainda a replicar, quando o operrio de cabelos brancos e dois dentes insulados se adiantou, dirigindo-se a Tramagal:
- Acaba l com isso! Todos tm direito  Vida... O Paredes foi despedido porque estava velho e cheio de achaques. J dera o que tinha a dar. O mesmo aconteceu com o Armando, com o Telhadais, com o Vicente, com todos. No  preciso empenhos de outros. J viste algum patro querer operrios velhos? Antigamente, eram postos na rua sem mais aquelas... Agora, o Sindicato d-lhes vinte escudos por semana. Sempre podem comer quatro dias por ms...
Alguns riram. Horcio no desistira de esvaziar-se das suas razes, mas Pedro, apertando-lhe mais fortemente o brao, pedia-lhe:
- Cale-se! Cale-se!
Do outro lado, alguns operrios afastavam-se, levando, com eles, o Tramagal! Ento, o homem de cabelo branco, olhos profundos e dois nicos dentes na boca envelhecida, acercou-se de Horcio:
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- No lhe leve a mal. Ele tem aquele feitio refilo, mas no  m pessoa. O melhor  no lhe ligar importncia. Mas diga-me uma coisa: como  que diabo voc, com essa idade, veio parar aqui?
Os trs voltaram a sentar-se. Horcio desabafou. Havia simpatizado com aquele homem desde a sua primeira interveno - e contou-lhe tudo. O outro ouvia-o em silncio, sem mesmo acabar de descascar a batata cozida que tinha entre as mos. Quando Horcio terminou, ele sorriu:
- Est tudo muito bem.  pouco mais ou menos como eu tinha imaginado. Ningum se sujeitava a isto se no tivesse necessidade. O que me admira  que voc, um homem feito, ainda acredite que... - Hesitou e o seu olhar envolveu tambm a Pedro: - Enfim, vocs so ainda novos e o Mundo h-de dar muitas voltas. Eu logo explico tudo ao Tramagal. E no o tome de ponta, que no vale a pena. Ficamos amigos, no  verdade? Eu chamo-me Jos Nogueira, mas ningum me trata assim. Chame-me Marreta.
Horcio pronunciava tambm o seu nome quando a sereia da fbrica deu o sinal de recomear o trabalho.
- Entendidos!-exclamou o Marreta. E descascando e comendo, finalmente, a sua batata, caminhou para o outro grupo.
- Parece-me um homem s direitas! - disse Horcio. Com a cabea, Pedro fez um sinal afirmativo.
As mulheres e as crianas da Covilh, que tinham vindo trazer a comida aos familiares, arrumavam, agora, tigelas e pratos nos cestos e os operrios transpunham, de novo, a porta da fbrica.
As mquinas voltaram a trabalhar. Nas "self-actings", as carruagens iam e vinham, vinham1 e iam, como se nem elas, nem os pegadores de fios que atrs delas corriam, houvessem jamais parado. De manh, aquelas correrias dele e dos seus companheiros
 
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tinham parecido a Horcio to pitorescas como ruin castigo infantil ou exerccio desportivo. Mas, agora, aps o almoo, sentia as pernas fatigadas. De quando em quando, ele desviava a vista, rapidamente, para o resto da fbrica, que ainda no havia percorrido. Era um grande quadrilongo asfaltado e com vidros foscos e semiabertos  altura dos beirais, para seu arejamento. A Horcio aquilo parecia excelente. Muito mais limpo e simptico do que o quartel; e com as casas de Manteigas, a respeito de luz e de asseio, nem havia comparao. Surpreendia-o, porm, no ver por parte alguma mais operrios a moverem-se, a correr a todo o minuto, como ele e seus parceiros. As outras mquinas eram diferentes e homens e mulheres estavam junto delas, quedos, como se fossem sentinelas. Raramente se movimentavam para intervir na laborao e, se o faziam, pouco tempo depois aquietavam-se de novo. "Aqueles  que tm boa vida - pensou Horcio. - As mquinas trabalham por eles. No so como estas aqui." Aps o raciocnio, estranhou que os outros no mostrassem caras alegres. Ao contrrio, sempre que, num relance, olhava para eles, via-os graves, sombrios, os mais diferentes rostos de homens e mulheres apresentando uma expresso fria, uma espcie de dignidade cristalizada ao contacto com as mquinas. No pareciam os mesmos que ele vira no refeitrio  hora do almoo. Dir-se-ia que toda aquela gente jamais tinha rido na sua vida. "Aborrecem-se, porque estar assim parados at d sono. Se andassem aqui, a correr, estariam de outra maneira" - tornou Horcio a pensar. Mas, pouco depois, olhando para os pegadores de fios, que corriam ao seu lado, para os prprios garotos que se haviam sorrido, ironicamente, quando ele entrara de manh, viu que tambm eles tinham, agora, a mesma expresso dos outros - uma seriedade precoce e cansada. Foi, ento, que Horcio apreendeu que na fbrica havia mais alguma coisa
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do que ele enxergava, havia um ambiente dominador que lhe causava o mesmo desagrado sofrido nos seus primeiros dias de quartel, quando os oficiais se encontravam presentes. Ali, porm, a vontade que produzia esse ar carregado de obedincia parecia estar ausente, porque, mesmo quando o Mateus se encafuava no seu gabinete envidraado, ao fim da fbrica, operrios e operrias continuavam de fisionomia parada, como se o trabalho fosse o nico acto profundo da sua vida, a obrigao que no admitia um sorriso. Alguns deles, via-se-lhes nos olhos, estavam de esprito distante, mas, pela fora do hbito, a abstraco quebrava-se logo que a mquina lhes exigia uma interveno.
- Em todas as fbricas  assim? - perguntou Horcio a Pedro.
- Assim o qu?
- Assim... como a guardar defuntos?
Pedro seguiu-lhe o olhar >e a inteno e respondeu com piedade pela sua ignorncia:
- Claro que . Voc queria um baile? O Rodrigo, que esteve em Frana, nas fbricas de Lio, disse que l ainda h mais disciplina.
As mquinas continuavam a laborar. E os homens e as mulheres, colocados ao seu lado, sombrios, ensimesmados, acompanhavam-lhes silenciosamente o trabalho, que ali s elas tinham voz.
Horcio sentia um imenso desejo de fumar, mas j de manh Pedro lhe dissera que era proibido faz-lo ali.
- Se fumssemos, que mal poderia acontecer? A l no arde...
Desta vez, Pedro respondeu bruscamente:
- Ns estamos aqui para trabalhar e no para nos divertirmos. Parece que voc nunca trabalhou... Bem se v que vem da serra...
Ele comeava a antipatizar com Pedro. Mas j este se voltava e o advertia, amigavelmente:
 
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- Homem, voc ainda no percebeu que s se pode falar aqui em coisas de servio? Os patres no querem que se converse 'enquanto se trabalha. Se voc teima, ainda apanhamos algum raspano...
- Mudou de tom: - V  latrina e fume l. A latrina  a nica defesa que ns temos. E parece que no  s aqui, mas em toda a parte onde se trabalha...
Ele no foi. Esperaria at sair - decidiu. "Era preciso ter fora de vontade, como tinha no quartel
- disse a si prprio. - Se se desacostumasse dos cigarros, at faria uma economia."
Decidiu assim, mas logo comeou a evocar Manuel Peixoto, quando este lhe dissera que no nascera para viver dentro das quatro paredes de uma fbrica. Ento, parecera-lhe absurdo que o Peixoto preferisse andar sujo por montes e vales, dormindo ao relento, apanhando, no Vero, o estrume do gado, passando dias e dias longe da mulher e dos filhos, em vez de ter um horrio certo numa fbrica e de se lavar e vestir de limpo ao domingo. Mas, agora, a ele prprio, a sua antiga vida de pastor, com liberdade de se sentar, de se levantar, de fumar quando quisesse, de assobiar, de cantar ou de gritar para que a sua voz ecoasse pelos esbarrondadeiros, de falar sozinho ou com o "Piloto" quando no tinha ningum com quem falar, lhe aparecia com mais atractivos do que dias antes. Logo, porm, se lembrou de Idalina e a imagem da serra desvaneceu-se num negrume de ms recordaes. " falta de costume consolou-se.- Com o tempo, habituo-me. Aquilo tambm era muito mau. No h dvida que ser operrio  melhor do que ser pastor."
s cinco da tarde, houve um rpido trnsito de figuras na fbrica. Os que trabalhavam de dia deram o seu lugar junto das mquinas a outros que chegaram para o turno da noite e, to apressadamente como haviam entrado de manh, abalaram em direitura  calada que desembocava no porto. Modo
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pelas incessantes correrias feitas durante as oito horas de um trabalho a que seu corpo no estava habituado, Horcio era o nico que caminhava devagar entre os outros que o iam deixando para trs, como pedra que resiste  torrente. Ao seu lado passou Tramagal e, pouco depois, o Marreta, que lhe bateu no ombro, ao mesmo tempo que lhe lanava um amistoso "at amanh". C fora, muitos dos operrios se separavam, uns cortando para a Covilh, outros para a Aldeia do Carvalho. Das fbricas vizinhas saam mais bandos, que se dividiam tambm, marchando em direces opostas.
De cigarro finalmente aceso, Horcio quedou-se na estrada, a aguardar Ricardo. Da fbrica continuava a vir um surdo rumor mecnico. E l em baixo, na grande bacia cortada pelo Zzere, manchas verdes contrastavam com pardas extenses de Inverno.  esquerda, a meio da serra, como se quisesse vigiar dali toda a vida do imenso vale que lhe ficava aos ps, ostentava-se a Covilh. O sol horizontal fazia rebrilhar agora os vidros das suas incontveis janelas, tornando-a mais espectacular do que a qualquer outra hora do dia. A cidade fascinava os olhos de Horcio, que passeavam, lentamente, do velho casaredo aos edifcios novos que se exibiam nas declividades. "Poucas casas havia ali que se comparassem com algumas do Estoril, mas, enfim, tomara ele ter uma daquelas pensou. Vendia-a logo, pois no queria uma moradia grande, e mandava fazer uma mais pequena, como ele desejava."
Quando deu por Ricardo, j este se encontrava muito perto. Subia a estrada, a coxear.
- Sucedeu-lhe alguma coisa?
- No.  o diabo do reumatismo, por isso venho atrasado. Este ano ainda no me tinha atacado, mas esta manh, assim que entrei na fbrica, comecei a sentir a perna tomada. Quando chega o Inverno, sempre sofro mais ou menos.
 
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- Pois eu estava a ver aquelas casas grandes. Parece-me que elas ainda no existiam quando passei por aqui, h anos.
Ricardo olhou na direco que ele indicava.
- Sim, so casas feitas h pouco. So de industriais.
- Todas elas?
- Quase todas as casas grandes da Covilh so de industriais. Olhe: aquela cor-de-rosa  a do seu patro. Mas parece que ele no gosta de viver ali. Passa a maior parte do tempo numa quinta que tem l em baixo,  beira do rio.
Iam os dois andando, vagarosamente, por mor da perna de Ricardo. O crepsculo caa e o ar comeava a gelar mais, a tornar-se to spero como fora de manh.
A certa altura, Horcio reconheceu, ao longe, numa curva da estrada, o Tramagal e o Marreta, que estavam parados, a falar com outro homem.
Ricardo tornava a queixar-se:
- Isto do reumatismo  uma grande maada. Ainda se eu morasse perto da fbrica... Mas, assim, os sete quilmetros custam muito. O ano passado tive, alguns dias, de me levantar duas horas mais cedo do que de costume, para no chegar atrasado ao trabalho.
Ao passarem em frente do grupo que Horcio vira de longe, os trs homens voltaram-se e Tramagal, depois de ligeira hesitao, avanou:
- Ol, camarada, peo-lhe desculpa do que lhe disse esta manh. Aqui, o Marreta, j me explicou tudo e eu sei que cada um tem de ganhar a puta da vida. Vai um aperto de mo? - E, ao falar, estendia os dedos grossos, enrugados, que Horcio apertou. - Deixe vir sexta-feira, que eu hei-de oferecer-lhe um copo de vinho...
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Marreta sorria, com ar paternal, e, por detrs dele, um velhote sorria tambm, mais docemente ainda. Horcio sentia-se comovido com a atitude do Tramagal.
- Estvamos justamente a falar de voc... - disse Marreta. - Este, aqui,  o tio Paredes, o que foi despedido...
O velhote estendeu a mo. tinha uns olhos piscos e humilde expresso; mas o que mais se destacava era o sorriso inocente que pregueava e iluminava de candura todo o seu rosto.
Perturbado, Horcio agarrou a mo que Paredes lhe oferecia. No sabia o que dizer; s lhe ocorriam frases que lhe pareciam imprprias do momento.
- Eu no tive culpa do que lhe sucedeu... Paredes continuava a sorrir, resignadamente:
- Bem sei. Eu j h muito esperava que isso acontecesse.  o fim de todos ns. Podia ser numa ocasio melhor, isso podia. L a patroa j no v um palmo  frente do nariz. No ganha um vintm. Velhice... Mas seja o que Deus quiser!...
- Voc no quis ter filhos - brincou o Tramagal. - Agora auxiliavam-no.
- Ainda bem que Deus no quis que eu os tivesse. Os que os tm andam por a na mesma. Tomaram os filhos ganhar para os filhos deles... - Paredes deixou de sorrir. A sua expresso tornou-se melanclica : - O pior  que no sei como encher o tempo. Estava to acostumado ao trabalho, que o dia de hoje pareceu-me que nunca mais acabava. Por isso vim por a fora... Fica a gente como parvo. Parece que at as mos esto a mais no corpo... Se algum me quiser, seja l para o que for, eu vou trabalhar por qualquer coisa... Mesmo de graa...
Tramagal riu, abrutalhado:
- Voc ainda  de bom tempo! O que eu gostava era de passar os dias sem fazer nada... tendo de comer e de beber, est claro! - E comeou a
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contar o que fizera no dia em que encontrara uma
nota de cem escudos junto do mercado da Covilh.
Quando este concluiu, Ricardo despediu-se:
-  tarde. E eu tenho de ir devagar.
Os outros separaram-se, tambm, de Paredes.
- No penses mais nisso, rapaz! -disse o velho a Horcio. - Se no fosses tu, seria outro...
Horcio comovia-se outra vez:
- Se eu puder fazer alguma coisa por si... conte comigo!
- Est bem... Est bem... Obrigado! - E partiu, a 'caminho da Covilh.
Os quatro homens ficaram, um momento, a v-lo afastar-se, estrada fora, a v-lo diluir-se na noite que caa, ventosa e gelada. Depois, eles prprios comearam a caminhar tambm, silenciosos, em direco oposta.
 
UM ms vencido, Pedro e Sampaio podiam atestar que Horcio se encontrava apto a ser pegador de fios. Ele j sabia tirar a mecha, levantar a montada, liar aos fusos os novos fios e, quando estes se partiam, os seus dedos hbeis faziam a pegadura com tanta presteza e perfeio como outros muito mais experimentados. Uma manh, o prprio Sampaio comunicou esse progresso a Mateus. O mestre, que estava no seu gabinete envidraado, l ao fundo da fbrica, ouviu aquilo em silncio e no disse nada.
Porque se bacorejava ser Horcio protegido de Mateus, os outros aprendizes, adolescentes de catorze, quinze anos, esperavam que ele lhes passasse  frente e ganhasse, em breve, salrio de pegador de fios. Mas os dias iam decorrendo e Horcio continuava tambm como aprendiz.
-  que o meu irmo no tem vaga para te dar - disse-lhe, um dia, Manuel Peixoto, a quem ele pedira nova interveno junto de Mateus. - Tens de ter pacincia. Com certeza no demora muito. E mesmo que demorasse um ano, j era uma grande sorte, pois os garotos andam l cinco anos e at mais, antes que os considerem operrios. Mas como tu s um, homem feito, o meu irmo h-de ter isso em conta.
O que o Peixoto dizia parecia-lhe conforme  razo, mas deixava-o desolado. No fim do ms, quando fora pagar  Jlia os cento e cinquenta escudos ajustados pela cama e comida, ela dissera que se havia enganado nos seus clculos e perdera dinheiro com ele. O que estava dito, estava dito, e por aquele ms no pedia mais. Mas, dali em diante, no poderia dar-lhe de comer e de dormir por menos de cinquenta escudos cada semana. Surpreendido, ele hesitara em responder. Logo fora lembrando a Jlia que ele ganhava apenas nove escudos por dia, pois este era o maior salrio que o regulamento autorizava para um aprendiz. Assim, se lhe pagasse cinquenta escudos por semana, ficaria apenas com quatro para as outras despesas - e isso no chegaria sequer para os cigarros. E com que ia vestir-se e calar-se?
- Pois ... no digo que no... - concordou Jlia. - Mas por menos no me paga a pena. Com isso da guerra, as coisas cada vez esto mais caras.
Perante o silncio dele e a expresso que o seu rosto tomara, Jlia condoeu-se:
- Realmente, com quatro escudos voc no faz nada. Mas eu no tenho culpa. O que posso  experimentar mais um ms, a quarenta e cinco por semana. Se chegar, muito bem; se no chegar, voc tenha pacincia...
Fora, ento, que ele pedira a Manuel Peixoto para interceder junto do irmo. E, agora, o Manuel Peixoto dizia-lhe aquilo. Podia ter de esperar um ano ou ainda mais, quem sabia l?
- E isso do quarto? - perguntou.
- Olha: falei a vrias pessoas. Mas ningum faz mais em conta do que a Jlia. Que ela no deve enriquecer contigo, isso  verdade...
Estavam os dois sob a alpendrada da capela do Esprito Santo 
e chovia. Peixoto adivinhava o mal
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- estar que as suas palavras haviam causado a Horcio e no encontrava outras para o consolar.
- E tu?
- Eu?...
- No falaste a ningum?
- Falei.  como vossemec diz. Uns no tm cmodos, outros no fazem por menos - respondeu, desalentado.
Continuava a chover e a noite aproximava-se. Em frente, na igrejita paroquial, o padre entreabria a porta, deitara a cabea de fora, olhara para o cu, mas no ousara sair.
- Bom, senhor Manuel: vou-me chegando. Estou como um pinto! Muito obrigado por tudo.
Disparou sob a chuva para casa de Ricardo. Outros operrios atravessaram o adro, de regresso das fbricas, encharcados como ele.
No seu quarto, Horcio mudou de roupa, ouvindo, em baixo, a voz de Jlia, a querer dominar a chinfrineira que os filhos faziam. A chuva aumentara e batia agora, ruidosamente, no telhado.
Com o Inverno, a aldeia tomava outra fisionomia. At a, fosse na Primavera, fosse no Vero ou no Outono, os homens mal paravam em casa. Quando volviam das fbricas, punham-se a falaciar com os vizinhos ou a cavar algum palmo de cho, at  hora do lusco-fusco. Os que laboravam no turno da noite e possuam um quinchoso ou leiras nas declividades da serra, empregavam o dia a amanhar essas territas. Muitos deles, ao entrar nas fbricas, s cinco da tarde, j haviam trabucado seis e oito horas, mas tinham por boa sorte consumar, num mesmo dia, esse duplo trabalho, pois sem o acrescento das couves, das batatas e, s vezes, do centeio que as courelas davam, o salrio no lhes bastaria para sustentar a famlia.
No Inverno, porm, belgas e quintais magra assistncia exigiam. Sob o cu pardo, nas ruelas cobertas de lama ou de neve, os casebres tornavam-se
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lgubres e, mesmo nas horas diurnas, adquiriam feies de cavernas, com um lume a arder l dentro. Antigamente, os homens metiam-se nas vendas e emborrachavam-se nesses dias pluviosos. Mas, com o decorrer dos anos, a propaganda contra o lcool, feita pelos prprios operrios mais conscientes, fora afastando das tabernas a maioria deles. Como Ricardo, quase todos os outros, ao volver das fbricas, ficavam em casa ou se juntavam, em paleio, no casebre do Marreta. As casas eram, porm, de uma tristeza infinita, mais negras e enervantes do que o prprio Inverno. Nelas, as mes increpavam os filhos, que saam a patinar nos lodaais, a correr, muito contentes, sob a chuva ou a brincar na neve, se esta j cara. Mas quando as crianas, detidas pelos ralhos maternos, estavam em casa, brigavam umas com as outras, irmos contra irmos, os mais velhos com os mais pequenos. Todos eles se sentiam prisioneiros e se os foravam  quietude e  mudez, esses dias invernais pareciam-lhes eternos, como se eles vivessem numa s hora mais do que toda a sua vida.
Ao contrrio dos filhos,  Jlia e a outras mes esses sombrios dias invernais pareciam curtssimos. Elas constituam como que o centro de cada lar, o eixo de cada famlia e o tempo corria-lhes mais rpido do que a chuva sobre os telhados. Elas tinham de forar a imaginao para obter alimentos baratos, de forma que todos comessem dentro da exiguidade dos salrios - e, no Inverno, isso era-lhes mais difcil. Elas tinham de vestir os filhos, cortando, adaptando, remendando velhas roupas; e  faina domstica, todos os dias igual, juntavam, muitas vezes, trabalhos para as fbricas.
Jlia disputava cada minuto de luz diurna para esbicar um corte de fazenda. O tecido estava sobre um cavalete, a "banca", e ela, com umas pinas, ia-lhe arrancando as impurezas, os ltimos resduos vegetais que a l conservava, teimosamente, atravs de todas as outras operaes que sofria. Os industriais
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pagavam pouco por esse labor, mas Jlia considerava que, sem 'esse pouco, no poderia, s com o salrio do marido e o abono de famlia que recebia nos ltimos tempos, dar governo capaz  vida de sua casa.
Em frente de Jlia, vizinhando o lume, sentava-se a me de Ricardo a senhora Francisca. Com seus oitenta anos, sua surdez e semicegueira, era como um traste da casa, uma esttua tosca, dramtica pela expresso e grotesca pelos trapos que vestia. De cabea descada sobre o peito e o gato aninhado no regao, decorriam horas em que nela se via apenas o movimento do rosrio passando entre as suas engelhadas mos. Se deixava as contas era para acariciar o gato a sua maior 'ternura. Nem aos netos ela parecia querer tanto. Os seus olhos viam-nos de contornos diludos, quase esfumados, e esses corpos imprecisos, quando ela estendia, para eles, as mos descarnadas, fugiam-lhe aos afagos. O gato, pelo contrrio, mostrava-se passivo, nestes dias de Inverno em que o regao da velha lhe oferecia grato calor.
A senhora Francisca trabalhara quase cinquenta anos na ultimao dos tecidos, quando era solteira, depois de casada e depois de viva. Fora "metedeira de fios", cerzindo orifcios e eliminando outros defeitos que os teares deixam, por vezes, nos panos. E s cessara de trabalhar quando a luz dos seus olhos estava quase extinta. Nesse dia, Ricardo e Jlia comearam a sentir a presena da velha como um peso morto, uma despesa apenas, na sua vida. Jlia passara a trabalhar mais do que at a. Levantava-se ainda no negrume da noite e, quando o marido, o filho mais velho e Horcio acabavam de se vestir para ir para a fbrica, j ela tinha o caldo pronto e concludas outras lidas domsticas. Agarrava-se, ento,  pea de fazenda e, de p, junto  banca, as suas pinas nervosas iam, que nem bico de ave faminta, arrancando todas as matrias estranhas  l.
 
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Jlia fora, como a sogra, netedeira de fios, mas, por vontade do marido, passara a esbicadeira, para defender um pouco mais a sua vista. Ricardo obtivera, tambm, que a fbrica onde ele trabalhava lhe confiasse tecidos para Jlia os esbicar em casa, acumulando ela, assim como outras mulheres locais, o labor industrial com a trafega do lar.
O seu esforo era, porm, constantemente interrompido pelos filhos, que traquinavam, no casebre, que berravam de quando em quando, criando conflitos e aplicando, eles prprios, castigos entre si. Jlia enervava-se e, s vezes, praguejando, esbofeteava um deles, deixando-o a carpir-se a um dos cantos. Logo, ela volvia ao seu trabalho, ciosa do tempo que perdera; mas, pouco depois, tinha novamente de intervir, tinha novamente de se interromper. S a senhora Francisca, naqueles foscos dias de Inverno, com todas as crianas metidas em casa, continuava impassvel, graas aos seus esclerosados ouvidos. Se os netos, durante as suas lutas, embatiam nos joelhos dela ou, fugindo s iras maternas, atrs do seu corpo buscavam proteco, a velha ainda abria a desdentada boca e perguntava:
- O que ? Que  que vocs esto fazendo, seus marotos?
Mas ningum lhes respondia, por serem inteis as palavras. Muitas vezes, essa atmosfera domstica desagradava a Horcio e ele comeava, ento, a pensar no seu futuro, na casita que sonhara e entristecia. Reagia depois, porque algo dentro dele, no sabia o qu, algo confuso, obscuro, continuava a insinuar-lhe que a sua casa no seria assim. E, prendendo-se a essa esperana, desviava os olhos para o lume; desviava-os de Jlia, sempre, sempre atarefada, dos filhos de cara suja e, sobretudo, da velha Francisca, para no lhe ver a cabea descada, de expresso idiota, e aqueles seus dedos que iam deixando passar, incessantemente, automaticamente, as
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contas do rosrio, tal como, na fbrica, as mquinas deixavam passar os fios de l.
Agora, no seu quarto o corpo j com roupa enxuta, Horcio sentiu, em baixo, os passos de Ricardo, que volvia da fbrica, e, pouco depois, os de Antero, que fechava, violentamente, a porta exterior e entrava na cozinha a vociferar contra a chuva. Ouviu, depois, Jlia dirigir-se ao filho, com voz surda, refreada. Horcio no compreendia as palavras, mas adivinhava que elas eram de admoestao. Antero ripostava e a me ia-se encolerizando, subindo de tom, despreocupando-Se do hspede que ela sabia estar em cima.
- O que tu queres  andar com esses valdevinos e essas perdidas da Covilh, gastando com elas tudo quanto ganhas. L para o tal clube de futebol e para ceares fora de casa tens sempre dinheiro. E ns, aqui, que nos aguentemos! Os teus irmos andam por a rotos que  uma vergonha e tu feito um janota, que nem o filho de um ricao!
-Eu no tenho culpa de que vocs faam muitos filhos -berrou Antero.- Vocs  que os fazem e eu  que tenho de me sacrificar? No! Eu tambm tenho a minha vida!
- Cala-te, malvado! Cala-te, seno eu fao uma asneira! Um filho dizer uma coisa dessas! Onde se viu um filho falar assim? - Jlia apostrofava e chorava ao mesmo tempo.
Horcio ouviu, ento, a voz de Ricardo, uma voz fria, inflexvel, quase sinistra:
-'Sai j da minha frente. J!
Antero ainda argumentou, exaltado, mas logo Horcio tornou a sentir os seus passos em direco  porta e, de novo, a porta a abrir-se e a fechar-se com violncia. Horcio alegrou-se ao pensar que o outro ia molhar-se, sob a chuva. Ele no simpatizava com Antero e a atitude de Jlia parecia-lhe justa. Aos prprios companheiros de trabalho ouvira censuras a Antero, porque, muitas vezes, ao sair da
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fbrica, onde era apartador, metia-se na cidade, s regressando a casa para dormir e quase sempre embriagado.
Agora, l em baixo, havia novamente silncio. Sentado no rebordo da cama, Horcio deixava fluir o tempo, pois adivinhava que a sua imediata presena na cozinha seria molesta para todos. Por fim, as crianas voltaram aos seus rumores e a Jlia a transitar de uma banda para outra.
Quando Horcio desceu, Ricardo encontrava-se estendido sobre a cama e ao seu "boa noite" respondeu de maneira vaga. Jlia cuidava da ceia, com gestos nervosos e carrancuda. S a senhora Francisca continuava, como sempre, de expresso alheia ao meio, o rosrio entre os dedos e o gato no regao.
Horcio debruou-se sobre o bero onde estava o filho mais novo do casal e acariciou-lhe as tenras facezitas. Desde que Jlia lhe aumentara o preo da hospedagem, ele tinha deixado de afagar a criana, como era seu hbito. Durante os ltimos dias havia detestado a Jlia e s com dificuldade conseguia disfarar a sua contrariedade. Mas, agora, certo de que ningum, na aldeia, lhe daria mais econmica penso, a sua simpatia voltava.
Jlia punha a mesa. Era seu costume servir, primeiro, os homens e, s depois disso, ela, a sogra e as crianas comiam. Agora, como sempre, colocava trs pratos. Da sua cama, Ricardo comeara a falar do tempo, para dizer alguma coisa. Estranhava que a neve ainda no tivesse vindo, alm do poucochito que cara no princpio do ms. Com certeza, depois de tanta chuva, o tempo esfriaria e logo haveria neve.
Horcio concordou. E Ricardo inquiriu:
- Voc vai hoje a casa do Marreta?
- Se a chuva passar, vou.
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 Passa - disse Ricardo. - J est a chover menos. Eu tambm irei.
Jlia protestou:
-Q qu? Vais sair com uma noite destas? Depois queixa-te do reumatismo!
- Tenho de falar com o Marreta-declarou Ricardo, secamente.
Jlia suspirava de vez em quando e os seus ouvidos pareciam atentos  noite,  chuva e aos rudos de l de fora. Ela tinha o caldo pronto, mas hesitava em tir-lo do lume, no fosse Ricardo ver o seu gesto e pedir logo a ceia. Ela tardou, assim, algum tempo, tardou mesmo depois de o marido haver estranhado a demora. S quando a chuva cessou de todo, Jlia comeou a desprender, vagarosamente, a panela da "cadeia" que a suspendia sobre o fogo.
Ricardo e Horcio sentaram-se. Ao lado deles, estavam o prato, a malga e a colher destinados a Antero. Muitas noites a malga ficava ali, assim vazia,  espera. Mas nunca, como agora, ela causara a Jlia tanto pesar.
Os homens comearam a comer a sopa. De p, por detrs do marido, Jlia dirigiu-se a Horcio:
 Disseram-me que o Manuel Peixoto tem andado por a a ver se arranja outra casa para si... - Jlia disse isto e deteve-se. Mas logo voltou a sentir necessidade de derramar sobre algum a amargura e o mau humor com que o filho enrugara a sua alma. - Se voc acha que ns o exploramos, no se prenda.
Ricardo levantou a cabea:
-  mulher! No podias deixar isso para outra ocasio?
Jlia calou-se.
- Vossemec no leve isso a peito -desculpou-se Horcio. - No  que eu me sinta mal aqui ou esteja descontente. Nada disso!  que, como ganho
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to pouco, estive a ver se arranjava uma coisa mais barata. Mas est tudo muito caro, eu sei... Faa de conta que no se passou nada...
Jlia e Ricardo continuaram silenciosos. Os pequenos, de olhos fixos em Horcio, escutavam atentamente as palavras deste:
-'Se eu tivesse de me ir embora, levava saudades de vossemecs... Tm sido bons para mim. Mas no vou, a no ser que no me queiram...
O casal prosseguia no seu silncio. Por fim, Ricardo disse:
- No se fala mais nisso. Contrariado, aqui, no o queremos, claro. Mas se voc no encontrar melhor, a casa est s ordens. Tambm ns simpatizamos consigo.
L fora soaram uns passos e Jlia apurou o ouvido; mas logo os passos se distanciaram.
Mal acabaram de comer, Ricardo e Horcio saram. Na rua, ao notarem a porta de Tramagal, Ricardo deteve-se:
- V andando, que eu j l vou ter. Preciso de dizer uma coisa ao Tramagal.
Horcio continuou a caminhar para a casa de Marreta. Quase todas as noites ele fazia esse mesmo caminho. O velho tecelo havia-se tornado o seu melhor amigo na Aldeia do Carvalho. A princpio, quando viera para ali, ainda Horcio buscava a convivncia de Manuel Peixoto, mas, depois, fora-a trocando, pouco a pouco, pela de Marreta. Este parecia-lhe diferente dos outros operrios e com muito mais inteligncia.
Marreta habitava, sozinho, um casinhoto perto da ribeira que ladeava o povoado. Era vivo e no possua outra famlia alm de um filho na Amrica, do qual falava sempre com melancolia, queixando-se de que ele deixara de lhe escrever e o esquecera.
Vegetariano e esperantista, na defesa daquela forma de sustento e a pregar as vantagens de uma s lngua para a Humanidade inteira, Marreta punha
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htanto fervor como se de credos religiosos se tratasse. Ele prprio cozinhava os seus vegetais e, vida sbria, despendia a maior parte da fria em brochuras e correspondncia com esperantistas estrangeiros, nas semanas em que um ou outro operrio no lhe demandava a casa, a tartamudear um pedido de emprstimo. Conhecedores do seu feitio, raros lhe pagavam; e, se algum o fazia, era, quase sempre, para estar apto a pedir, noutra ocasio de aperto, uma quantia maior. Marreta estimava o dinheiro em relao apenas com o preo dos selos do correio. A sua grande volpia seria poder escrever muitas cartas e receber muitas tambm dos esperantistas das outras terras. Como houvesse comeado a corresponder-se com uns hngaros, tanto se apaixonara pela Hungria que acabara estudando vrios aspectos da vida daquele pas, mesmo os que no tinham afinidade alguma com o esperanto. E, durante mais de um ano, ao falar, citava a Hungria por tudo e por nada.
Na Aldeia do Carvalho poucos adeptos arrebanhara para a lngua internacional e para o vegetarianismo no conquistara um s. Debalde ele jurava que, assim, seria maior a sade, mais longa a vida e menor a escravido do ser humano s necessidades de cada dia. As mulheres, sobretudo, contrariavam-lhe a propaganda. Mais realistas do que os homens, afirmavam, desdenhosas, que fartas de batatas estavam elas desde que haviam nascido e que pena tinham de no poder comer carne todos os dias. Um bife! Uma perna de carneiro assada! Quem lhos dera!
Apesar dessas divergncias, a quadrazita que Marreta habitava enchia-se de operrios quase todas as noites. Fugindo ao ambiente de suas casas, ao rudo e movimento da filharada, os homens vinham para ali, naquele perodo de Inverno, jogar a bisca e cavaquear. A ausncia de mulheres, de crianas e dos problemas domsticos dava-lhes uma, efmera sensao
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de evaso. Alm disso, se as doutrinas vegetarianas no os seduziam e se lhes produzia antecipada preguia a ideia de estudar esperanto, eram fascinados por outras aspiraes que Marreta juntava aquelas, numa catequese que ele exercia h muito tempo j. Muitas vezes Horcio ouvia-o referir-se a um mundo que viria, um dia, um mundo onde no existiriam nem pobres, nem ricos, nem grandes, nem pequenos e onde todos teriam tudo quanto carecessem para viver sem apoquentaes. Sempre a conversa ia para aquele ponto. Se se falava de algum que fora despedido, de falta de luz nas casas e de lugares no Albergue, de pai que no tinha po para os filhos, de pessoa que andava esfarrapada ou pedia esmola, sempre se falava desse dia em que tudo isso acabaria e os homens seriam mais felizes. Seriam todos como irmos, uns no explorariam os outros e no haveria mais guerras.
Horcio admirava-se de que, parecendo Marreta to inteligente, acreditasse naquilo, quando ele, que sabia muito menos, no podia crer, pois ricos e pobres houvera-os sempre e se algum fosse tirar aos ricos o que lhes pertencia, logo viriam a guarda republicana e a polcia e poriam tudo como dantes. E mais surpreendido ficava ao verificar que todos os outros, interrompendo o jogo, iam lanando as suas palavras na mesma direco das de Marreta. At o Ricardo, sempre to calado, to metido consigo, estava, via-se logo, de acordo com aquilo. Alguns dos operrios traziam jornais e liam coisas passadas em terras estrangeiras, notcias da guerra, que os outros escutavam em silncio, enquanto o fulgor do lume lhes enrubescia as caras atentas. Depois, um e outro afirmavam que o dia podia chegar mais depressa do que muitos esperavam.
Durante semanas, Horcio olhava para os frequentadores da casa de Marreta como se eles tivessem um segredo que o seu entendimento no conseguia descobrir conpletamente. Tudo quanto lhes ouvia
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o desnorteava. Podia l ser que as coisas viessem a ser como eles diziam! Mas, ento, por que eles acreditavam naquilo, falando, s vezes, por meias palavras, como de um amor que 'estivesse no fundo dos seus coraes e do qual no quisessem, dizer tudo? Algumas noites, no meio das 'conversas, Marreta referia-se a cartas que recebera de esperantistas de outros pases e sempre dava a entender que eles esperavam tambm aquele dia de que todos, ali, falavam. Eram pessoas de cidades que Horcio raramente ouvia nomear Charleroi, Praga, Atenas, Buenos Aires e, porque se tratava de terras longnquas, tudo aquilo lhe parecia fabuloso, sem ligao concreta com a vida que eles viviam ali, na aldeia de rsticos casebres, de gentes pobres e de cabras e ovelhas. Cada noite, porm, ficava mais perplexo entre o que escutava e o que pensava. Quando era pastor, ouvira, algumas vezes, falar de greves, mas sempre aquelas notcias chegavam, a ele e aos outros que viviam entre os rebanhos da serra, como se fossem movimentos de homens que queriam apenas ganhar maior fria.
Marreta tinha muitos livros, quase todos sem capa, descosidos e ensebados, pois emprestava-os frequentemente. As vezes, aparecia com um novo volume e, durante semanas, cada um dos operrios ia-o levando para sua casa, at todos o lerem. Pelos comentrios escutados, Horcio acabou compreendendo que muitas daquelas obras eram proibidas. E, ento, sentira desejo de as ler tambm. Mas quando o dissera a Marreta, fizera-se um sbito silncio entre os que estavam presentes e o velho tecelo hesitara:
-  preciso escolher um que te possa interessar. Amanh verei isso..
Na noite seguinte, quando Horcio lhe lembrara aquilo, ele desculpara-se:
Hoje no tive tempo nenhum. Vamos a ver amanh.
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Agora, porm, Horcio encontrava Marreta sozinho, a lavar o prato e a malga em que comera.
- Ainda bem que vieste cedo -disse-lhe.- H j trs dias que ando para falar contigo, mas no queria faz-lo em frente de ningum. E como Horcio quedasse em expectativa:  por causa dos livros que me pediste. Olha, aqueles dois, que esto ali separados, podes lev-los. Mas antes queria dizer-te uma coisa..
Horcio continuava a olh-lo, intrigado. Ele enxugou o prato e, depois, veio sentar-se  beira do lume.
- Anda para aqui - pediu-lhe. E logo que Horcio se sentou ao seu lado, Marreta deu-lhe uma palmada na perna: -Eu sei que tu s bom rapaz, mas, s vezes, sem se querer, faz-se mal aos outros. Tu j percebeste, com certeza, que no se pode andar por a a falar dos livros que ns lemos ou a mostr-los a torto e a direito. Eles no tm mal nenhum, mas se se soubesse que ns os tnhamos... Tu compreendes? J uma vez fui preso por menos...
- J foi preso?
Marreta sorriu, admirado da surpresa de Horcio:
- Quantas vezes! No tempo em que podamos fazer greves e eu morava na Covilh, era o po de cada dia. Uma vez, um guarda republicano deu-me com a espada, mesmo a matar. Ainda tenho aqui, nas costas, a cicatriz. Outra vez, prenderam-me e meteram-me num buraco escuro da cadeia e assim estive dois meses a fio incomunicvel e sem ver a luz do dia. Criei umas barbas maiores do que as do Padre Eterno. At aqui...-Levou a mo  altura do umbigo e teve, de novo, um. sorriso infantil.
Horcio ouvia aquilo com horror e perguntava a si prprio porque Marreta, para evitar repetio do que lhe acontecera, no mudara, desde ento, de atitude.
- Pode estar sossegado -disse.- Da. minha boca ningum saber nada sobre isso dos livros.
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- No  bem por mim que te peo. Sou sozinho, no fao falta a ningum. Mas  pelos camaradas que tm famlia. E alguns, por causa disso, podem no se sentir  vontade junto de ti...
->E  que, s vezes, parece que no se sentem. J percebi isso...
-  natural - justificou Marreta. - H muitos deles que tm sofrido. E como no sabem bem o que tu pensas...
O velho tecelo calou-se.
- Desculpe-me, tio Marreta. Mas vossemec acredita, deveras, nessas coisas que dizem aqui?
Marreta ergueu a cabea:
- Ora essa! Sempre acreditei e cada vez acredito mais!  a nossa nica esperana! Que outra esperana podemos ns ter? Eu estou velho; j no ser, talvez, na minha vida, mas estou certo de que ser na tua...
Horcio contemplou-o, um momento. Viu os seus olhos a fugirem, como o brasido, mas num rosto macilento e lavrado pelas rugas.
-Pois eu no posso acreditar numa coisa dessas...
- No me admira -declarou Marreta, com o tom de quem o desculpava de um defeito oculto.- No me admira mesmo nada. No nasceste em casa de operrios e s agora comeas a trabalhar nas fbricas. Eras pastor e isso  muito diferente. Os pastores parece que vivem no fim do mundo.
Marreta dobrou-se para o lume e acavalou mais algumas achas. Depois, demorou-se na catequese, sempre com aquelas palavras de justia, de bem-estar comum, de igualdade entre os homens, que tornariam, os homens mais felizes. Horcio ouvia-o atentamente, mas nele ficava sempre a sua dvida de montanhs, habituado  vida dura e a crer, excepo feita para o seu deus e almas de outro mundo, apenas naquilo que se v. Contudo, ao escut-lo, a sua amizade por Marreta aumentava, uma amizade
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feita de ternura e de respeito, mais pelo que sentia de generoso na alma do tecelo, do que pelas palavras que ele pronunciava. Parecia-lhe, alm disso, que Marreta o compreendia melhor do que os outros e que a ele podia dizer-lhe o que no poderia dizer a mais ningum.
Comearam a chegar outros operrios. Primeiro veio o Belchior, depois o Rodrigo e o Joo Ribeiro. Marreta arrastou para o meio da casa a mesita de pinho e sobre ela colocou o velho baralho de cartas.
- Joga tu - disse a Horcio.
- No, no. Jogue vossemec. Marreta insistiu:
- Eu tenho um jornal para ler.
Os quatro homens sentaram-se. Joo Ribeiro s o fez, porm, depois de haver estado a cochichar com Marreta a um canto.
Perto das onze horas, j Belchior havia declarado que "esta  a ltima partida", Ricardo e Tramagal entraram. Contudo, Ricardo no avanou muito alm da porta. Marreta lia,  beira do lume, o jornal e ele chamou-o. Encostados  parede, os dois quedaram-se a falar em voz baixa. De quando em quando, Joo Ribeiro, levantando os olhos das cartas, contemplava-os, como se soubesse o que eles diziam, ao mesmo tempo que Tramagal, de p por detrs de Belchior, seguia o jogo.
H j semanas que Horcio dava conta daquelas conversaesm murmuradas entre vrios operrios e Marreta, como se se tratasse de caso em evoluo, do qual ele no devia tomar conhecimento. Pela expresso que via num e noutro, Horcio adivinhava quando eles estavam contentes ou mal dispostos com o que escutavam ou diziam. Aquilo passava-se, sobretudo, nos dias em que Ricardo ia  Covilh depois do trabalho. Nessa noite no fora  cidade, mas Horcio lembrava-se de que ele havia ido l na noite anterior e depois do jantar no viera ali.
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Agora, Ricardo deixava Marreta e dirigia-se a ele:
- Voc ainda demora?
- No. Vou j - respondeu Horcio. -  s acabar este jogo.
Pouco depois, saam, deixando ainda os outros com Marreta. Ao chegarem a casa e logo que Ricardo abriu a porta, Jlia correu para ele, aos gritos. Estava desgrenhada, o rosto cheio de lgrimas e o choro mal lhe permitia falar.
- O Antero foi-se embora... O Antero foi-se 'embora...
Ricardo ps-lhe as mos nos ombros e sacudiu-a, obrigando-a a olhar para ele: -O qu? O que dizes?
- Foi-se embora... Veio -c buscar as suas coisas e disse que nunca mais voltaria...
HA muito tempo j que, merc da guerra, as fbricas trabalhavam intensamente. Tudo quanto se tecia se vendia e os industriais andavam contentes do seu destino, comprando quintas e barras de oiro e projectando novas ampliaes fabris. Capitalistas com dinheiro morto nos Bancos sonhavam tornar-se industriais tambm, pois nunca os lanifcios haviam produzido to grandes fortunas.
Milhares de operrios laboravam', durante o dia, nas fbricas, e, ao fim da tarde, outros milhares vinham substitu-los para trabalhar noite adentro. Ordenava a lei que no soassem sempre para os mesmos as longas horas nocturnas e, assim, em cada semana eles alternavam.
Aquela segunda-feira, quando Horcio ia a entrar na fbrica, Mateus chamou-o e disse-lhe:
- V-se embora e volte s cinco. O Boca Negra adoeceu e voc vai substitu-lo no turno da noite.
Horcio quedou-se a olhar o mestre, desejoso de lhe fazer perguntas, mas j Mateus lhe voltava as costas, repetindo:
- Apresente-se s cinco.
Horcio saiu, vagarosamente, por entre os ltimos operrios que entravam. Ia perturbado e ditoso. Boca Negra era um pegador de fios, que trabalhava na mquina ao lado daquela que ele andava como
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aprendiz. E se ele ia substitu-lo,  porque Mateus o considerava j competente e, decerto, lhe pagaria a fria como a um operrio.
Encontrou-se na estrada sem saber como ludibriar o tempo. Guardou o cesto, com a comida, numa taberna e entestou  Covilh. Percorreu o centro da cidade, para encher o dia livre, e, por fim, sentou-se no jardim da Praa da Repblica. Sentia cada vez maior contentamento e tinha desejo de fazer compartilhar a sua alegria, mas no avistava ningum conhecido.  hora do almoo, voltou a descer para a Carpinteira e procurou Ricardo no ptio da fbrica onde este trabalhava. Ricardo l estava, a comer, entre os demais. Ele deu-lhe a notcia, aquela notcia de que desejaria falar longamente, mas Ricardo disse apenas:
- Nesse caso,  preciso mandar-lhe a ceia.
- No se incomodem. Eu me arranjo.
-No nos incomodamos nada. Vai l um garoto.
Ele lanou, ento, a pergunta que mais lhe interessava:
- Parece-lhe que me pagaro como a um operrio?
- Claro! - respondeu Ricardo, com o seu habitual laconismo.
As quatro e meia, depois de todas aquelas horas impacientes, j ele andava em frente da fbrica de Azevedo de Sousa, ansioso por entrar. Vinham chegando outros operrios e, por fim, apareceu Tramagal, que nessa semana laborava, tambm, no turno da noite:
- Ento, hoje, no trabalhaste?
Desde o segundo dia das suas relaes, Tramagal tratava-o por "tu" e com aqueles modos despachados, rudes, que tinha para toda a gente. Ele contou-lhe, tambm, a novidade. Mas, como Ricardo, Tramagal parecia no dar quilo valor algum, nem
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admitir sequer que ele pudesse estar feliz. Limitou-se a dizer:
- Coitado do Boca Negra! Que ter ele? Logo que entraram na fbrica, Sampaio apareceu
junto da "self-acting" e assistiu s primeiras pegaduras que Horcio fez. Dir-se-ia satisfeito com o exame, porque se retirou pouco depois, sem lavrar qualquer observao.
 uma hora da noite, quando, finalmente, as mquinas pararam, Horcio continuava alegre: "Agora, que j dera as suas provas, decerto o Mateus, assim que o Boca Negra voltasse, lhe arranjaria um lugar de operrio ou ele poderia arranj-lo noutra fbrica."
Saiu com Tramagal. E andando, ao seu lado, para a Aldeia do Carvalho, Horcio lamentava, intimamente, que os teceles nunca trabalhassem de noite, pois sentia a falta da companhia de Marreta. A este poderia ele falar daquilo e ouvi-lo sobre o seu futuro, pois Marreta era diferente de Ricardo e de Tramagal.
A noite estava fria. O ms de Dezembro acercava-se do fim e a serra arrefecera.
- No tarda, teremos neve a valer!-vaticinou Tramagal.
Efectivamente, na manh seguinte, quando os operrios entravam para o trabalho diurno, o cu mostrava-se plmbeo, baixo, fechado. E, ao meio da tarde, a neve principiou a cair. Mas, durante alguns dias, a neve no quis outros espaos alm dos pontos mais altos da montanha. De Lisboa comearam a chegar turistas. Pedro disse, na fbrica, ter visto passar na Covilh vrios rapazes e raparigas com os seus esquis em cima dos automveis: "Iam l duas "gajas" que eram de se lhe tirar O' chapu..." E, ao evoc-las, os olhos dele luziam de sensualidade.
O frio continuava a aumentar. Por fim, a neve estendera-se desde os topes da serra at s suas
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faldas. Um dia, quando os operrios da Covilh e da Aldeia do Carvalho saram de suas casas, viram todas as encostas, todas as dobras do terreno, todos os caminhos vestidos de branco. A cidade, num esporo da serra, parecia obra de fantasmagoria, com telhados e perfis inverosmeis. E, na aldeia, tudo estava tambm assim extravagante, enterrando-se na neve os ps dos homens que, pela estrada, se dirigiam s fbricas.
As cinco da tarde, quando abandonaram o trabalho, continuava a nevar. Eles saam para a obscuridade da noite que descia sobre o branco da terra e outros entravam para as fbricas, enregelados.
Pisando a neve que cobria a rampa da Covilh, Pedro, atrs de outros operrios, ia pensando nas duas raparigas de gorro negro que ele divisara dentro de um automvel. Deviam estar, quela mesma hora, depois de voltar do esqui, a aquecer as mos junto da salamandra que ele vira, um dia, l em cima, no hotel das Penhas.  gulosa mocidade de Pedro vinha o desejo de dormir, ao menos, com uma delas, se no pudesse ser com 'as duas. Mas logo ele via outras mos tirando as luvas de l e estendendo-as tambm para a salamandra as mos de todos os rapazes que tinham passado, nos automveis, para as Penhas da Sade. E entristecia como se lhe roubassem alguma coisa que j era dele. Depois, pensou noutra rapariga que ele vira passar, dois meses antes, para o novo sanatrio que havia l em cima. A essa hora, ela no devia estar a aquecer as mos e sim a tomar a sua temperatura, pois a ele haviam-lhe dito que, no sanatrio, todos os tuberculosos metiam o termmetro sob o brao quando findava o dia. Parecia-lhe que aquela podia ser mais dele do que as outras, mas aquela no agradava tanto  sua imaginao como as que levavam gorro negro e esquis sobre os automveis. E cada vez o sonho gelava mais sobre o gelo existente na declividade que ele ia vencendo entre a Ribeira da Carpinteira
 
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e a Covilh. Por fim, quedaram, apenas, ante os seus olhos, os vultos escuros de outros operrios, que, de ombros encolhidos dentro de velhas roupas, marchavam na neve, encosta acima.
Entretanto, l em baixo, junto da ribeira, as fbricas prosseguiam no labor. Horcio e os demais pegadores de fios corriam atrs das carruagens de fiao. Em frente, Tramagal vigiava a sua penteadeira. Mais alm, por todo o grande quadrilongo, os operrios seguiam ou intervinham nos maquinismos.
Durante o Inverno, como o sol desaparecia logo no comeo do trabalho, essas horas nocturnas tornavam-se infindveis. O rumor das mquinas volvia-se mais ntido e, tambm, mais montono, propcio a um sono que no podia consumar-se. Mesmo onde a luz era forte, havia algo fnebre, uma claridade de viglia, de atmosfera doente. Dir-se-ia que as mquinas produziam porque tinham de produzir; que a mecha corria porque tinha de correr; que as canelas se enchiam, porque tinham de encher-se; que tudo trabalhava como sob uma fatalidade inexorvel, alheia ao prprio objectivo da produo. Mais do que noutras horas, os homens pareciam autmatos, simples peas das mquinas, movimentando-se sob aquela mesma vontade fria que movimentava a fbrica.
 uma hora da madrugada dava-se, enfim, pausa no rudo mecnico. A fbrica parava de repente, como se obedecesse a um encanto igual ao que comandava o seu movimento. Ouviam-se os passos apressados dos homens no cimento e viam-se as figuras que transpunham a porta, levantando a gola dos casacos. Raros falavam e se algum o fazia era com duas ou trs palavras soltas, que dispensavam rplica. S havia neles o desejo de chegar, rapidamente, a casa e de esquecer aquilo.
C fora, com noite fria de transir, eles, encolhendo o pescoo, abaulando o dorso, metiam,  estrada coberta de neve. O gelo rangia sob os sapatos
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 as figuras iam-se diluindo nas trevas, cada qual procurando caminhar mais depressa na noite branca e negra.
Horcio, Tramagal e Malheiros iam tambm calados e em fila. A certa altura, porm, Tramagal desalinhou os seus passos e dirigiu-se para a margem da estrada. A urze que ele fixara de tarde, estava quase transfigurada. A mo de Tramagal comeou a afastar a neve e, em breve, tocava a face lisa do frasco que ele havia escondido ali. Malheiros e Horcio j iam longe.
- Eh! Esperem a!-gritou, enquanto corria para eles.
Tramagal bebeu um trago e suspirou de satisfao. Antigamente, ele levava a aguardente para a fbrica, contra os regulamentos. Depois, para fugir  tentao de beber durante o trabalho e no ouvir as admoestaes do mestre, que chegara a amea-lo de despedimento, nem escutar as frequentes censuras de Marreta, decidira ocultar a aguardente na estrada, nas noites em que trabalhava. Os seus companheiros consideravam-no "dos velhos tempos" e se uns o criticavam pelo vcio, outros riam-se do seu cuidado em arranjar, de cada vez, um novo esconderijo, para que ningum lhe roubasse o frasco.
Agora, Tramagal oferecia a aguardente a Horcio e a Malheiros. Eles beberam e continuaram a marchar. Os seus ps enterravam-se na neve e do imenso vulto da serra, branquejando sob as trevas, descia um ar cortante.
- V uma noitinha de rachar, nem ? - comentou Malheiros.
Ningum lhe respondeu. E Malheiros pensou, ento, que se havia de dar graas a Deus por as fbricas fazerem dois turnos, pois isso era sinal de que os operrios teriam trabalho para todos os dias teis da semana.
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Subitamente, os trs homens viram riscos de fsforos, muitos fsforos que se acendiam e se apagavam na estrada. Logo, o jacto luminoso de uma lmpada de algibeira, que avanava, revelando trechos de vrias figuras e se fixava, por fim, no cho.
Horcio, Malheiros e Tramagal apressaram ainda mais o passo. Pouco depois, a luz da lmpada cortava-lhes o rosto, num voo rpido. Os operrios que haviam partido  frente deles estavam aglomerados em volta de um corpo que jazia na estrada. Era um homem. Um velho. Tinha as pernas muito encolhidas, de joelhos quase tocando o ventre, e os braos encostados ao tronco, como se se encontrasse numa caixa menor do que o seu corpo.
- Parece que ainda est vivo - dizia um dos operrios.
Ravasco, que lhe apertava o pulso, desistiu do exame:
- No sei nada disto...
- Deixa-me ver - interveio um terceiro. Ps-lhe a mo sobre o corao e, depois, ergueu-se: - Est morto e bem morto.
Mas ainda continuavam as dvidas. O homem cara sobre o lado direito e a neve fora crescendo em seu redor e criando uma cavidade para ele. Tramagal baixou-se e voltou o corpo.  luz da lmpada surgiram uns olhos frios, vtreos, que pareciam contemplar a todos e a ningum. Alguns dos operrios recuaram, com horror. Ouviram-se ao mesmo tempo vrias vozes:
- Est morto...
Logo um dos presentes pediu:
- Torne a alumiar-lhe a cara. Parece-me que conheo este homem...
- E eu tambm...-disse um outro.
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A luz volveu sobre aqueles olhos mui abertos e embaciados.
- E  que conheo!... Ora deixe ver... O outro adiantou-se:
-  um do Teixoso. Um que foi cardador, h uns dez anos.
-  esse mesmo. H muito tempo que eu no o via...
- Nem eu. Depois que o despediram da fbrica, ele andava s esmolas e botava at longe...
-Mas por que o mataram? - perguntou Tramagal.
Houve um sbito silncio.
- Se calhar... - arriscou uma voz - foi um salteador. ..
- Ora! -duvidou outro.- A um velho que andava a pedir...
- Sei l! H gente para tudo! E, s vezes, os mendigos tm dinheiro.
Joo Ribeiro, que sofria da laringe e no gostava de falar em noites assim, para que o frio no lhe irritasse a garganta, quebrou a sua mudez e pediu a lmpada. Com a luz foi inspeccionando o cadver: a camisa esfiapada e negra de sujidade, o casaco leveiro, cheio de remendos, as calas rotas e os ps nus.
- No... Aposto que ningum o matou... - disse. E volveu a despejar a luz sobre o pescoo de enrugada pele e sobre a cabea calva, cujo velho chapu estava cado ao lado. - Matou-o a falta de roupa. Ele morreu de frio,  o que ! Se no, depois veremos. Tanta l na Covilh, tantos tecidos e, afinal...
A garganta de Joo Ribeiro exacerbara-se. Ele comeou a tossir e passou a lmpada ao seu dono. Houve outro silncio. Cada qual principiou a sentir,
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sobre o corpo, menos roupa do que na realidade tinha - e mais frio. Depois, uma voz perguntou:
- Vamos deix-lo aqui? Surgiram hesitaes:
-'No... Isto ...
- O melhor  ir algum  Covilh prevenir a polcia.
Os homens consideraram os cinco quilmetros que os separavam da cidade, encararam a noite nevosa e no responderam logo ao alvitre.
- Vou eu-declarou Joo Ribeiro.
- Tu, no! -protestou Tramagal.- Tu vais  j para casa, que isto faz-te mal. Eu dou um salto at l.
Ento, muitos outros se ofereceram para o acompanhar.
- Basta um, que a minha aguardente no d para mais de dois... Tu, Augusto!
Eles partiram e os outros voltaram a hesitar:
- Vamos deix-lo aqui sozinho?
- Ora! Para que precisa de companhia, depois de morto?
Discordncias foram pronunciadas. A lmpada estava apagada, porque o dono entendera ser desagradvel continuarem a ver o cadver. Na escurido mal se adivinhavam os circunstantes e somente pela sua voz se identificavam. Da noite vinham antigas supersties e uma espcie de dever para com a morte. E esse dever conflituava com o egosmo de muitos deles, com o frio que os impelia para casa.
O outro teimou:
- Se ele tem de ficar sozinho quando for enterrado, que mal h em que fique j? Ou vocs esto resolvidos a ser enterrados tambm, para lhe fazer companhia na cova?
Aquela voz pareceu sacrlega aos mais timoratos: "Era o bruto do Ravasco, pior ainda do que o Tramagal. No havia que lhe fazer caso" - pensaram.
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Em volta deles a noite continuava cheia de trgicas sugestes. Algumas vozes murmuravam, nas trevas:
- Eu fico... Eu tambm... Ravasco tornou, sarcstico:
- Uma hora para a Covilh, uma hora da Covilh para aqui, uma hora para a polcia resolver-se a vir... Uma hora? Qual o qu! Se fosse para prender um vivo, a polcia vinha logo. Agora por um morto, que demais a mais no  rico! Por um pobre de pedir... Nem de manh! Vocs pensam que a polcia  estpida? Meus senhores, boa noite! No quero rebentar com uma pneumonia...
Ouviu-se, ento, a voz de Belchior, da Fbrica Nova, que at a estivera calado. Era a voz mais forte e decidida de quantas haviam soado na noite:
- Ele foi cardador e eu sou cardador tambm. No vou deix-loaqui abandonado. Mas tambm no fico aqui com ele. O Ravasco tem razo: a noite no est para brincadeiras. vou lev-lo comigo!
Surgiram novos protestos
- E a polcia? No se pode mexer nas pessoas encontradas mortas sem a polcia as ver primeiro. No, isso no tem jeito nenhum!
- Ora! Fui eu que o matei? Algum  capaz de dizer que fui eu? Aqui ele no fica! Vou lev-lo. Se ningum quer tomar a responsabilidade comigo, tomo-a eu sozinho.
Continuavam as discordncias. Mas j ningum esperava convencer Belchior, que todos sabiam ser o mais teimoso de quantos trabalhavam nas margens da Carpinteira.
O vozeiro de Belchior rompeu a noite:
- Tramagal! Tramagal! - Os gritos foram ecoando por todas as quebradas da serra, at  vrzea.- Tramagal! Tramagal!
- O que  que lhe queres?
- Quero que aqueles palermas no vo morrer de frio por a fora. Quando chegarmos  aldeia, faz-se
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abrir a Casa do Povo e telefonamos para a polcia. Deixa-se o pobre na igreja e a polcia que venha quando lhe d na gana.
Todos se admiraram de que nenhum deles se houvesse lembrado, at a, do telefone. Um homem saiu a correr em direitura  Covilh, gritando por Tramagal e Augusto.
Entretanto, Belchior pedia:
- Acende l essa lmpada! - E, mal a luz surgiu, dobrou-se sobre o cadver: -  pena no haver uma padiola. Mas no faz mal... Levo-o s costas. Ele era um cardador como eu.
Algum alvitrou:
- Abre-se um sobretudo e pe-se o corpo em riba...
- Boa ideia! -exclamou Belchior. Mas logo hesitou: - O meu no pode ser. Est to velho que se rasgava com o peso e deixava cair o morto...
-.O meu tem buracos, seno estava s ordens... - disse Joo Ribeiro. Outras vozes se seguiram. Todos, menos Ravasco, diziam a mesma coisa. Alguns despiam o sobretudo, para lhe considerar a resistncia,  luz da lmpada.
- Est num fio... - concluam.
Ravasco pressentia que os outros pensavam no seu sobretudo novo e justificou-se:
- O meu aguentava, l isso aguentava... Mas se a minha mulher sabia que ele servira de padiola para um morto, nunca mais mo deixava vestir. E eu no tenho dinheiro para comprar outro...
Houve novo silncio entre eles. Belchior estendeu as suas rudes manpulas e, com elas, agarrou os braos inteiriados do cadver. Levantou-o ligeiramente e voltou a deix-lo pousar na neve. Os olhos do morto pareciam seguir os gestos dele.
Est leve... O pobre perdeu as carnes antes de morrer... O diabo  que no sei como hei-de ajeit-lo nos meus ombros, assim encolhido como ele est...
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Ento, Ravasco aproximou-se. Tirou, lentamente, o sobretudo e ofereceu-o a Belchior.
- Pega l...
Todos sabiam que Ravasco andava, h muito, adoentado, com aquilo de no poder reter guas e que, ultimamente, dera em emagrecer e em tomar uma cor baa. Belchior recusou:
- No quero! J que a tua mulher  assim, no vale a pena passares o Inverno ao frio... Eu levo-o s costas!
Ravasco insistiu. E, com voz levemente humilhada, confessou:
- No era s pela minha mulher... Era tambm por mim. Pode ser lavado, no h dvida... Mas, no sei porqu, vai custar-me a vesti-lo depois... Mas acabou-se! Agora fao questo!
Belchior continuava a recusar.
- Fao questo, j te disse! -exclamou Ravasco. - E ele prprio estendeu o sobretudo ao lado do cadver. Joo Ribeiro auxiliou Belchior a colocar o morto em cima. Quatro sombras agarraram nas extremidades do casaco e com as demais sombras puseram-se em marcha.
A neve continuava a cair. Aqui e alm os sapatos dos homens afundavam-se nela. O da lmpada ia  frente e a dbil luz deixava ver as pegadas que ele prprio abandonava na neve. Atrs das dele iam ficando as dos outros, metidas nas trevas, at que a neve as apagasse.
De quando em quando, Ravasco detinha-se, desabotoava a braguilha e soltava uns pingos na berma da estrada. Depois, numa ligeira corrida, alcanava os companheiros.
Todos os homens caminhavam em silncio. Subitamente, porm, Belchior disse, com uma voz mais suave do que a habitual, uma voz quase enternecida:
- Eu conheci-o mal lhe deitei o olho. Mas, ao v-lo, fugiu-me a fala. Ainda um dia destes tinha
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pensado nele. Era um bom tipo. Eu at namorisquei a filha que ele tinha... Ele fingia que no percebia nada, mas eu estava farto de saber que ele no ia contra eu ser seu genro... Nesse tempo, eles viviam na Covilh e trabalhavam no outro lado, na Degoldra. Quando o despediram da fbrica, por estar velho, valeu-lhe o salrio da rapariga, que era fiandeira. Vocs no se recordam dela? Uma magrita, que tinha sardas?
- Eu tenho uma ideia - disse uma voz. - Ela no coxeava um pouco?
- Coxeava. Era essa mesma. Era muito fraca e o seu salrio no dava para os dois comerem e ela tratar da sade. Para a aliviar, ele fazia os trabalhos da casa enquanto ela estava na fbrica. Lavava a roupa, preparava a comida, fazia tudo. Ele no via seno a dae tinha razo, porque sem aquela filha ele morreria de fome... Mas, um dia, o bicho deu nos pulmes da rapariga. Meteram-na na Misericrdia. Ainda fui v-la vrias vezes e levar-lhe algumas coisas. Mas da ltima vez j ela no tinha olhos para me ver. O velhote estava  porta. Chorava que nem uma criana. Atirou os braos a mim e chamou-me seu filho. Depois disse-me: "Vocs iam ser muito felizes. Eu sei que vocs iam ser muito felizes."
A voz de Belchior embargou-se-lhe. Os homens continuavam a marchar com seu fardo e a lmpada a riscar na neve uma trmula vereda de luz.
Eu fui ao funeral e, dias depois, fui ver o velhote. Eu levava vinte mil ris para lhe dar. Quando cheguei, encontrei uns homens a tirar da casa dele todos os trastes que l havia. Ele disse-me que tinha vendido tudo. Que no podia continuar ali, porque estava sempre a ver a filha. Eu tirei, ento, do bolso os vinte mil ris, mas ele no os quis receber. Mostrou-me uma nota de cinquenta, que lhe tinham dado pelos tarecos, e disse-me que no me preocupasse com ele...
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- Cala-te l com isso! -pediu Ravasco.- Bem basta irmos, aqui, com o corpo! Ainda por cima estares a lembrar essas coisas!
Belchior abreviou:
- Foi ento que ele foi para o Teixoso...
Caiu outro grande silncio entre os homens. De quando em quando, porque as mos ao lu em breve enregelavam, eles revezavam-se nas pontas do sobretudo onde ia o cadver e prosseguiam na marcha. Depois do que Belchior contara, parecia-lhes que o morto no ia bem morto, que o sobretudo ia cheio de sentimentos, que uma rapariga definhada e com muitas sardas ia tambm l dentro, invisvel mas sensvel.
Ao entrarem no povoado, Ravasco, como se quisesse absolver-se da sua primeira atitude, adiantou-se para acordar o sacristo, que devia abrir a igreja.
Pouco depois, a porta do pequeno templo, erguido no centro do lugar, descerrava-se, rangendo. L dentro tremulava uma lmpada sonolenta e,  sua luz difusa, os homens pousaram o cadver no cho. Belchior olhou para o sobretudo de Ravasco e para a toalha branca, com bordados, que cobria o altar, l ao fundo. Parecia-lhe, porm, sacrilgio privar os santos daquele ornamento. Joo Ribeiro adivinhou as hesitaes dele e avanou para o altar. Levantou as jarras com flores de papel, depois as imagens e retirou a toalha. Os homens continuavam calados. Quando a toalha foi estendida no soalho, eles depuseram, sobre ela, o cadver. Joo Ribeiro entregou o sobretudo a Ravasco e voltou-se para todas aquelas caras, s quais a vaga luz da lmpada dava expresses rudes, opacas, de esculturas feitas a podo:
Eu no quis contrariar o Belchior, mas no h dvida que ainda pode haver algum sarilho com a polcia... Acho que ele deve dizer, quando telefonar, que fomos todos ns que resolvemos trazer o morto para aqui. E, amanh, se nos perguntarem,
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devemos dizer a mesma coisa. Todos ns devemos tomar a responsabilidade.
Joo Ribeiro contemplou os presentes. Nenhum deles articulou uma s palavra, mas o seu silncio era aprovativo. Ento, Belchior pediu a Joo Ribeiro:
- Telefona tu, que sabes dizer as coisas melhor
do que eu.
O bando comeou a dispersar-se. Joo Ribeiro e Belchior foram chamar a Rosalina, para que viesse abrir a Casa do Povo, de que ela era empregada e onde se encontrava o posto telefnico da aldeia. Horcio deixou-os e dirigiu-se para o casebre de Ricardo. Na viela cruzou-se ainda com Tramagal, Augusto e o outro homem que fora por eles. Depois de os informar que o morto ficara na igreja, meteu na porta de Ricardo a chave que Jlia lhe dera desde que ele andava no turno da noite e comeou a subir a escada, evitando fazer rudo. Havia ali grande silncio, que naquela semana Ricardo trabalhava de dia.
Em cima, Horcio despiu-se com rapidez, e, soprando a vela que havia acendido, meteu-se na cama. Ao envolver-se nas mantas, teve uma sensao de alvio, uma sensao que ia aumentando, em prazer,  medida que ele ia esquecendo. Cada vez aquela sensao de calor lhe era mais agradvel. O corpo encolhia-se de volpia quando ele recordava o frio que acabava de sofrer. Embrulhou-se ainda mais nos cobertores e disps-se a dormir. Mas a figura do morto volveu aos olhos dele, agora incomodamente. E, com ela, as palavras de Joo Ribeiro sobre a l, quando descobrira que o velho tombara de frio. Horcio comeou a ver, nas trevas, l por toda a parte, l a cair do corpo das ovelhas, na poca da tosquia, l fofa, depois l prensada, montes de l nas fbricas, na lavagem, na carbonizao, na escarduagem, homens a labutar sempre com a l at ela passar s mquinas de cardar, at tornar-se emMe
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ch e perder o seu aspecto original. Durante muito tempo a l fora, para ele, apenas uma coisa que se vendia, aos quilos, que dava dinheiro aos donos das ovelhas, e, depois, se comprava aos metros. Habituado a dormir ao relento no Vero, a cobrir-se com a manta quando esfriava, a abrigar-se de dia com os safes e o capote, nunca se detivera a relacionar esses elementos da sua defesa fsica com o prprio rebanho que ele pastoreava. Os safes eram uma pele de ovelha com a sua l pegada, mas quando ele criara entendimento j encontrara safes em seu redor, pois os pastores costumavam us-los, tal como usavam um cajado, certamente desde o princpio do Mundo. Agora, porm, a l aparecia-lhe com outro aspecto. E at o rebanho do Valadares, que ele vira, durante muito tempo, como simples cabeas de gado com um valor em dinheiro, passava, agora, nos seus olhos, de maneira diferente, como se as ovelhas tivessem perdido ossos e carne, patas e cabea, e ficassem s l, casulos em forma de ovelhas, que depois de transformados serviam para aquecer os homens. Mas por entre toda aquela l surgia-lhe sempre, teimosa, a lembrana do velho estendido na neve e de cada vez que a figura se apresentava, com seus olhos vtreos, mui abertos, ele sentia calafrios na quentura da cama. Voltou-se para a direita, voltou-se para a esquerda; o sono no pegava e a volpia inicial fora substituda por mal-estar. Ento, ele acendeu a vela, para matar a obsesso, para deixar de ver a l e o morto - a l e os homens que no podiam t-la.
Na casa e l fora, e parecia, at, que no Mundo inteiro, continuava a haver um grande silncio. Horcio pegou num dos livros que Marreta lhe emprestara e comeou a l-lo. Leu-o, a princpio, para esquecer o morto e leu-o, depois, uma hora a seguir a outra, enquanto a vela durou, interessado pelo que o prprio livro lhe dizia. E s na antemanh adormeceu.
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As cinco da tarde, quando entrou na fbrica, Mateus comunicou-lhe: 
- O Boca Negra j est bem e vem na segunda-feira. Voc volta para o turno de dia.
Horcio hesitou, tornou ahesitar e, por fim, encorajou-se:
- Volto para aprendiz?
- No tenho outro lugar - respondeu Mateus, entrando no seu gabinete envidraado.
A parte aquele sbado, em que no pudera ir, por trabalhar de noite, em todos os outros, mal abandonava a fbrica, Horcio dirigia-se a Manteigas. A princpio, para utilizar a camioneta que partia da Covilh s quatro e quarenta e cinco, ele solicitava a Mateus que lhe permitisse sair meia hora mais cedo. Desde, porm, que a Jlia lhe aumentara o preo da hospedagem, comeara a minguar-lhe o dinheiro para o transporte. Por isso, e porque era sempre de mau grado que o mestre lhe consentia deixar o trabalho antes dos outros, decidira ir a p. E, s cinco da tarde, em vez de caminhar para a Aldeia do Carvalho, metia  montanha, direito a Manteigas. Eram quatro puxadas horas quando no havia neve, cinco e at mais quando ela cobria encostas e pncaros, de onde os prprios lobos haviam fugido. Algumas vezes, durante o percurso, ele irritava-se ao lembrar-se de que ia ali, a esfalfar-se serra acima, somente pela diferena de um quarto de hora na fbrica e pela falta de alguns escudos. "Bem lhe bastava ter de calcorrear aquilo  volta, por no haver camioneta de Manteigas para a Covilh nem ao domingo, nem  segunda-feira." Esse enervamento durava, contudo, pouco tempo. Na semana seguinte, novamente ele desejava que chegasse o sbado e era rindo que, ao entrar em casa, ouvia a me amaldioar
 
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 "aqueles caminhos do demnio" que ele tinha de percorrer sozinho.
- Rapazes na tua idade 'no tm juzo nenhum! Se fosse por ns, no virias, eu bem o sei! acrescentou a senhora Gertrudes.
Ele continuava sorrindo e, s vezes, enternecia-se, ao verificar que os pais no tinham ceado, que estavam  sua espera h muito tempo j, com a panela  beira do lume, para que no esfriasse nem fervesse. Os trs comiam, ele contava histrias da Aldeia do Carvalho e, em seguida, deitava-se deitava-se com a nsia de que a noite acabasse, de que viesse a manh, porque, aos sbados, como arribava j tarde a Manteigas, pouco falava com Idalina quando passava  sua porta.
Assim, os domingos pareciam-lhe os dias mais felizes da sua vida, sobretudo antes de os viver. Era sempre um alvoroo a sua chegada junto de Idalina, mas, depois, com o decorrer das horas ao seu lado, a felicidade ia-se transformando em inquietao. Horcio sentia que as palavras dela estavam cheias de hesitaes, de reservas, que ela evitava falar-lhe do futuro, como se no acreditasse nos projectos dele, nem mesmo nessa casita que fora a razo de terem adiado o casamento. Uma tarde, tendo ele admitido que poderiam casar-se no ano seguinte, ela desatara a chorar - e, muito instada embora, no quisera explicar o motivo das suas lgrimas. As vezes, por uma e outra palavra, Horcio adivinhava disputas entre ela e os pais e enfurecia-se contra os velhos. Logo, comeava a valorizar as suas possibilidades vindouras a valoriz-las muito mais do que ele prprio nelas acreditava. Idalina ouvia-o em silncio, parecia mesmo tornar-se confiante, como da vez em que ele lhe dissera ter substitudo, durante alguns dias, o Boca Negra. Pouco depois, porm, os seus olhos voltavam a entristecer. Horcio, ento, amargurava-se perante a dificuldade de dar imediata soluo  vida deles. E esse mal-estar crescia quando
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topava os pais de Idalina, que respondiam friamente s suas saudaes e pareciam querer evitar qualquer outra fala.
Na sua prpria casa, Horcio pressentia que a me lhe ocultava alguma coisa. Ela mostrava-se interessada pela maneira como ele vivia na Aldeia do Carvalho, pela situao da famlia de Ricardo, pela sua convivncia com Marreta e Manuel Peixoto, por outras pessoas e episdios que haviam transitado nas suas conversaes anteriores. Um ou outro domingo, interrogava-o, tambm, era certo, sobre o tempo que ainda faltaria para ele ser definitivamente operrio. Mas, ao faz-lo, a senhora Gertrudes perdia toda a espontaneidade verbal. As suas palavras, como as de Idalina, enchiam-se de reticncias que ela no sabia disfarar - e que ele apreendia facilmente. Mesmo nesses momentos, a me jamais se referia ao casamento. Se o nome de Idalina surgia entre eles, a senhora Gertrudes creditava-lhe um elogio e no ia mais alm; se dos pais dela se tratava, a sua boca comia um rpido silncio e mudava para outro assunto.
Um domingo, ao entrar em casa, depois de ter deixado Idalina, Horcio, como encontrasse sozinha a senhora Gertrudes, pusera-lhe a questo. Que havia, que no havia, ele j no entendia nada e tinha de saber o que se passava. At a Idalina no lhe parecia a mesma e, s vezes, ele julgava que andava ali a fazer figura de parvo.
A me no respondeu logo.
- Isso so ideias tuas... - disse, mais tarde. - Pois o que havia de haver?
Horcio insistiu, barafustou, gritando que o tratavam como a uma criana.
 Que alguma coisa havia, estava ele farto de perceber afirmou.
Perante a teimosia e a exaltao do filho, a se nhora Gertrudes decidiu-se:
- No h nada... Eles no acreditam que tu 
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possas alcanar o que desejas... E no tm ganas de esperar...
- Eles? Quem?
A senhora Gertrudes no levantou a pergunta.
- A Idalina tambm? - voltou ele a interrogar, ansiosamente.
- No. A rapariga, no - tranquilizou-o a me. - De mais a mais, tu deves sab-lo melhor do que eu... Ela  boa pequena. Cada vez gosto mais dela.
-i Mas, ento...-Horcio deteve-se, de olhos fixos no soalho. Ao seu lado, de p, olhando-o, consternada, a me respeitou-lhe o silncio. Por fim, ele volveu: -E? Vossemec cr, tambm, que eu no consiga?
A senhora Gertrudes vacilou, atormentou-se mais e disse, esforando-se por dar ligeireza  sua voz:
- Pois claro que hs-de conseguir! Por que no? Ests novo, tens sade e vontade. Se no arranjares essa tal casa, arranjas outra. No te aflijas por isso!
Horcio continuava a pressentir que alguma coisa ficara por dizer e que a me pretendia apenas consol-lo.
- No percebo... - murmurou. E voltando-se para a senhora Gertrudes: - Como  que eles sabem que eu no arranjo nada, se ainda h to pouco tempo entrei para a fbrica? Que pressa  essa?
A me dominou-se um momento: resolveu, depois, falar, e, de novo, se conteve; finalmente, soltou:
- No queria arreliar-te mais do que andas, mas, j agora, acho melhor dizer-te tudo. Esteve a um rapaz de Gouveia, que comeou a arrastar a asa a Idalina...
Horcio levantou-se bruscamente:
- O qu? O que est vossemec a dizer?
- Sossega... No  caso para te ralares. A Idalina no lhe ligava importncia nenhuma - mesmo nenhuma. A me dela  que no descansava. Parece que o rapaz tem alguma coisa de seu e a Januria
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no se fartava de lhe meter a filha  cara. Mas a Idalina portou-se bem. Tanto que ele, depois de estar a uns tempos, foi-se embora e nunca mais voltou.
- Eu logo vi que havia alguma coisa! Agora j compreendo tudo... Quem  ele?
- Que te importa? O rapaz estava a e procurou entreter-se. Se a coisa pegasse, pegava; se no pegasse, pacincia! Se tu estivesses no lugar dele farias o mesmo...
Horcio continuava sombrio: -'Mas quem ?
- Ora, ora! Deixemo-nos de histrias! Ele no te conhecia; no te devia respeito. Viu um balmito de cara e piscou-lhe o olho; ela deu-lhe para trs e tudo se acabou. Que mais queres?
- Mas vossemec no v que eu venho a saber quem ele ?...
- Pois sabe! s teimoso como o teu pai. Se tu fizesses alguma coisa ao rapaz, eu era a primeira a renegar-te. Se ele fosse teu amigo, teu conhecido, est bem, podias queixar-te. Mas, assim...
-' o que eu digo! Tenho andado aqui como um parvo! Por que no me preveniram h mais tempo?
- Para qu? Se eu visse que havia alguma coisa sria... Mas, ao contrrio, tu  que ficaste a ganhar... A princpio, ainda me apoquentei... Tanto que, um dia, no me pude conter e, como a rapariga passasse a  porta, chamei-a. Eu tinha ouvido uns zunzuns, e quis pr as coisas em pratos limpos. Ela, coitada, desfez-se em lgrimas e contou-me tudo. Dela, sim, eu tive pena, porque, aperreada pelos pais, deve ter sofrido bastante. Agora tu, at fizeste boa figura. Todo o povo ficou sabendo que a Idalina no te troca, mesmo por um rico.
Ele ouvia e remoa, despeitado, odiento, a atitude da tia Januria e do marido.
- Que velhos desavergonhados!-exclamou.- Onde se viu uma coisa assim? Terem. a filha comprometida comigo e andarem a oferec-la a outro!
 
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A senhora Gertrudes ficou, um momento, silenciosa. Depois disse, vagarosamente:
- Bem... H que ter em conta como as coisas so. No que eu goste da Januria... Para dizer a verdade, at no fiquei contente quando tu comeaste a namorar-lhe a filha. Mas resolvi no me meter no caso. A tua av no queria que eu casasse com o teu pai e, afinal, eu dei-me bem com ele. Nunca me zanguei com a Januria, mas tambm nunca simpatizei com ela. E, agora, mal nos falamos.  "Salve-a Deus" para aqui, "Salve-a Deus" para acol - e mais nada. Mas h que ter em conta o que teu pai diz e com razo. Eles so muitas bocas a sustentar. Os filhos vo crescendo e cada vez so maiores as despesas. E se eles ainda tivessem meios! Mas no; eles vivem pior do que ns. A Idalina est uma mulher feita e precisa de arrumar a sua vida. Quando ela trabalha nos campos, bem vai... Sempre auxilia... Mas quando no arranja trabalho, que  a maior parte do tempo? H que ver as coisas... Claro, se eu estivesse no lugar da Januria, parece-me que seria diferente dela. Mas ningum pode dizer: "Desta gua no beberei."
Horcio sentou-se, fimcou os cotovelos sobre os joelhos e apoiou a cara nas mos. -Os seus olhos estavam fixos no lume, mas no viam o lume.
A senhora Gertrudes continuou:
- No dia em que a Idalina esteve aqui e se ps a chorar, o teu pai disse-lhe que estava resolvido a vender uma das nossas courelas, para vocs se casarem e acabar-se com isto. Eu tambm j estava por tudo, mesmo sabendo que, se nos desfizssemos da terra, ficaramos de pernas quebradas. Mas a rapariga garantiu que no queria de maneira nenhuma tal coisa e que esperaria o tempo que fosse preciso.
Horcio ia-se tranquilizando. A me continuava a falar, a recomendar-lhe pacincia, mas ele j mal a
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ouvia. Uma maior ternura por Idalina enchia-lhe, agora, a cabea e o peito. O tio Joaquim entrou soprando o frio da noite. A senhora Gertrudes desatou a pairar sobre outra coisa e depois colocou a ceia na mesa. Horcio olhou para o velho despertador, que estava dependurado na parede. Eram quase oito horas, ele considerou que j no chegaria  Aldeia do Carvalho antes da meia-noite. Quis comer depressa, mas o apetite encolhia-se-lhe.
A me seguia-o, com o olhar. Ele deixara na tigela metade do caldo.
- No quero mais! - disse, quando a senhora Gertrudes lhe trouxe o tassalho de presunto e as batatas que havia cozido.
- Come! Ento tu vais ficar assim?
Ele tentou ainda, mas as fveras prendiam-se-lhe na boca.
- No quero mais - tornou a afirmar.
A senhora Gertrudes suspirou de tristeza:
- Que raio de vida a tua! -E, suspirando sempre, acendeu a lanterna que ele devia levar.
Horcio saiu, a grandes passadas, para a noite. C fora, a sua ternura por Idalina continuava a subir. Ao lembrar-se de como, ultimamente, ela lhe apertava, em silncio, as mos, comovia-se mais. "Coitadita, estava como a pedir proteco, mas s agora ele sabia isso." Sofria o desejo de tornar a v-la, de a afagar ternamente, de lhe dizer que lhe queria muito - agora mais do que nunca. E, pensando nela, parecia-lhe que o prximo domingo  que seria o mais feliz da sua vida.
Toda a manh seguinte, na fbrica, ele se entregou quele mesmo negrume de alma que lhe havia tirado o sono durante a noite e lhe envenenava,
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agora, as horas de trabalho. A sua ateno desgovernava-se para outra coisa que no fosse aquilo e at Pedro, de mau humor, o advertira, j por duas vezes, de negligncia. Mas ele no podia evadir-se da apoquentao. A ideia de que outro andara rondando as graas de Idalina e que poderia voltar a faz-lo, que nos pais dela encontraria estmulo, incandescia-lhe os nervos, entre o frio rudo das mquinas. "Ele tinha de casar o mais depressa possvel! No havia dvida de que Idalina resistira, mas se demorassem muito tempo a casar, quem sabia l? Ele s a via no fim de cada semana, enquanto os pais tinham todos os dias para serrazinar-lhe os ouvidos. O outro possua bens e talvez fosse, at, mais desempenado do que ele. Idalina podia acabar por gostar desse tipo de Gouveia. Desse ou de outro qualquer. Tinha-se visto isso muitas vezes." Rematava sempre: " preciso no demorar muito!"
Lanava se a lavrar clculos, mas de nenhum extraa consolo. O que recebia como aprendiz dava apenas para a comida e a dormida em casa de Ricardo e para os cigarros. Por ali no podia fazer nada. Fora pena no ter aprendido, com o pai, alguma coisa de sapateiro, pois, agora, nas horas livres, sempre podia ganhar uns vintns. Era certo que j pedira a Manuel Peixoto, a Marreta e a outros que, se aparecesse algum que precisasse de trabalho de enxada, nas horas que ele tinha livres, o recomendassem. Mas mesmo isso era difcil, logo lhe tinham dito, porque ali,  parte um ou dois, todos os demais amanhavam, eles prprios, o que era seu. S havia um remdio capaz: ele chegar a pegador de fios e, depois, aprender para tecelo. Mas ningum sabia ainda quando isso poderia ser.
A sua expresso mostrava-se to diferente da dos outros dias que Marreta,  hora do almoo, lhe perguntou:
Que te aconteceu? Ests com uma cara de enterro. 
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Ele pensou desabafar com o amigo, mas a presena de outros operrios coibiu-o. Tentou sorrir:
- No tenho nada... Dormi mal a noite passada. ..
Marreta contemplou-o com os seus olhos profundos, como se no acreditasse no que ele dizia e visse claro no fundo da sua alma. Perante esse olhar, onde adivinhava, tambm, carinho por si, Horcio decidiu confidenciar a Marreta as suas mofinas logo que os dois sassem da fbrica. Parecia-lhe, agora, que, alm de alvio, no amigo poderia encontrar til opinio e conselho para o seu imediato futuro. E, assim, aps o almoo, ele impacientava-se com o carro de fiao, ansioso de que o trabalho terminasse.
 tarde deu-se, porm, na fbrica, acontecimento que lhe fez olvidar quantas dvidas e tristuras trouxera de Manteigas. Mateus passara na coxia central, olhando, atento, para todos os lados, mesmo para debaixo das mquinas, mesmo para os espaos vazios, como se andasse a ver se o casaro estava capazmente varrido. Junto das penteadeiras, as suas mos entretiveram se, um momento, a acertar rigorosamente, sobre os socos rolantes, os "potes" que recebiam as mechas de l. Tudo o mais lhe devia ter parecido bem limpo e ordenado, porque, em seguida, sempre com vagarosos passos e olhos inspeccionadores, abandonou o grande quadrilongo, metendo  porta que dava para a seco onde eram feitas as canelas de papel. Pouco depois, sabia-se que Azevedo de Sousa Viria, nessa tarde, mostrar a sua fbrica a um suo, representante de teares, dos quais ele pensava comprar alguns. Quando, da sua penteadeira, Tramagal transmitiu a nova, Horcio quedou-se emaranhado em curiosidade. Nunca tinha visto o seu patro. Azevedo de Sousa, piloto de vrios negcios raramente aparecia ali. Ora por Lisboa e Coimbra, ora na sua quinta do Zzere, quando adregava estar na Covilh e vir  fbrica, metia-se no escritrio, um pequeno edifcio autnomo, do
 
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outro lado da calada interior e os operrios no o viam. Vinha s horas em que eles trabalhavam, conferenciava com o gerente, dava-lhe ordens, examinava papis, discutia encomendas e retirava-se. S uma vez Horcio divisara, quando saa da fbrica, o automvel de Azevedo de Sousa  porta do escritrio, porque, nesse dia, o industrial demorara-se mais ali. Os operrios falavam dele com diversas opinies, mas nenhum com simpatia. Uma tarde em que, de regresso  Aldeia do Carvalho, Marreta comeara a bosquejar-lhe a figura, Tramagal intrometera tantos comentrios, tantas crticas, que ele ficara sem saber como o patro era. Um homem alentado, como o prprio Tramagal, fora a ideia que lhe quedara. E o industrial passara a ser para Horcio apenas um homem forte, de rosto indefinido, sentado nesse automvel que ele vira, um dia,  porta do escritrio, com um motorista fardado e de bon de pala.
Agora, porm, ia v-lo. E esta certeza dava-lhe uma antecipada sensao de humildade e de respeito.
Ainda no eram quatro horas quando Azevedo de Sousa surgiu, com o suo, ao cimo das escadas que ligavam, internamente, o piso superior da fbrica a" piso trreo onde, em lavadeiras, despedideiras, hidroextractores, batedores, lobos e outros maquinismos, especializados operrios realizavam os mais duros trabalhos que a l exigia antes de ser cardada e fiada. As mquinas, ali, no possuam a elegncia de linhas, nem a complexidade de movimentos das suas irms de cima; eram de rude aspecto, sbrias, negras, umas de frreo ventre e temveis dentuas, outras de pesados tambores. To-pouco os homens que se viam em redor delas se mantinham estticos como quase todos os seus camaradas do andar principal, silenciosos espectadores dos movimentos mecnicos, aguardando uma possvel necessidade de interveno. Mas, os de baixo, suados, sujos de poeiras, de gorduras, moviam-se tanto como as mquinas,
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abrindo-as e carregando-as, lavando, carbonizando, azeitando as ls, tudo numa atmosfera densa de vapores, de cheiros de leos e de solues sulfricas.
Quando algum estranho visitava a fbrica, era sempre por ali que o proprietrio ou o gerente o introduzia, j porque assim o visitante caminhava da causa para o efeito, da l em estado original para os vistosos tecidos em que ela se transformava, j porque vendo, em ltimo lugar, a parte superior do edifcio, a mais moderna, aquela onde os operrios consumiam menor esforo, conservaria na sua memria mais lisonjeira impresso.
Agora, no tope das escadas, Azevedo de Sousa detinha-se, para que os olhos do suo pudessem abranger, em conjunto, esse longo pavimento, de boa iluminao e muito asseio, onde trabalhavam dezenas e dezenas de mquinas e de homens e mulheres.
Depois, o industrial e o suo foram avanando, lentamente, para os primeiros maquinismos para as cardas. Atrs deles vinha o gerente, o mestre e um dos debuxadores da fbrica.
Horcio identificou facilmente Azevedo de Sousa, por ser ele quem mais falava, quem gesticulava e caminhava com maior segurana, com mais passo de dono, sobre o cimento. Era, como Marreta lhe havia dito, um homem robusto, cara redonda e morena e ventre levemente abaulado. Quando estendia o brao, numa indicao, nos seus dedos faiscavam pedras preciosas. Ao lado dele, o suo, de pescoo muito alto, rosto magro, bigode curto, uns culos brilhantes e o cabelo loiro, tinha um sorriso corts, que s quebrava para fazer uma ou outra pergunta.
Junto da fiao contnua o grupo parara. E, pela primeira vez, o suo falava mais do que Azevedo de Sousa. Apontando um trecho de uma das mquinas, dobrava-se para melhor o observar e, em seguida, tirava do bolso papel e lpis e punha-se a desenhar. Por fim, mostrara o desenho ao industrial.
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tornara a falar e a apontar a mquina, enquanto Azevedo de Sousa ia fazendo, com a cabea, movimentos aprovativos.
Dali, os cinco homens dirigiram-se para as "self-actings". O corao de Horcio comeou a pulsar fortemente. Parecia-lhe que o seu futuro dependia daquele homem que se aproximava dele sem o olhar sequer, que o seu destino estava nas mos daquele homem que no o conhecia e que ele prprio via, agora, pela primeira vez. E pensou que devia mostrar-se humilde, subserviente, para dar boa ideia de si a quem tanto poderia influir na sua existncia.
Mateus adiantou-se e mandou parar os carros de fiao. Entretanto, Azevedo de Sousa saudava, amavelmente, a operrios e aprendizes. "Boa tarde", "Boa tarde" - ia dizendo. "Boa tarde a vossa excelncia. Como est vossa excelncia?"-apressou-se Horcio a pagar-lhe. E to enleado se sentiu, tanto a sua voz lisonjeira ecoou e se lhe demorou nos ouvidos, que no deu sequer pelo tom que Pedro e Boca Negra respondiam.
Agora, o industrial estava ao p do "homem de ferro", da primeira "self-acting", a conversar com o suo. Falava uma lngua que Horcio no compreendia, mas que Pedro lhe disse ser francs. O gerente, o Mateus e o debuxador mantinham-se ligeiramente afastados, em respeitosa atitude.
O suo voltara a tirar dos bolsos um papel e um lpis. E enquanto este desenhava, Azevedo de Sousa comeara a palestrar com Boca Negra, que era, de todos os operrios, o que estava mais prximo dele. Boca Negra ouvia e respondia com muita naturalidade. Somente os seus lbios revelavam, s vezes, uma leve perturbao.
Horcio acercou-se do grupo e ps-se mesmo em frente de Azevedo de Sousa, ansioso de que este o fixasse. A sua vontade era intervir, dizer alguma coisa, no sabia o qu, alguma coisa pela qual o
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patro o ficasse conhecendo e tendo-o em boa conta. Mas, uma vez ao p do industrial, cujos olhos nunca se desviavam para ele, de novo se sentiu tmido, preso da sua humildade. Calado, ia acompanhando os gestos e as falas de Azevedo de Sousa com sorriso e expresses de servido, como se tudo quanto ouvia lhe merecesse aplauso.
O suo conclura os seus apontamentos. E Azevedo de Sousa voltara a dialogar com ele em francs. Quando os dois se retiravam, Horcio afastou-se rapidamente, em sucessivas curvaturas de tronco e de cabea. Com o desejo de criar espao para o grupo do industrial passar, e cada vez mais perturbado, menos senhor de si, recuara at  proximidade das penteadeiras. Foi ento que o seu olhar encontrou o de Tramagal, que o contemplava com dureza e desprezo. De comeo, ele no compreendeu bem a razo daquilo; logo, porm, se sentiu vexado. At ali, toda a sua ateno se prendera a Azevedo de Sousa e aos que o acompanhavam. Agora, batido pelos olhos de Tramagal, Horcio reparava nos companheiros de trabalho. Esperava v-los tambm submissos, evidenciando, por modos e palavras, o desejo de colher agrado do patro. Mas, ao contrrio, viu que eles mantinham aquela mesma atitude fria, atitude de sentinelas de mquinas, que tanto o havia impressionado no primeiro dia em que viera para ali. Quer os que Azevedo de Sousa saudava de passagem, quer aqueles com quem falava, ao deter-se junto dos teares, todos lhe respondiam cortesmente, mas nenhum mostrava expresso ou fazia movimento que denunciasse desejos de lisonja. Dir-se-ia que continuavam atentos, sobretudo, s mquinas e que, ali, o industrial era, como o suo, um estranho, perante o qual no se esquecia que o trabalho, as funes de cada um, constituam elementos mais importantes do que o patro. Havia, contudo, algo que pesava sobre eles mais do que habitualmente; e esse peso s se rarefez quando Azevedo de Sousa, o suo, o
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gerente e o debuxador, depois de se terem demorado longo tempo a examinar os teares, saram da fbrica. Alguns operrios trocaram, ento, um olhar e as mquinas continuaram no seu rumor, nos seus movimentos, tudo na mesma, como antes de o industrial ter surgido ali.
Horcio sentia-se humilhado e evitava os olhos de Tramagal. A certa altura, ouviu-o resmungar, como era muito de seu feitio. Pensou que aquilo devia ser por causa dele, por causa do patro ou pelos dois juntos, mas no entendeu uma s palavra. As mquinas prosseguiam na sua tarefa e parecia-lhe que as de fiao de carruagem metiam, naquele momento, maior rudo do que nunca nos ouvidos dele.
Subitamente, porm, as cardas, que se alinhavam junto da escada interna, detiveram-se. Dois cardadores estendiam o pescoo, apurando o ouvido para o que se passava no piso trreo. Depois, as penteadeiras e as estiradeiras pararam tambm. E os seus operrios e operrias voltavam-se para o lado das escadas, em atitude de quem escuta. Admitindo um acidente ou outro acontecimento vultoso, dentro em pouco todos os olhos convergiam para ali e as mquinas iam-se detendo, umas a seguir s outras. Que era, que no era, nas ruidosas "self-actSngs" ainda ningum sabia ou ouvira nada do que decorria l em baixo. Mas os pegadores de fios compreendiam que os outros, os mais prximos da escada, ouviam perfeitamente. Por fim, as "self-actngs" pararam tambm. E, ento, voou at Horcio a voz forte de Felcio, mestre da ultimao, que altercava com outro homem. Na fbrica fizera-se um grande silncio e s aquela voz autoritria enchia tudo. O outro parecia defender-se, justificar-se, mas nem todas as suas palavras chegavam inteligveis at l acima.
-  o Ravasco - disse Boca Negra, dirigindo-se a Horcio e a Pedro.
A voz de Felcio voltou a erguer-se:
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- Est despedido! Nunca se viu uma coisa destas! Est despedido!
A outra voz no contestou. Entretanto, Mateus sara do seu gabinete e lanara aos operrios um olhar severo por eles haverem interrompido o trabalho. As mquinas tornaram imediatamente a laborar. E Mateus, enfiando pela escada que dava para a ultimao, desaparecera. Os olhares de todos os operrios voltaram a encontrar-se interrogativamente. Alguns estavam sombrios, outros mostravam um sorriso gelado, cortante. Os relgios marcavam quatro e quarenta e as mquinas continuaram a trabalhar, como sempre, at s cinco horas, at a sereia apitar. Logo os operrios do primeiro piso desceram, mais apressados do que em outro qualquer dia. Tramagal ia  frente, aodado e trombudo. Marreta caminhava atrs dele. Ao chegar  calada j no encontraram Ravasco, mas os seus companheiros nas lavadeiras comentavam, em grupos, o ocorrido. E os de cima souberam, ento, que, pouco depois de ter partido o automvel que levava Azevedo de Sousa e o suo, Felcio dirigira-se a Ravasco e acusara-o de lhe haver faltado ao respeito, quando ele acompanhava o patro na sua visita. Que duas vezes ele lhe fizera uma pergunta e que o Ravasco no lhe respondera. E que, como ele teimasse, dissera umas palavras que mais pareciam um grunhido do que uma resposta e, em seguida, voltara-lhe as costas. Quer o patro, quer o gerente e at o suo tinham percebido muito bem tudo aquilo. E, assim, no podia consentir essa falta de considerao por ele, que, como mestre da ultimao, era o encarregado de manter ali a disciplina. Ravasco, que comeara negando ter ouvido as primeiras perguntas, quando o outro dissera que ele grunhira, exaltara-se e gritara que Felcio "estava muito enganado, que ele no era porco, pois no pertencia  sua famlia". Palavra puxa palavra, os dois haviam-se insultado. E Ravasco, ento, confessara que no respondera
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quando perguntado, porque aos outros operrios fora sempre o patro quem fizera as perguntas e s a ele, como se o tivera por menos que aos demais,  que Felcio se dirigira e, ainda por Cima, com o ar de quem trazia o rei na barriga. E que aquilo j vinha de longe. Que o Felcio andava sempre a implicar com ele, tanto que ele, se no fosse pensar na mulher e nos filhos, j teria feito uma asneira. Depois que Felcio o despedira, Ravasco abalara logo, dizendo que, nessa noite, ia apresentar a questo no Sindicato.
Os operrios do primeiro piso, aps ouvir aquilo, quedaram-se, um momento, indecisos em creditar razo apenas a um dos dois. Somente Tramagal, excitado, parecia inclinar-se mais para Ravasco, ao perguntar:
-. Ento o Felcio andava sempre a implicar com ele? Que lhe fazia?
Os outros responderam que no sabiam. O Ravasco nunca lhes dissera nada. Ele tinha aquele feitio reservado, que todos lhe conheciam, e, nos ltimos tempos, irritava-se facilmente. S uma vez, h j muitos meses, ouviram Felcio perguntar-lhe por que no bebia pouca gua, para ver se urinava menos. Ele, decerto, no gostara daquilo. Fora, talvez, por isso, que a questo comeara, pois h pouco, quando discutiam, Felcio dissera "que Ravasco estava muito enganado se pensava que a fbrica lhe pagava para ele passar a vida a mijar e, ainda por cima, a faltar ao respeito a quem o devia".
- Mas quando o Felcio lhe disse isso da gua, era com boa ou m inteno? - insistiu Tramagal.
Foi o Bernardo, que trabalhava ao lado do Ravasco, quem respondeu:
Eu ouvi, mas no sei. Parece que era por bem. O Felcio disse aquilo com. bons modos.  claro que, ento, o Ravasco ainda no usava bolsa e tinha de interromper o servio muitas vezes, para ir l fora.
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- Ah! Est tudo visto!-gritou Tramagal.- Devia beber pouca gua, para no roubar tempo ao patro!
Os outros operrios no se solidarizaram com aquele raciocnio.
- Logo  noite j eu falo com o Ravasco e sei como isso foi - disse um deles. E um e outro comearam a arriscar comentrios, at que Marreta afirmou:
- H muito tempo que o Ravasco no devia precisar de trabalhar. Isso  que !
Houve um silncio. Os operrios principiaram a andar, em direitura ao porto. Pedro preveniu-os:
- O Felcio, o gerente e o Mateus tm estado por detrs da janela do escritrio a olhar para ns. - E como alguns fossem a voltar-se:-No olhem.  melhor eles imaginarem que ns no os vimos. Decerto pensavam que estvamos a falar do caso e queriam ver o que fazamos...
Na estrada, os homens apartaram-se, uns grupos para a Covilh, outros para a Aldeia do Carvalho, como nos demais dias. Vinha subindo o declive, entre outras operrias, a mulher de Ravasco, a Maria Antnia, que trabalhava junto da ribeira, na Fbrica Nova.
- Vou ver se ela sabe mais alguma coisa - disse Tramagal.
Marreta agarrou-lhe um brao:
- No vs! Ela, com certeza, ainda no sabe nada e ias dar-lhe uma m notcia. Deixa que o Ravasco lho diga...
Como sempre, Marreta, Tramagal e Horcio iniciaram, juntos, o regresso  aldeia. Horcio sentia, porm, que Tramagal evitava falar ou olhar para ele. A certa altura, ouviu-o estender conversa aos homens que iam  frente e, por fim, viu-o somar-se ao seu grupo. Pareceu a Horcio, por um sbito silncio de Marreta, que este tambm conhecia a razo daquela atitude. E, com um sentimento de infelicidade, que a lembrana da passagem de Azevedo de Sousa pela fbrica lhe trazia, procurou quebrar essa mudez que marchava ao seu lado 'como uma reprovao.
- Afinal, que doena  que o Ravasco tem?
-  uma coisa muito m...-respondeu Marreta. - Ele principiou por andar sempre a urinar e, s vezes, at urinava sangue. Quando estava diante de gente e no tinha um lugar para se encostar, molhava-se todo. O mdico da Caixa Sindical disse que deviam ser pedras na bexiga e receitou-lhe umas drogas. Ele melhorou uns dias, mas, depois, aquilo voltou e cada vez pior. Andou assim muito tempo. O mdico tinha-lhe falado tambm numa operao, mas ele no queria, a ver se ficava melhor sem se operar. Depois, comeou a deitar mais sangue, a emagrecer de dia para dia e assustou-se. Foi ento que resolveu ir ao doutor Barbeito, de Coimbra, quando, na semana passada, ele veio dar consulta na Covilh. Todos dizem que  um grande mdico, que leva caro, mas que vale quanto leva. O Ravasco foi l com o Joo Ribeiro. O doutor Barbeito meteu-lhe um aparelho com luz na bexiga e depois disse-lhe que ele precisava de ir a Lisboa, pois l havia um instituto bom para tratar daquelas doenas. Que talvez tivessem de o operar ou de lhe fazer um tratamento, mas l  que veriam isso definitivamente. E deu-lhe uma carta para ele se apresentar a um outro mdico de Lisboa. Depois, . sada, chamou de parte o Joo Ribeiro e disse-lhe que era quase certo o Ravasco ter um cancro na bexiga. E que no tinha tempo a perder...
- Coitado! - lamentou Horcio. - Eu no sabia nada disso... E ele no quis ir a Lisboa?
- Ele, agora, estava resolvido a ir. Andava a ver se arranjava dinheiro para as passagens. A Cmara paga o Hospital em Lisboa, mas no paga o comboio. E sempre h mais outras despesas. Ontem, ele
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disse-me que tinha esperanas de poder ir na semana que vem. Decerto tinha promessas de algum emprstimo...
- Ele, claro, no sabe o mal que tem?
- No... Creio que no.
Marreta calou-se um instante e, depois, acrescentou :
-. Eu no sei quem tem razo: se o Feicio, se o Ravasco. Talvez at tenham os dois. O Feicio, com aquela cara e aqueles sorrisinhos,  to torto como o Mateus. Mas tambm parece que a doena que o Ravasco tem transforma as pessoas. Ele, agora, no  o mesmo que era antigamente. Agora, anda sempre com um mau gnio dos demnios. Por d c aquela palha, vai aos ares. Alm disso,  dos antigos, dos analfabetos, e muitas vezes no v bem as coisas. O que ele precisava era de estar tranquilo e de ter meios para se tratar. Mas qual! Tem de se aguentar! Tem de fazer das tripas corao e ir trabalhando. Parece que ele pensava que, mais cedo ou mais tarde, o punham na rua, mas estava  espera de que o despedissem por doena, para assim receber dois meses de salrio. Quem me disse isto foi o Joo Ribeiro. E talvez fosse com esse dinheiro que o Ravasco contasse...
- E o Felcio sabia disso?
Marreta embateu com aquela pergunta, que lhe abrira, de repente, um novo caminho. Considerou um momento, outro e outro, prolongando o silncio.
- No creio que nenhum camarada lho fosse dizer. Mas no era preciso. Ele sabia que, se o despedisse por doena, o patro teria de pagar dois meses. Mas no se pode dizer que foi por isso.  preciso, tambm, no comearmos a dizer, por a, coisas no ar, pois no temos a certeza...
Marreta calou-se. No grupo da frente, Tramagal continuava a falar e a gesticular muito. Marreta contemplou-o e, perante esse olhar, o mal-estar de h pouco volveu a Horcio. Como Tramagal costumava
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ir sempre com eles, aquela separao vexava-o cada vez mais. Hesitou em trazer o caso ao julgamento de Marreta, porque s a ideia de falar naquilo o molestava. Mas acabou por decidir-se, na nsia de dar e de encontrar justificao:
- Parece que o Tramagal ficou zangado por eu, esta tarde, me ter afastado para deixar espao ao patro. Atirou-me uns olhos e ps uma cara que at parecia que me queria comer...
Marreta no preencheu logo a pausa que Horcio abrira. Continuou a andar, calado, e, s muitos passos feitos, disse:
- Isso passa-lhe. Ele  assim. Mas no foi por tu te teres afastado. Foi pela maneira como estavas junto do patro...
- Ento, como  que eu estava?
Marreta manteve ainda, por alguns segundos, o seu silncio. Depois, ps-se a discorrer, paternalmente:
- No s filho de operrio, nem tens vivido no nosso meio. A est! Foi isso que eu pensei quando chegou o patro e reparei em ti. Se o Tramagal tivesse pensado a mesma coisa, no faria aquela cara...
- No percebo nada! Marreta voltou-se para ele:
-No percebes ou no queres perceber?
- No percebo, j disse!
Marreta tornou a olh-lo e, depois, deu  sua voz um tom de pacincia:
- Bem... Antigamente, quando o patro entrava na fbrica, todos se punham como tu te puseste. Os patres vinham, largavam sentenas, intrometiam-se em tudo. E as descomposturas eram o po de cada dia. Pela coisa mais insignificante ameaavam-nos de nos pr na rua. Eles e at ns prprios pensvamos que tnhamos nascido para trabalhar para eles e que ainda era um grande favor eles darem-nos trabalho. Mas, um dia, ns vimos que tambm ramos
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homens e, pouco a pouco, fomos adquirindo a nossa dignidade. Ainda h alguns que andam sempre a lamber-lhes as botas, mas esses so cada vez mais raros. Por isso, hoje em dia os patres no gostam de entrar nas fbricas. Eles vem que no so recebidos com humildade, como noutros tempos. Hoje, eles e ns no nos entendemos. E quanto mais conscincia formos ganhando, menos nos entenderemos. Ns at poderamos trabalhar mais e melhor se no fosse a ideia de que estamos a trabalhar para o patro... Compreendes?
Horcio fez um gesto vago. Parecia-lhe, s vezes, que Marreta tinha razo. Mas todo quedava ressentido: "O que ele fizera no era suficiente para os outros estarem com aquelas coisas. Tambm ele gostaria de poder ter sempre a cabea erguida, de no precisar de engraxar ningum."
- Eu no sabia nada disso... - justificou-se, sombriamente. - Agora que o Tramagal  um malcriado, no h dvida!
Marreta sorriu:
- Vocs vo j fazer as pazes...  Tramagal! Tramagal! Espera a...
Ainda humilhado e de rude humor, Horcio pensou que teria de deixar para outro dia o seu caso individual, sobre o qual havia desejado, durante toda a manh, ouvir a opinio de Marreta.
Tambm, nos dois dias seguintes no conseguira falar-lhe a ss. Tramagal, j reconciliado, viera com eles durante todo o caminho e,  noite, a casa do velho tecelo enchera-se de outros operrios, que discutiam ainda o caso de Ravasco e jogavam as cartas. Na quinta-feira, porm, Horcio decidiu falar a Marreta antes da ceia e, no regresso da fbrica,
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acompanhou-o at sua casa. Seguido por ele, o velho entrou riscando fsforos. E, aceso o candeeiro, ps-se a acender o lume:
- Com a guerra, falta o petrleo, falta tudo, e parece que tambm a lenha est falsificada... No pega...
Horcio tomou conta do fogo. Acocorado, ia pondo cavacos e soprando, enquanto Marreta, junto da mesa, comeara a lavar cuidadosamente, as batatas, que ele costumava cozer com a prpria casca, "porque, com as cascas, o caldo ficava melhor" - dizia. De fora vinha o rumor da ribeira que a invernia engrossara.
O fumo desaparecera e as chamas cresceram em redor da panela. Horcio esperava, em silncio, que Marreta terminasse a lavagem. As chamas alargaram-se mais e, nelas, ele comeou a ver o homem de Gouveia, na figura que a sua imaginao criara. Ora estava nos seus olhos, ora ia dos seus olhos at s chamas, sem nunca se queimar. E cada vez lhe parecia com mais atractivos para as mulheres com muito mais atractivos do que ele e, ainda por cima, com dinheiro. Horcio odiava-o, mas o outro persistia e sempre mais atraente.
Marreta escorreu a segunda gua, aproxinou-se e foi tirando da malga, uma a uma, as batatas e colocou-as na panela. Depois, sacudiu os dedos e limpou-os s calas.
-V... Que  que me queres dizer?
Ele olhou-o, admirado:
- J sabia?
- No... No sei nada. Mas como vieste a esta hora, calculei...
- L-se na minha cara? Marreta sorriu, fraternalmente:
- Anda! Fala!
Ele desejara tanto esse momento, que, agora, se lhe entorpecia, de repente, a deciso. Lembrou-se do olhar que Tramagal lhe lanara quando o pa
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tro viera  fbrica. Lembrou-se das palavras que, depois, Marreta lhe dissera. Mas j voltava a figura que andara, h pouco, nas chamas. E, com ela, a de Idalina. Ele sentia os olhos de Marreta espetados nele,  espera. Tentou sorrir tambm:
-No  nada de importncia, tio Marreta... Eu s queria pedir-lhe uma coisa...
Parecia-lhe que as palavras lhe saam desgarradamente e se ligavam, perdendo-se, aos surdos regougos da ribeira, que se despenhava ali pertinho. Ele hesitava entre fazer, primeiro, o pedido, ou explicar, primeiro, a razo por que o fazia.
- J uma vez lhe disse, tio Marreta... A minha vida no pode continuar muito tempo assim... E, agora, inenos do que nunca...
O velho tecelo contemplava-o, em silncio. As chamas envolviam totalmente a panela, dependurada da cadeia.
- Vossemec conhece muita gente, muitos mestres de fbrica. E  respeitado. Eu queria ver se vossemec falava aos mestres, a ver se me arranjava um lugar em qualquer parte. Eu j posso ser operrio... J dei, outro dia, as provas...
Marreta chasqueou:
- Ests com pressa, hem? No admira... Todos ns, quando somos aprendizes, estamos ansiosos de chegar a homens e a operrios. Homem j tu s; assim, tens mais pressa ainda.
- No  bem por isso;  que...
Decidiu confessar as causas da sua inquietao. Humilhava-o a ideia de falar da atitude dos pais de Idalina para com ele, mas venceu o desprazer. Parecia-lhe que pondo o amigo na sua intimidade, se libertaria do desassossego que o andava roendo, que o roa agora mesmo; e que se Marreta soubesse quanto se passava poderia interessar-se mais por ele.
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Contou tudo, num tom de desabafo. O velho tecelo escutou-o sem o interromper e, por fim, disse-lhe:
Eu compreendo muito bem as tuas arrelias.
E vou falar aos mestres. Mas  apenas por um descargo de conscincia... Ainda h pouco andei a pedir a um e outro, a ver se arranjava um lugar para um camarada da Covilh, o Remolacha, e no consegui nada. So coisas com que no se pode contar quando se quer... Pode aparecer um lugar de um dia para o outro e pode demorar muito tempo.  uma questo de sorte, pois nenhum patro vai meter um operrio sem precisar dele... J falaste ao Mateus?
- Falei ao irmo, ao Manuel Peixoto...
- E que disse ele?
- Disse-me a mesma coisa que vossemec: que no h vaga, que logo que houver eu no serei esquecido, mas ningum sabe quando ser... Por isso me lembrei de ver se arranjava noutras fbricas. ..
- Eu tratarei disso... Mas, assim, para j, no dou nada pela caada. Mesmo nada. S por um acaso... Claro,  melhor ter muitos anzis na gua do que um s... Mas tu levanta esse nimo! Se a rapariga espera, isso, agora,  o principal para ti!
Horcio no disse nada. Ele tornava a duvidar que Idalina esperasse todo o tempo que fosse preciso, todo aquele indeterminado tempo, sem que os pais dela acabassem por convenc-la a olhar para outro homem - fosse para esse de Gouveia, fosse para outro qualquer:
Marreta, mudando o tom de voz, perguntou:
- Ento tu querias uma casita? - E, sem aguardar a resposta intil, acrescentou, sorrindo: - Supe que ests a cavar numa horta e que encontras uma panela com libras. Vendes as libras e mandas fazer uma casa. Tu ficas satisfeito, mas os outros continuam na mesma...
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Horcio olhou-o, surpreendido. Marreta sentiu o seu olhar e justificou-se:
- Isto  falar por falar... No vs tu pensar que estou maluco...
Horcio continuou calado. A sua expresso voltara a carregar-se sombriamente. L fora, na noite, prosseguia o tumulto da ribeira, correndo entre penedos. Esse rudo fendia o silncio que entre eles se fizera, como um uivo arrastado fendendo a noite. Subitamente, Marreta perguntou:
-'J leste os livros que te emprestei?
- J. Trago-lhos amanh.
- E ento? Que te pareceram?
- L que dizem muita verdade, isso dizem! gente que no tem nada e outra que tem de mais. Mas como h-de isso acabar? Foi sempre assim...
Marreta protestou:
- Acaba! Digo-te que acaba! Um dia h-de acabar... Tu no deves pensar dessa maneira...
Um momento, os dois ficaram silenciosos. Depois, a voz de Marreta volveu, j com um acento doce, rememorativo:
-'Ns nunca devemos perder as esperanas. O Mundo vai andando... Tem custado muito sangue, muito sacrifcio, mas vai andando. Eu sou ainda do tempo em que se passava toda a semana metido na fbrica e s se saa ao domingo. Quando penso nisso, at me parece mentira! Os rapazes novos como tu no podem imaginar... Era o tempo bom para os patres. Ganhavam dinheiro e no tinham preocupaes connosco. Hoje, eles continuam a ganhar dinheiro, mas j no vivem tranquilos. Tu no deves pr essa cara... H muitos homens que esto pior do que tu... A rapariga gosta de ti e, mais cedo ou mais tarde, casas com ela. Eu no presto para nada, mas no que eu puder fazer por ti, contas comigo, j sabes.
Aquilo no o contentava. Marreta tendia sempre para um futuro longnquo e a ele s interessava o
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presente, a sua vida imediata. As palavras do tecelo, ao contrrio do que ele esperara, do que ele desejara, no conseguiam encher o vcuo, aquele oco imenso, que se lhe abrira na alma.
Demorou-se ainda algum tempo e, depois, ergueu -se, cada vez mais infeliz e mais comovido com a sua prpria angstia
- Vossemec  boa pessoa, tio Marreta... Fico-lhe muito obrigado... At amanh...
E saiu bruscamente, para que o outro no lhe visse os olhos.
A noite apresentava um luar difuso e intermitente. Sobre a Lua transitavam nuvens e ora a neve fulgia na serra, ora imensas sombras caam sobre a aldeia. J perto da casa de Ricardo, Horcio cruzou-se com um vulto. Era o Joo Ribeiro, que lhe disse:
- Parece que o frio est a passar...
Ele sentia um calor intenso, mas que lhe vinha de dentro, do peito e do crebro.
- Parece que sim... - confirmou, abstracta mente. E ia a seguir o seu caminho quando o outro o deteve para lhe anunciar que o Sindicato nada obtivera a favor de Ravasco. A direco falara mesmo com Azevedo de Sousa, mas ele respondera que o que estava feito, estava feito: no podia readmitir o Ravasco, seno desautorizaria o Pelcio, que tinha carradas de razo. Depois disso, o Sindicato entregara o caso  delegao do Instituto do Trabaiho.
- Eu estava, esta tarde, na Covilh, quando soube da resposta do Azevedo e fui agora a casa do Ravasco, preveni-lo - acrescentou Joo Ribeiro.
Horcio sentiu-se mais oprimido. Mal conhecia Ravasco e nem a sua figura nem os seus modos lhe eram simpticos; agora, porm, apiedava-se dele, lamentava-o como se lamentasse algo de si prprio, aquela tristeza, maior, cada vez maior, que lhe enchia o peito.
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- Coitado! E de que  que ele vai viver? Como se pode tratar?
Joo Ribeiro declarou:
- Quando lhe dei a notcia, o Ravasco ficou calado, como se no fosse nada com ele. Mas quando a mulher disse que havia de ir procurar o patro e falar-lhe s boas, para ver se o Azevedo pagava, ao menos, os dois meses de salrio, ele ficou furioso e proibiu-a de fazer isso. A Maria Antnia ainda teimou na sua, dizendo que, com aquele dinheiro, ele poderia ir a Lisboa, mas no o convenceu. O Ravasco at a ameaou de lhe bater se ela fosse pedir alguma Coisa. Ele diz que h-de ir a Lisboa seja l como for.
A Lua rompia, novamente, as nuvens e iluminava os dois homens em frente do casebre de Ricardo. Nos olhos de Horcio esboou-se a figura de Ravasco ameaando a mulher e a sua prpria figura perante Azevedo de Sousa, quando este passara na fbrica Duas vezes, nessa noite, aquela lembrana o assaltara, molestando-o. E agora deixava-lhe desgosto de si mesmo.
Joo Ribeiro despediu-se e ele entrou em casa. Tambm Jlia lhe disse:
- Hoje h menos frio, no  verdade? - E continuou:- Oxal que isto passe, para ver se o Ricardo melhora. Tem andado sempre a queixar-se do reumatismo. Nunca se viu um Inverno assim!
Horcio sentou-se. Ricardo no havia regressado ainda. Nos ltimos dias ele ia mais vezes  Covilh, depois de sair do trabalho, do que antigamente. A princpio, Horcio sups que era por causa do Antero, mas, por fim, largou essa ideia. Soubera na fbrica que, devido  guerra, que encarecera quase todas as coisas, os operrios pensavam voltar a pedir um aumento nos salrios. Da primeira vez que o tinham feito, meses antes, os patres haviam-no recusado. Mas eles iam insistir -dizia-se- porque no podiam viver assim...
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Pedro bichanara a Horcio que Ricardo fazia parte da comisso que ia tratar do caso. Depois de saber isso, Horcio interrogara Ricardo, mas este respondera-lhe de modo vago, misterioso. Marreta, a quem ele falara tambm sobre aquilo, dissera-lhe:
- Pensa-se cuidar disso, pensa-se... Mas no se deve andar a badalar por a, compreendes?
Agora, enquanto esperavam Ricardo, Jlia ia tagarelando :
- No  s o frio que lhe faz mal; , tambm, a humidade. E, este ano, o reumatismo deu-lhe a valer. Nos outros anos, nunca ele perdeu um dia. Mas, neste, j no tm conta.
Horcio esforava se por acompanhar Jlia na palrice, como nas outras noites, enquanto Ricardo no chegava. Mas nenhuma palavra lhe saa jeitosa, ele prprio o sentia. Vrias vezes esteve para se referir  situao de Ravasco e sempre desistiu, porque aquilo tambm a ele o incomodava.
Finalmente, Ricardo entrou, coxeando. Mal tirou o chapu, sentou-se  mesa:
- Vamos  ceia! -disse.- J  muito tarde... Voc desculpe...
Jlia trouxe a sopa. Enquanto comiam, Ricardo notou o silncio e a expresso de Horcio:
- Voc parece que est hoje muito aporrinhado... Tem algum desgosto?
- No. No tenho nada.
Ricardo tornou a olh-lo - e no insistiu.
Pouco depois, Horcio subia, para se deitar. Ia desgostoso consigo prprio: "Por que diabo era ele assim? Todos lhe viam na cara o que ele sentia."
Passou a noite mais tormentosa do que aquela em que topara homem morto no caminho. De manh, a resoluo estava firme: "Desonraria Idalina. Tudo o que Marreta dissera eram coisas para depois. Desonraria Idalina e pronto! Assim j ela no podia mudar de tenes. J no iria para outro, mesmo que os pais dela se fartassem de a aperrear."
DE lanterna apagada, balouando-a na mo esquerda, Horcio subiu, no sbado, a rampa da Covilh. Ao seu lado, Pedro falava do pedido de aumento de salrios que uma comisso do pessoal das fbricas havia apresentado, nesse dia, aos patres. Acabavam os dois de sair do trabalho e outros grupos de operrios, que,  frente e atrs deles, palmilhavam tambm a ladeira, iam comentando a mesma coisa. A Horcio chegavam, de quando em quando, frases soltas:
- No do; vais ver que no do!
- Talvez dem, que diabo! Alguma vez h-de ser... Eu j tenho tudo empenhado...
- A mim palpita-me que fica tudo na mesma...
- Talvez no...-arriscou uma voz cansada.- Talvez no...
Pedro era dos descrentes. E, fatigado de ouvir martelar aquilo, meteu outra pea  sua forja. Ps-se a afirmar que ia aprender a fazer esqui com o Narciso do Clube e que um dia tambm tomaria parte no campeonato anual.
Ao chegarem  Praa da Repblica, os operrios comearam a debandar. Horcio separou-se de Pedro na Rua Direita e entrou numa loja de fazendas. Pediu lenos. Hesitou na escolha e discutiu os preos. Pedro havia-lhe emprestado,  hora do almoo, vinte escudos e ele tinha oito de seu. Renunciou
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aos lenos mais caros e comprou um de grandes flores estampadas. Ainda o empregado o embrulhava e j ele ia visionando Idalina com o leno na cabea, linda, mais linda agora, mais linda e a sorrir para ele com aquelas flores sobre os seus 'cabelos negros.
Pagou e, cortando o centro da cidade, meteu  serra. Na floresta, acendeu a lanterna e, por nvios atalhos, entestou ao Picoto, depois ao Beijames. Ia avanando e ruminando a sua ideia. Desde que planeara aquilo, rara hora se passava sem que ele volvesse a entrever a cena, a esmiuar estorvos e possibilidades. Idalina ficaria contente com o leno. Era uma novidade, pois ele, desde que viera do servio militar, no lhe tinha oferecido nada. Ele no mostraria desconfianas. Dir-lhe-ia que sabia tudo, que a me lhe contara, e fingiria que estava agradecido por ela no ter dado trela ao outro. Agradecido, no, porque, ento, Idalina ia julgar que lhe fizera um favor. No, isso no. Havia de dizer-lhe que se estava mesmo a ver que esse tipo de Gouveia no a conhecia bem. Como  que pudera imaginar que ela mudava de sentimento assim de p para a mo? S uma desavergonhada o podia fazer, tendo noivo, como ela tinha. Bem vistas as coisas, aquilo at era uma ofensa para ela. Mas o outro, um malandro com ms intenes, no se importava com isso. O que queria era satisfazer o seu desejo e, depois, alar a perna. Como a via pobre, julgava que ela ia com duas cantigas, l porque ele tinha alguma coisa de seu. E, depois, iria rir-se dela, para Gouveia. Mas havia de se rir pouco tempo, porque ele estava ali, para lhe fazer pagar caro a brincadeira.
Horcio pensou que Idalina gostaria de o ouvir falar assim. Se fosse preciso, dir-lhe-ia tambm que poderiam casar mais cedo do que ele havia imaginado. As coisas, na fbrica, corriam bem, os patres iam aumentar os salrios e, com certeza, no tardaria muito tempo para ele chegar a operrio. Com o dinheiro que, ento, ganharia, j os dois viveriam,
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mesmo que tivessem de deixar para mais tarde a casa que ele desejava. Isto devia dar resultado. O mais difcil era apanhar Idalina a jeito. No Vero, sempre havia maneira de se arredarem da vila e de encontrar um bom stio para aquilo. Antes de 'ir para a tropa, ele tinha tido muitas ocasies, se quisesse. Mas conseguira ter sempre mo em si, embora o roesse uma vontade doida. Agora, que ele queria, estavam no Inverno e era o diabo! Idalina no tinha razes para ir at os campos, porque estava tudo cheio de neve. Ainda se a coisa fosse de combinao com ela, tudo seria fcid. Ento, Idalina iria ter aonde ele lhe dissesse. Mas assim, no. Ele no podia dizer-lhe o que queria, pois se ela o soubesse era o suficiente para no deixar. E muito mais agora, que havia o outro. Ele tinha de levar aquilo como quem no quer a coisa. Tinha de o fazer quando estivessem  sua vontade e com muitos beijos; quando ele a abraasse e ela tambm o apertasse muito nos braos e ao mesmo tempo parecesse mole, com os olhos meio fechados e os beios pegados aos dele, como 'algumas vezes acontecia. Ento  que ele devia aproveitar. Mas, para isso,  que faltava um bom stio. Agora, s podia ser na casa da tia de Idalina, a tia Madalena e isso era mais difcil.
O relgio de Santa Maria acabava de dar onze horas quando Horcio entrou em Manteigas, cansado de pisar neve. Ao atravessar a estrada, Serafim Caador, que estava num grupo de bbedos, lobrigou-o e cortou-lhe o passo:
-Olha l! Voltas amanh?
- Volto, pois claro!
- Eu vou tambm. Mas podamos ir mais cedo do que das outras vezes. As cinco?
- As cinco, no...
- Ento s seis.
Horcio fez um gesto incerto:
- Eu passo por sua casa.
Serafim Caador tinha um filho casado na Borralheira, que lhe cuidava de umas territtas que ele possua ali e por mor de um e de outras ia l de quando em quando. Costumava aproveitar a companhia de Horcio, para sentir menos longa a travessia da serra; e Horcio, por igual razo, ficava contente sempre que o tinha como companheiro. Agora, porm, ele queria libertar-se de Serafim, que, palrador e alegre de alguns copos, tentava ret-lo.
- Adeus! Hoje vou com muita pressa. Amanh falamos. Por volta das seis e meia irei busc-lo.
Mal Horcio enfiou na congosta onde Idalina morava, os seus olhos dirigiram-se, ansiosos, para a porta da casa. Ela no se encontrava l,  sua espera, como nos demais sbados. " porque est muito frio e, alm disso, venho atrasado por causa do raio da neve"- pensou. Logo, porm, que se aproximou mais, viu a cabea de Idalina surgir no rectngulo iluminado do janelico, a inspeccionar a rua. Ao divis-lo, ela desapareceu rapidamente; ele continuou a avanar, j feliz.
A figura de Idalina recortava-se, agora, na porta. O lume, que havia l em cima, na lareira, envolvia-a numa luz difusamente doirada. Horcio entreviu-a, de novo, com o leno que lhe comprara: "Quando ele viesse na outra semana, j ela estaria  sua espera com o leno novo na cabea." Esta ideia tornou-o ainda mais ditoso.
Idalina encostara-se  ombreira e continuava a sorrir-lhe, s a sorrir-lhe, sem falar, quando ele chegou. Foi ele quem disse as primeiras palavras e depois prosseguiu com outras, com puerilidades que, para eles, significavam tudo, pelos silncios de felicidade que constantemente as intervalaram. C fora estava frio, mas ele no o sentia. De l de dentro chegavam, de quando em quando, a voz fanhosa da senhora Januria e os rudos que os filhos desta faziam. Ele pensava no seu plano e sentia-se feliz s por estar ao p de Idalina, ao p daquela clari
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dade que o fogo lhe lanava sobre o cabelo, como se fosse um luar.
- Amanh, as duas, na tia Madalena...-murmurou.
Ela fez um sinal afirmativo e ele, ento, partiu a caminho de sua casa.
Depois do jantar, Horcio pensou que, no dia seguinte, devia ter o corpo limpo e pediiu  me:
- Arranje-me, amanh, uma grande panela de gua quente. Quero lavar-me bem, pois esta semana sujei-me muito...
A casa da tia Madalena, "a da viva", como lhe chamavam, para a distinguir da da outra Madalena que vivia mais alm, tinha dois pisos. No trreo, havia uma coelheira, razes de urzes para o lume no Inverno e bastantes teias de aranha. Uma escada externa dava acesso  parte superior - dois quartos e a cozinha. Por fora, a casa mostrava-se velha e negrusca, como as demais; mas lanava sobre a rua uma varanda de madeira, que, embora negra tambm, lhe emprestava airosidade, com os caixotes de cravos e sardinheiras que nela garridamente se exibiam.
Fora ali que Horcio e Idalina se haviam sentado a primeira vez que vieram namorar em casa da tia Madalena. Ento, ainda os pais de Idalina no sabiam ou fingiam no saber do derrio que eles tinham comeado nos caminhos do Eir. Mas, quando se principiou a falar daquilo, continuaram a sentar-se na varanda, aos domingos, na Primavera, antes de ele subir, com o rebanho, para a serra, e no Outono, depois de regressar. Assim, o povo no podia murmurar e eles estavam ali mais  vontade do que em casa de Idalina. A tia Madalena parecia protegios, mas caprichava conseienciosamente em nunca os deixar sozinhos; se precisava de sair, s o fazia
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quando a filha, a Arminda, quedava em seu lugar. Eles gostavam da varanda, porque a tia Madalena, ao trafegar na cozinha, no os via. Mas gostavam, tambm, do interior da casa, no Inverno, porque se alguma vez ficavam apenas com Arminda, esta afastava-se, espontaneamente, para o quintal ou para o seu quarto e eles podiam beijar-se. Arminda s voltava quando ouvia, na rua, os passos da sua me. E procedia sempre com um sorriso afvel, mesmo quando irnico, como se a sua pequena cumplicidade tambm a ela desse prazer.
Agora, eles estavam sentados na cozinha. L ao fundo, a tia Madalena lavava as panelas, pratos e malgas sujas durante o almoo, tudo limpando e arrumando vagarosamente, com aquela ordem e cuidados especiais que ela punha nas coisas ao domingo, como se no voltasse a cozinhar durante muitos dias. Quando terminou, sempre com essa pachorra, esse ar domingueira de quem dispe de tempo a mais, acercou-se dos dois, mas dirigindo-se, sobretudo,  sobrinha:
- Sabes... A Ana j teve o menino... Um belo rapago!
A Ana era a sua filha mais velha, casada h j vrios anos.
- J teve o menino? E vossemec no me tinha dito nada! -protestou Idalina.
- Vocs, mal chegaram, puseram-se logo para a a cochichar... Como ia eu dizer? Teve-o esta manh. Vieram c chamar-me de madrugada. E, agora, a Arminda est para l.
Ainda comentaram, um instante, o acontecido e, depois, sempre com passo vagaroso, a tia Madalena caminhou para o seu quarto e sentou-se junto da janela, com um novelo de l no regao, duas agulhas e um casaquito, quase concludo, para criana. Por detrs dos vidros ela ia vendo a rua, aquela parada luz dominical, alguma rara figura que passava. Sentia pesar-lhe a cabea, subir-lhe o sono que ela tinha
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interrompido de madrugada, para acudir  filha. Na casa no havia, agora, outro rudo alm do das palavras baixas de Horcio e de Idalina. De onde estavam, eles podiam ver, se distendessem o pescoo, a tia Madalena e ela v-los a eles, se fizesse a mesma coisa, atravs da porta aberta que Mgava a cozinha ao quarto. Mas eles no a queriam ver e no distendiam o pescoo e desejavam que a tia Madalena no distendesse o seu tambm...
Horcio sentia pueril contentamento pela alegria que julgava ir dar a Idalina.
- Tira o teu leno e fecha os olhos...-pediu-lhe.
- Para qu?
- Tira o leno... Anda!
- Ora essa! Para que  que queres que eu o tire? - E ria, arqueando os braos, obedecendo-lhe. Mas como o fizesse lentamente, sempre a olhar para ele e sempre a ouvir, em expectativa, Horcio interveio, puxando, por uma ponta, o leno que ela trazia.
- Agora fecha os olhos...
- L isso  que no fecho!...
- Digo-te que os feches!  uma surpresa... Sorrindo mais, obedeceu de novo. Ouviu, primeiro,
um rudo de papel, ao ser desdobrado, logo sentiu algo que pousava sobre os seus cabelos, depois as mos dele roando as faces, depois um tecido roando-lhe o pescoo.
- Que tal? - perguntou, por fim, Horcio. Ela abriu os olhos e viu a extremidade do leno
novo sobre os seios.
- Que bonito! Que bonito! Onde o compraste? - De repente, antes mesmo de ele responder, Idalina mudou de expresso: - No se deve dar um Leno... Leno  sinal de apartamento, de separao. ..
Ele inquietou-se tambm:
-  verdade... J uma vez ouvi dizer isso. No me lembrei... Mas no so s os de assoar?
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- So todos...
Horcio apressou-se a tirar-lhe o leno da cabea: Ora esta! No me lembrar... Podia ter comprado outra coisa...
S agora os olhos dela abrangiam todas as ramagens, todo o cromtico efeito do tecido aberto sobre os joelhos dele.
-bem bonito! Deixa-me ver...
- No, no.  apartamento...
-apartamento desde que seja dado. Mas se for comprado, mesmo que seja s por meio tosto, j no . Eu logo dou-te um tosto e j no faz mal. Deixa-mo ver...
Ele no estava tranquilo ainda, mas Idalina voltou a repetir que, dando-lhe uma moeda, quebrava todo o malefcio. E se ele duvidava do que ela dizia, podia perguntar a quem quisesse.
Horcio entregou-lhe o leno. ela acariciou-o como se afagasse o plo de um gato; colocou-o, depois, sobre a cabea, logo o deixou descair e amarrou-o em volta do pescoo.
Ele contemplava-a, embevecido.
- Ficaste a matar!
Ela sorriu tambm, carinhosamente, num enlevo. Vendo-a assim, Horcio pensava que j no poderia viver sem ela, que ficaria doido se a perdesse, que seria capaz de matar o outro, se lha roubasse.
Foi ento que, pegando-lhe na mo, lhe contou que j sabia tudo e lhe disse quase tudo quanto havia pensado para melhor a catequizar. Ela ouviu-o em silncio, ora sria, ora sorridente, lisonjeada pela boa conta em que ele mostrava t-la.
- Era um nojo de homem!-exclamou depois, referindo-se ao de Gouveia.
- Por que no me preveniste logo? Quando eu soube, fiquei muito descoroado, por no me teres dito nada.
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-Para qu? Para que meter-te macaquinhos na cabea, sem necessidade nenhuma?
Ele continuava a acariciar-lhe a mo. S no lhe dissera ainda que poderiam casar mais cedo do que ele pensara. Prudentemente, hesitava em dizer-lho. Parecia-lhe, agora, no ser necessrio mentir, porque tudo havia corrido bem e Idalina estava mesmo como ele desejava que estivesse. O que faltava era uma ocasio. A tia Madalena, muito sossegada no seu quarto, no dava mostras de pensar sair naquela tarde. E a ausncia de Arminda dificultava qualquer hiptese favorvel.
Eles continuavam a falar em voz baixa, mas, agora, Horcio estava a matutar constantemente naquilo, naquele domingo que ia perder. As horas haviam deixado de possuir o encanto de h pouco, porque ele se agarrara  vaga esperana de que se Arminda voltasse cedo talvez a tia Madalena ainda se decidisse a sair - e o tempo passava sem que Arminda aparecesse.
J vrias vezes ele considerara o escabelo onde se sentavam. "Enquanto a beijasse e abraasse, poderia ir vergando-a devagarinho." Quanto mais pensava naquilo, mais se enervava. Nas suas palavras j no havia tom de esprito presente e o seu prprio rosto tomara uma expresso sombria. Idalina notou a metamorfose:
- Que tens tu?
Ele bichanou-lhe, impaciente:
- A Arminda no voltar hoje?
Ela teve um sorriso malicioso, pensando nos beijos que costumavam dar:
- No sei. Se queres, perguntamos  tia...
Ele olhou-a, quase severo, e Idalina sorriu ainda com maior ironia.
Arminda chegou, finalmente.
- Ento esse menino? - perguntou-lhe Idalina.
- L est. A minha me j te disse?  um amor
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zinho de criana! Gordo, bochechudo, como o Menino Jesus... Aquilo pesa um ror de quilos! Mudou o tom de voz:
-  filha, eu gosto muito de crianas e com uma assim saudvel  de a gente dar graas a Deus. Mas eu te digo: a Anica berrou tanto esta madrugada, padeceu tanto a pobre, que eu, depois de a ouvir, fiquei sem vontade de ter filhos. No; aquilo no  brincadeira nenhuma! De mais a mais, vindo um assim to alentado...
A Horcio tornou-se subitamente desagradvel a loquacidade de Arminda. As suas palavras podiam influir em Idalina, justamente quando seria bom que ela no pensasse nas consequncias do acto que ele pretendia realizar. Logo a outra devia ter a criana naquele dia! Ele ia desviar a conversa para novo caminho, quando ouviu a tia Madalena levantar-se e, em seguida, surdir na porta do quarto. Com surpresa sua, foi ela quem protestou contra a demora de Arminda:
- Porque vieste to tarde?
- Vim tarde? Parece-lhe? que no viu o monte de roupa que tive de lavar! Ainda trago a pele engelhada... - E mostrava os seus braos rolios e muito brancos.
A tia Madalena voltou a desaparecer da porta do quarto. Horcio ouviu os passos dela, l dentro, de uma banda para outra e, entretanto, a esperana crescia, mais alta, no peito dele. Arminda sentara-se ao lado de Idalina e continuava a pairar, mas ele j no escutava o que ela dizia, todo entregue quela ansiosa expectativa, que as visveis voltas da tia Madalena iam prolongando. De repente, o seu corao bateu com mais fora. Ela saa do quarto com um xaile aos ombros e trazendo, na mo, dois lenis e o casaquito de l. Dirigiu-se  filha:
- Se eu no vier. a horas, pe a panela ao lume
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->A tia vai a casa da Anica? - perguntou Idalina.
- Vou.
- Ah, ento eu vou tambm! Estou morta por ver o menino!
Ele olhou-a, espantado. A sua alegria transformara-se num quase furor. A tia Madalena voltara-se, mas nem ela nem Arminda disseram nada, como se tambm s duas aquilo parecesse absurdo. Ele murmurou, a custo:
- Tu vais... agora... Arminda saiu a auxili-lo:
- Sim, tu podes ir v-lo mais tarde. Quando vocs sarem daqui...
Aquela interveno ainda o vexou mais.
- Bom! Ento, eu vou depois-disse Idalina, sorrindo.
A tia Madalena saiu, encolhendo os ombros. Ele ficou silencioso, amuado. Ao encontrar os seus olhos, Idalina exclamou:
- Que cara tens! - E soltou uma gargalhada. - No vs que era a brincar?
Ele no respondeu e continuou carrancudo.
- Agora uma zanga! Era para ver o que tu fazias... No acreditas?
Custava-lhe a acreditar. "Parecia impossvel que, mesmo de brincadeira, ela pensasse em deix-lo to cedo, quando ele, s para estar um bocado junto dela, fazia o sacrifcio de vir de to longe! Bem diziam todos os homens que as mulheres nunca eram de fiar. Ele tinha de fazer aquilo o mais depressa possvel, tinha de amarr-la, seno ela ainda era capaz de lhe pregar uma partida."
Arminda ergueu-se:
- V! Faam as pazes! Tu no percebeste que ela estava a fingir? - E caminhando para a porta: - At logo! Vou dar de comer aos coelhos...
Idalina sorriu. Arminda, quando queria deix-los sozinhos, dizia sempre que ia dar de comer aos coe
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lhos. Logo que ela desaparecia, ele costumava estender o brao por detrs do pescoo de Idalina, pux-la a si e beij-la. Agora, porm, era Idalina que, vendo-o assim, de cara fechada, lhe passava a mo na face e o olhava meigamente. Ele, ento, pensou que, mesmo que tivesse razo para estar enfadado, o melhor seria no prolongar aquilo, no perder tempo.
- Por que fizeste isso? - perguntou, com voz triste.
- Por nada. De repente, no sei porqu, apeteceu-me arreliar-te. Mas no era por mal, acredita!
Ele continuava a no compreender claramente, tanto mais que, a princpio, ia jurar, ela falara a srio. Olhou-a. Ento, o seu desgnio tornou a obsession-lo. "Dali a pouco seria noite e, logo que comeasse a escurecer, decerto Arminda subiria, mesmo antes de sentir que a tia Madalena voltava. Devia aproveitar j. Fora o diabo aquela ideia de Idalina! At lhe matara o entusiasmo."
Ela insistia, com uma voz submissa, toda de ternura:
- No estejas zangado... Se eu tivesse sado chegava  escada e voltava logo para tras, acredita! Sou to feliz quando estou ao p de ti! Nem tu calculas!
Ele estendeu o brao esquerdo. Atraiu-a a si e os seus lbios prenderam-se. Ele prolongou o beijo; ele costumava sempre prolong-lo, mas agora fazia-o propositadamente, pensando em tudo quanto fazia e devia fazer.
Perturbada, Idalina descerrou, com lentido, as plpebras. Mas, ao v-lo assim descomposto, ergueu-se repentinamente e olhou com surpresa e modos repreensivos;:
- Ests doido?
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- Que mal h? No vamos casar mais cedo do que eu pensava...
- Estas doido...
Ele tentou ainda agarr-la por um brao, mas ela desprendeu-se, avanou at  porta e voltou, depois, para o meio da cozinha.
- Que ideia a tua! - E desatou a chorar.
- s tola... Por que  essa choradeira?
Ela no respondeu. Ela no saberia responder naquele momento, mesmo que quisesse. Ele passou-lhe a mo sobre os cabelos e procurou beij-la de novo, agora apenas por ternura, por desejo de secar-lhe as lgrimas. Mas ela repeliu-o:
-'Deixa-me! Deixa-me!
Horcio voltou a sentar-se no escabelo e a contempl-la. Ela continuava no meio da casa, limpando o rosto, de costas voltadas para ele.
- Vou-me embora... - ouviu-a dizer, com um soluo.
Ele levantou-se e pegou-lhe brandamente num brao:
- No vs ainda... At a Arminda reparava... Temos to pouco tempo para nos vermos... Senta-te aqui, um bocado, anda!
Ela no obedeceu.
- Nunca pensei que fizesses uma coisa dessas... - disse.
- Mas eu no fiz nada! No sejas pateta! E, se fizesse, que mal vinha da ao Mundo, se ns vamos casar ? - repetiu.
- No quero! No quero! Percebeste?
Calou-se. Ele ficara tambm silencioso, contrariado. "Tinha de arranjar melhor as coisas, para a outra vez pensou. Tinha de a convencer."
Idalina confessava, agora, numa voz lenta, onde se sentia um pudor mal vencido:
-Aqui h tempos, quando a minha me andava com aquela mania do rapaz de Gouveia, eu dei-lhe
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a entender, para que ela no me aperreasse mais, que eu j te tinha pertencido... Foi um barulho dos demnios! Ela pegou na tranca da porta e, se no fujo, matava-me. Ainda assim, apanhou-me de raspo aqui num brao, que ficou preto durante muitos dias. Depois, por mais que eu lhe dissesse que aquilo no era verdade, no havia maneira de ela acreditar. Fartou-se de gritar que eu era uma galdria, que eu era a vergonha da sua cara, e at quis pr-me fora de casa. O que sofri, s eu sei!
Ele escutava-a, guloso das suas palavras, ora lisonjeado por ela haver dito aquilo  me, ora temendo que, depois da atitude que esta tomara, Idalina viesse a resistir-lhe sempre.
- Ento foi por isso que...
- No foi nada por isso!  que eu no quero! Ns sofremos por vocs e vocs, depois de fartos, deixam-nos como a um co. Todas as pessoas que sabem dizem o mesmo. Olha o que sucedeu  Custdia!... Por a, como uma perdida, com um filho ao colo...
A ele parece inverosmil que ela pensasse assim, que ela pensasse que ele poderia abandon-la. "Se tudo aquilo era por amor dela, era para ele ter a certeza de no a perder! No fora isso, ele teria andado como at ali, sem procurar adiantar-se, pois at j havia imaginado como as coisas correriam no dia do casamento."
Enervado, tentou novamente justificar-se, mas as palavras saam-lhe dificilmente, dada a razo que o impelira e que ele desejava ocultar.
Idalina interrompeu-o:
- No quero ouvir falar mais nisso! Vamo-nos embora!
A luz da tarde esmorecia e a cozinha ia-se enchendo de penumbra.
- J vamos... Espera mais um bocadinho. Senta-te aqui. Ento a tua me ficou furiosa? E esse tipo de Gouveia, no tornou a aparecer?
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- Nunca mais o vi. Ainda me escreveu umas cartas, mas no lhe dei resposta.
- Ah, ele escreveu-te?
- A segunda nem a mandei ler. Assim como a recebi, assim a deitei ao fogo. Na tera-feira passada, ele escreveu  minha me. No sei o que queria. Ela no me disse nada, nem eu lhe perguntei.
Horcio estava novamente inquieto e odiento, como no domingo anterior, quando soubera daquilo.
- Ento esse tipo continua a teimar na sua?...
- Um dia h-de cansar-se...
- Eu, um dia,  que lhe parto a cara!
- Para qu ? Se ele voltasse aqui, da minha boca no ouvia nem mesmo um "Salve-o Deus!".
Estas palavras no o tranquilizaram. "O malandro do outro no desistira e, decerto, contava com a me de Idalina. Se lhe escrevia,  porque contava com ela. O outro podia casar quando quisesse, pois tinha dinheiro. Ao passo que ele no tinha nada. E a ideia de desonrar Idalina, para a prender, com certeza no dava resultado. Ele bem vira que ela no queria. Quando voltasse a teimar, ela tornava, pela certa, a no deixar."
Sentia cada vez maior rancor. Ora lhe vinha a nsia de agarrar Idalina e violent-la imediatamente, ora de procurar o outro, atirar-se a ele, cuspir-lhe na cara, mat-lo se fosse preciso. E insultar "aquela velha desavergonhada, que nem parecia uma me e sim uma alcoviteira".
Anoitecia. Ouviram Arminda subir as escadas lentamente. Idalina rompeu o silncio que entre eles se havia feito:
- Vamo-nos embora... - E para Arminda, que entrava: - Vou agora a casa da Anica. - Tinha um sorriso plido e a sua voz no era normal.
- Vocs continuam amuados? Esto com uma cara!
- No, que ideia! - negouIdalina. Ele negou tambm e, pouco depois, saram.
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Pelo caminho, Horcio quis ainda, vencendo a maranha dos sentimentos - o dio, o despeito, o amor e os receios que na sua alma transitavam - dizer a Idalina da sua ternura, sussurrar-lhe que ela era a vida dele, afirmar-lhe, mais uma vez, o que lhe havia dito muitas vezes e que ela no o deixara repetir h pouco. Mas sempre que comeava a falar, algum se cruzava com eles na nevada ruela, entrava ou saa das casas, saudando-os e interrompendo-o, quebrando-lhe a sequncia e o calor das suas confisses.
Deixou-a  porta da Anica e prosseguiu o seu caminho, agora com um grande vcuo na alma. Os pais viram-no entrar com ar soturno e dirigir-se, sem palavra, para o seu quarto, onde se deitou, vestido, sobre a cama. Mais tarde, a senhora Gertrudes foi ter com ele:
- Que tens? Falaste com a Idalina?
- Falei.
- E ento? Por que ests assim? Aconteceu alguma coisa?
- No aconteceu nada... Deixe-me! A ceia est pronta? s seis e meia o Serafim Caador espera por mim...
A senhora Gertrudes no teimou naquilo:
- Est pronta, est. Podes vir - disse, resignadamente.
Ele levantou-se e foi sentar-se  mesa. Para poder abalar cedo, aos domingos ceava sempre sozinho, muito antes da hora em que os pais costumavam faz-lo. Mas o tio Joaquim, se estava em casa, punha-se tambm  mesa e comeava a pairar. Agora, o velho lamentava o preo do leite das suas trs cabras.
- Estava tudo muito caro e s o leite se vendia por uma misria - afirmou.
A senhora Gertrudes, depois de encher de sopa a malga, pusera-se a examinar, discretamente, a expresso do filho. Horcio comia com lentido e pare
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cia estar a pensar em coisa muito diferente daquela em que o pai falava. De sbito, a senhora Gertrudes percebeu que ele voltava a si, de muito longe. Desatou a comer apressadamente e, mal esvaziou a malga, levantou-se com modos excitados.
- No queres as sardinhas?
- No; no quero.
Correu ao quarto e tornou com o chapu, a lanterna e o cajado:
- At sbado.
A passos largos, comeou a descer a ruela, sempre atormentado por aquele novo temor. Parecia-lhe que quanto mais tempo perdesse mais agravaria o mal.
Idalina acabava de regressar de casa de Anica quando ele a chamou da rua. L dentro, os pais e os irmos dela falavam ininterruptamente e ee teve de a chamar outra vez. E assim que ela, entre o sbito silncio da famlia, abriu a porta, ele disse-lhe, ansiosamente:
- Tinha-me esquecido... D me o tosto pelo leno...
Serafim Caador aguardava-o, impaciente.
-  tarde - censurou, quando o viu chegar a sua casa. - Tinha ficado de vir das seis para as seis e meia e j deram sete...
- No pude vir mais cedo... - desculpou-se Horcio.
Serafim olhou em seu redor, como se receasse esquecer-se de alguma coisa. Em seguida, ps ao ombro um saco meio cheio, pegou no cajado e volveu-se para a mulher:
- Bom. Eu devo voltar amanh  noite. Mas se, de todo em todo, no puder ser, venho depois de amanh.
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Os dois saram. Descendo as escaditas exteriores, Serafim queixava-se:
- A tarde estava feia, viste? pena no haver camioneta todos os dias para a Covilh. E, para um homem ir tomar o comboio a Belmonte, tem de perder um dia inteiro. Parece que moramos no fim do Mundo! Eu, antigamente, no me importava. Atravessava a serra num pulo, sempre que era preciso; mas, agora, j no estou para grandes caminhadas.
Horcio deixava-o falar e no lhe respondia. Passado o Fundo de Vila e vencido o rio, meteram, de lanterna acesa,  encosta em frente. Subindo o pinhal, Serafim continuava a parolar sem descanso, como era de seu feitio. J as luzes do povoado haviam desaparecido, quando eles ouviram, longinquamente, o relgio de Manteigas soltar oito horas, que reboaram, com vagar, pelo vale, imerso na escuridade, l em baixo, atrs deles.
- Temos de dar-lhe!-disse Serafim, num parntesis; e logo voltou a falar sobre aquele mau vizinho que o filho tinha na Borralheira. Horcio continuava a no fixar o que ele dizia. Idalina instalara-se no seu esprito e ocupava-o todo. "Ele tornaria a tentar no prximo domingo. Ele tinha de resolver aquilo quanto antes e de qualquer maneira, pois o canalha do outro at  me dela escrevia." Demorava-se em hipteses, amassava pormenores e caa sempre em amargura. "Logo que o fizessem operrio, casava-se - e pronto! Acabava-se a ralao! No era assim que ele queria, mas pacincia..." Tornava a sentir-se infeliz, com a ideia naquela casita em que tanto pensara e que ele conhe cia por dentro e por fora, em todos os seus aspec tos, como se j a houvesse construdo, como se j a tivesse habitado. Mas a casa aparecia-lhe, agora, distante, mais distante do que essas que ele tinha visto  beira do Tejo, na linha de Cascais, quando andava na tropa; cada vez mais distante e mais pequena e a apagar-se como se fosse uma casa de
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bonecas pintada num muro, que algum cobrisse com uma pincelada de tinta negra.
Uma aragem forte comeara a correr na vertente, quando eles se aproximavam do Vale do Buraco. E, pouco depois, Serafim sentiu pousar na sua mo, que segurava o saco, algo mais frio do que o frio que havia na serra.
- Eu bem tinha visto!-exclamou, ao atentar na neve que principiara a cair. - A tarde no estava boa... Para S. Loureno, o cu andava de carranca.
Os dois homens continuaram a subir. Serafim calara-se, finalmente, por mor daquele vento que passava, num zumbido, e lhe entrava pela moca. Era um vento gelado, que fazia rumorejar vagamente a floresta de pinheiros que eles atravessavam. Moderado embora, trazia, agora, at c abaixo, flocos de neve que, antes, ficavam presos na caruma. Os homens iam andando e a lanterna iluminando troncos aps troncos, que brotavam da noite para logo se sumir de novo, dando lugar a outros, sempre a outros, a uma colunada que partia em todas as direces e parecia sem fim. Obedecendo aos movimentos da luz, os pinheiros danavam, inclinavam-se, engrossavam ou adelgaavam, sombras que o eram um momento num bailado estranho sobre a neve que cobria o cho. E a lanterna continuava a andar, como um grande pirilampo voando na floresta.
Finalmente, os dois chegaram a terra desimpedida de rvores. Dali em diante encontravam apenas neve, e, de quando em quando, algum hirsuto rochedo, que a neve no conseguira revestir totalmente e negrejava na infinda brancura. O vento, entretanto, crescera. E pusera-se a entoar um lamento cada vez mais forte e prolongado. Depois, largara-se a uivar, no se sabia em que profundas cavernas, que lhe avolumavam o desespero errante, enchendo a noite e a montanha de um lgubre tumulto. Horcio
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e Serafim marchavam contra ele, de cabea baixa e boca cerrada. Os flocos de neve, j sem ramagens de pinheiros que os detivessem, batiam-lhes no rosto, acumulavam-se sobre os chapus e infiltravam-se entre a roupa e o pescoo. Dentro das suas quatro faces de vidro, a chamazita da lanterna vacilava, ora se distendia, ora baixava at quase se apagar, perseguida pelo vento que, enfiando-se nos interstcios dos ngulos, chegava at ela. Os homens continuavam a marchar de cabea vergada. Serafim, arrependia-se de ter vindo. E, a seu lado, Horcio pensava que fora uma grande sorte ter, naquela noite, a companhia de Serafim, pois se fosse ali sozinho aquilo seria ainda mais desagradvel. A neve aumentava, rodopiava em volta deles, fustigando-os sem cessar. Era a que vinha do cu e era a que o vento levantava da terra, arrojando-a como uma saraivada.
Serafim deteve-se, ao abrigo de um penedo:
-  melhor voltarmos para trs - props.- A mim fazia-me jeito ir hoje, mas, assim, no se pode...
- Eu tenho de ir. No posso faltar ao trabalho.
- Com uma noite assim, nunca mais chegamos l. Apanhamos uma carga de neve e ficamos por a estendidos. Deixemos isto para amanh. Voltamos agora para casa e vamos amanh de manh.
- Isso tambm eu queria! Mas no posso, j lhe disse! No posso faltar  fbrica... De mais a mais, isto passa. Vai ver que passa!
A ideia de perder a companhia de Serafim, de ter de palmilhar sozinho a noite medonha, desprazia-lhe grandemente:
- Isto passa! E, se no passar, havemos de romper. No  a primeira vez que isso me acontece. E voc... quantas vezes voc j no apanhou neve no caminho?
Serafim, lutava consigo prprio. De Manteigas  Borralheira ou  Aldeia do Carvalho, a p, mesmo
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com bom tempo, era o que todos sabiam. Um homem chegava arrasado. Com um tempo assim, era de rebentar e nem em cinco horas se punham l.
- Fazia-me muito jeito ir hoje, l isso fazia - repetiu. - Mas o caminho no est para graas. Anda da, vamo-nos embora! Iremos amanh. Ento tu no podes faltar ao trabalho um dia? Se estivesses doente, no faltavas?
Horcio pensou que Serafim tinha razo. Tambm ele receava essa noite que ocupara os trilhos da serra e se fora tornando, pouco a pouco, pavorosa, ora gemendo, ora rugindo por toda a parte. Um momento, ele admitiu a ideia de voltar, com Serafim, para Manteigas. A hiptese de se sentar, agora, ao lume da casa paterna parecia-lhe indizvel felicidade. Mas logo a lembrana de Mateus o reteve. "Mateus no gostava que se faltasse ao trabalho e, mesmo quando se tratava da doena de um operrio, punha uma cara de m vontade. Se soubesse que a razo de ele no se apresentar na fbrica, no dia, seguinte, era ter vindo a Manteigas ver a namorada, ficaria mais contrariado ainda. Ningum tomava muito a srio o que um homem fazia por causa de uma namorada. E se Mateus comeasse a embirrar com ele, poderia deix-lo estar como aprendiz tempos sem conta. Ora ele precisava de passar a operrio o mais depressa possvel. E depois do que Marreta lhe dissera, s contava, a bem ver, com Mateus."
-'Voc faa o que quiser, mas eu sigo! No me convm deixar de ir  fbrica. Depois... para que andar para trs? Daqui a Manteigas  mais de uma hora e o mau tempo tanto est para um lado como para o outro. Se seguirmos, chegamos, no tarda muito, a meio do caminho e de l at  Aldeia  tudo a descer...  um salto! Mas voc faa o que quiser...
Serafim tornou a considerar os seus prprios interesses. Com uma noite daquelas era uma estopada andar sozinho na serra, tanto mais que j
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estava muito longe de casa. E tambm a ele no convinha perder o dia seguinte no caminho. Se fosse agora, podia arranjar as coisas com o filho logo de manh, dar, depois, um pulo  Covilh, para comprar o que a senhora do doutor Couto lhe havia encomendado e voltar a meio da tarde. Porque, para a volta, no teria ele companheiro e no queria apanhar, outra vez, uma noite como a que estava.
- Vamos l... -disse com voz resignada. Tornaram a avanar. O vento prosseguia na sua
fria. De quando em. quando, a neve formava redemoinhos e eles eram como o centro de um funil, aoitados por todas as bandas. Agora e logo tocavam, com as pontas dos cajados, as abas dos seus chapus, para que casse a neve que l se acumulara. Pouco depois, porm, os chapus volviam a ter peso de chumbo. De boca fechada e nariz escorrendo humores, Serafim principiava a sentir dificuldade em respirar, assim, de encontro ao vento, que se lhe metia pelas orelhas, enchendo-lhe o prprio crebro de estranhos rudos. E cada novo passo se tornava sempre mais penoso, como se o vento quisesse vedar-lhe aqueles seus desolados domnios.  altura dos joelhos, o sobretudo de Horcio e a capa de Serafim, constantemente movidos por essa desvairada fora, ora lhes azorragavam as pernas, ora se abriam e enfunavam, impelindo-os para trs. Dos joelhos para baixo, as calas molhadas colavam-se . pele, como esponjas segregando humidade. E a serra continuava sob a neve em turbilho e aqueles regougos sinistros do vento enfurecido. Os homens andaram, assim, algum tempo, vencendo a ingremidade. Subitamente, Serafim deteve-se outra vez, deixou cair o saco e deu costas ao vento. Horcio voltou-se tambm. Na sua mo, a lanterna tinha oscilaes de pndulo de relgio. Serafim estava ofegante, os olhos congestionados, os lbios roxos, o chapu e os ombros todos brancos.
- Eu bem te disse que vinha uma tempestade
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e que era melhor voltarmos para casa...-murmurou, com dificuldade. - Mas tu no quiseste crer... E, agora,  isto...
- Voc no falou em tempestade, ora essa! O que voc disse  que o tempo estava ruim. E eu tenho visto o tempo assim e, depois, passar...
Serafim considerou que era demasiado tarde para retroceder, mas lamentava-se por no o ter feito anteriormente.
A lanterna lanava uns laivos vermelhos ora sobre os rostos dos dois homens, ora sobre as suas mos. De quando em quando, iluminava-lhes tambm as pernas e aquela brancura imensa onde se afundavam os ps.
-Eu j tinha idade para ter juzo. Mas deixei-me levar pelas tuas cantigas...
Serafim continuava a falar com esforo. Horcio sentia-se igualmente fatigado e com os mesmos obstculos na respirao, mas no o queria confessar.
- Ainda h poucos anos um de Gouveia morreu para os lados das Penhas Douradas, por causa disto
- tornou Serafim. - E os outros s escaparam porque deram a tempo com o Observatrio... Se no fosse isso, tinham, ficado l todos...
- No conheciam a serra como eu a conheo...
- interrompeu Horcio. Logo, hesitante, ergueu a lanterna. A luz no ia alm de cinco metros. Horcio consolou:-J passmos, com certeza, as Almas. Devemos estar perto da Portela...
Serafim teimou:
- Ento aquele rapaz que, aqui h tempos, morreu, com o cavalo, mesmo ao p do hotel das Penhas da Sade, tambm no conhecia a serra? Anda, dize!
Horcio encolheu os ombros:
- Se soubesse que voc tinha tanto medo, no era eu que queria a sua companhia...
- Medo, eu? - A voz de Serafim parecia sair de um subterrneo, de um tmulo.
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Os dois sentiam-se empurrados pelas costas. Horcio meteu os dedos entre o pescoo e a gola do sobretudo e tirou de l a coleira de gelo que o oprimia. Tinha desejos de ser agradvel a Serafim:
- D c o saco... Eu levo-o, agora, um bocado... Pegue l a lanterna...
Voltaram a caminhar, sempre de cabea baixa, cara voltada para a direita, na nsia de melhor respirao. No cume da serra, o vento passava e ululava com mais violncia ainda. Um momento, os flocos de neve pareceram diminuir, mas logo tornaram a adensar-se, fortes no choque com os corpos dos homens, como se fossem arremessados por uma funda.
De quando em quando, Horcio sentia enregelar a mo que segurava o saco. Passava, ento, este para a mo direita e o cajado para a esquerda. Pouco depois, fazia o contrrio. Sobre o cajado ele procurava movimentar os dedos, abrindo-os e fechando-os constantemente, para aquec-los, mas cada vez eles se moviam com maior dificuldade.
Subitamente, a lanterna apagou-se. Serafim berrou uma praga. Os dois pararam, mas no viam nada em seu redor. S a neve continuava a bater-lhes nos rostos e nas mos. Serafim tornou a praguejar. A sua voz no teve, porm, eco: o vento incorporou-a imediatamente  sua fnebre ria.
- Abra a capa - pediu Horcio. Ele mal adivinhava, na sua frente, o vulto de Serafim. Ajoelhou-se e tirou a caixa de fsforos: - Chegue bem a lanterna para aqui. - Abriu a portita de vidro e riscou o primeiro fsforo, que se apagou. Serafim estava de costas ao vento e com a lanterna entre as pernas, protegida pela capa, mas o segundo, o terceiro, o quarto fsforo apagaram-se tambm. A capa debatia-se com o vento e as pernas; ora se afastava destas, ora se insinuava por entre elas, fazendo uma dobra que ia at junto da lanterna. Horcio irritava-se contra os seus dedos, que, endurecidos, quase
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hirtos pelo frio, no lhe obedeciam, no protegiam eficazmente a nfima chama que, num, instante, feria a treva, para logo morrer. De p, Serafim enervava-se tambm. Parecia-lhe que se fosse ele a acender a lanterna j o teria conseguido. "Deixa ver! Deixa ver!" - pedia de vez em quando. Horcio, porm, teimava. Por fim, sacudiu a caixita junto do ouvido. Logo, inquieta, a tacteou por dentro. Havia apenas quatro fsforos. Horcio ergueu os olhos para o companheiro:
- Olhe l: voc tem fsforos?
Serafim adivinhou rapidamente tudo. E respondeu, sombriamente, repreensivo:
- No. Tu bem sabes que eu no fumo. Se me tens dado isso, eu j tinha acendido...
Horcio levantou-se:
- No tinha! Nem voc, nem o mais pintado! Pegue l os fsforos... Mas sempre lhe digo que, sem uma fraga que abrigue a lanterna, no se consegue nada...
Habituados  escuridade, os olhos viam, agora, melhor em sua volta. Era tudo 'branco, uma terra branca sem fim. Horcio lembrou-se da Lua que ele tinha visto, noites antes, quando saa da casa de Marreta e encontrara Joo Ribeiro. "Havia, ento, nuvens sobre a Lua, mas, mesmo assim com nuvens, a Lua dessa noite seria, agora, a salvao" - pensou. O cu estava opaco, de um claro-escuro que parecia tocar, pesadamente, a prpria cabea deles. "E o Joo Ribeiro e a Jlia a dizerem que o frio ia passar!"- lembrou-se de novo, com raiva.
Volveram a caminhar, lentamente, olhos  esquerda e  direita, em busca de recife que se levantasse naquele mar de leite cristalizado. Mas quando algum mamilo se apresentava em frente deles, logo viam que estava tambm coberto de neve e no oferecia anteparo capaz. E para alm de seis, sete metros, eles no divisavam coisa alguma. Por fim, um vulto maior se destacou. Numa das suas faces havia uma
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mancha negra, que a neve no conseguira tapar. Os dois avanaram para l, pela primeira vez contentes desde que tinham sado da floresta. Era uma pequena cavidade, onde mal caberia uma ovelha.  entrada, o gelo retorcia-se em pingentes. Serafim ajoelhou-se, abriu a lanterna e pegou nos fsforos. Acocorado do lado de fora, Horcio seguia, de respirao suspensa, os seus movimentos. O fsforo chegou a entrar, aceso, na lanterna. Mas, ao acercar-se do pavio, apagou-se. A mo de Serafim tremia ao abrir, outra vez, a caixa. Ele sentia tambm os dedos presos, desobedientes, inteiriados pelo frio. Uma nova luzita brilhou, trmula pela aragem que penetrava na cavidade. Pouco depois, Serafim fechava, triunfante, a portita da lanterna.  plida luz, a sua cara mostrou-se comprida e de olhos amortecidos. Tinha neve at nas sobrancelhas.
Cajados  frente dos ps, os dois recomearam a marcha. As extremidades das calas j no pareciam hmidas; haviam endurecido e molestavam-lhes, agora, as pernas, como se fossem de vidro. Horcio no cessava de olhar a um lado e outro, ansioso de identificar a Fraga do Neto, que 'lhe daria o conforto d saber que tinha feito j a maior parte da caminhada. Mas a neve deformara tudo, covas e relevos, pedras e urzes, igualando, em longos trechos, o que, noutros dias e noutras noites, era diferente. A ele, agora, a imagem de Idalina aparecia-lhe, esbatida, sob a de Mateus. Era a figura do mestre que se antepunha entre os seus olhos e a neve, entre os seus olhos e a noite inteira. Nos momentos em que o cansao se fazia sentir mais, Mateus surgia-lhe, de cara sombria,  hora de os operrios entrarem na fbrica. E, ento, ele arrancava, a si, novas foras para continuar a andana, para vencer a neve, o vento e a noite. E sempre aquela ansiedade de chegar a casa, de pedir  Jlia que acendesse um grande lume para ele se aquecer, para aquecer, sobretudo, as mos. E assim poder, no dia seguinte, s oito horas, estar
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na fbrica. Continuava a olhar e via a figura de Mateus e no a Fraga do Neto, que ele buscava. "J deviam t-la passado, pois andavam na serra h um ror de tempo" admitiu.
A lanterna voltou a apagar-se. Serafim, que a levava, estacou. Desta vez ele no disse uma s palavra. Horcio ficou calado tambm, ambos tolhidos por essa vontade adversa, inexorvel, que dominava a serra e a noite.
Horcio foi o primeiro a arriscar alguns passos. Serafim, de comeo, marchava atrs dele, mas, depois, colocou-se ao seu lado. Dez, quinze minutos - e sempre o vento e sempre a neve e sempre aquelas dores nas mos. Finalmente, Serafim murmurou, voltando a cabea:
- Ali...
Era outro rochedo branco e negro,  direita. Por detrs, muitos outros penedos ainda. Ambos procuraram uma cavidade.
- Aqui est abrigado - preveniu Horcio.
- Pega l os fsforos...
- No... Acenda voc... - Acende tu...
Nenhum deles queria, agora, a responsabilidade. Contrariado, Serafim transigiu e acocorou-se. Estendeu a mo aberta, sondando o ar, mas a sua mo estava insensvel. Pediu:
-V l bem se no h vento aqui...
Horcio estendeu igualmente a mo. Tambm a ele a sensibilidade amortecera.
- Parece-me que no h Mas deixe l, eu abro o sobretudo...
Os dedos de Serafim, tiraram, com dificuldade, o fsforo da caixa. Duas, trs vezes riscou a lixa. A chamazita surgiu, mas extinguiu-se antes mesmo de se aproximar da lanterna. O corao de Horcio comeava a pulsar mais fortemente. Nos seus ouvidos andava uma zoeira enorme, que j no parecia do vento, mas sim criada no seu prprio crebro. Sera
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fim tardou a retirar da caixa o seu ltimo fsforo. Silenciosos, os dois homens pareciam aguardar algo imprevisto, uma sbita inspirao, um socorro impossvel. Serafim meteu, outra vez, o fsforo na caixa.
Acende tu... - balbuciou.
Para qu?-A voz de Horcio saiu-lhe rouca,
pastosa.
Serafim juntou as mos, ergueu os olhos para o cu revolto e ps-se a murmurar uma reza. Depois, tornou a pegar no fsforo.
Horcio abriu, de novo, o sobretudo, encostando as suas extremidades ao rochedo, para dar melhor resguardo.
Serafim riscou. O fsforo luzia mesmo  portita da lanterna. E, .trmulo, com a chama ora a distender-se, ora a minguar, ainda avanou alguns centmetros. Os olhos de Horcio no o largavam. Aquilo no durou um segundo e parecia que durava toda uma vida. A lanterna tornou a ficar no escuro. S na lixa da caixita que encerrava os fsforos brilhou, alguns, momentos, uma vaga claridade, um risco vagamente luminoso, que, em breve, tambm se desvaneceu.
- Vamo-nos embora... - rouquejou Serafim. E, erguendo-se, comeou a andar, sem esperar pelo companheiro, como se este lhe fosse indiferente. Ia vergado, cada vez mais vergado. Agora, a um rochedo sucedia outro, uma srie de penhas fantasmais postadas no dorso da montanha. As mos de Horcio, que seguravam o saco e o cajado, doam-lhe mais. Dir-se-iam revestidas de cortia e a doer, a doer nos ossos. "Se, ao menos, pudesse met-las nos bolsos! Se, ao menos, pudesse meter uma delas!" Os rochedos continuavam. Horcio prendeu horizontalmente o cajado sob o brao direito e abrigou a mo no bolso. Mas, tentados alguns passos, verificou que no marchava capazmente sem o auxlio do cajado. Volveu a tirar a mo da algibeira.
Olhe l... Que leva voc, aqui, no saco?
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Serafim j mal podia falar. As palavras saram-lhe entrecortadas e como num sopro:
- Umas coisas de que o meu rapaz precisa...
- Se o deixssemos aqui? Amanh voc vinha busc-lo... Ou apanhava-o quando voltasse...
As mos de Serafim doam-lhe tambm, h muito tempo j. Mas ele olhou em seu redor e convenceu-se de que nunca mais encontraria o saco, se o abandonasse ali.
- No pode ser... So mais de quinhentos mil ris... D-mo c.
- No; eu levo-o.
- D-mo...
P-lo no ombro esquerdo e entregou a lanterna a Horcio. A serra continuava povoada de rochedos, que pareciam acampados sob vastos lenis de formas cnicas. Horcio arremessou a lanterna intil contra um deles e meteu a mo no bolso. O vento no deixou sobressair sequer o estilhaar dos vidros; ele continuava a dominar tudo com os seus uivos, que mantinham a alma da noite num perptuo estarrecimento.
Horcio voltava a fixar os penhascos: "J h muito deviam estar -pensou- no Beijames e ver, ao longe, o claro da Covilh. Mas no Beijames os penedos no eram assim... E no dera tambm conta de que tivessem passado pela Portela e pela Fraga do Neto..."
Serafim arrastava-se cada vez mais penosamente. Quando Horcio o olhou, j ele havia abandonado o saco. Tinha o passo de urso cansado de danar.
A Horcio parecia-lhe, agora, que conhecia aqueles penedos. No eram, porm, os dos atalhos que levavam  Aldeia do Carvalho ou  Covilh.
Serafim tropeou, caiu e deixou-se ficar, estendido, na neve. Milhentos flocos tombavam sobre o seu corpo como se, por cima dele, uma macieira estivesse a esflorar-se. Horcio dobrou-se, para ajud-lo a erguer-se, mas sentiu que, tambm a si, as foras
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iam faltando. Os seus braos estavam hirtos, como se no possussem articulaes. Serafim manteve-se algum tempo quieto e, depois, conseguiu ajoelhar-se. O peito arquejava-lhe. Firmando-se no ombro que se lhe oferecia, ps-se lentamente em p.
- Parece-me que nos desvimos, que no vamos por bom caminho...-murmurou Horcio.- Parece-me que estas fragas so as da Malhada Velha...
Serafim olhou os penhascais cobertos de nev e reconheceuos: "No havia dvida, iam enganados. J tinham feito um estiro escusadamente. E se continuassem por ali, em vez de botar  Aldeia, iriam sair entre a Nave e as Penhas da Sade." Serafim quis falar, mas no pde. A garganta expelira apenas um rouquejo. Tornou a pensar: "Tambm o rapaz que morrera, com o cavalo, mesmo ao p do hotel das Penhas, conhecia bem a serra. Ganhava a vida a fazer servios entre a Covilh e as Penhas. E nem por conhecer a serra se salvara, quando a tempestade o apanhou..."
-  a Malhada Velha, no  verdade? - insistiu Horcio.
Serafim tentou, mais uma vez, falar. A voz desaparecera-lhe. Com a cabea ele fez um vago sinal afirmativo.
- O melhor, ento,  cortarmos aqui  esquerda e sempre a direito. O Beijames deve estar por a...
Horcio adivinhou que Serafim pensava em todo aquele caminho que haviam perdido e o culpava a eie de quanto acontecera. Desculpou-se:
- Foi o raio da lanterna... E voc tambm no deu por nada! Mas, assim, j no nos enganamos outra vez...
Serafim no fez o menor esforo para responder. Os dois tornaram a marchar. Horcio sentia-se exausto. E aquelas imagens que surgiram no seu crebro, desde que eles se tinham detido a primeira vez, voltavam sempre, esfumadamente. Era a sereia
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a apitar, o Mateus junto do seu cacifo envidraado e os operrios a entrarem as oito da manh em ponto. Era sempre a mesma coisa, sempre as mesmas cenas.
A montanha lanava, agora, a sua outra vertente. A descer, o passo tornava-se mais incerto, inseguro a cada instante. Ao procurar apoio nos cajados, as mos, falecido o seu vigor, deslizavam ao longo da vara, encortiadas, inertes. A neve que escondia os magotes de urzes rompia-se, por vezes, sob os ps, e eles afundavam-se no mundo vegetal, que jazia por baixo, eriado de puas. Cada vez, porm, a pele tinha menor susceptibilidade.
Serafim via, como no centro de uma nvoa, a mulher e os filhos. Via, depois, o seu funeral. O padre, o sacristo, a cruz. Caa neve em flocos, como fragmentos de asas. Ele ia dentro do caixo, com saudade da mulher e dos filhos. Os amigos caminhavam atrs, vestidos de preto, mas com os ombros e os chapus cobertos de neve. A cova j estava aberta, mas a neve embranquecera, num instante, a terra remexida que se acumulava nas bordas. A mulher continuava a chorar. Logo ele pensou, vagamente, que, se morresse ali, podiam passar-se muitos dias antes de ser encontrado o seu cadver. Talvez s o descobrissem quando o Inverno acabasse, quando a neve se derretesse. E essa ideia aterrorizou-o mais.
Dir-se-ia que, na encosta, os penedos se haviam multiplicado. No se venciam dez metros sem se topar um daqueles vultos em frente, branco nas suas absurdas formas arestosas. Mais abaixo, outro, outro, sempre outros, sempre outros. Serafim voltara a cair e arrastava-se, pesadamente, como um rptil, por entre esses quedos fantasmas.
Finalmente, eles adivinharam,  direita e ao longe, a Covilh. Noutras noites, o claro da cidade enchia o cu e via-se a grande distncia. Mas, agora, o cu estava todo fechado e s uma vaga claridade, muito vaga, contrastava com a obscuridade geral. Ao dis
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tingui-la, porm, Serafim sentou-se ao p de um dos rochedos e comeou a chorar. Era um choro grotesco mesclando-se com aquela sua respirao que dir-se-ia um resfolegar de vapor. Horcio sentou-se tambm e quis encoraj-lo. Mas, como a de Serafim, a sua garganta j no conseguia articular uma s palavra. A nica fora que sentia era essa que no o deixava respirar livremente, era essa que oprimia o seu peito, como se ele fosse estoirar. Quedaram, assim, alguns minutos. Depois, Horcio levantou-se e olhou, de novo, para as bandas da Covilh, em seguida para o vale, perscrutando a noite. "Iam, agora, por bom caminho, com certeza. A Aldeia devia estar l em baixo."
Serafim ergueu-se, lenta e dificilmente, e os dois continuaram a descida da encosta. Os ps j haviam perdido o jeito de tactear, nadeclividade, as pedras que se deslocavam e as urzes que formavam ocos sob a neve. Serafim deixara o cajado entre os penedos; a mo de Horcio 'tambm j no sustinha o seu e abandonara-o igualmente. Agora, eles avanavam entregando-se s circunstncias, resvala aqui, tomba ali, gatinhando alm e prosseguindo cada vez mais vagarosamente. O vento teimava nos seus rugidos e dir-se-ia a nica presena na serra,  qual o vale, a imensa Cova da Beira, respondia com ecos de terror.
Horcio tinha a sensao de que os seus ps haviam crescido e que ele caminhava sobre duas coisas mortas, s quais a neve se agarrava; duas coisas que no eram ps e que no eram dele. O corpo parecia existir apenas do sexo para cima e somente l muito dentro, como o cerne de uma rvore.
De quando em quando, Serafim ficava para trs. Horcio quedava-se a esper-lo. Pela sua prpria carncia de foras, ele admitia que Serafim no pudesse dar, de um momento para o outro, um s passo mais. O chapu, de to carregado de gelo, pesava-lhe, agora, como se ele levasse uma pedra 
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cabea. E, em volta do pescoo, entre o sobretudo e a pele, a neve formara uma gargalheira, que o ia apertando que nem um garrote. Horcio teimava em levar l as mos, mas os seus braos estavam rgidos e no lhe obedeciam. Serafim deixou-se novamente cair e, mais do que das outras vezes, tardou a levantar-se.
J passava da meia-noite quando o velho quinteiro Sargo acordou com o rumor que faziam na sua porta. Ainda estremunhado, soergueu-se e apurou o ouvido. A mulher despertou tambm e ficou, igualmente,  escuta. O rudo volvia, de quando em quando. Eram umas pancadas surdas, como se algum batesse na porta com a cabea. Sargo considerou as horas que seriam e pensou em ladres. O seu casebre erguia-se, solitrio, no meio de uma quintazita sobranceira  Aldeia do Carvalho a mais alta que fora arroteada na serra. Dali s primeiras casas que, dispersas, o povoado lanava encosta arriba, havia ainda grande distncia.
O velho Sargo acendeu, tremulamente, o candeeiro. Pensou que ele nada possua que valesse a pena roubar, mas os ladres podiam julgar o contrrio, tinha-se visto isso muitas vezes e, s vezes, at matavam as pessoas que estavam em casa. Com a luz na mo, foi acordar o filho, o Leopoldo, que dormia no sobrado. E s quando o viu de p, a bocejar e a contempl-lo, intrigado,  que gritou para fora:
- Quem est a?
Ningum respondeu. Mas ouviu-se, de novo, um rudo surdo na porta, como se um burro ou um cavalo nela roasse a garupa. A ideia de que seria animal perdido, tranquilizou um pouco mais o velho Sargo.
- Quem est a? - repetiu.
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 mesma ausncia de voz que respondesse, sucedeu o mesmo rumor. Sargo olhou para o postigo que havia no sobrado. O filho, adivinhando-lhe o intento, correu para l, meteu cautelosamente a cabea e volveu:
- So dois homens - sussurrou. - Um est no cho, como morto.
Sargo teve novamente receio. Quem se encontrava do lado de fora insistia, porm, nas pancadas, cada vez mais leves, mais surdas cada vez.
- Esto cobertos de neve...-tornou Leopoldo. O velho hesitou e colou o ouvido  porta.
- Quem ? Quem ?
Captou, ento, uns sons guturais, de quem queria falar e no podia. Sargo decidiu-se. Passou o candeeiro  mulher e armou-se do seu cajado. O filho pusera-se do outro lado, tambm de cacete no ar. Mas logo que o velho abriu a porta, Leopoldo baixou o varapau. Dentro de casa cara, exnime, um vulto humano. O outro continuava estendido l fora.
A mulher de Sargo pusera-se a soltar exclamaes de surpresa e de piedade. E enquanto ela acendia o lume e o velho quinteiro ia buscar a garrafa de aguardente, Horcio pensava, difusamente, como num sonho, que, no dia seguinte, s oito horas, podia entrar na fbrica, como sempre.
OS patres haviam tardado uma semana a responder ao pedido que lhes fora feito. Depois, declararam que, como se sabia, os tecidos estavam tabelados. E no podendo eles aumentar o seu preo, no podiam tambm aumentar os salrios. Tinham muita pena, pois reconheciam que, devido  guerra, a vida estava difcil. Mas no podiam fazer nada. Dois ou trs escudos que aumentassem, por dia, a cada operrio, dariam, no fim do ano, uma soma enorme, que a indstria no comportava.
Na fbrica de Azevedo de Sousa, a notcia, conhecida  hora do almoo, no trouxe grande surpresa. Houve um pequeno silncio e os homens deixaram de mastigar durante um momento. Depois, os que sempre se tinham mostrado cpticos pareciam mesmo contentes por haver triunfado sobre os mais confiados:
- Ento... eu no te dizia?
- Quem tinha razo? Dize l!
Reaco violenta s a teve Tramagal, que se lanou em palavras obscenas, como era seu costume, quando se irritava. Mas, perante o sorriso de Pedro, ele mudou de tom:
- Acho muito bem que os tecidos estejam tabelados.  ver como sobe de dia para dia o preo das coisas que o no esto... Mas, mesmo assim, os teci
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dos tm dado rios de dinheiro, pois isto dos tabelados  uma mina, como toda a gente est farta de saber.
- Ora! Ora! - exclamou Pedro, do canto da mesa onde se sentava. - Se tudo aumenta, por que no ho-de aumentar tambm os tecidos?
Marreta e outros operrios saram a contrari-lo. Pedro ps-se a discutir com Tramagal e Marreta e, por fim calou-se, desdenhoso. Com um pedacito de madeira, tirado da caixa de fsforos, comeou a limpar as unhas.
Os homens continuaram a falar dos salrios e do custo da vida, lamentando-se; mas, agora, faziam-no com vozes graves e, de quando em quando, um novo silncio caa entre eles. Parecia, porm, que Marreta, pela maneira como se referia quilo, esperava ainda alguma coisa.
De repente, Pedro voltou-se para Horcio e disse-lhe que, no sbado seguinte, sairia dali. Iria, na segunda-feira, para a Renovadora. L, em vez de pegar fios, trabalharia na penteao, o que era melhor para ele.
- Agarra-te ao irmo do Mateus, para ver se apanhas o meu lugar. E deixa-os l falar! Eles andam todos na lua...
Ia Horcio perguntar a Pedro como obtivera aquilo, mas j ele, acendendo um cigarro, abandonava, ostensivamente, o refeitrio. Foi, ento, que o Boca Negra, comentando o caso, segredou a Horcio que Pedro era tido por filho ilegtimo de um comerciante da cidade, que, s vezes, o protegia. Mas parecia que este duvidava de ser o verdadeiro pai, pois bacorejava-se que, no seu tempo, a me de Pedro se divertira com mais de um homem. Por isso, o comerciante nunca quisera ver o filho e a proteco que lhe dava era fraca, s de longe a longe, e, mesmo assim, sempre por portas travessas.
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Horcio sorriu:
- Eu logo vi que o Pedro contava com qualquer coisa. Aquela mania que ele tem das mulheres da alta e de aprender esqui:
Boca Negra interrompeu-o:
- No deixes de fazer o que ele te disse, seno o Mateus  muito capaz de dar o lugar a outro...
Horcio tinha por inteis aquelas recomendaes, pois, mal ouvira as palavras de Pedro, havia decidido voltar a pedir a interferncia de Manuel Peixoto. E, assim, nessa mesma tarde, mal chegou  Aldeia do Carvalho, o procurou. Peixoto ouviu-o e prometeu-lhe ir, na manh seguinte,  Covilh, falar com Mateus.
Desde ento, Horcio passara a contar, ansiosamente, os dias. Mesmo depois de Manuel Peixoto lhe haver dito que o irmo ficara "de ver o caso", ele continuara em nervosa expectativa, sempre futurando o pior, sempre admitindo que outro, mais recomendado, se cruzasse no seu caminho, ocupando,  ltima hora, a vaga que se ia dar. Todas as manhs, ao dirigir-se para a fbrica, esperava que Mateus o chamasse e lhe comunicasse a boa nova. Mas ele entrava e o mestre no dizia coisa alguma. Chegara, assim, o sbado, dia em que Pedro deixaria de trabalhar ali. Tambm nessa manh Mateus vira-o passar em frente do seu gabinete envidraado e no lhe fizera qualquer sinal para que se aproximasse. Horcio vivera em desespero todo o dia e o prprio Boca Negra, o prprio Pedro, no ousavam contrariar os seus receios de que o lugar j houvesse sido dado a outro. s cinco horas da tarde, porm, alguns segundos antes de a sereia apitar, Mateus, largando do seu gabinete, comeou a avanar pela fbrica. E logo que os operrios foram substitudos pelos do turno da noite, ele disse a Horcio, secamente:
- Segunda-feira, voc ocupa o lugar do Pedro, que se vai hoje embora...
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No esperou sequer agradecimentos. No seu passo vagaroso, continuou a andar para o extremo do grande quadrilongo.
Horcio saiu alvoroado. Ao chegar  estrada, aguardou Marreta e Tramagal e contou-lhes, ditoso, a novidade. Queria d-la tambm a Ricardo, mas em vo os seus olhos perscrutaram a curva que a estrada fazia junto da Carpinteira.
- Vamos embora - props Tramagal.
- Deixem ver se o Ricardo vem...
- No deve vir agora - disse Marreta, como se soubesse o que o Ricardo ia fazer depois de sair da fbrica. - Hoje, s deve vir l para a noite...
Como Marreta falasse com um tom de mistrio e nada acrescentasse espontaneamente, Horcio no insistiu. E os trs partiram. Nessa noite ele no soube mais coisa alguma. Mas, dias depois, ouviu murmurar, na fbrica, que estava em organizao uma greve.
- Ento as greves no so proibidas? - perguntou.
No grupo em que ele se encontrava houve um sbito silncio.
- Tambm havia de ser proibido deixar-nos morrer de fome, e no ! - exclamou, por fim, Tramagal.
 hora da sada, Horcio ouviu Marreta lastimar que a notcia da greve se houvesse propalado antes de tempo:
- Ainda os industriais e a polcia acabam por saber tudo e tomam as suas providncias, como tem acontecido de outras vezes..
Tramagal fez o movimento de falar, mas conteve-se. Ricardo, que, desta vez, ia tambm com eles, estrada fora, mantinha os seus modos reservados. Marreta voltou-se para ele:
- No te parece?
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Ricardo olhou para o cho, para a biqueira dos sapatos, como se se interessasse pelo avano dos seus ps na estrada.
- O que falta  maioria dos nossos  uma conscincia declasse - disse, depois. - Se todos a tivessem, j no encontraramos estas dificuldades... - Tramagal desatou a discutir aquilo:
Mas esses da Covilh? Sim, os da Covilh?
Estava uma tarde fresca, toda plmbea e merencria. Era <no fim de Fevereiro e mal eles entraram na Aldeia do Carvalho comeara a chover. Choveu a noite inteira, uma chuva violenta, que Horcio ouvia bater sobre o telhado da casa de Ricardo, forte como gros de chumbo. Mas, de manh, quando ele se levantou, s as poas dos caminhos e as folhas das couves, que luziam gotas como as do orvalho, guardavam lembranas da chuva. O cu abrira sobre a terra o seu grande olho luminoso e tudo modificara. O frio amortecera e o gelo que resistira  noite pluviosa brilhava, agora, ao sol. Por toda a parte, os pobres pareciam respirar alvio, pois os meses anteriores haviam sido to rudes, to frgidos, que at a neve cara nas regies do sul, onde, h muitos anos, no se via a sua pinta. Agora o sol cobria tudo. Dir-se-ia um sol novinho, acabado de fundir e ainda espirrando raios do seu branco metal incandescente.
No domingo de tarde, Horcio procurou Marreta em sua casa. Desde que havia ocupado o lugar de Pedro decidira mandar fazer um fato novo, para o caso de ter de precipitar o casamento. Aps aquela noite pnica em que atravessara a serra com o Serafim Caador, ele s voltara a Manteigas uma vez. E, para isso, tivera de mentir ao mestre. Afirmara-lhe que a sua me estava doente e -pedira-lhe que o dispensasse nesse sbado  tarde e na segunda -feira seguinte, para poder ir de camioneta e regressar no comboio. Mateus acedera, mas, como sempre, de m catadura. Ele fora e, tambm dessa feita, Idalina resistira s suas tentaes. Desde ento, porque o trnsito na serra, atulhada de neve, continuava perigoso, s por escrito tivera notcias dela. E essa falta de convivncia adensara, ainda mais, a sua intranquilidade. Nas cartas que enviava a Idalina, nunca aludia ao rapaz de Gouveia; mas a recordao deste, todas as hipteses ruins que a sua existncia permitia desfiar, molestavam-no constantemente. Agora, porm, sentia-se mais senhor do seu destino. Com' um fato novo e um dinheiro emprestado, casar-se-ia se percebesse, em qualquer momento, que Idalina j no estava disposta a esperar mais tempo. O seu novo salrio era pequeno e, visto o preo que as coisas agora custavam, para muito pouco dava. Mas Idalina podia trabalhar tambm, vir a ser esbicadeira, auxiliando a vida deles, como a Jlia e outras mulheres faziam. E talvez, com isso da greve, os salrios fossem aumentados. S faltava o raio da casa. A guerra encarecera grandemente as terras. Ele j deitara as suas contas e vira que nem trabalhando trs anos conseguiria forrar o dinheiro necessrio s para o terrenozito de que precisava. E o resto? Os materiais? As coisas, vistas assim de perto, eram diferentes do que ele pensara quando estava em Manteigas. Mas, agora, constava que a Cmara ia construir casas para os operrios. E que cada uma delas teria dois ou trs quartos, uma sala, uma cozinha e at uma latrina, melhor do que ele havia desejado. Se isso fosse verdade, estava tudo resolvido.  certo que muita gente garantia que isso no podia ser: "Ningum ia fazer casas assim to boas para os pobres. J uma vez, h quase trinta anos, o governo tinha dito que ia construir um bairro social. Muitos homens chegaram a andar a partir rochas junto da Covilh. E, por fim, no se fizera coisssima nenhuma. Os pobres ficaram tal como estavam." Sempre que ouvia contar isto, ele entristecia. Mas os outros operrios admitiam que talvez agora
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fosse certo, pois os jornais da Covilh j tinham falado daquilo e parece que os de Lisboa tambm.
Tramagal alinhava, como sempre, entre os que no acreditavam:
- Palavriado! Tambm da outra vez os jornais falaram!
Horcio quedava em dvida: "Se aquilo se fizesse, ele escusava de andar ali a sacrificar-se: casaria imediatamente. Se no se fizesse pacincia! Ele gostava muito de crianas l isso gostava! E ficaria desgostoso se Idalina no lhe desse filhos. Mas isso podia acontecer e, ento, talvez ele e ela, trabalhando os dois, conseguissem amealhar alguns vintns para levantar a casa que ele desejava. Agora, faria a roupa, para adiantar as coisas, pois no confiava nada nos pais de Idalina, sempre dispostos a cas-la com outro. O resto, depois se veria."
Ouvira dizer, h tempos, que na fbrica podia obter um corte de fazenda muito mais barato do que c fora. Nessa altura ele ainda no pensava em fazer o fato, mas, agora, queria saber como se arranjava isso.
Ao entrar no casinhoto de Marreta, o velho tecelo mal lhe ouviu o intento, disse que aquilo era muito simples. Os patres vendiam aos operrios os cortes de fazenda pelo preo do seu custo. E alguns, se lho pedissem, aceitavam at que o pagamento fosse em prestaes, cada uma descontada na fria semanal. Se os operrios dali vestiam de l as gentes de muitas terras, enquanto muitos deles andavam esfarrapados e traziam as famlias cobertas de trapos, no era que no tivessem tecidos mais baratos do que tinham as outras pessoas. O caso era outro. O caso era que eles no ganhavam o suficiente para comprar, mesmo pelo preo do custo, mesmo a prestaes, os cortes de fazenda de que careciam para andar bem abrigados. Os outros, os que tinham dinheiro,  que podiam usar os
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bonitos tecidos que eles faziam ali. Mas estivesse Horcio descansado. J que tinha acanhamento de falar naquilo ao Mateus, logo depois de o mestre lhe haver dado o lugar de Pedro, ele prprio falaria. Queria descontar tudo nas frias ou entregava algum dinheiro por conta?
Bem... O que me convinha  que fosse para
descontar, pois dinheiro, por enquanto, no tenho. Vou cuidar de economizar tudo o que puder, mas tenho tambm de pagar ao alfaiate...
- Est dito! Amanh trato disso...
Horcio hesitou um momento antes de interrogar Marreta sobre a outra questo que o preocupava. Ao seu egosmo de montanhs, todo voltado para si somente, os rumores de greve prxima causavam reaces antagnicas. Ora aceitava a ideia de boa mente, fascinado pela hiptese de uma melhoria de salrios, ora se enchia de receio - receio de ser despedido, como alguns operrios diziam que, s vezes, acontecia aos que em tais aces tomavam parte.
- E isso da greve, como vai? - perguntou, por fim.
Antes mesmo de ripostar, a cara de Marreta adquirira uma expresso melanclica:
- H-de fazer-se... H-de fazer-se... Como podiam os operrios continuar a viver assim? At os patres se admirariam se ficssemos de braos cruzados... Que a esta hora eles j devem saber tudo, est claro... A greve devia ter sido feita, como eu queria, logo que eles disseram que no aumentavam os salrios. Mas h-de fazer-se...
Ao voltar a casa, Horcio considerou que, se o tempo se mantivesse assim ensoalheirado, no sbado seguinte j ele podia ir, a p, a Manteigas. E a ideia de voltar a ver Idalina varreu as outras que ele trazia.
 porta dos casebres por onde Horcio ia passando, homens e mulheres, sentados nos limiares, fruam a tarde domingueira. Na aldeia proletria,
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velha e suja, de nvias ruelas e de paredes negras a desmoronarem-se, os habitantes mostravam-se gratos e surpreendidos com aquela temperatura de precoce Primavera. To agradecidos, que os mais idosos contemplavam o cu e teciam dvidas: "sol de Inverno, sol de pouca dura." O sol, porm, desmentiu-os e ps-se a brilhar dias e dias a fio. A neve derretera-se e, mesmo nos cumes da serra, l para as vizinhanas da Torre e dos Cntaros, os humildes zimbros, at a sepultados em gelo, puderam ver, de novo, a luz solar. Quando, no domingo seguinte, Horcio obrigou Idalina a dizer-lhe quem era o homem de Gouveia que a tentara e lhe escrevia, havia sol na varanda da tia Madalena e sol continuou a haver toda a semana. Tanto, tanto, que, em meados de Maro, se soubera que esse calor prematuro, que aos pobres aquecia, secava pastos, atrofiava searas e, para as bandas do Sul, j os gados emagreciam e toda a agricultura se mostrava lesada em seu desenvolvimento. Se a estiagem continuasse, o ano seria terrvel. A fome bateria, ainda mais desalmadamente,  porta dos pobres, j que o pouco que a terra produzisse s os ricos o poderiam comprar. As gentes passaram, ento, a ver o sol como um inimigo e, nas aldeias de maior crena, os padres e outros habitantes comearam a entoar preces, implorando do cu que lhes enviasse chuva. O cu, porm, no os atendia e, como esses dias limpos de nuvens e de frio prosseguissem, Jlia olhou os seus dois cobertores mais novos e pensou que, em ltimo caso, eles poderiam resolver-lhe os apuros. Com o tempo seco, Ricardo melhorara, mas em Janeiro e Fevereiro tinha perdido tantos dias que a vida econmica da famlia se agravara 'grandemente. Eles deviam ao merceeiro e j haviam pedido dinheiro emprestado a vrios amigos. Agora Jlia hesitava entre falar a Horcio e empenhar os cobertores. J na vspera hesitara igualmente. Da ltima vez que ela fora ao Marques, ao velho usu
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rrio que, a ocultas e como se prestasse singular favor, recebia, a troco de algumas moedas, roupas e objectos domsticos, discutira tanto com ele e to desagradveis palavras lhe dissera e lhe ouvira, que se sentia humilhada em l voltar. A ideia de recorrer a Horcio no a humilhava menos. Era seu hspede e pedir-lhe aquilo seria diminuir-se, dar-lhe confiana, metendo-o na intimidade da sua vida o que ela no desejava. Se consultasse Ricardo, ele, decerto, se oporia. Mas ela no pensava consult-lo. Desde a vspera que o marido se encontrava, de novo, tolhido na cama. Nessa semana ele trabalhara apenas segunda-feira; estavam na quarta e s na sexta veriam alguns escudos. Para qu lhe falar naquilo, se Ricardo no podia, solucionar a dificuldade, esses dois dias em branco que se abriam  frente deles e em que eles e os filhos precisavam de comer?
Jlia decidiu-se. Pediria a Horcio. Tanto lhe custava pedir a ele como ao Marques e, assim, sempre ficaria com os cobertores, pois muita gente dizia que o mau tempo ainda voltava.
A esbicar a nova pea de tecido, Jlia estava de ouvido atento aos rudos exteriores. Eram quase seis da tarde e, por volta dessa hora, ouviam-se, em todos os dias de trabalho, muitos passos na aldeia. Subitamente, Jlia interrompeu o labor. Ajeitou o avental e, rpida, transps a porta. Os operrios regressavam das fbricas e, em breve, ela lobrigou a figura de Horcio, caminhando ao lado de Marreta, no lusco-fusco. Jlia ficou em inquieta expectativa, no fosse ele seguir para casa do outro, como tantas vezes fazia nos ltimos tempos, s aparecendo  hora de comer. Justamente nessa noite no haveria ceia que bondasse, pois sem levar algum dinheiro por conta da dvida ela no teria coragem de ir  mercearia.
Jlia respirou. Horcio separara-se de Marreta e caminhava em direco a ela. Dir-se-ia, porm, no a divisar na obscuridade que comeava a envolver
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a aldeia. Jlia abordou-o antes de ele se acercar da porta. E disse-lhe com voz mais trmula e acanhada do que se lhe falasse pela primeira vez:
- Voc tem de desculpar, mas eu queria pedir-lhe um favor... Era que me adiantasse o dinheiro da semana que vem... Se isso no lhe fizer diferena, j se v...
Ele ouviu, surpreendido, as primeiras palavras, mas s ltimas j no pde dar ateno. Ficou mais perturbado ainda do que Jlia:
- Olhe que pena! Tanto gosto eu teria... E como tenho de pagar, tanto me fazia ser agora como no dia da fria... Justamente nestas ltimas semanas eu juntei uns vintns, mas dei-os no sbado ao alfaiate, por conta do feitio de um fato... Hoje s tenho quatro escudos... Que pena! Sucedeu-lhe alguma coisa?
- Nada, no - murmurou Jlia. -  uma preciso de momento.
Ele tirou os dedos do bolso:
- Esto aqui os quatro escudos... Se lhe fazem jeito, esto ao seu dispor...
- Obrigado. Isso no me chega. Mas no se incomode. Eu arranjarei por outro lado. - E abalou em direco  porta. Horcio seguiu-a e ps-se a vencer os degraus que davam para o seu quarto. Instantes passados, Jlia voltava a sair com um grande embrulho debaixo do brao.
Pouco depois, Horcio ouvia, l em baixo, a voz de Marreta, que se informava do estado de Ricardo e lhe pedia licena para subir. Logo, os seus passos soaram na escada. Intrigado com a visita, pois era a primeira vez que Marreta o procurava ali, Horcio caminhou para a abertura que havia ao fim do soalho. O velho tecelo trazia cara alegre. Sentou-se no rebordo da cama e comunicou que, depois de haver deixado Horcio, encontrara a tia Augusta, me de Ravasco. Tinham estado de conversa e ela dissera-lhe que ia mandar amanhar as suas courelas. Que
j ia mesmo atrasada, pois, com um tempo assim quente, h muito que as batatas deviam encontrar-se na terra. Mas por mor dos seus achaques e desgostos com a doena do filho fora-se descuidando. Ele, ento, lembrara-se do pedido que Horcio lhe havia feito. Como este andava, agora, semana sim, semana no, no turno da noite, podia, nos dias livres, cavar aquelas terras. E tambm nos outros poderia aproveitar algum tempo; saa da fbrica s cinco horas e, dali em diante, as tardes seriam cada vez maiores. Por isso, ele pedira  tia Augusta que desse o trabalho a Horcio. Ela respondera que gostava mais de um homem que cavasse o dia inteiro, mas, depois, ficara de o mandar chamar.  claro que Horcio no devia esperar receber muito, desde j ele o prevenia, pois a velha era somtica; mas aquilo sempre serviria de ajuda. At h pouco, fora ela e o filho que haviam tratado das courelas; agora, porm, a tia Augusta, com quase oitenta anos, encontrava-se estafada e o filho estava doente, em Lisboa, como se sabia.
Horcio enterneceu-se com os cuidados de Marreta, j obtendo-lhe aquele trabalho, j vindo ali dizer-lho antes mesmo de fazer a sua ceia.
- Muito obrigado! Vossemec  uma jia! E diga-me c uma coisa: so muitas terras?
- No. L muitas no so, mas chegam para te entreter algum tempo. E, depois, veremos se se arranja mais alguma coisa...
Desde essa noite, ficou ansioso de que a velha lhe mandasse recado. Passaram-se, todavia, vrios dias sem que ela o fizesse. E, entretanto, uma manh, Ravasco regressou de Lisboa. Regressou antes do tempo em que o esperavam. Os mdicos do Instituto de Oncologia, depois de o examinar e de terem mandado radiograf-lo, comunicaram-lhe que devia vol
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tar dali a dois dias. E, dois dias passados, ele fora conduzido a outra sala, onde comearam a aplicar-lhe raios X. Ele andara nesse tratamento umas trs semanas. Depois, levaram-no, mais uma vez, aos mdicos, que lhe meteram na bexiga aquele aparelho de luz que o doutor Barbeito j lhe tinha metido tambm. Falaram entre eles e disseram-lhe que voltasse na segunda-feira seguinte. Ele voltara, os mdicos tornaram a v-lo e, por fim, aconselharam-no a que regressasse  Aldeia. Ele ainda perguntara se no era caso para operao. "Que no era" - responderam-lhe. Se sentisse dores, que tomasse dois daqueles comprimidos que figuravam tna receita que lhe iam entregar. E se, mesmo assim, as dores no se fossem, chamasse o mdico da Covilh para lhe aplicar uma injeco, pois o mdico da Covilh j sabia que injeco devia dar-lhe.
Ravasco chegou  Aldeia e encarou a vida. Trs filhos, a mulher e aquelas despesas de viagem e todo aquele tempo perdido. A mulher era urdideira, mas o que recebia no chegava, sequer, para eles comerem, quanto mais para eles se desempenharem. Ele tinha de deitar mo a qualquer coisa. Se a sua me havia de pagar a outro para lhe amanhar as courelas, pagaria a ele, como nos anos anteriores, quando ele gozava sade.
Uma tarde, j depois de terem vindo juntos da fbrica, Marreta tornou a procurar Horcio em casa de Ricardo. E disse-lhe que a tia Augusta pedia desculpa de no lhe dar o trabalho prometido, pois o filho tomara conta dele.
Na manh seguinte, o povo viu Ravasco dobrar-se sobre a terra, enxada vai, enxada vem, l em riba, nas ltimas jeiras da aldeia. Ele voltara de Lisboa mais chupado e com uma cor ainda mais amarelenta do que quando partira, mas parecia senhor de uma fora dos demnios naquele movimento contnuo.
Todo o povo sabia que ele tinha um cancro, que assim o assoalhara Joo Ribeiro, depois de o haver
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acompanhado ao consultrio do doutor Barbeito. E todos garantiam que um cancro tirava as foras a quem o tinha e era mal sem remdio, a no ser que o atalhassem logo de princpio. Ora o Ravasco andara um ror de tempo com aquilo, como fizera o Taborda, que morrera tambm com uma nascida na lngua. Como  que ele, agora, se metia a cavar, com tanta gana, as courelas da me, que, ainda assim, eram uns bons pedaos de cho?
Das portas e janelas das casas vizinhas, as mulheres lanavam, s vezes, um olhar curioso para as belgas da tia Augusta. Ravasco continuava de enxada nas mos, a vergar e a erguer o tronco.
Por volta das onze horas, a sua figura desapareceu. Mas uma rapariga que descia os quebra-costas da aldeia informara que o Ravasco estava sentado debaixo de uma oliveira. Ao meio-dia, viram-no a trabalhar novamente.
- Coitado! No sabe o mal que tem! Nem ele, nem a mulher, nem a tia Augusta...  o que lhes vale!
Durante a tarde, Ravasco continuou nas courelas. O povo notou, contudo, que ele, agora, se deitava mais frequentemente  sombra das oliveiras. Ao fim do dia, a mulher, regressando da fbrica, marralhou com ele: "Aquilo no tinha jeito nenhum! A sua sade no estava para aquilo!" Ravasco ps o casaco sobre os ombros e caminhou para o extremo do povoado. Bateu  porta do Lingunhas e com este ajustou a dormida das suas ovelhas, naquela noite, sobre a terra que ele cavara durante o dia. E voltou para casa a pensar e a antegozar a contrariedade que Manuel Peixoto teria ao saber que, por causa do seu irmo Mateus, que era colega do Felcio, ele no quisera, desta feita, o seu gado.
Na manh seguinte, ao olhar a leira, considerou ser bastante o estrume deixado pelas ovelhas e barato o preo que combinara. Ergueu a enxada e lanou o primeiro golpe  terra - outro, outro e ou
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tro... Agora, porm, sentia-se mais fraco do que na vspera. Quatro enxadadas e o corpo pedia-lhe sossego. Ravasco, ento, enervava-se: "Aquela doena arrasava-o! Antigamente, ele era to forte que, com dois goles de aguardente, de manh, e uma tigela de caldo, ao meio-dia, trabucava de sol-nado a sol-posto sem se cansar. Mas no ia, agora, deixar-se tomar por aquilo. Tinha que fazer havia de o fazer!" Mordia os lbios e voltava a enfiar a enxada na capa verde que as ovelhas tinham rapado rapado tanto que no se via uma nica erva erguer-se acima da terra.
Ia cavando e remoendo os seus despeites e desesperos. Aquela velha que ele havia encontrado na sala de espera do Instituto de Oncologia ajudara a dar cabo dele - pensou. - Pois que preciso tinha ele de saber aquilo? Desde a primeira no simpatizara com ela. Mas que ia fazer? A sala estava cheia de pessoas esperando vez para consultas e tratamentos e o diabo da bruxa metia-se com toda a gente. Com aquele chapu preto coado e um passarinho tambm preto e j sem bico em riba do chapu, falava por todos os cotovelos. Quando ela era assim faladeira e tinha manias de janota naquela idade, o que seria o estafermo em nova? A primeira vez que ele antipatizara com ela, fora quando a ouvira dizer, em voz alta, na sala: "Parece que eu tenho um cancro na ponta do seio, mas j me disseram que, aos oitenta e sete anos, o cancro no tem fora para se desenvolver e que eu posso viver ainda muito tempo." Ela dizia aquilo com satisfao e como se fosse, por isso, mais do que os outros. Todos ficaram calados, mas ele percebera muito bem que todos ficaram aborrecidos, pois quem vinha ali sabia que no Instituto se tratavam as doenas ms, mas ningum gostava de falar em cancros.
Naquela manh, a velha fora alm das marcas. Nunca esperara uma coisa assim. Quando ele voltava dos doutores, a bruxa, ao v-lo de cara alegre,
logo metera conversa. E ele, to tolo, a pr para ali tudo o que os mdicos lhe tinham dito. E ela, ento, com aquele ar de amizade, que se via mesmo que era falso: "Ah, ainda bem! Ainda bem! No h-de ser nada, se Deus quiser! Eu rezarei muito por si, para que Deus Nosso Senhor lhe d sade!" A bruxa! Ele, agradecido, a voltar-lhe as costas, a procurar, nos bancos, no meio daquela gente toda, o seu chapu, e ela a dizer aos outros, pensando que ele j ia longe: "Coitado! Est perdido! Quando os mdicos falam assim  que j no h nada a fazer. Foi a mesma coisa que eles disseram  minha irm Leonor, que tinha um cancro no fgado. No quiseram oper-la, por no servir de nada. E ela morreu pouco tempo depois..." Uma facada nos ouvidos ter-lhe-ia dodo menos. Ainda se voltara para o lado onde a velha estava sentada. Dera com os olhos nalguns dos homens que a escutavam e que, ao compreenderem que ele tambm a tinha ouvido, ficaram com um sorriso parado, como se houvessem morrido com aquele sorriso. Ele vira logo tudo muito claro. At chegar  rua, at ter mo em si, as suas pernas tremiam-lhe. Era certo que quando os mdicos lhe disseram que ele podia voltar para casa, parecera-lhe que havia alguma coisa que eles no diziam naquelas palavras. Mas ia l supor uma coisa assim!
Lanou, com mais fora, a enxada  terra, como se a metesse no corpo da velha. Estava 'perdido, mas havia de fazer das tripas corao, a ver se pagava a dvida antes de morrer. Se no a pagasse, o miservel do Marques no largaria a Maria Antnia e era ela, a pobre, quem teria de entrar com o dinheiro. E ainda com juros, que aquele avarento levava-os maiores do que as casas de prego da Covilh. Com essa obrigao a pesar-lhe, como poderia ela sustentar-se e aos pequenos com o salrio que recebia? No, ele no queria morrer com a ideia de que os seus filhos iam passar fome logo que ele fechasse os olhos! Felizmente, como estivera pouco tempo em
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Lisboa, gastara menos de metade do dinheiro que tinha pedido emprestado ao Marques. E o que ficara por l, havia de o ganhar, se Deus lhe desse ainda algum tempo de vida. A sua 'me  que lhe podia valer, porque ele estava desconfiado de que ela tinha notas suficientes. Mas a velhota tambm era muito agarrada ao dinheiro e depois que ele lhe pedira, h anos, aqueles cinquenta mil ris e no lhos pagara, nunca mais ela quisera emprestar-lhe um tosto. Dizia sempre que os patacos que recebia da venda do centeio mal chegavam para pagar o amanho das terras no ano seguinte e que se, um dia, adoecesse, nem para remdios teria dinheiro. Podia ser, mas ele no acreditava. Sempre lhe parecera que s ao outro filho, ao que estava no Teixoso, ela votava amor. Ele tinha, pois, de contar s consigo, de pagar aquilo, se no queria que a desgraa casse sobre os pequenos coitadinhos, que eram inocentes! logo que o levassem para o cemitrio. E tambm sobre Maria Antnia, que fora sempre trabalhadeira e honesta.
O seu prprio monlogo lhe dava novas foras, aquela fria com que ele, em certos momentos, suado, ofegante, o sexo pingando sangue, cavava a terra a grandes enxadadas. Mas logo surdia o cansao das pernas, dos braos, do corpo todo, aquela sensao de frio, aquela sensao de desmaio e, em seguida, a hemorragia. Quedavam-lhe dores e uma secura na garganta, que no havia gua que matasse por muito tempo. Ele emborcava a bilha, mas, pouco depois, l estava a secura sede, como se a sua garganta fosse, agora, de cortia. E, novamente tambm, aquela imperiosidade de fazer a mico sangunea.
Todas as 'tardes, a me, curvada e amparando-se a um cajado, aparecia nas leiras. E ao v-lo assim esfalfado, magro, de uma magreza que parecia transparente, dizia-lhe:
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- melhor, talvez, chamar um homem para aqui. No ests com sade para tanto!
Ele rosnava uma recusa e continuava a cavar. Mas, em cada novo dia que passava, a tia Augusta via que o trabalho do filho era menor.
- Ao menos um homem para te ajudar... - sugeria ela, timidamente.
Ravasco saltava de l:
- Se vossemec no fosse minha me, eu sei o que lhe havia de responder. Deixe-me em paz, ande!
A tia Augusta partia, agarrando-se ao seu bordo e suspirando o desgosto de ver Ravasco assim acabado e assim teimoso. E ele ficava, odiento, a ruminar as suas cleras: "Ela tinha oitenta anos e j no fazia falta a ningum. Se ela morresse, ele venderia uma das courelas que lhe coubessem nas partilhas e pagava ao Marques. At podia descansar um bocado antes de ele prprio morrer. Iria, tambm, a S. Torcato de Guimares. Ele nunca pudera gozar nada. Andara sempre a trabalhar e sempre sem dinheiro. Quando era ainda vivo, o seu pai, que nascera para as bandas de Guimares, dissera-lhe, muitas vezes, que no havia, em Portugal, outra romaria como a de S. Torcato. Mas ele nunca pudera l ir. Passara a vida com aquele desejo e nunca o pudera satisfazer. Agora, com certeza, tambm j no iria. A velha estava, ainda, muito rija. E mesmo que ela morresse j, aquilo das partilhas demorava sempre muito tempo; resolve e no resolve, j ele teria morrido tambm."
Desde que, naquela manh de Lisboa, compreendera que o seu mal no tinha cura, deixara de se apiedar por quem morria. Viera-lhe mesmo um vago consolo ao saber que o Cosme da Borralheira se finara e que o Isidoro do Sineirinho estava as portas da morte, com uma tuberculose. Mas aqueles pensamentos que ele punha, como alcateia danada, atrs da sua me, quando ela se retirava, acabavam
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sempre por o deixar de mal consigo prprio. "A velha tinha aquele feitio, mas tambm ela no sabia que ele estava assim. At lhe dissera, quando ele a prevenira de que ia a Lisboa: "Agora, por uma dor de barriga, mandam logo a gente para Lisboa, para Coimbra, para o hospital... No meu tempo, ningum saa de onde estava e vivia-se muito mais." Ela no sabia que aquilo era doena de matar e, ele, ento, tambm no sabia nada. Porque, se soubesse, no teria sado dali e no estaria, agora, empenhado."
Numa daquelas tardes, quando a tia Augusta apareceu e se ps a olhar, em silncio, para o cho cavado desde a vspera, Ravasco julgou adivinhar o que a me pensava. , pousando as mos sobre o cabo da enxada, contemplou, tambm, a terra que ele revolvera desde o dia anterior.
-  pouca, ... - murmurou. - Mas no se aflija por isso... Vossemec paga-me s metade da jorna... Como se eu trabalhasse s meio dia...
A tia Augusta no respondeu logo. Os seus olhos voltaram a percorrer no apenas a terra cavada, mas a que faltava cavar, nas courelas vizinhas. E prolongou o silncio, fazendo clculos. Depois:
- Quantos dias pensas que precisas para acabar?
Ele olhou a me e, em seguida, aquelas faixas de cho, cobertas de verde felpa, que se estendiam ao seu lado.
- Se eu estivesse forte, em quatro ou cinco dias dava conta de tudo isto. Assim... no sei... Talvez oito para cavar... Depois, para semear... no sei...
- Oito dias... Bem! Eu pago-te, na mesma, os oito dias, mas vem um homem dar-te uma ajuda. Um rapaz de que me falou o Marreta. Um que se chama Horcio. Tu conhece-lo...
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Ele no disse nada. Os seus olhos volveram a fixar os olhos da me e, depois, humedeceram-se. A tia Augusta batia, agora, com o seu pau, num torro, como se tivesse muito empenho em desprender uma pequena pedra que ao torro se agarrava.
Pois  - disse ela, depois. - Fica assim
combinado. Por mim, no trabalhavas mais... - E voltou a arrastar a velhice em. direco  sua casita, que se erguia atrs das oliveiras.
Ele ficou a v-la afastar-se. "Se lhe contasse tudo, talvez ela, desta vez, lhe valesse. Pouco era... Mas no! Ele no ia contar-lhe aquilo. No queria que ningum soubesse da sua desgraa e tivesse pena dele. Ningum! Se ele contasse  velhota, a Maria Antnia viria a sab-lo. E ele no queria dar-lhe esse desgosto. Bem bastava que fosse ela, agora, a sustentar sozinha a casa."
Quando, na manh seguinte, Horcio surgiu nas courelas, j Ravasco l estava. Foi por entre dentes que ele respondeu ao seu "bom dia!", enquanto olhava para a enxada que Horcio trazia ao ombro e que Manuel Peixoto lhe emprestara.
- Ento vossemec est melhor?
- Estou bom! Estou quase bom...-disse, de mau humor. E estendendo o dedo, acrescentou: - Pode comear acol.
Horcio dirigiu-se para a jeira indicada. Ravasco, s voltas com a terra, irritava-se mais: "Aquela mania que todos tinham de perguntar pela sua sade! S isso bastava para dar cabo de um homem! No poder ver ningum, sem logo a outra pessoa lhe lembrar aquilo. Como se no fosse bastante o que ele sofria, para os outros estarem ainda a remexer na sua ferida! E, afinal, os outros incomodavam-se tanto com ele, como ele com a primeira camisa que vestira. Era costume - e pronto! V de estragar a vida a um homem! Se no fosse isso, ele at gostaria de conversar. Gostaria mesmo muito,
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pois, quando estava a conversar, esquecia-se, s vezes, daquilo."
Com o rabo do olho perscrutou a leira vizinha. "O tipo d-lhe com gana" - pensou, despeitado, ao ver a terra que, num instante, Horcio cavara. Comeou a invejar a juventude de Horcio. "Tambm ele, quando tinha vinte anos e no passava os dias a mijar sangue, era assim. E mesmo agora, com quarenta e seis, ningum lhe levaria a palma se no fosse aquilo. O fedelho ainda tinha muitos anos para viver enquanto ele... enquanto ele..."
No queria olhar, mas no se podia conter. A enxada de Horcio continuava a virar a terra, vigorosamente. J tinha quase um metro cavado a toda a largura. Ento, Ravasco pensou que, a seguir assim, Horcio cavaria mais em duas horas do que ele num dia inteiro.
- Desfaa-me esses torres!-gritou-lhe, com ntimo rancor. - No  s andar;  fazer o servio como deve ser!
Sentia vontade de o humilhar e de depreciar, de qualquer maneira, a quantidade do seu trabalho. Horcio obedeceu-lhe e, com a cabea da enxada, ps-se a esboroar a terra que havia quedado em bocados, aqui e alm. Apesar do tempo assim despendido, Ravasco verificava pouco depois que Horcio ia de novo mais adiantado do que ele. "No podia ser! A velha j sabia que ele no era capaz de dar muito, mas, enfim, no queria comparaes. Ainda se ela soubesse como ele andava!"
- Venha para c! - berrou, de novo, a Horcio. -  melhor trabalhar aqui, ao meu lado, porque eu quero a terra bem esboroada.
Horcio obedeceu-lhe novamente. Ento, ele ficou tranquilo: "Assim j ningum saberia qual deles trabalhara mais." A princpio, Ravasco cavava em silncio. Depois, desatou a falar. A falar da fbrica, do Felcio e do Mateus. Eram ambos dois tratantes
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- disse. - Tinham sido operrios e, agora, mostravam-se piores do que os patres. O irmo de Mateus, o Manuel Peixoto, esse, sim, era outra loia. Se no lhe comprara as noites de esterco, fora s para lhe fazer ver que ele, Ravasco, tambm tinha alguma fora, embora o houvessem mandado embora da fbrica onde o Mateus era mestre, como se mandassem um co. Mas no queria mal ao Manuel Peixoto, l isso no queria.
As quatro horas da tarde, quando Horcio largou a enxada, para se dirigir  fbrica, Ravasco teve sbita pena de ficar sozinho. Sentia-se, de repente, como que abandonado e toda aquela terra sua inimiga.
No dia seguinte, quando Horcio voltou, Ravasco no estava l. O povo vira-o entrar, de manhzinha, na igreja. Homens e mulheres murmuraram comentrios, porque Ravasco nunca ia ali e era, como Tramagal, dos que andavam sempre a dizer mal dos padres. Mais tarde, a empregada da Casa do Povo, que estava  janela, ali mesmo em frente, viu-o sair da igreja, encostar-se a um canto, forado pela sua hematria, e volver a entrar. Desde ento, os habitantes da aldeia j no estranharam as constantes visitas que Ravasco, cada vez mais magro, mais caqutico e de mais amarelada cor, fazia ao pequeno templo, onde se demorava largas horas. Um dia, porm, deixou de aparecer. E, de tarde, o povo soube que ele estava na cama, contorcendo-se com dores e gemendo desesperadamente.
Entretanto, o frio voltara. O tempo continuava seco, mas gelado de cortar a pele. De madrugada, Horcio acordou com um choro de criana. E de pois:
Me!  me! Eu tenho frio!
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L em baixo, os outros filhos de Ricardo despertaram e alguns deles gritavam como o irmo:
- Eu tambm tenho! Eu tambm tenho frio. Jlia acendeu a luz e berrou-lhes que se calassem.
Em seguida, ergueu-se e colocou sobre os filhos quanto trapo havia na casa. Mas ela via bem que aquilo no chegava. Ela prpria tremia de frio. E os trapos que davam melhor agasalho j a famlia os utilizava desde que os cobertores tinham sido empenhados. Jlia dirigiu-se  sua cama. Ultimamente, ela e o marido cobriam-se apenas com, uma manta e o sobretudo de Ricardo. Jlia tirou a manta e estendeu-a sobre o corpo dos filhos, todos, menos o de bero, dormindo num mesmo colcho. Depois, ps-se a olhar para o corte de fazenda que ela comeara a esbicar na vspera. Era um tecido vistoso e caro, que valia a fria de muitas semanas e s gente rica o poderia comprar. Jlia hesitou. J uma vez, numa noite assim gelada, ela havia posto um corte de fazenda na cama das crianas e, de manh, o filho mais novo, que era mesmo um demnio, fizera-lhe um rasgo, com um prego. Querendo ocultar aquilo, no fossem, l na fbrica, negar-lhe, de futuro, trabalho, ela tivera de pagar  metedeira de fios bom dinheiro para cerzir o tecido. Jlia decidiu-se: "Agora, em cima dela e do Ricardo no havia perigo." Meteu-se na cama e cobriu-se a si e ao marido com o corte de fazenda. Puxou o sobretudo, para se aconchegarem melhor-e apagou a luz. Os seus dentes batiam uns nos outros, com aquelas tremuras que a percorriam violentamente. Um dos filhos, o Ernesto, continuou a protestar, no escuro:
- Isto no chega! C para mim isto no chega! Tenho frio...
- Pois no tenho mais roupa! S o prncipe reclama, no querem ver? - gritou Jlia.
Foram, as ltimas palavras que, naquela noite, Horcio lhe ouviu. Mas, pouco depois, ele sentia os passos dela, l em baixo. Jlia tirara tambm o so
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bretudo da sua cama e pusera-o sobre o Ernesto e os outros filhos.
Na manh seguinte, quando Horcio e Ricardo se dirigiam para as fbricas, o dia estava soalheiro, como os anteriores, mas o frio da noite continuava. Ao acercarem-se da Carpinteira, divisaram outros operrios que marchavam em direco contrria  deles e, depois, deixando a estrada, cortavam para os Penedos Altos. Eram pedreiros, via-se pelas ferramentas, e caminhavam to friorentos e apressados como os operrios das fbricas. Nem Ricardo, nem Horcio estranharam o caso, na terra em que homens de Alcains andavam sempre em trabalhos de edificao para os industriais e outros capitalistas. Mas, ao meio-dia, uma mulher, que viera trazer  fbrica o almoo ao marido, espalhou a grande novidade. Nos Penedos Altos havia comeado a construo de casas para os pobres. Toda a manh andara l, a trabalhar, uma turma de homens. E a todo o momento chegavam camionetas com material. Ao ouvir aquilo, alguns dos operrios ainda duvidavam, enquanto outros iam afirmando: "Eu bem preciso de uma casa..." "E eu tambm." "E eu tambm."
 hora da sada, os que moravam na Covilh acompanharam os da Aldeia do Carvalho at o ponto da estrada de onde se viam os Penedos Altos. Afinal, era verdade. J havia alguns alicerces abertos. Perto, levantavam-se rimas de pedras e tijolos que no se encontravam l de manh. E, ao fundo, um barraco de madeira e zinco, para recolha das ferramentas e dormida de pedreiros e carpinteiros, fora concludo num s dia.
Horcio contemplava aquilo, extasiado. "O stio no podia ser mais airoso. Via-se o vale, via-se, ao longe, a Covilh e estava-se a dois passos da fbrica. Uma casita ali ficava mesmo a matar."
Nos dias seguintes, quer  vinda, quer  ida para a Aldeia, ele olhava sempre o local, to ansioso pelo avano das construes como se a obra fosse sua.
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Muitos outros operrios faziam a mesma coisa. Uma tarde, deixaram mesmo a estrada e caminharam at os Penedos Altos. Os pedreiros tambm j haviam abandonado o trabalho e alguns deles estavam no barraco. Era uma casa de malta, com beliches sobrepostos e, por todos os lados, farrapagem, mantas sujas e utenslios de cozinha. Mas num outro compartimento, onde o mestre-de-obras tinha uma mesa e se guardava a ferramenta, via-se, na parede, emoldurado e desenhado a alegres cores, o projecto das casas a edificar. Horcio e os companheiros quedaram-se, largo tempo, a examinar aquilo em silncio. Havia umas casas que eram maiores do que outras, mas todas, pequenas ou grandes, prometiam ser garridas, com seus beirais recurvos e largas janelas, semelhantes a muitas das que Horcio admirara no Estoril e na Parede, quando era soldado.
- So bem boas! - comentou Belchior.
- L isso so! - respondeu um dos pedreiros de Alcains que andavam a constru-las. - Tomara eu ter metade de uma assim para mim e para a famlia.
Horcio sentia-se cada vez mais contente. E, no domingo seguinte, em Manteigas, deu a novidade a Idalina: "Estava resolvido a casar-se. J era operrio e pouco importava que a casa no fosse dele. O principal era que fosse como ele a havia desejado. E a Cmara ia, agora, construir casas assim para os operrios."
Tinha renunciado a desflorar Idalina antecipadamente. E nesse mesmo domingo, ao atravessar a serra, de volta  Aldeia, ele ia evocando as pessoas a quem poderia pedir dinheiro emprestado para as despesas do casamento. Pensava numa e logo a largava; pensava noutra, avaliava a sua vida e imediatamente a deixava tambm. Todos os seus conhecidos da Aldeia do Carvalho, salvo o Manuel Peixoto, no tinham mais do que ele. E o prprio Manuel Peixoto j vendera algumas cabeas do seu gado,
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por falta de dinheiro. Em Manteigas, havia, era certo, pessoas de muitas posses. Com essas, porm, no tinha ele confiana. S ao Valadares poderia pedir aquilo. Mas a este no queria ele pedir. Quando fora do incndio, parecia-lhe fcil chegar junto do Valadares e dizerJhe: "Precisava que me emprestasse um conto de ris, para eu, depois, pagar aos poucos." Agora, que j se passara muito tempo, custava-lhe falar em tal coisa ao seu antigo patroj
Eram quase onze horas da noite quando ele entrou na Aldeia do Carvalho. Ao transitar em frente da casa de Ravasco, viu,  porta deste, um grupo de mulheres. Horcio adivinhou o que acontecera antes mesmo de algum lho dizer. L dentro, a Maria Antnia, gritava:
- Meu Deus, que vai, agora, ser de mim? Que vai ser de mim e das crianas?
Horcio aproximou-se. Jlia estava c fora, entre as outras mulheres, e disse-lhe com simplicidade:
- Morreu ontem ao fim da tarde e foi enterrado hoje. Viemos fazer um pouco de companhia  Maria Antnia, mas ela, coitada, no se resigna.
Outras mulheres vinham saindo. Horcio ainda avanou at  porta; logo pensou que no sabia o que havia de dizer  Maria Antnia e desistiu de entrar.
Embrulhadas nos seus negros xales, algumas das mulheres iam-se separando. Na casa, j sem visitas, a viva continuava a gritar:
-Meu Deus, que vai ser de mim?
Jlia e outras vizinhas comearam a descer a encosta. Horcio caminhava ao lado delas, acabrunhado.
- Coitada! Ela tem razo! - disse Jlia. - Sozinha e com a vida como est...
As outras mulheres, esquecidas j da Maria Antnia, largaram a falar do preo das coisas, que era a sua obsesso quotidiana. Um quilo disto ou da
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quilo, que, no ano anterior, custava tanto, agora custava o dobro. As sardinhas haviam aumentado duas e trs vezes mais. E as batatas, quem as no tinha, via-se doido para as arranjar. E se as arranjava, pagava-as a peso de oiro. S o que estava racionado no subira muito de preo, mas isso pouco valia, pois o que davam no racionamento no chegava para nada.
- Na Covilh ainda  pior - afirmou Jlia. - Aqui, alguns ainda amanham as suas territas. Mas na Covilh  tudo  fora de dinheiro. Fui l a semana passada visitar a minha cunhada e vi que as mulheres de l no sabem o que ho-de fazer  vida. O que os homens delas ganham no chega para comer e elas tm tudo no prego.
As que ouviam a Jlia pensavam que se ela fora, nos ltimos tempos, muitas vezes  Covilh, no tinha sido em visita  cunhada, como dizia, rnas sim para ver o filho, aquele matulo do Antero, que justamente na ltima semana abalara para Lisboa, sem ligar nenhuma importncia aos pais. Pensaram isso, um momento, mas 'logo esqueceram Antero, como haviam esquecido a Maria Antnia, todas atentas ao que Jlia contava sobre a vida na cidade.
Horcio escutava de mau humor. Ia ruminando que Jlia queria, decerto, aumentar outra vez o preo da comida e da dormida, pois nos ltimos tempos andava sempre a referir-se, na frente dele,  carestia que os alimentos tinham sofrido. Pareceu-lhe, Contudo, que naquela noite Jlia falava com um tom diferente do das outras vezes, como se partisse de alguma coisa que s ela sabia.
NINGUM, talvez, poderia dizer como a notcia entrou, quela hora, na fbrica e passou, murmurada, de homem para homem e de mquina para mquina sem as mquinas se deterem. Horcio soube-a pelo Boca Negra, enquanto as "self-actings" trabalhavam:
- Prenderam o Ricardo e o Gabriel Alcafoses e parece que mais alguns da Covilh...
Horcio olhou para o lado das penteadeiras e, pela cara de Tramagal e dos outros operrios, compreendeu que tambm eles j tinham conhecimento daquilo.
- Por que os prenderam?
A Boca Negra pareceu intil a pergunta:
- Por que havia de ser! - disse.
H muito tempo que Horcio ouvia falar de Gabriel Alcafoses como de um dos mais activos operrios da Covilh. Mas ele no o conhecia. E s a priso de Ricardo lhe dava verdadeira pena.
As mquinas continuaram a trabalhar, mas dir-se-ia que por baixo do seu rumor havia um silncio pesado, mais forte do que o prprio rumor, como no dia em que Ravasco fora despedido.
Quando, s cinco horas, os operrios saram da fbrica, logo se formaram grupos na estrada, que todos queriam saber pormenores sobre o caso. Os que chegavam da Renovadora informaram que das
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polcias haviam entrado ali,  hora do almoo, e dito simplesmente ao Alcafoses que os acompanhasse. Ricardo e Cristino - disseram outros, que eram seus companheiros de fbrica - tinham sido presos j depois de o trabalho haver recomeado.
- Tambm levaram o Cristino? - estranhou Tramagal.
- Tambm.
- Eu you  Covilh... - disse, subitamente, Marreta.
Tramagal olhou para ele, um momento, e declarou:
- Eu vou contigo...
- No...  melhor eu ir sozinho... Vocs previnam a Jlia. E,  noite, passem por minha casa.
Marreta partiu. Os grupos comearam a desfazer-se. Tramagal e Horcio, desta vez no meio de muitos outros operrios, que comentavam ainda o acontecido, regressaram  Aldeia do Carvalho.
Jlia tinha o filho mais novo nos braos e ia dar-lhe o seio quando eles chegaram  sua porta e lhe comunicaram aquilo.
- Ah, prenderam o meu homem? - disse ela com sombria serenidade. - Ento prenderam-no? - repetiu. A sua voz denunciava uma 'clera jacente. Abrindo a blusa, Jlia entregou o peito ao filho.
Os homens ficaram a olh-la, surpreendidos e calados perante aquela atitude. Jlia voltou a erguer os olhos e dirigiu-se a Horcio:
- Se voc quiser comer agora, a ceia est pronta. Antes mesmo de Horcio responder, Tramagal
protestou:
- Qual comer, qual carapua! Ele ceia hoje comigo.
Jlia fez um gesto de indiferena. Os homens no sabiam que lhe dizer, nem sabiam sair dali sem lhe dizer mais alguma coisa. Pela
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primeira vez, Horcio sentiu que a voz de Tramagal procurava tornar-se doce:
- Ele no h-de ficar l muito tempo. E eu vou dizer  minha patroa para vir fazer-te um pouco de companhia...
Jlia manteve-se silenciosa e com o mesmo ar indiferente.
Quando, depois de comer, eles se acercaram, pela segunda vez, da casa de Marreta, esta continuava fechada e s escuras. Horcio examinou o seu relgio:
- Se calhar, levaram-no tambm... Tramagal no disse nada, pois havia pensado a
mesma coisa.
Os dois caminharam at  ribeira, detiveram-se l um momento e volveram. E nesse vai e vem andaram mais de uma hora. De quando em quando, surgiam outros operrios, que tambm frequentavam a casa de Marreta, mas, como o tempo estivesse frio, retiravam-se.
Era quase meia-noite quando, finalmente, o velho tecelo apareceu, acompanhado de Joo Ribeiro, que lhe sara ao caminho.
Marreta olhou, mais uma vez, para trs, no fosse algum hav-lo seguido. Meteu, depois, a chave na porta, acendeu o candeeiro e, perante a cara dos outros, que o fixavam interrogativamente, disse:
- No est nada perdido. A organizao est de p. Na Covilh tinha-se trabalhado bem, nestes ltimos dias... Agora vai-se andar depressa, antes que acontea mais alguma coisa. No so precisas novas reunies e amanh todos os operrios sero prevenidos. A greve  depois de amanh...
Marreta falava com muita naturalidade e, no mesmo tom calmo e simples, respondeu s vrias perguntas que Tramagal e Joo Ribeiro lhe fizeram.
Ao ouvi-lo assim tranquilo, os confusos receios que Horcio tinha de vir a ser despedido da fbrica,
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de perder o seu novo lugar, de ser, talvez, preso tambm, desapareceram. Ele sentia, agora, um estado de esprito diferente do dos dias anteriores.
Ao entrar em casa de Ricardo, para se deitar, encontrou l um grande silncio. Isso acontecia-lhe muitas vezes, quando entrava tarde, mas, agora, o silncio parecia-lhe maior e com maior vcuo, com maiores cavidades do que nunca. Ao subir as escadas, tossiu propositadamente, esperando que ao seu rudo Jlia correspondesse com outro, para assinalar que ela estava l. Mas o silncio manteve-se. Horcio acendeu a vela, despiu-se, tornou a apag-la, sempre com aquela mudez a pesar sobre a casa.
De manh, Jlia acordou-o com as trs pancadas no soalho, como de costume. Mas ele percebeu que, l em baixo, ela trafegava mais lentamente do que nos outros dias. As prprias crianas dir-se-iam mais comedidas do que habitualmente.
Quando Horcio desceu, j a malga de caldo fumegava sobre a mesa. Ele sentiu logo que Jlia no tinha vontade de falar e tentou consol-la:
- Provavelmente soltam-no hoje...
Jlia no disse nada. Mas logo que ele saiu, ela ajeitou os cabelos, ps o xale e foi pedir a uma vizinha que lhe tomasse conta dos filhos. Depois, meteu  mesma estrada por onde Horcio e os outros operrios seguiam todos os dias.
Jlia ia andando e pensando que talvez quela hora Ricardo no tivesse ainda comido nada. E que esses buracos onde, segundo se dizia, metiam os presos, podiam aumentar "lhe o reumatismo. Contra a vontade dela, visionou Ricardo a contorcer-se com dores entre paredes negras, onde no havia luz e a humidade escorria. Jlia mordeu os lbios. Ela pensou, ento, que Ricardo era corajoso. Lembrava-se, subitamente, de vrios pequenos actos da sua vida, de vrios nadas, aos quais, nesses momentos, no dera importncia e de novo pensou que Ricardo era forte de nimo. Tornou a visionar o seu vulto
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contorcendo-se entre hmidas sombras - mas ela, agora, estava calma.
Ao chegar  Covilh, Jlia entrou, resoluta, na esquadra de polcia e pediu que a deixassem ver o marido. Veio um guarda, veio um segundo, veio, por fim-, o chefe. Perante a negativa recebida, Jlia insistiu. Insistiu tanto, que, pelas mastigadas palavras de um e de outro, ela concluiu que Ricardo j no se encontrava ali, que a polcia tinha-o mandado para Lisboa e o acusava de andar incitando o povo para uma rebelio.
Jlia deteve-se, um momento, a fixar os guardas com os seus grandes olhos, agora nublados. A sua boca ainda se entreabria, como se fosse falar, mas logo ela voltou as costas e saiu, muito embrulhadita no seu xale negro.
Quando chegou a casa, colocou sobre a banca o corte de fazenda que havia principiado a esbicar na vspera. Mas os olhos mal viam os resduos vegetais que a l prendia; a ateno andava longe, o trabalho no avanava e a mo j no sustinha as pinas detinha-se, muitas vezes, como inerte, sobre o tecido.
 alpardinha, quando Horcio volveu da fbrica, Jlia disse-lhe:
- Levaram o Ricardo para Lisboa... J sabe? Ele fez um sinal afirmativo. Desde manh, todos
os operrios sabiam que a polcia havia metido os presos numa camioneta, conduzindo-os, primeiro, para Castelo Branco e, dali, para a capital. Jlia continuou:
- Voc tem de arranjar outro quarto para si. Eu no sei quanto tempo o Ricardo andar por l. E eu no posso viver aqui com um homem solteiro, enquanto o Ricardo est na cadeia... O povo podia comear a murmurar e eu no quero.
Surpreendido, Horcio balbuciou:
-Est bem... Irei embora... desde que  essa a sua vontade... Mas de que vai vossemec viver com toda esta crianada?
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Jlia no respondeu. Pela primeira vez, aps a notcia da priso do marido, duas lgrimas surgiam nos seus olhos. Em frente dela, a velha Francsca, surda e cega, sentada  beira do lume, parecia dormir com o gato no regao e o rosrio caindo-lhe das mos esquelticas.
vm
A greve comeou, efectivamente, na quinta-feira. Quando Horcio saiu de casa, a manh mostrava-se muito lmpida. Um milhafre planava, lentamente, sobre um dos flancos da aldeia e dir-se-ia haver uma luz de domingo.
Horcio estava ansioso de ouvir os companheiros nesse dia em branco que lhe parecia a mais na sua vida. Mas em redor da casa de Ricardo no se via ningum. Apenas algumas galinhas bicavam a terra, a um canto. Tudo o mais jazia em quietude.
Logo, porm, que dobrou a ruela, Horcio ouviu rumores de vozes e divisou grupos de operrios que falavam e gesticulavam muito. Ao aproximar-se, compreendeu que eles discutiam, exaltados. Mais alm, Tramagal gritava:
- So uns malandros! No h direito de uma coisa destas! O que eles precisavam  que ns lhes partssemos a cara!
- Mas o que  que aconteceu? - perguntou Horcio.
Cada vez mais excitado, Tramagal no lhe deu ateno. Foi Belchior quem lhe explicou ter-se sabido, h pouco, que muitos operrios no haviam abandonado o trabalho. Na vspera, parecia que s meia dzia deles discordava da greve; mas, de ma 
 
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nh, verificara-se que o nmero dos "amarelos" era maior do que se imaginara. Tramagal propunha, agora:
- Vamos l! Vamos l met-los na ordem! Outros homens avanavam viela acima, entre os
velhos pardieiros, e falavam tambm acaloradamente. Por toda a parte se ouviam palavras de desdm e de indignao.
Informado do que se passava, Horcio dirigiu-se a casa de Marreta. No caminho, cruzou-se com outros grupos mais calmos, mas que avanavam j para a estrada da Covilh. Malheiros, que ia num deles, disse-lhe:
- Vamos ver como aquilo anda por l. No queres vir tambm?
Horcio desejava ouvir, primeiro o Marreta.
- J l vou - respondeu.
Quando chegou a casa do velho tecelo, a porta encontrava-se fechada. Mas l dentro algum fazia discreto rudo. Horcio bateu. O rudo deteve-se, houve um silncio, como que uma hesitao. Horcio bateu de novo. Sentiu, ento, uns passos.
- Quem ?
No era a voz de Marreta.
- Quem ? - tornaram a perguntar. Horcio reconheceu a voz de Joo Ribeiro.
- Sou eu... Eu, Horcio. A porta abriu-se.
- Ah, s tu! Entra.
Joo Ribeiro no parecia tranquilo. Fechou outra vez a porta.
- O Marreta no est - disse, depois, mais sereno. - Foi a correr para a Covilh, por causa desses ranhosos que esto a furar a greve.
Sobre a pequena mesa viam-se os livros de Marreta, alguns deles j embrulhados em velhos jornais. Joo Ribeiro seguiu o olhar de Horcio e explicou:
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- O Marreta no teve tempo de tirar isto daqui. Pediu-me que lhos guardasse em casa da minha irm. Como ela  viva, se a polcia vier meter o nariz por a, com certeza no ir a casa dela...
Joo Ribeiro avanou para a mesa e acabou de embrulhar os livros.
- Tu podes ajudaj>me a lev-los - disse. - E depois iremos  Covilh, se quiseres...-Olhou Horcio e acrescentou: - Eu quero ir.
A irm de Joo Ribeiro morava do outro lado da aldeia. Eles deixaram l os pacotes e meteram  estrada da Covilh.
Horcio viu que muitos operrios faziam o mesmo caminho. Alguns, dos mais jovens, tinham envergado os seus fatos de domingo, mas marchavam apressadamente, como se fosse dia de trabalho.
Pouco depois avistaram a Covilh.
As primeiras fbricas estavam fechadas. Ento, os que iam aperaltados diminuram o seu passo e comearam a avanar devagar, gingando, com o chapu inclinado a uma das bandas. Eles olhavam para os portes cerrados e, ante a quietao e abandono dos edifcios, sentiam uma confusa volpia em passar ali, em passar assim lentamente, como se tudo aquilo, pela primeira vez, dependesse deles, como se tudo aquilo, sem eles, tivesse de estar assim parado, assim morto, como nesse dia.
Logo, porm, que desceram mais a estrada para a Carpinteira, Joo Ribeiro e Horcio viram grande ajuntamento em frente da Fbrica Levante.
-  com certeza acol - disse Joo Ribeiro. - No me admira nada: na Levante e na Renovadora houve sempre "amarelos".
Entre os que se aglomeravam na estrada, em frente da fbrica, havia muitos operrios da Covilh, homens e mulheres, e com eles j se encontravam tambm Belchior e Tramagal. Ouvia-se zoeira de protestos e de discusses junto do grande porto
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fechado e cada vez se juntava mais gente, descida da cidade.
- Quem so eles? - perguntou Joo Ribeiro, ao chegar.
Horcio ouviu citar nomes. E depois:
- J se foi  Covilh, falar com as mulheres deles, para elas lhes virem dizer que larguem o trabalho... Mas parece que a polcia prendeu os que foram  Covilh. Agora, o Marreta est l para dentro, a ver se consegue alguma coisa. Mas isso consegue ele! Aqueles foram sempre uns sem-vergonhas...
Chegava, de momento a momento, mais gente. E, com ela, veio a notcia de que o "comit" da greve havia sido preso tambm, depois de apresentar aos patres um novo pedido de aumento de salrios. Homens e mulheres exaltaram-se mais. Em frente do porto, centenas de bocas gritavam:
-Marreta! Marreta! Deixa l esses traidores!
Dir-se-ia no haver ningum na fbrica. Nenhum vulto assomava s suas muitas janelas. No se via nada vivo. Mas quando a multido se calava, ouvia-se, distintamente, o rudo dos teares a trabalharem l dentro. Junto do largo porto de ferro,  espera de Marreta, o povilu impacientava-se, vozeando as suas discordncias. E estavam, todos assim, quando apareceu, subitamente, na curva da estrada, vindo da Covilh, um copioso grupo de polcias, que se deteve em frente dos grevistas.
Armados de pistolas e de carabinas, os guardas e o tenente seu comandante ordenaram:
- Daqui para fora, j! Daqui para fora!
Homens, mulheres e garotos-aprendizes hesitaram um instante. Depois, algum se lembrou de perguntar:
- Daqui para fora, porqu? No fizemos mal a ningum!
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Palavras ditas, a multido largou em apupadas e assobios  polcia, enquanto alguns dos guardas continuavam a mandar:
- Daqui para fora, j disse!
Ningum obedecia. E a surriada aumentava. Ento, o comandante da polcia, sentindo-se desrespeitado na sua autoridade, tornou-se sobrecenho e ordenou que fosse preso quem mais se destacava no escrnio e na gritaria. Vendo a deciso dos guardas ao levarem a carabina  cara, de novo a maioria hesitou. Mas havia os que, no alvoroo provocado, tinham perdido receios e instintos defensivos e, de nervos soltos, prosseguiam na assuada. A esses, alguns polcias iam prendendo, protegidos pelas suas armas e pelas dos colegas.
Entretanto, o porto abria-se, o tenente e dois guardas entravam e, pouco depois, volviam, trazendo entre eles a Marreta. E logo se viu marcharem estrada alm, ladeados pelos seus captores, duas dezenas de homens, de mulheres e de adolescentes.
A multido, surpreendida e vacilante, calou-se. Depois reagiu e tudo se passou rapidamente. Operrios e operrias corriam pela estrada, atrs dos seus, que iam presos. Berravam e protestavam e, chegados  cidade, em todos os casebres das ruelas proletrias soaram vozes de levantamento:
- Mandam-nos para Lisboa, depois para a costa de frica e nunca mais os veremos!
Eram, sobretudo, as mulheres que gritavam assim e outras mulheres, tirando a panela do lume ou deixando os filhos, somavam-se s primeiras e iam fazendo rabiar o alarme e a revolta de porta em porta.
Mal os presos haviam sido aferrolhados na cadeia, instalada, como a esquadra da polcia, no rs-do-cho do velho edifcio filipino que a Cmara Municipal ocupava, j a multido surgia ali em frente, no Pelourinho, enchendo de gritos toda a praa.
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E cada vez engrossava mais, mulheres atrs de mulheres, sempre mais mulheres.
- Queremos os presos! E queremos po para os nossos filhos!
O comandante da polcia veio  porta, viu aquela massa ululante e considerou que, se se estabelecesse luta, ele e os subordinados seriam vencidos. Num instante, alinhou, de carabinas aperradas, os seus homens em frente da esquadra e telefonou para a Guarda Republicana e para o Batalho de Caadores 2, pedindo urgente auxlio.
O vozeario continuava. As mulheres berravam sempre mais alto e incitavam, com palavras e gestos, os homens mais tmidos. Horcio sentiu-se empurrado pelas costas:
- Vamos l! Vamos tir-los da cadeia!
O Pelourinho andava em obras, para alargamento da sua rea e as pedras do calcetamento amontoavam-se aos cantos da praa. Enfurecidas mos femininas agarravam-nas e arremessavam-nas sobre a polcia.
De repente, desembocaram ali soldados do exrcito e da Guarda Republicana, luzindo metralhadoras. A praa fora cercada. A multido deu conta do acontecido, hesitou uns segundos e continuou a avanar para a cadeia.
- Quero o meu filho! Quero o meu homem! Queremos os nossos presos!
- Queremos po! -E a voz isolada logo se multiplicou e se repercutiu por toda a praa:-Po! Po! Po!
Postados junto das metralhadoras,  boca das ruas, os soldados do exrcito e da Guarda Republicana viam, de sorriso frio e amarelo, o mulherio avanar, vociferante. Mas hesitavam em abrir fogo, que o prlio era com a polcia e s para a polcia as pedras e as apstrofes se dirigiam furiosamente. De sbito, porm, um tiro soou. Batido por certeira pedra, mesmo  porta da esquadra, um dos polcias
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apontara, em desforo, a sua carabina e um rapaz cara com uma perna traspassada pela bala. Ao seu grito sucedeu um. unssono grito de dio da multido inteira. E viu-se, ento, homens e mulheres que caminhavam para o assalto  cadeia, volver seus passos e correrem, encolerizados, sobre a esquadra de polcia. Um outro guarda, perante essas cabeas desvairadas, que se aproximavam dele numa onda de raiva e de clamor, meteu a carabina  cara e levou o dedo ao gatilho. E foi nesse momento, em dois segundos apenas, que tudo aquilo se metamorfoseou. O tenente que comandava a polcia, ao ver o gesto do subordinado, deu um salto sobre ele. A sua mo no teve tempo de tirar-lhe a arma, mas impeliu, num gesto brusco, o cano para cima, desviando a pontaria. Ouviu-se um tiro, dois, trs, que o polcia, tambm em desvario, continuava a fazer fogo. Mas as balas iam altas, perdiam-se no ar.
A multido odiava o tenente. Fora ele quem, duas horas antes, mandara prender homens e mulheres junto do porto da fbrica. E, mesmo antes disso, corriam sobre ele histrias de brutezas, de impulsos do seu carcter violento. Mas, agora, perante o seu inesperado gesto, a multido, surpreendida, amolecia de repente. Os que avanavam, enfunados, detiveram-se; o fulgor do dio que havia nos seus olhos esmoreceu, os seus rostos contrados duramente adquiriram outra expresso e um sbito, um imenso silncio, dominou toda a praa. Dir-se-ia que, aps esses poucos segundos, uma gratido colectiva substitura o rancor. Aproveitando aquele amortecimento, o tenente estendeu os braos e arengou. Que fossem para casa, que tivessem juzo, que aquilo s lhes podia trazer desgraas. Ele no queria fazer mal ao povo, mas tinha de cumprir o seu dever. Ele no podia soltar os presos sob ameaas de ningum. Ele tinha de entreg-los aos seus superiores e s os seus superiores  que poderiam mand-los em paz.
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Falava em tom paternal e os operrios, habituados a v-lo faanhudo e autoritrio, amoleciam ainda mais, ao ouvi-lo falar assim.
Que pensassem bem as coisas volveu a dizer. - No viam que, se todas aquelas espingardas e metralhadoras disparassem, morreria muita gente? Ele no quisera, at agora, dar ordem de atirar, mas seria obrigado a faz-lo se teimassem naquela atitude. E para que servia, afinal, tudo isso? Depois do que se passara, ele, como j dissera, no podia, s por sua vontade, libertar os presos. Contudo, ia interessar-se por eles, junto dos seus superiores, para que nenhum mal lhes acontecesse. Mas que ningum visse naquilo um sinal de fraqueza e sim apenas o seu desejo de evitar derramamento de sangue.
Desarmado, em frente dos polcias, cujas carabinas fizera baixar, no eiradozito que havia junto da esquadra e que dominava toda a praa, o tenente deu conta do efeito das suas palavras e, depois, abalou para dentro do edifcio.
Muitas das mulheres comoveram-se. Entretanto, haviam chegado mais soldados, mais metralhadoras. Viam-se, agora, armas em todos os lados da praa. Alguns operrios ainda barafustavam, mas j a multido se dividia em grupos, que discutiam entre si, e uns e outros comeavam a retirar-se, de passos vagarosos, vencidos. Das janelas que abriam sobre o Pelourinho, as cabeas curiosas, que tinham retardado o seu almoo para assistir quela cena, principiaram tambm a desaparecer. Pouco depois, a praa volvia ao seu aspecto normal, enquanto nas ruas as mes e as mulheres dos presos iam chorando a caminho de suas casas.
A greve prosseguiu. Todos os dias se viam, no Pelourinho e no jardim, grupos de operrios que,
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antes, s se reuniam ali, quelas horas, em dias dominicais. Ora falavam entre eles, ora se calavam longamente, de olhos parados, como se assistissem  passagem do tempo invisvel, que vinha do fundo dos tempos e ia para os horizontes onde se abrem as auroras. Ao cabo de uma semana, a populao da Covilh j se habituara a ver aqueles grupos nos extremos dos passeios ou enconstados s paredes, vestidos de escuro e  espera.
Na Aldeia do Carvalho, os homens esperavam tambm, mas ossinais exteriores de greve eram menos perceptveis do que ali. Os operrios metiam-se em casa, conserta isto, conserta aquilo, reparaes que nunca tinham encontrado tempo e disposio de nimo para fazer, ou dobravam-se, de enxada nas mos, sobre as courelas arrendadas. Apenas as mulheres, que, com um embrulho debaixo do brao, iam  cidade mais frequentemente do que antes, lembravam a existncia da greve.
Como sucedera a Ricardo, a Alcafoses e a Gristino, tambm Marreta e os outros prisioneiros haviam sido conduzidos para Lisboa. Ao saber isto, logo no segundo dia do movimento, Joo Ribeiro dissera a Horcio:
- Uma vez que a Jlia no te quer em sua casa, e como eu tenho a chave da casa do Marreta, tu podes ir dormir para l.
Horcio mudara-se nessa mesma tarde. Mas os operrios haviam deixado de se reunir ali. Reuniam-se agora, todas as noites, em casa do Tramagal. Escutavam os que tinham ido  cidade e demoravam-se a discutir as notcias que eles traziam1. Na Covilh constitura-se um novo "comit". Mais uma vez, porm, os industriais haviam declarado ser-lhes in> possvel atender as reivindicaes. Que tivessem pacincia, mas eles no podiam elevar os salrios, porque o governo continuava a no lhes permitir elevar o preo dos tecidos. O governo entendia que, se se cedesse, cair-se-ia num crculo vicioso, pois o
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aumento de salrios provocaria, fatalmente, um aumento do custo de vida, prejudicial para todos. Assim, a nica promessa que podiam fazer era no despedir quem houvesse tomado parte na greve e isto se no se desse qualquer novo incidente.
A casa de Tramagal estava cheia quando se comentou aquilo. Tramagal disse:
- Os industriais perdem ainda mais dinheiro do que ns. E, salvo esses malandros que no aderiram, por toda a parte os camaradas esto firmes. Esperemos.
A mulher de Tramagal olhou-o, ao ouvi-lo falar assim. Ele sentiu esse olhar e tomou uma expresso mais dura.
- Esperemos! - repetiu, como se respondesse  mulher.
Quase todos pensavam da mesma maneira. E outras noites e outros dias se esgotaram sempre naquela expectativa.
Na Covilh, os homens continuavam a formar grupos na Praa do Pelourinho e no jardihi pblico. E as mulheres cantarolavam mais do que outrora nas suas casinhotas. Mas era um cntico nervoso, to nervoso e to distrado que no as fazia esquecer aquilo em 'que elas no queriam pensar. Nos caminhos enlameados encontravam-se, agora, mais pegadas femininas do que masculinas e os proprietrios dos cafs populares verificavam, preocupados, que o seu negcio minguava de dia para dia.
O segundo "comit" fora preso tambm e nas ruas da Covilh viam-se passar, a toda a hora, patrulhas da Guarda Republicana. Alguns industriais tinham partido para Lisboa e Coimbra, aproveitando aquele forado descanso. E os que ficaram no davam mostras de querer novas negociaes. Ao fim da tarde, as andorinhas pousavam nos fios telegrficos e quedavam-se a ver de alto a cidade. Outras, com a sua cabecita redonda, entretinham-se a coar o colo, l em cima e com o cu por cima delas.
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Uma noite, Malheiros trouxe a notcia de que  Covilh cada vez chegavam mais polcias vindos de Lisboa. Os homens que se reuniam em casa de Tramagal ouviram aquilo e no estranharam, pois recordavam-se de que tinha sido quase sempre assim. Mas logo as suas caras se abriram num sorriso de vingana ao saberem, por Belchior, que na cidade se formara um terceiro "comit". Dizia-se, tambm, que os operrios de Gouveia, de Unhais da Serra, de Arrentela e at das longnquas margens do Vizela iam dar a sua solidariedade aos dali. Fiassem l ou algodo, todas as fbricas txteis do pas paralisariam em breve.
Horcio ouviu Tramagal exclamar:
- Veremos se, assim, os industriais continuam a cantar de alto! O que nos faltava era justamente a solidariedade de todos os camaradas. Se a tivssemos tido logo de princpio, isto j teria acabado!
Nessa noite os homens saram com novo alento. E, de manh, as mulheres levaram de suas casas, suspirando menos do que das outras vezes, as ltimas utilidades domsticas.
Desde ento, todos os dias homens e mulheres se levantavam com aquela esperana. Mas o tempo passava e a notcia to desejada no chegava nunca. Soubera-se somente que a polcia andava azafamada em Gouveia, em Unhais da Serra e noutras terras. Perante isso, Malheiros comeara a duvidar, contra a opinio de Tramagal, que teimava:
- A polcia no pode prend-los a todos, nem as fbricas vo ficar paradas toda a vida! Eles devem ir para a greve, por que no? Eles tm toda a vantagem em fazer greve ao mesmo tempo que ns.
Joo Ribeiro chegou nesse momento. Vinha da Covilh e informou que a polcia havia proibido as casas de penhores de emprestarem mais dinheiro sobre os objectos pertencentes aos grevistas.
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O candeeiro dava uma luz difusa. Mal iluminadas e assim imveis, as caras pareciam, mais do que nunca, talhadas em granito. A cabea de Belchior dir-se-ia um busto de pedra, corrodo pelo sol e pela chuva, nos beios do qual um garoto colocara uma ponta de cigarro apagada. Subitamente, uma voz rompeu o silncio:
- Querem render-nos pela fome! Querem matar-nos  fome! A ns e aos nossos filhos...
Durante alguns segundos ningum disse mais nada. Depois, todos comearam a bradar, ao mesmo tempo, palavras de clera. Duas dezenas de homens estavam ali e os seus olhos fulguravam e as suas bocas contraam-se duramente.
- Sim, a ns e aos nossos filhos e ns no fazemos nada! Ns no nos defendemos!
A mulher de Tramagal estava sentada a um canto e Horcio viu que os seus olhos se humedeceram.
Os homens saram dali excitados. C fora, eles olharam a noite espessa, olharam, com dio, o caminho da Covilh e pensaram no que fariam no dia seguinte.
No dia seguinte, porm, averiguaram que a polcia no interviera naquilo. Se alguns penhoristas se haviam recusado a emprestar mais dinheiro, era porque os derradeiros trapos que as mulheres dos operrios lhes levavam no tinham, para eles, valor.
Essa verificao no s apaziguara os mais exaltados, como deixara, no esprito de muitos, um sbito vcuo, ao secar aquele dio suplementar que l havia brotado.
Entretanto, a greve mantinha-se. A esperada solidariedade de outras terras no se efectivara, mas os operrios da Covilh continuavam a formar grupos, como at ali, no Pelourinho e no jardim pblico.
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Nos seus casebres, as mulheres haviam-se tornado to azedas como os homens, mais ainda, pois enquanto eles, sombriamente concentrados, cada dia falavam menos, elas cada vez falavam e protestavam mais. Empenhado tudo quanto dava algum dinheiro, esta, aquela e aqueloutra cobriam quilmetros sobre quilmetros para ir a Cortes do Meio, a Teixoso, a outras distantes aldeias, pedir, a um parente pobre como elas, um pouco de po que as ajudasse a manter os filhos e o marido. Mas, nos dias imediatos, a carncia surgia de novo, porque abundantes eram apenas as necessidades e aquelas chuvas primaveris, que de quando em quando caam, dificultando os movimentos e enchendo os casebres, as ruas e as prprias almas de maior enervamento. A princpio, se as crianas se tornavam pedinchonas e irritantes, as mes castigavam-nas colericamente e disparavam-lhes pragas, como era de seu costume. Mas, com o decorrer dos dias, foram deixando de bater nos filhos. s vezes, perante as impertinncias destes, ainda elas, malhumoradas, levantavam os braos; logo, porm, aquele sbito pensamento as detinha - e as mos que se haviam erguido, num gesto de ira, desciam, vencidas.
Uma tarde, a mulher de Tramagal prevenira-o:
- Amanh no temos nada para comer. As crianas vo rebentar de fome...
- Pois que rebentem! - respondeu ele, com um tom furioso.
 noite, Tramagal parecia ainda mais inflexvel do que fora at ali:
- So uns ces! So uns ces! - vociferou, quando soube que alguns operrios da Covilh haviam retomado o trabalho. - Parece que s eles tm preciso! E os outros? Os outros? Pena tenho eu de haver vendido a minha espingarda! Porque o que eles precisavam...
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Nenhum dos presentes acreditava que Tramagal fosse capaz de fazer o que ele prprio sugeria. Ningum acreditava, mas as suas palavras pareciam dar maior gravidade ao acto dos outros. Os homens sorriram primeiro e, depois, quedaram-se num longo silncio. Entretanto, os olhos de Tramagal, muito incendiados, iam examinando cara por cara e, finalmente, detinham-se detinham-se e demoravam-se sobre Malheiros e sobre Horcio. Este suportou-os um momento e acabou por baixar a vista, mal disposto, pois desde h dias parecia-lhe que Tramagal julgava que ele era pela capitulao.
- Uns miserveis! Uns tipos sem nenhuma vergonha e que desconhecem mesmo os seus interesses!- tornou Tramagal.--  por causa deles que os industriais levam sempre a melhor.
- No vale a pena fervermos em pouca gua, pois so raros os que tm pegado no trabalho - interveio Belchior. - A grande maioria aguenta-se.  ver que das fbricas que fecharam logo no primeiro dia, ainda nenhuma reabriu. Os que tm voltado so dos que trabalhavam em fbricas onde houve sempre "amarelos".
Tramagal pareceu ficar mais calmo. Afirmou mesmo que no voltaria  Covilh enquanto aquilo durasse, para no perder a cabea.
Na noite seguinte, porm, ele enervou-se novamente, ao saber que mais alguns operrios haviam renunciado a continuar em greve.
-  porta das fbricas h, agora, muitos mais guardas-republicanos do que antes, para garantirem a liberdade do trabalho...-informou Malheiros.-'E parece que o "comit" vai dar a greve por finda...
-  o "comit" que vai dar a greve por finda ou s tu que desejas? - berrou Tramagal.
Criara-se, subitamente, grande discusso. E Malheiros sara amuado.
De manh, ao contrrio do que afirmara, Tramagal dirigiu-se  Covilh.
No jardim continuavam os grupos de operrios. Mas j no apresentavam o mesmo aspecto dos primeiros dias. Embora o tempo no houvesse aquecido, quase todos eles estavam sem sobretudo e, se algum o envergava ainda, era o abrigo to velho, to roto e esfiapado que, mais do que de homem vlido, dir-se-ia de coxo pedinte de estrada.
Tramagal comeou a andar de grupo -para grupo. De todos ouvia a mesma coisa. Ningum afirmava, mas todos diziam que "parecia que o "comit" ia dar ordem para se voltar ao trabalho".
- E vocs?
A pergunta criara repentinosembaraos. Alguns barafustaram, pondo-se ao lado de Tramagal; outros mantiveram-se em silncio, sob esse cansao que se via nos seus olhos, no seu todo, como se eles houvessem passado as ltimas semanas no em cio, mas num permanente labor. Todos pareciam de acordo com Tramagal, mesmo os que no falavam; todos, porm, sentiam que aquilo era j inevitvel.
Tramagal dirigiu-se ao Pelourinho. Tambm l havia, como nos dias anteriores, numerosos ajuntamentos de grevistas. Mal ele comeou a protestar, Silvano, que era tido como um tecelo inteligente, muito gabado por Marreta, e que pertencia ao novo "comit", puxou-o para um lado e disse-lhe:
- Ns vamos sem querer,  claro. Mas o pior para eles  que, justamente, ns vamos sem querer ir,  que ns vamos contra a nossa vontade... Compreendes ?
Tramagal no compreendia. Ouviu aquilo, ouviu mais explicaes, mas no se convenceu. E, ao fim da tarde, tendo-se reunido a outros discordantes, levantava os seus irados punhos e agredia, sobre a rampa da Carpinteira, alguns dos operrios que haviam retomado o trabalho.
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Era quase noite quando um grupo de guardas-republicanos atravessou o Pelourinho, levando-o a ele e aos seus companheiros para a esquadra.
Foi numa segunda-feira. Os homens comearam a descer da Covilh, uns ao lado dos outros, uns atrs dos outros, em negras filas. Ningum dizia nada. A manh estava spera e eles marchavam de cabea baixa, contra o vento cortante.
Pela estrada da Aldeia do Carvalho chegavam outros operrios - homens e mulheres, elas embrulhadas em esfarrapados xales, eles de golas levantadas. Tambm vinham em silncio e,  medida que se aproximavam, iam caminhando mais lentamente, esnioendo a sua humilhao de vencidos. Todas as fbricas estavam abertas, como nos dias normais, antes da greve. A nica diferena  que nos portes e sobre a prpria estrada se viam numerosas foras da Guarda-Republicana, umas a cavalo e outras a p. Os guardas falavam entre eles e fingiam que no davam conta do que em seu redor se passava.
As sereias soltaram, o primeiro apito e os operrios foram-se acercando mais. Depois, os vultos escuros dos homens e das mulheres comearam a transpor os portes, sempre calados.
Em breve, as sereias davam o ltimo sinal e logo chegava c fora o rumor das mquinas, que haviam recomeado a trabalhar.
Alguns guardas-republicanos, que eram tambm pobres e tambm tinham dificuldades em suas casas, olharain-se entre si, sorriram de satisfao e acenderam os seus cigarros.
TERCEIRA PARTE
TERCEIRA PARTE
A CASA
ENJORCADOS nas fatiotas domingueiras, barba feita, este e aquele de flor na lapela, convidados e padrinhos iam chegando, enquanto a senhora Gertrudes, auxiliada pla tia Madalena e por Arminda, andava em trafega incessante, da sua cozinha para o forno do Belisrio e do forno para a cozinha, em preparao de cabritos e coelhos. As onze horas, todos os homens presentes, levando no meio deles a madrinha, o tio Joaquim e Horcio, largaram Eir abaixo, a buscar a noiva em sua casa.
Ao alcanarem a porta, de dentro rompeu segundo grupo: vinha Idalina e os seus padrinhos, o tio Vicente, mais homens e mais mulheres. De xale e leno negros, saia e blusa, faces coradas, Idalina sentia sbita vergonha ao olhar para Horcio em frente dos outros. Mas j os dois bandos formavam um s e, trilhando a ruela, avanavam para a igreja. L, aos ps do abade, eles ouviram o que entendiam e o que no entendiam, responderam "sim" quando foi preciso - e encontraram-se casados. O encarregado do registo civil estava tambm presente e foi o primeiro a desejar-lhes felicidades.
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C fora, farejando ddiva de moedas, aglomeravam-se garotos e umas velhas que lanaram punhados de flores. Idalina ia, agora, ao lado de Horcio e sempre que avistava, a um lado e outro do caminho, algum a olhar, sorridente, para ela, voltava a sentir-se envergonhada, como se a vissem no ali e sim noutro lugar, nua em vez de vestida dos ps at a cabea.
Ao entrarem no Eir, algumas raparigas da vizinhanadebruaram-se nas suas janelas e atiraram, tambm, flores. Todas, porm, contemplavam sem alvoroo o cortejo, porque os convidados eram poucos, os noivos pobres como elas prprias e demasiado acanhada, para se poder danar, a casa onde a boda se efectuava.
A senhora Gertrudes j havia conseguido assar cabritos quando o filho, a nora e seu acompanhamento chegaram. Os homens agruparam-se a um lado, as mulheres a outro, parolando enquanto Arminda colocava os ltimos pratos sobre a grande mesa feita de vrias mesas emprestadas.
L fora havia um fulgurante sol de Junho, mas vaga era a luz que entrava em casa. De janelico aiberto, para maior claridade, homens e mulheres sentaram-se a comer. Quando falavam pouco ou se calavam, ouviam-se as lamrias dos mendigos que, sabendo do festim, iam chegando e se reuniam, l em baixo, na rua. Eram tantos e to persistentes nas solicitaes e nos lamentos que a senhora Januria, para os ouvir menos, pedira licena  senhora Gertrudes e fechara a janela. Entretanto, com o vinho, os homens iam graolando cada vez mais, menos os padrinhos, que entendiam ser de sua obrigao mostrarem-se austeros enquanto estivessem junto dos noivos.
A meio da tarde, j as mulheres se haviam retirado, para volver  hora da ceia, os homens separaram as mesas e comearam a jogar as cartas, bebendo sempre. Foi ento que Arminda teve a ideia
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de levar Horcio e Idalina para sua casa e l, onde havia maior espao do que ali, cantarem e danarem. Como os convidados eram quase todos velhos, sem fervores para bailaricos, ela bateu as redondezas em busca de rapazes e raparigas. Poucos arrebanhou, porque a maioria labutava ainda, quela hora de sbado, nas fbricas ou nos campos; os raros que vieram danaricaram at as oito da noite, em volta do Francisco Silveira, que tocava a sua harmnica. Depois tornaram ao lugar da boda e, de novo, comeram e beberam.
J passava da meia-noite quando a senhora Jnuria disse  filha:
- So horas de irmos, pois amanh tens de te levantar cedo...
E, em seguida, ela e o tio Vicente partiram, levando Idalina. Arminda trocou um olhar atrevido com Horcio e os ltimos convidados largaram novas chocarrices, "por em noites daquelas ser caso de arreliar ir a noiva com os pais, em vez de ficar na cama com quem de direito".
Finalmente, a senhora Gertrudes viu, na sua casa, apenas o marido e o filho, como antes de este casar. Moda muito embora pela faina que tivera, ela no resistiu e ps-se a manusear o dinheiro que padrinhos e convidados haviam oferecido, como os bons usos mandavam. Contou, ao todo, duzentos e oitenta escudos e concluiu, pesarosamente, que aquilo nada era em relao s despesas feitas, ali, em Manteigas, com a boda e o senhor vigrio, e na Covilh com a casa para onde o filho ia morar. E, ento, pensou que escolhera mal os padrinhos, pois se houvesse falado aos Fonsecas, como queria o tio Joaquim, estes, decerto, dariam muito mais. Com tal ideia ela se deitou e no pde dormir. Ouviu cantar os primeiros galos e quando ia, enfim, pegar no sono, o despertador tocou. Sentiu Horcio mexer-se na cama, no quarto ao lado, e, depois, levantar-se. A senhora Gertrudes ergueu-se tambm, para lhe
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aquecer uns restos de cabrito e uma pinga de caf de caf que comprara de propsito para essa manh.
As sete e meia, as duas famlias estavam junto da camioneta que ia partir para Belmonte. O condutor ps no tejadilho o ba de Idalina e dois sacos de batatas, oferecidos, na vspera, pelos convidados que no haviam dado dinheiro. O sol branqueava j os cumes da serra que envolvia, como uma muralha, a vila de Manteigas; e na Igreja de Santa Maria os sinos tocavam para a missa de domingo.
Horcio e Idalina despediram-se dos pais e subiram. A camioneta arrancou, deixando a senhora Gertrudes encostada ao tio Joaquim e com duas lgrimas nos olhos. Velha que era, sabia que levando Horcio a Idalina, ela no tornaria a ver to cedo o filho. Que s por ela, que o criara, ele no voltaria tantas vezes como at a.
Entretanto, na camioneta, muito chegado a Idalina e com o brao sobre os ombros dela, Horcio sentia-se feliz. O veculo ia avanando e ele semicerrava os olhos, sempre com aquela gula que o queimava, sempre com aquela nsia de que o dia se esgotasse depressa e viesse a noite, para ser mais feliz ainda.
Duas horas corridas na estrada e chegaram  estao de Belmonte. A camioneta de Manteigas s vinha ali uma vez por dia, quela hora, buscar o correio que o comboio de Lisboa trazia. E o comboio descendente, que os deixaria na Covilh, s s cinco da tarde passaria ali.
- E! o raio esta falta de transportes! - lamentou Horcio. - Termos de sair to cedo de casa, para, afinal, perder o tempo aqui! J por causa disto, eu e o Serafim Caador nos vimos gregos, aquela noite, na serra!
Com tantas horas livres, Horcio decidiu arrecadar ba e sacos na estao e ir vaguear com Idalina no picaroto de Belmonte. Como a vila e seu velho
roqueiro quedavam distantes do caminho de ferro, os dois dirigiram-se vagarosamente para l, ele com um dos braos na cintura dela e os olhos parecendo boiar em seiva. Nas ladeiras do povoado, se enxergavam vulto humano  sua frente, cortavam logo em oposta direco, porque, nesse dia, s a eles prprios desejavam ver. E, assim, atingiram e se puseram a deambular pelos solitrios meandros do castelo, mais atentos s sombras e recantos das antigas muralhas onde pudessem apertar-se e beijar-se, do que aos panoramas que de l se descortinavam em larguezas de pasmar.
Almoaram numa taberna de Belmonte e, a meio da tarde, havendo entestado a sua vaga curiosidade at  remota Torre de Centum-Cellas, ali, no meio dos campos, ele ino se contivera mais e consumara, em poucos minutos, a sua ambio de tantos anos, de tantas noites de insnia e de imaginao.
s cinco horas estavam, de novo, com o ba e os sacos junto do caminho de ferro e, uma hora depois, o comboio deixava-os, finalmente, na estao da Covilh.
Com um carregador, Horcio discutiu o preo do transporte dos sacos de batatas para casa, pois o ba lev-lo-ia ele prprio. Idalina interveio, afirmando que, em vista daquilo ser to caro, ela levaria o ba e ele um dos sacos. O outro ficaria guardado na estao e, depois, viriam busc-lo. Horcio considerou que isso seria o melhor, j que o carregador lhe pedia mais do que ele ganhava em meio dia de trabalho na fbrica. No quis, porm, que Idalina andasse com carregos logo naquele dia, que era o verdadeiro dia do seu casamento, pois na vspera cada um tinha ido para casa dos pais.
-  longe... - disse. - So quase dois quilmetros e sempre a trepar...
- No faz mal! - declarou ela, resoluta. - Eu levo o ba
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Pouco depois, os dois subiam as ngremes rampas que do acesso  Covilh, ele vergado sob o saco de batatas, em cima do qual pusera, dobrada, a jaqueta nova; ela de ba  cabea, onde levava as suas roupitas de noivado e umas louas que lhe oferecera a madrinha.
Quando entraram na Rua Azedo Gneco, negra e tortuosa como as demais da vizinhana que eles haviam atravessado, iam ambos ofegantes, estafados. Idalina deteve-se e colocou o ba no cho: "Ufa!" Horcio pousou tambm o saco e ps-se a limpar o suor da testa.
-  um bom bocado, no te dizia eu? Mas, agora, a casa est perto. Fica logo a adiante.
Um velho corcovado vinha avanando na rua. Horcio reconheceu nele o Manuel da Boua, mas fingiu no o ver. O velho, porm, ao acercar-se deles exclamou:
- Ol, rapaz! J no h quem te ponha a vista em cima! - examinou Idalina e, depois, perguntou a Horcio, em voz baixa: -J casaste?  esta a rapariga de que falavas?
Aquela presena mal dispunha Horcio. Ele conhecera Manuel da Boua h pouco tempo ainda. Conhecera-o pouco depois de as autoridades de Lisboa terem, afinal, decidido soltar todos os operrios que haviam sido presos durante a greve, menos Ricardo e Alcafoses. Marreta regressara ao seu casebre e Horcio passara a viver na Covilh, para ir preparando a casa que alugara para si e para Idalina. Manuel da Boua morava no sto do mesmo pardieiro onde Horcio tinha um quarto com vrios rapazes de Cortes do Meio, que trabalhavam tambm nas fbricas e dormiam todos juntos, para pagar menor aluguer. Era encarregado da limpeza de um armazm e, s vezes, Horcio apiedava-se do seu destino, vendo-o assim velho e acabado, sem parente algum na Covilh e mal ganhando para comer. Mas no lhe aprazia falar com ele, porque, ao ouvi-lo, ficava
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descorooado, pois Manuel da Boua no acreditava no futuro e falava sempre mal dos homens e da vida. Contava que tivera uma casa e tivera terras e perdera tudo porque quisera viver melhor do que vivia. E que haviam sido outros homens que lhe tiraram quanto era dele. Que atravessara os mares, rolara por terras distantes, trabucara como um negro e nunca amealhara nada, porque em toda a parte existiam homens que tinham mais poder do que outros e ficavam com tudo quanto podiam. Depois, andara aos trambolhes em Portugal, de uma banda para outra, a ver se ainda levantava cabea. Mas nunca o conseguira. Cada um s tratava de si e no se importava com os demais. At a sua filha e o seu genro o haviam desprezado, quando souberam que ele no trouxera vintm l das terras por onde andara. Aquilo no tinha remdio algum e havia de ser sempre assim. Os homens eram como eram e no havia jeito a dar-lhes. Quem tinha sorte, tinha; quem no a tinha, que rebentasse ! Ali mesmo, na Covilh, onde viera parar com os ossos, se no o punham no olho da rua  porque ningum faria mais 'barato o trabalho que ele fazia no armazm. E ainda porque, sendo o dono podre de rico, no queria, certamente, que o criticassem por haver despedido um pobre diabo que no tinha onde cair morto e s ganhava cento e cinquenta mil ris por ms.
- Tambm eu fui como tu - afirmava, frequentemente, a Horcio, com desagrado deste.-Tambm eu pensei, como tu, fazer alguma coisa na vida e, como vs, acabei para aqui, neste estado. E olha que trabalhei a valer!
Manuel da Boua repetia tanto as suas descrenas e amarguras, que Marreta, quando, um domingo, viera ali e o conhecera, dissera, depois de o ouvir falar:
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-  um vencido, porque perdeu todas as esperanas. S os que no tm nenhuma esperana so vencidos como ele.
Agora, Manuel da Boua, esfarrapado e de barba crescida, voltava-se para Idalina, fazendo um gesto largo, a indicar a cidade:
- Ento a menina gosta disto ? Idalina sorriu:
- Sei l! Cheguei agora mesmo...
- Ah, ento nunca tinha c vindo? Olhe, se precisar que lhe faa algum trabalhinho l em casa, algum recado, estou s suas ordens. O Horcio sabe onde moro.
Porque continuava a molest-lo a presena de Manuel da Boua, Horcio pegou no saco e fez o movimento de partir. Mas o outro, ao ver Idalina vergar-se tambm, para erguer o ba, interveio:
- Deixe l, menina, que eu levo-lhe isso. Idalina olhou para ele e, ante o seu corpo decrpito, recusou:
- No  preciso, muito obrigado. Isto  pesado; tem louas dentro...
- Ora! Ora! Posso com ele, vai ver! D-mo c. Com essevestido novo, at no fica bem . menina levar um ba  cabea...
Horcio pensou: "O que ele quer eu bem o sei. O que ele quer  ver se lhe dou alguma coisa." Mas Horcio sentia desejos de ser gentil com a mulher naquele dia de npcias e disse-lhe:
- D-lho. J que o quer levar, que o leve. - E ele prprio auxiliou Manuel da Boua a pr o ba s costas.
Com o velho  frente, de passos lentos e hesitantes sob aquele peso que lhe dobrava ainda mais o tronco j dobrado pela idade, os trs comearam a trilhar a ruela.
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A casa que Horcio alugara ficava quase em frente do quarto onde ele se tinha acomodado desde que sara da Aldeia do Carvalho.
-  aqui...
Manuel da Boua j havia pousado o ba e, enquanto Horcio metia a chave, Idalina olhava a portita humilde do rs-do-cho, olhava a parede suja e escalavrada, fendida no primeiro piso, toda a cair de velhice. Ela mirou, depois, em derredor, em busca de melhores habitaes. Mas toda a rua proletria, sufocada em sua estreitura, era assim negra, assim velha, assim pobre, pingando tristeza e imundcie. Enfezadas e rotas crianas, de cara mascarrada, brincavam no lajedo, entre ces e gatos; e, sentadas s portas trreas, esqulidas mulheres esbicavam cortes de fazenda e velhas desmelenadas pareciam beber com os olhos j amortecidos a ltima luz do dia, enquanto outras seguiam, curiosas, os movimentos do casal recm-chegado.
Manuel da Boua ajudou Horcio a meter em casa o saco e o ba e despediu-se:
- Desejo-te boa sorte, meu rapaz!
Horcio deu-lhe uma moeda e, depois, ps-se a riscar fsforos, porque, embora o Sol luzisse ainda no cu, no interior do casebre havia uma obscuridade que mal deixava divisar as coisas.
Logo que acendeu o candeeiro, Horcio fechou a porta e correu a abraar e a beijar a mulher. Teve-a, assim, alguns momentos, contra o peito, e, quando a largou, ela viu-se entre uma quadrazita de paredes to velhas e enegrecidas como as exteriores. Ao fundo, estava a cama de ferro e a mesa de cabeceira; ao centro, uma mesita e duas cadeiras, tudo isso j muito usado. A esquerda, havia uma arca de pinho e,  direita, o fogo, que semelhava tambm uma mesa, com cobertura de tijolo e, neste, dois buracos para o brasedo. S a cantareira era nova, branquejando ainda as suas tbuas sem pintura. Nela Horcio tinha metido as tigelas,
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pratos, garfos, facas e colheres que julgara indispensveis para eles dois. Em baixo encontravam-se uma panela, um tacho, um alguidar e nada mais.
Idalina olhava, lentamente, a quadra. E Horcio seguia, atento, esse exame, ansioso de obter aprovao, porque fora ele quem, nos ltimos meses, andara, de uma banda para a outra da cidade, em busca de mveis em segunda mo, dos mais baratos que pudesse haver.
- Que tal? - perguntou.
- Est bem... - respondeu Idalina. E acrescentou, com ternura:-Tens pena de no ter a casita nova, de que falavas, no  verdade?
- Claro! E no tenho razo? Ora dize l: No era bem melhor virmos logo para uma casinha nova como eu queria e que depois fosse boa para os nossos filhos?
- L isso era, no h dvida. Mas deixa l... A gente h-de viver. E o principal  a gente dar-se bem...
Ela falava assim, meigamente, mas tambm ela se havia acostumado  ideia dele e sentia, agora, uma sbita melancolia. "Aquilo ali era ainda pior do que o Eir, de onde ela vinha" - pensou.
- Tambm  verdade que isto  provisrio - volveu Horcio. -  s at estarem prontas as casas que a Cmara mandou fazer... Depois mudamo-nos para l.  o que vale! Porque l passar a vida metido aqui, isso no quero eu, isso no!
Horcio avanou -para a mesa-de-cabeceira, que ele s adquirira porque o dono da cama no quisera vender-lhe esta sem aquela. E, pondo a mo em cima do traste, disse:
- Resolvi comprar isto... Que achas?
Ele sentia, nesse momento, vaidade pela aquisio, j que, fosse em Manteigas, fosse na Aldeia do Carvalho ou ali, os pobres no usavam aquele mvel e metiam o vaso de noite sob a cama.
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Idalina repetiu:
- Est bem...
Por sbita ligao de ideias, ela voltava-se, agora, para um lado e outro, como se procurasse algo que faltava. A casa, diviso nica, tinha apenas uma porta e um janelo de dois palmos que abria sobre a rua. Mas o olhar de Idalina insistia, como se no tivesse visto tudo da primeira vez, como se teimasse em descobrir, nas paredes, uma porta falsa, uma porta oculta, que facultasse passagem para outro lado.
Horcio julgou adivinhar o que ela procurava e hesitou em explicar-lhe, em referir-se quilo, nesse primeiro dia da sua vida em comum. Muitas vezes, ao falar com ela sobre a casa que ele desejava, lhe dissera que queria uma casa com latrina pegada. Mas, agora, sentia um repentino pudor. Continuou hesitante, at se convencer de que no podia deixar de falar daquilo. E foi titubeando, enchendo de reticncias as primeiras palavras, que disse:
- Bem... Necessria no ... l isso no... Aqui, nas casas dos operrios,  quase tudo assim... A gente arranja-se como pode e, depois, vai despejar numa pia que est a, na porta do lado... Logo vs: tem uma tampa de pau...  ao p da escada que d para o primeiro andar, por mor de servir a todas as pessoas do prdio...
Tendo Idalina posto, pudicamente, os olhos no cho, como se ouvisse e no ouvisse, ele procurou desculpar-se:
- Eu bem quis alugar uma casa que no fosse assim, l isso quis, mas para as nossas posses, no encontrei. E ainda as desta rua so das melhores. Porque h umas, a para baixo, onde s existe uma pia para todo o quarteiro. Como as pias tinham de ser ligadas aos esgotos e isso era por conta dos senhorios, eles, para gastar pouco dinheiro, s mandaram fazer uma. As mulheres vm de longe, de uns ptios que h l para os fundos, fazer os seus
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despejos ali e, por onde passam, deixam tudo empestado. L havia uma casa para alugar, que era maior do que esta e pelo mesmo preo, mas eu, ests a ver!, no a quis. Aqui, pelo menos, a pia est na porta dos vizinhos e s incomoda, a bem dizer, aos que vivem c por cima de ns...
Gomo ele fizesse uma pausa, Idalina disse, com voz resignada:
- Vou arranjar as coisas que trouxe... Horcio olhou-a, inquieto:
- Parece que no gostaste nada da casa... Tu no ests triste, no  verdade ?
-No... Que ideia a tua! - protestou ela, mas, contra sua vontade, a voz continuava melanclica. E ia a dobrar-se, para abrir o ba, quando ele a tomou pela cintura e a beijou de novo.
- Deixa agora isso! Vamos, primeiro, comer e, quando voltarmos, arranjas as coisas.
- Ento no comemos aqui?
-Hoje, no, pois no comprei nada para cozinhar. Vamos embora! Quero tambm mostrar-te onde a Cmara est a fazer casas para operrios. Vers que stio bonito !
Rua em fora, Idalina ia vendo, dentro de cada porta de escada, mesmo junto do limiar, aquelas redondas tampas de madeira de que o marido falara. E parecia-lhe que teria vergonha, muita vergonha de vir ali. Os dois dobraram para outra viela e era sempre a mesma coisa. E sempre crianas farroupilhas, mulheres mondongas, velhas desgrenhadas, ces e gatos vadios.
- Pensei que a Covilh fosse outra coisa... - murmurou, agarrando-se ao brao de Horcio.
- A Covilh no  s isto, minha tola! Tambm tem coisas bonitas, vais ver. Isto  c dos pobres. Mas l para cima h casas que pem de cara  banda todas as de Manteigas. Depois vers. H algumas que so mesmo to boas como as que vi em Lisboa e no Estoril.
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Vero andante, com duas horas adiantadas  dor mal, havia ainda poalha de sol para as bandas do Ferro e de Belmonte, quando eles entraram na Praa da Repblica no Jardim. As altas tlias estavam carregadinhas de flores e o seu aroma enchia o vasto terrao ajardinado que a cidade lanava, ali, sobre o vale. Gente tarda, homens e mulheres, rapazes e raparigas, sentados nos bancos ou transitando nas leas, fruam o encanto vesperal, antes de ir jantar.
Horcio atravessou, com Idalina, por entre eles e foi debruar-se nas grades que deitavam para o lado da Carpinteira.
- Olha,  acol! -disse. E apontava os Penedos Altos, numa suave declividade da outra margem da ribeira. -  acol que esto a construir as casas para os pobres. Vs?  um stio bonito, no  verdade?
Idalina mirava as dezenas de paredes, ainda sem cobertura, que se erguiam ao longe, em frente dela, e confirmava:
- muito bonito.
- Pois  l que ficar a nossa... Vo construir por ali acima, para os operrios da Covilh.
Idalina repetiu:
-  um lugar bonito... Quando ficaro prontas?
- No sei, mas no deve demorar muito. Aquelas que ests vendo, s faltam as obras de carpinteiro, o reboco e os telhados. Deve ser questo de poucos meses...
Horcio indicava, agora, um outro ponto,  sua esquerda:
- Olha, ali  a fbrica onde eu trabalho... Aquela grande, toda envidraada... Ests vendo? As fbricas daqui so muito melhores do que as de Manteigas...
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- aquela que est assim um pouco de travs?
- No. Essa  a do Alada.  a outra, a que tem uma bandeira.
- Ah, j sei.
Idalina demorou-se a contemplar o conjunto de construes fabris, que se exibia l em baixo, junto da ribeira:
Horcio tornou:
-.  para l que tu irs tambm. Quando pedi ao Mateus, que  o meu mestre, para me dispensar sexta-feira e ontem, aproveitei a ocasio e pedi tambm ao Felcio, que  mestre da ultimao, um lugar para ti... Para tu aprenderes a meter fios ou a esbicar, conforme o que houver mais falta... E o Felcio ficou de arranjar isso, logo que possa. - Horcio sorriu, com esperteza: - Pelo sim, pelo no, pedi tambm ao Marreta para falar a mestres de outras fbricas... Assim, quando fores operria, ganharemos por dois lados...
J vrias vezes ele se havia referido aquele projecto e ela, agora, escutava-o sem o interromper. Os seus olhos passaram do grupo de fbricas para as casas do Sineiro e do Sineirinho, postas mais acima, nas fraguentas curvas da Carpinteira.
Horcio insistiu:
- E quando eu chegar a tecelo - porque hei-de chegar a tecelo, custe l o que custar! - ganharemos ainda mais.
Tambm aquilo Idalina lhe tinha ouvido de outras vezes, embora com outras palavras. Sorriu-lhe, com carinhoso assentimento, e os seus olhos voltaram as fbricas, ali em frente, e das fbricas ao vale,  grande Cova da Beira, que se estendia l em baixo.
- Gosto mais de Manteigas...-disse Idalina, como se falasse consigo prpria.
-  que ainda no ests acostumada aqui. Isto tambm no  feio. Repara no castelo de Belmonte, onde estivemos hoje. Agora volta-te. - E indicando-lhe a parte mais alta da cidade:-Olha as casas
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de que te falei h pouco. Vs ? Em Manteigas s h uma que se lhes pode comparar: aquela nova, na Senhora dos Verdes. Estas tm tudo o que  bom. Eu nunca entrei em nenhuma, est claro, mas todos garantem que elas tm, l dentro, muitas coisas compradas em Coimbra e Lisboa, coisas boas que no se vendem por aqui. Aquela, cor-de-rosa, com uma data de sacadas,  a do meu patro. Para mim  a melhor de todas. Ele no tem filhos, mas dizem que gosta de casas grandes. As vezes, vm pessoas de Lisboa visit-lo e ficam ali uns dias, antes de irem para a quinta que ele tem l em baixo, no vale...
Falando, parecia-lhe que, ao valorizar o seu patro, se valorizava a si prprio, perante Idalina.
- E que tal  ele? Horcio vacilou:
- Eu c no sei... S o vi duas vezes... Uns dizem bem, outros mal. Mas que ele est por cima de todos os outros industriais, no h dvida. H dois to fortes como ele, mas toda a gente garante que o meu patro  o mais esperto...
Subitamente, Horcio recordou-se do olhar que Tramagal lhe havia lanado no dia em que Azevedo de Sousa entrara na fbrica com um suo - e calou-se, mal disposto.
- Vamos comer- disse, depois, com outro tom de voz.-Vo sendo horas...
Voltaram  maranha das ruelas proletrias e abancaram numa locanda. Terminado o jantar e ao receber o troco da nota que dera em pagamento, Horcio contou, vagarosamente, fazendo clculos, o seu dinheiro. Dos mil e duzentos escudos que pedira emprestado ao Valadares, para pr a casa, restavam-lhe cinquenta e seis. Com cinquenta e seis escudos, Idalina podia fazer a comida at sexta-feira.
Tranquilizado pelos seus raciocnios, estendeu  mulher a nota do Banco:
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- Pega l... - E como Idalina exitasse em receb-la:-  para fazeres, amanh, as compras, para a semana...
Regressaram a casa, descia j a noite. Ao v-lo acender, de novo, o candeeiro, Idalina perguntou:
- Ento, aqui, no h electricidade?
- O que no falta por a  electricidade! Estas casas  que no a tm...
Tornou a beijar Idalina, uma, duas, muitas vezes. Depois saiu, um instante, cerimonioso naquela primeira noite de casados; e demorou-se mais do que precisava, para que a mulher dispusesse tambm de tempo. Voltou a entrar e beijou-a novamente.
Ao despir-se, Horcio considerou a dificuldade. Na Aldeia do Carvalho, ele acordava com as trs pancadas que Jlia costumava dar no soalho. E na Covilh, no quarto que tivera com os rapazes de Cortes do Meio, havia um despertador, que era do Faneca. Ali, porm, carecia de uma e outra coisa. No que ele no tivesse pensado nisso, ao pr a casa; mas, sempre temendo que o dinheiro viesse a faltar-lhe, no comprara o despertador. Agora, era o diabo, porque ele no podia deixar de estar na fbrica  hora da entrada. Voltou-se para Idalina:
- Tu costumas acordar cedo?
- Conforme...
- Ento no tens a certeza? i 
- A certeza... a certeza, no tenho. L em casa havia um despertador e...
-  disso mesmo que eu preciso aqui! Tenho de estar a p s sete, sem falta, por causa do trabalho... E, se no me acordam, sou capaz de ficar para a ferrado no sono. No foi s por haver dificuldade em encontrar casa na Aldeia do Carvalho que eu vim para a Covilh. Foi tambm para ficar mais perto da fbrica. Assim, posso levantar-me um bocado mais tarde... Eu gosto de dormir e no 
com grande vontade que de manhzinha deixo o quente...
- Podes dormir descansado... - disse Idalina. - Pe o relgio a e dorme  tua vontade. Eu acordo-te. ..
- Tu no te importas de fazer isso? Tambm ela gostaria de dormir tranquila e sabia
que, com aquela obrigao, no dormiria sossegada, mas respondeu prontamente:
- No; no me importo.
Ele estava feliz e ansioso de se deitar, ansioso de apertar nos seus braos o corpo da mulher. Tudo o mais que o preocupara at ali no tinha agora, para ele, importncia nenhuma, nenhuma importncia perante o instinto supremo que o galvanizava.
NA segunda semana de casados, sexta-feira, ele entendeu ser prefervel dar-lhe o dinheiro de uma s vez. Aos poucos, parecia que aquilo no rendia nada e Idalina estava sempre a pedir-lhe mais. Assim, tendo-o ela todo  sua guarda, talvez se enchesse de brios e economizasse como era preciso.
Acabava de entrar, vindo da fbrica, e colocou as notas e as moedas sobre a mesa:
- Pega l... Est aqui a fria. Eu fico s com vinte e cinco tostes, para cigarros. Doravante s tu que governas o dinheiro... Mas no deixes de pr de banda pelo menos vinte escudos por semana, para ir pagando a dvida ao Valadares. De trs em trs meses podemos entregar-lhe duzentos e cinquenta escudos e, ao fim de um ano, estamos quase quites com ele...
Idalina pressentia que, por detrs das palavras do marido, havia algo que ele no dizia, mas, ao mesmo tempo, pareceu-lhe natural que fosse ela a administrar a vida domstica dos dois. Tambm em casa de seus pais era a me quem punha e dispunha do dinheiro que l entrava para as despesas da famlia.
Horcio aconselhava:
- Em vez de comprares dia a dia, podes comprar de uma s vez o que for preciso para toda a semana,
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menos o que se estrague, est bem de ver... Assim, poders comprar mais barato. Todos os sbados h o mercado grande, onde se pode escolher mais  vontade.  por isso que as frias so pagas, aqui,  sexta-feira...
- Farei como dizes - declarou Idalina. E quedou-se lisonjeada com a autonomia que o marido lhe dava, pois dessa maneira j ela seria verdadeiramente mulher, dona de sua casa, como a sua me e como as outras mulheres casadas. Esse estado de esprito durou-lhe, contudo, pouco tempo.
Na manh seguinte, indo ao mercado, ela obedeceu s indicaes de Horcio; mas na quarta-feira verificou que, sem tocar no dinheiro que reservara para o Valadares, no poderia comprar as sardinhas e as couves para esse dia. E, ento, arreliou-se: "Horcio ia dizer que ela era uma desperdiadeira e ela no era desperdiadeira nenhuma, tinha a certeza disso. O que lhe faltava, talvez, era prtica." Amofinou-se durante toda a manh e, por fim, decidiu-se: no diria nada a Horcio e, na outra semana, puxaria mais os cordes  bolsa, para repor o que ia tirar agora.
No sbado, regateou com as vendedeiras, disputou todos os tostes e comprou menos do que havia pensado. No domingo, ficou contente, porque Horcio jantara sem estranhar que ela no lhe desse, ao contrrio do que fizera no domingo anterior, um pedao de carne de porco. Segunda-feira, porm, voltava a enervar-se. As sardinhas mudavam todos os dias de preo e at as couves e os nabos tambm. E quase sempre era para mais. Quando ela viera para ali, havia um litro de petrleo e, agora, a garrafa estava vazia.
Idalina resolveu comprar menos po em cada dia: cem gramas que fossem, ao fim da semana davam quase um quilo.
Uma noite, Horcio queixou-se:
- O caldo tem pouco azeite...
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-  que no reparei bem, ao botar... - desculpou-se...
De outra vez, ele notou:
- Parece que andas sem apetite... V l no vs cair doente! Comes como um passarinho...
Ela apressou-se a justificar-se:
- No... Eu como bem...  que enquanto estou a arranjar a ceia, sempre you provando e petiscando... E, de po, nunca gostei muito...
Ele caoou:
- s como os ricos, no querem ver?
Na terceira semana, ela tremia quando o marido lhe entregou a fria. Dos quarenta escudos que tentara arrecadar para o Valadares, tinha apenas dezoito. E Horcio prevenia-a:
-  verdade, esqueci-me de te dizer que teremos de contar com sete mil e quinhentos por semana para a renda da casa. V l isso...
Ela ficou gelada, primeiro a olhar para ele, depois a olhar para o cho. "Ele ia arrepender-se de ter casado com ela, mas que ia ela fazer?" Hesitou, desesperou-se e, sem levantar os olhos, murmurou:
- O dinheiro no chega... No chega para dar ao Valadares...
Quando ela lhe disse, a seguir, que no conseguira forrar, por semana, os vinte escudos de que ele falara, Horcio irritou-se:
-.No percebo nada! No digo que os catorze escudos que eu ganho por dia sejam muito dinheiro; no ; mas ns no temos filhos e os que os tm vivem com a mesma coisa. E ainda h os que ganham menos do que eu. Os pegadores de cardado s ganham doze escudos. No percebo como gastas tanto!
Era a primeira vez, depois de terem casado, que ele lhe falara com aquele tom de voz. Idalina comeou a chorar:
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- Eu no sei... Eu no sei como os outros fazem... Tu pensas que eu no governo bem, mas eu no posso fazer mais... Puxando muito, pode dar para a renda da casa, mas, para o Valadares, no d de maneira nenhuma ...Tu queres ver? Vai contando...
Ele sentou-se  mesa e ela, limpando os olhos com as costas das mos, ps-se a rememorar: tanto disto, tanto; tanto daquilo, tanto...
- J contaste? E isto porque temos tido as batatas que trouxemos de Manteigas. Mas esto a acabar. ..
Com ela em p, ao lado dele, Horcio demorou-se em seu silncio. Depois disse, como se se dirigisse a si prprio:
-  verdade que os pegadores de penteado, como eu, ganham mais do que os pegadores de cardado, mas um pouco menos do que alguns outros operrios.  um ofcio que se aprende depressa, mas tambm o salrio que se recebe  mais pequeno... - E voltando-se para a mulher:-Bom! Vamos a ver se dou um jeito  vida, que isto, assim, no pode ser!
Idalina ficou-se a olh-lo. Mas ele no disse mais nada. Voltou ao seu silncio, cabea vergada sobre a mesa e as mos fazendo rodar, distraidamente, as moedas que ali se encontravam.
A ideia de que tinham provindo as suas ltimas palavras desagradava-lhe fortemente. E agora, depois de ouvir Idalina, muito mais do que at a, por aquilo se apresentar como uma obrigao. Desde os seus primeiros dias de fbrica, ele decidira aprender tecelagem logo que chegasse a pegador de fios, pois os teceles ganhavam mais do que os restantes operrios. Em vez de salrio fixo, recebiam conforme o nmero de passagens que as lanadeiras faziam nos teares e alguns havia que, ao fim da semana, tinham
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uma fria superior s dos outros obreiros melhor pagos. Alm disso, os teceles eram, entre o pessoal fabril, os mais respeitados por mestres e industriais.
Quando, porm, chegara a pegador de fios, ele resolvera adiar a nova aprendizagem, porque estava ansioso de casar-se e aquilo tomar-lhe-ia todo o seu tempo. Aps o casamento, adiara mais uma vez, guloso de convvio com Idalina e daquelas horas de sol que, nesses meses de Estio, -havia ainda quando ele largava o trabalho. Agora, porm, no encontrava outra soluo. E marralhava consigo prprio: "Se estivessem no Inverno, com chuva ou neve, seria, por um lado, pior, mas ele no teria, pelo menos, saudades da vida de l de fora. Mas, com um tempo assim bonito como estava e, ainda por cima, casado de fresco, meter-se na fbrica s oito da manh e s sair  uma da madrugada, era duro de roer. Uma hora para chegar a casa, despir-se e deitar-se, outra para levantar-se, vestir-se e -chegar  fbrica, s lhe restavam cinco horas para dormir. E ele, nem mesmo dormindo oito, ficava satisfeito. Ento, ser casado ou solteiro, era a mesma coisa. No disporia de tempo para viver com Idalina. Mas no havia outro remdio. Aquilo tinha de ser, pois tratava-se do seu futuro. E como tinha de ser, quanto mais depressa fosse, melhor."
Ao levantar a cabea, encontrou os olhos de Idalina, que, junto do fogo, onde acabara de acender o lume, o contemplava, sempre interrogativamente.
- Que queres? - perguntou ele, ainda de mau humor.
- Eu c no quero nada... - Com timidez, acrescentou: - Que  que tu pensas fazer?
- No sei ainda... Depois se ver... - E, erguendo-se da mesa, ps-se a transitar na casa, de
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um lado para o outro, de mos nos bolsos e a assobiar enervadamente.
No dia seguinte, ao sair da fbrica, Horcio recalcou as ltimas hesitaes e, como se apagasse a luz do Sol que ele, antigo pastor, gostava de encontrar c fora, depois do trabalho, abordou Mateus. Ol mestre ouviu-o, carrancudo como sempre que lhe solicitavam alguma coisa; e, em seguida, prometeu:
- Falarei ao senhor gerente, a ver se ele quer escrever ao Sindicato a pedir autorizao...
- Fico-lhe muito obrigado...
Mateus fez um gesto de quem recusava o prematuro agradecimento:
- Ainda falta ver se h algum que queira trabalhar s de dia, para voc poder trabalhar sempre de noite...
Horcio balbuciou:
- O Boca Negra diz que no se importa... Que at lhe faz jeito...
O mestre pronunciou, ento, a frase ambgua com que costumava responder a todos os pedidos:
- Hei-de ver isso...
Horcio saiu. Boca Negra aguardava-o na estrada.
- Que tal?
Ele contou-lhe o seu dilogo com Mateus e o companheiro mostrou-se optimista:
- No tarda quinze dias, tens o carto do Sindicato. Teceles desempregados no h. O que h so os velhos, que ningum quer. Portanto, o Sindicato no se ope. E na fbrica tambm no h empeno. Se fosses ganhar mais do que ganhas, ento seria outra coisa. Mas tu, enquanto aprendes, continuas a ganhar o mesmo e sempre prestas alguns servios na tecelagem. No tarda quinze dias, vais
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ver! No te importes com a cara que o Mateus fez...
Um momento, ao subirem da Carpinteira para a Covilh, Horciodesejou que Boca Negra estivesse enganado e o Sindicato demorasse a autorizao, que assim ele ficaria em paz com a sua conscincia e poderia aproveitar, junto de Idalina, aqueles fins de tarde estivais.
Boca Negra, porm, no se enganara. Na semana imediata, o Sindicato e o Instituto do Trabalho permitiam-lhe a aprendizagem e Mateus dizia-lhe, com simplicidade:
- Pode comear amanh.
Ele balbuciou um agradecimento e sentiu-se infeliz. Quando, ao chegar a casa, deu a notcia a Idalina, ela lamentou tambm:
- A vida, assim, no tem jeito nenhum! Dezassete horas por dia metido na fbrica  de mais! E eu fico para aqui sozinha...
Para no entristecer a mulher, ele nunca quisera confessar-lhe quanto aquilo lhe custava. Mas parecia que Idaiina adivinhava o que ele sentia, pois ela dizia a mesma coisa que ele tinha dito, muitas vezes, a si prprio.
-  s um ano... - atenuou. - Ao cabo de um ano, estou pronto. Muitos teceles fizeram-se assim... Ganhavam a vida de noite, para poder aprender de dia...
- Ora! Nunca me tinhas dito que, para aprenderes tecelagem, era preciso isso...
-  preciso, . E  um favor que os patres fazem, pois quem passa todo o dia na fbrica, quando chega a trabalhar no turno da noite j est cansado e no d o mesmo rendimento... Foi o que o Mateus me disse e est-se a ver que  verdade...
Idalina insistia:
- Ainda se eu j tivesse, tambm, trabalho... Mas, assim... Assim sozinha no meio de quatro paredes e quase sem conhecer ningum daqui...
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- Bem... Ns estaremos juntos todos os domingos... Temos todos os domingos por nossa conta... E um ano depressa se passa... Trabalho para ti, tambm se h-de arranjar. L na fbrica no sei quando ser, mas l ou noutra parte arranja-se, com certeza. Ainda hoje o Marreta me disse que havia tornado a falar ao mestre da Renovadora...
Como a mulher continuasse atristada e num silncio resignado, ele passou-lhe a mo pelas faces:
- Deixa l...  um sacrifcio, claro que ! Mas vale a pena! Ganharei mais e a nossa vida melhorar... Temos de pagar ao Valadares e de forrar alguma coisa, porque, quando formos para a casa dos Penedos Altos, precisamos de mais mveis... Precisamos de pr aquilo bonito, por dentro. - Mudou o tom de voz: - Anda, vem da! Vamos dar uma volta, para espairecer ...
- Tenho de tratar da ceia... Ele encolheu os ombros:
- Bom! Ento vou eu...
Sentia necessidade de ar livre, daquele sol que havia l fora, para alm do bairro proletrio, e que ele ia deixar de ter. Saiu. Venceu, primeiro, as sinuosidades da Rua Azedo Gneco, depois as da Rui Faleiro. E ia falando sozinho: "Tem de ser... Tem de ser..." Quando entrou no Pelourinho, j l havia numerosos operrios, que vinham, ali, todas as tardes, parolar um pouco, entre a sada das fbricas e a hora do jantar, como nos dias em que tinham estado em greve. De longe, Horcio reconheceu a muitos deles, mas no teve ganas de se aproximar. Sentia-se de mal com tudo e mesmo consigo prprio. Cortou direito s Portas do Sol e l, no velho miradoiro, com motoristas a discutirem atrs dele, espraiou a vista. Havia sol no vale: via-se at o Fundo, at as Donas, mas ele no via o sol. Via apenas o interior da fbrica, ele e as mquinas da fbrica, o dia e a noite na fbrica, onde o sol no entrava e
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onde ele tinha saudades do sol. Continuava a olhar sem ver o vale ensoalheirado. Por fim, os seus olhos fixaram a colina que estava em frente, com o Convento de Santo Antnio em cima e, mais abaixo, a figura da Senhora da Conceio, sobre alto recinto. Ele lembrou-se, ento, de que se dizia - e estava mesmo l gravado numa pedra - que quem visse de longe aquela imagem e lhe rezasse trs ave-marias receberia muitos favores celestes. Encostado ao parapeito, decidiu rezar. Hesitou. Tinha tantas coisas a pedir, que no sabia bem qual devia pedir primeiro. Operrio j ele era e j estava autorizado tambm a aprender para tecelo. Aquilo de passar os dias e as noites metido numa fbrica estragava a vida de um homem, mas ele precisava daquilo. "Bem; podia pedir que a sua vida melhorasse, sem ele dizer como, pois Deus  que sabia como devia ser." E ia j a dobrar os joelhos quando se recordou de que os cardeais e bispos, cujos nomes estavam inscritos aos ps da imagem, prometiam facilidades, mas era para a vida no cu e no para a da terra. Ento, ele pensou que uma coisa nada tinha a ver com a outra. E disparou dali, cada vez mais entristecido. Tornou a atravessar o Pelourinho e foi batendo os sapatos pela Rua Direita. Ia andando e monologando: "No h mal que sempre dure, nem bem que no acabe. Se eu estou mal, ainda h outros que esto piores do que eu." Repetia as frases que Manuel Peixoto, um dia, na serra, lhe havia dito que eram boas para quando algum desanimava; repetia-as, mas elas no o consolavam. Pensou nos homens que estavam na cadeia, com a barba por fazer e todos cheios de piolhos; pensou no Ricardo, que ainda estava preso, na famlia dele e no Ravasco, que morrera. E cada vez ficava mais triste, mais aborrecido, ao contrrio do que Manuel Peixoto lhe dissera, quando lhe ensinara aquilo...
Desembocou em frente da Igreja de S. Francisco e, dali, meteu ao jardim pblico. L ao fundo, junto
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das grades, mirou os Penedos Altos. A construo das casas progredia, e isso deu-lhe uma sbita satisfao, a primeira dessa tarde. Logo, porm, que os seus olhos encontraram a fbrica onde ele trabalhava, voltou a enervar-se. Naquele dia a fbrica era-lhe odiosa e a ele parecia-lhe que s se sentiria bem longe dali, no sabia onde, longe, num lugar indefinido.
Decidiu voltar para casa e ps-se a trilhar a alameda central do jardim. Grupos de velhos, encarquilhados e de fatos pudos, 'conversavam em volta do coreto. Eram os destroos humanos das fbricas, aqueles que as fbricas despediam assim que os seus corpos denunciavam fadiga e menor capacidade de trabalho, seres to inteis para a indstria como os resduos vegetais e minerais que as mquinas separavam das ls - para deitar fora. A um e outro, mais felizes, ainda um filho, que prosseguia, nas fbricas, o trabalho iniciado h sculos pelos prias seus maiores, prorrogavam-lhes, precariamente, a velhice, dividindo com eles o seu po. A maioria, porm, falha, por isto e por aquilo, do apoio da descendncia, tinha apenas a sexta-feira como alvio. Nesse dia, palmilhando negras ruelas, entravam no Sindicato, casaro to senil como eles prprios e onde, outrora, em livres tempos, se gritara, muitas vezes, que todos os homens eram irmos e a riqueza social a todos pertencia. Escada acima e, depois, arrastando-se na vetusta sala, velhos e velhas formavam escuro cortejo, costas dobradas pelos anos, mos trmulas, bocas entreabertas pela respirao que a subida tornara opressa, caras de linhas rudes, de esculturas a pico, as faces enrugadas e, nas cabeas, humildemente descobertas, desgrenhados cabelos brancos. Eles e elas iam avanando a passos inseguros, sobre o soalho, at que, l ao fim, um empregado, luzidio de juventude, entregava, em nome da Caixa Sindical, vinte escudos a cada um. De novo o cortejo, com modos de prstito fnebre,
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se movia. Velhos e velhas voltavam a passar nas vielas proletrias, de sapatos rotos, de roupas rotas, caminhando em. direco a outras escadas, noutros bairros, as escadas dos antigos patres, para quem eles haviam trabalhado toda a vida. Alguns industriais, evocando obrigatrios contributos a organismos de assistncia, no davam coisa alguma; outros, porm, j se sabia, davam todas as sextas-feiras dez tostes.
Tudo somado e depois repartido pelos sete dias a viver - era a fome. E, ento, os velhos e as velhas passavam a ludibriar o estmago e o tempo, aguardando a nova sexta-feira, enquanto iam morrendo lenta e prematuramente por mngua alimentar. Todos eles pensavam no Albergue e todos o temiam, porque o Albergue era a antecmara da morte, o fim do fim, o fim confessado a eles e a todos. Tanto, porm, a misria os espremia, que, muitos deles, no podendo resistir-lhe mais, dominavam os seus terrores e  porta do Albergue iam, um dia, bater. Mas tambm l no havia espao para eles. Aquilo estava sempre cheio e, muitas vezes, quando a morte levava um dos internados, j alguns dos candidatos ao seu lugar tinham morrido tambm.
O sol era o nico amigo. Encafuados nas suas tocas durante os Invernos nevosos, na Primavera e no Vero os que dispunham de melhores roupitas ajuntavam-se, em grupos de trs e quatro, no jardim da Praa da Repblica, que, a certas horas do dia, se tornava um jardim de invlidos, mesmo em frente das fbricas onde eles haviam trabalhado dezenas de anos a seguir. Ali havia sol e havia, sobretudo, o caminho que os operrios vlidos trilhavam ao regressar do seu labor. Estes constituam, para os velhos, a esperana de uma moeda em dia de fria, de um cigarro noutros dias - de uma promessa, pelo menos, quando no tinham, tambm, nem cigarros, nem dinheiro.
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Agora, ao divisar os vultos decrpitos em redor do coreto, Horcio tentou passar de largo, fingindo no ter reparado neles. Mas j de um dos grupos saa o Paredes, que, agarrando-se a uma bengala, se acercava, chamando-o!
- Horcio! Horcio! - E quando esteve perto: - O Boca Negradisse-me, h pouco, que vais aprender tecelagem. Fazes bem! Fiquei contente por saber isso. Ests novo; ests na fora da vida. Fazes bem! Quem me dera estar na tua idade!
O Paredes, que enviuvara h pouco, nunca lhe pedia nada, mas ele j sabia o que o velho ambicionava quando lhe saa ao caminho. Meteu a mo no bolso e deu-lhe cinco tostes.
Paredes continuou a desejar-lhe felicidades e, antes mesmo de ele se afastar, dobrou-se e apanhou a ponta de cigarro que tinha visto no cho enquanto falava.
Horcio entestou, novamente, s ruas proletrias. Aquele encontro com o Paredes, que lhe lembrava o dia em que o velho fora despedido e ele entrara na fbrica pela primeira vez, deixara, no seu esprito, um novo rasto de enfado. Parecia-lhe ouvir ainda a voz de Tramagal a recrimin-lo, como se ele tivesse alguma culpa.
Nas ruelas que Horcio trilhava estavam, como sempre, quela hora, no Vero, mulheres sentadas s portas, aproveitando a ltima luz diurna para esbicar ou meter fios em cortes de fazenda. De passagem, ele salvava uma e outra - a Paula, a Josefa, a Guida, a Procpia - companheiras de operrios seus conhecidos. Depois de saudar a ltima, Horcio teve, de repente, aquela ideia e volveu atrs. Procpia morava a dois passos da sua porta e, como as outras mulheres, encostava-se sentada na soleira, a trabalhar. Horcio lanou o pedido. A Procpia, que havia deixado de esbicar para o ouvir,
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tornou a pegar nas pinas quando ele concluiu e disse com desenfado:
- Que ela venha.
Ao entrar em casa, Horcio comunicou a Idalina:
- Lembrei-me de falar  Procpia, para ela te ir ensinando a esbicar. Assim vais ganhando tempo e, depois, chegas mais depressa a operria. E at te entretns. A Procpia  simptica e parece-me boa vizinha. Achas bem? Eu lembrei-me disso por tu dizeres que ficavas muito tempo sozinha, agora que vou passar dia e noite na fbrica...
- Eu acho muito bem. Tanto mais que quero ganhar, quanto antes, alguma coisa, para ajudar as despesas da casa.
Horcio tirou o chapu e sentou-se  mesa para cear satisfeito com a resposta da mulher.
Mateus colocara-o junto de Marreta, o mais antigo dos teceles. Ao lado, trabalhava o Dagoberto, de corpo seco e cabea to calva e esticada que, em vez de cabea, semelhava um grande ovo posto sobre os ombros. Para alm dos seus teares, outros teares havia, dezenas de teceles laborando continuamente
Horcio regozijava-se por ser Marreta quem ia ensinar-lhe a tecer. Desde que sara da Aldeia do Carvalho, s  hora do almoo, na fbrica, e num ou noutro raro domingo em que o velho tecelo aparecia na Covilh, os dois conversavam-. Mas no era a mesma coisa, nem com o mesmo tempo folgado de quando se reuniam,  noite, em casa de Marreta ou caminhavam para a Aldeia, de volta do trabalho. E ele comeara, ultimamente, a sentir falta, no sabia bem porqu, daquelas palavras sobre a vida deles que o amigo costumava dizer, sobretudo quando os dois estavam- sozinhos. Continuava a des
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crer das largas vises e afirmaes de Marreta, mas a confiana que este tinha no futuro confortava-o de indefinida maneira, embora ele teimasse em opor-lhe as suas dvidas. Atribua, porm,  amizade e ao feitio de Marreta, sempre pronto a desculpar os companheiros e a interessar-se por todos, essa sensao de alvio que, muitas vezes, dele recebia, nas horas apoquentadas. Parecera-lhe, todavia, que Marreta no tivera contentamento igual ao dele quando, naquela manh, o vira chegar com Mateus e pr-se ao lado do seu tear. Essa frieza, que tanto o surpreendera, durara, porm, um migalho de tempo apenas. Logo o velho retomara o seu sorriso afectuoso e dera-se a instru-lo sobre o funcionamento da mquina:
- Estes fios ao comprido so os da teia, que est montada acol, ao fundo. Os fios passam por aqueles buraquitos que os arames das perchadas tm. As perchadas so aquelas coisas que parecem pentes. Mas o que se chama pente do tear  outra coisa:  isto aqui. Ests vendo? Agora repara: umas perchadas sobem e outras descem ao mesmo tempo. Assim, uns fios ficam por baixo e outros por cima. E ento a lanadeira passa de travs por entre eles, metendo o fio da trama.
Com sucessivos rumores secos, pausados, o tear dir-se-ia autnomo de vontades humanas, todo entregue  obsesso dos seus movimentos rpidos, sempre iguais, e mal permitindo a Horcio fixar as operaes que Marreta lhe ia explicando:
- Agora, as perchadas com os fios que estavam por cima foram para baixo e as de baixo vieram para cima. A lanadeira tornou a passar, cruzando o fio que ela leva.  cruzando o fio da lanadeira com os da teia, que se fazem os tecidos... Percebeste?
Ao olhar para a cara do discpulo, Marreta compreendeu ter sido intil a lio. Sorriu indulgentemente e volveu a repeti-la. Por fim, declarou:
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- Isto no  difcil, mas o melhor  tu ires vendo. S com o tempo podes aprender. Porque no  s o que o tear faz;  tambm o nosso trabalho. Se houvesses nascido na Covilh, decerto terias ido  Escola Industrial e serias j um tecelo feito. Assim, tens de te fazer por ti prprio... E eu sei o que isso custa! Tambm aprendi como tu e, nesse tempo, tudo era pior. Nem me quero lembrar!
Depois, Marreta informou, com outro tom de voz:
- Daqui a nada acaba o fio da canela que est dentro da lanadeira e o tear pra. Temos de ter j pronta outra lanadeira com uma canela cheia de fio. A canela mete-se assim... Vs?  muito fcil. Chama-se embocar.
O tear deteve-se. Marreta trocou, rapidamente, as lanadeiras:
-Isto tem de se fazer depressa. Ns recebemos conforme o nmero de passagens que a lanadeira faz. Ora quanto mais demoramos, menos ganhamos. E os patres so, tambm, prejudicados, pois se um tear produz pouco, menor  o lucro deles. Outra coisa que  preciso fazer a toda a pressa  atar os fios da teia que, s vezes, se partem. Tem de se parar o tear, como hs-de ver, e se o tecelo no se despacha, pior  para ele e para a casa. Mas disso tu j tens a prtica l da fiao. - Marreta voltou a sorrir: -Aqui, o que nos faz andar depressa  a "pinta",  este fiozito branco que est na margem do corte e que, depois, se tira, para a fazenda no ir, assim, para as lojas.  nele que ns medimos as passagens que fazemos. E ests a ver como ns desejamos que ele aumente, pois quanto mais aumentar, mais ganhamos. Quando eu era novo, fazia mais de trs "ramos" por dia, mais de quinze metros de tecido...
Dir-se-ia que Marreta se tinha arrependido das suas ltimas palavras, porque rapidamente as emendou:
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- Claro que eu ainda posso fazer a mesma coisa, se quiser; e se, s vezes, no o fao, no  porque no possa...  porque, como sou sozinho e tenho poucas despesas, no preciso de <correr atrs de foguetes...
O tear continuava com aqueles rudos secos, aquelas fortes pancadas que impeliam as lanadeiras, da direita para a esquerda, da esquerda para a direita, num voo de bala.
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AS casitas estavam quase prontas, branquinhas, airosas, soalheiras e at em cada um dos seus quintalejos havia j sido plantada uma rvore de fruto. Vendo-as assim, Horcio interrogava, frequentemente, os camaradas, mas nenhum deles sabia inform-lo sobre quando abriria a inscrio para os candidatos a inquilinos. Duas vezes ele fora mesmo ao Sindicato e l haviam-lhe dito:
- Ainda  cedo. Ainda no temos ordens para isso.
Entretanto, correra que a Cmara Municipal no construiria mais vivendas econmicas. Ao ouvir isso, Horcio duvidou. Como podia ser, se tinham sido feitas apenas setenta casas e s os operrios dos lanifcios eram seis mil?
Dias depois, porm, ele verificava que os cabouqueiros, pedreiros e carpinteiros haviam desaparecido dos Penedos Altos e principiado a edificar uma nova fbrica, prximo do hospital. As sobras dos materiais de construo tinham sido, tambm, retiradas dali. O novo bairro apresentava-se limpinho, com ar de stio onde no havia mais nada a fazer. Ento, alarmado, Horcio voltou ao Sindicato. O presidente da direco devia saber mais do que os operrios, pois dava-se com muitas pessoas importantes e at com o doutor delegado do Instituto.
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-  verdade - disse-lhe o presidente do Sindicato. - Para a construo do bairro, a Cmara deu metade do dinheiro e o Governo a outra metade. Mas, agora, a Cmara no tem mais dinheiro. E  pena, porque isto era uma boa obra!
- Ento no fazem mais nenhuma casa?
- Certamente, um dia ho-de fazer...
- Um dia... Quando?
- Isso  que no se sabe... Nestes anos mais prximos, a Cmara tem muitas despesas e outras necessidades a atender... Foi o que me disse, h dias, o doutor Teixeira.
Horcio saiu de cabea baixa. E, durante o resto da semana, andou a moer aquilo. Como podia ele ter uma das casas dos Penedos Altos, se elas eram to poucas e a gente que precisava delas era tanta?
- Mete um empenho!-disse-lhe, no domingo, o Boca Negra, na floresta que sobrepujava a Covilh, onde eles haviam ido, com as mulheres e Marreta, passar o dia. - Mete um empenho, enquanto  tempo. Eu c por mim no quero nenhuma das casas. E h outros camaradas que tambm no querem. No que ns no precisssemos, mas porque a renda mais baixa  de setenta escudos. No digo que seja cara, nestes tempos que vo correndo.  at barata, tendo em conta que so casas bonitas e com cinco divises. Mas a mim j me custa, s eu o sei, pagar vinte escudos por aquela em que vivo. Agora tu, que queres mudar-te, deves andar de olho aberto. As casas no so apenas para os operrios dos lanifcios; so tambm para funcionrios pblicos, empregados do comrcio, motoristas, padeiros, para todos os sindicatos. Ests a ver... Se no te mexes, ficas sem nenhuma.
-Mas como hei-de eu mexer-me?
- No sei. Isso  contigo... V se arranjas um empenho, j te disse.
Estavam os dois sentados, com Marreta, na Varanda dos Carqueijais, enquanto as mulheres arru-
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mavam, entre os pinheiros, o cesto em que haviam trazido o almoo para esse dia de ripano. Horcio coou a cabea e olhou a cidade que se estendia l em baixo, luzindo ao sol e padroando o imenso vale do Zzere.
- Que raio de empenho posso eu arranjar, se no conheo ningum de peso na Covilh?
- Eu digo-te isto, porque j ouvi dizer que h pessoas que vo meter empenhos. E s se forem tolas  que no faro isso!
Sentado ao lado deles, Marreta escutava-os em silncio. Horcio voltou-se e olhou-o, como a pedir-lhe um conselho. Marreta continuou, porm, calado. Depois, tirou um jornal do bolso e ps-se a l-lo tranquilamente.
Da estrada que cortava a floresta vinha o rudo de uma camioneta que subia. Horcio pegou no garrafo que tinha trazido e bebeu. No lhe apetecia, agora, vinho, mas tornou a beber.
- Que diz vossemec a isto? - perguntou, directamente, a Marreta.
Em vez de lhe responder, o velho tecelo dobrou, vagarosamente, o jornal.
- Estou cansado - declarou. - J no tenho idade para estas caminhadas. Da Aldeia do Carvalho at aqui  um bom bocado e quase sempre a subir.
Horcio compreendeu que Marreta no queria, de maneira alguma, falar das novas moradias. Lembrou-se, ento, da noite em que ele lhe havia dito: "Tu encontras uma panela com libras e mandas fazer uma casa. Tu ficas satisfeito, mas os outros continuam na mesma." Horcio pegou no garrafo e bebeu pela terceira vez.
Boca Negra estava tambm calado. Marreta parecia olhar para a serra da Gata, que se divisava l muito ao longe, de contornos imprecisos. O rudo da camioneta esmorecia,  distncia. E de dentro do pinhal saram, trazendo o cesto, Idalina e a mulher
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de Boca Negra. Ao dar por elas, Marreta levantou-se e props:
- Vamos andando?
Com Marreta no meio, o grupo comeou a descer a floresta. E, desde essa tarde, Horacio procurou quem pudesse interceder a seu favor.
Falou, primeiramente, ao Marques. Mas, dias passados, o padrinho dizia-lhe:
- Tens de esperar que se abra a inscrio. No se aceitam empenhos.
Aquilo brigava com o que Boca Negra dissera e ele comunicou-o ao merceeiro. Marques repetiu:
- No se aceitam empenhos neste caso. Foi, pelo menos, o que me garantiram. Se algum os mete, isso no sei! A mim, o que me disseram  que as casas seriam distribudas ou sorteadas por quem tivesse a idade que a lei manda e bom comportamento. Pessoas que no sejam assduas no trabalho, bbedos e zaragateiros, no sero aceites. Mas, felizmente, tu no s desses.
Tambm aquilo no tranquilizou Horcio. E, de esperanas j bruxuleantes, ele partiu dali para recorrer a Pedro. Embora operrio, Pedro conhecia muita gente fora das fbricas e havia at pessoas ricas que o cumprimentavam, talvez por saber quem era o pai dele. Pedro prometeu falar a um empregado da Cmara Municipal, seu conhecido; mas, no domingo seguinte, disse-lhe o mesmo que o Marques lhe tinha dito:
- No se pode fazer nada. Tens de esperar que se abra a inscrio.
Nessa mesma tarde, Horacio ouviu, no Pelourinho, que vrias pessoas haviam decidido no se inscrever. Afirmavam, uns e outros, que o novo bairro ficava longe da cidade e que, no Inverno, dificilmente as crianas poderiam vir  escola e as mulheres ao mercado. E, de noite, eram caminhos que davam medo.
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Os operrios escutavam os camaradas e a si prprios e cada vez sentiam maior necessidade de elaborar senes e exagerar inconvenientes, para se consolarem da certeza de que, fizessem o que fizessem, a quase totalidade deles no poderia instalar-se no novo bairro.
Tramagal, que viera passar o domingo  Covilh, era quem mais fomentava aquela ideia:
- C para o meu pensar, ningum devia inscrever-se. Ou casas para todos ou para ningum.
Horcio ouvia-os, sem intervir. Agradava-lhe que os outros amarrassem defeitos s casas e desistissem delas. "Assim ele teria mais probabilidades de ficar com uma - pensou. - E dissessem os outros o que dissessem, as casas eram muito boas! Quedavam afastadas da cidade, l isso era verdade, mas assim mesmo  que ele gostava. Quando fosse para o trabalho, as fbricas estavam ali a dois passos, e quando estivesse em casa, era uma alegria com a terra livre em volta e tudo cheio de sol. Parecia impossvel que os outros dissessem aquilo, vivendo, como viviam, nuns buracos onde nunca entrava a luz do dia."
Tramagal marralhava:
- Ou casas para todos ou para ningum! Horcio continuava calado. Tambm aquilo lhe
pareceu absurdo. "Como  que se podia fazer casas para todos, assim de p para a mo? De mais a mais, havia muitos que nem sequer podiam pagar aquelas rendas baratas. Era ver o Boca Negra e tantos outros."
A inscrio foi aberta uma semana depois. Horcio soube da notcia  hora do almoo, pela mulher do Boca Negra, que viera trazer a comida ao marido. Logo ele saiu do refeitrio e correu ladeira acima,
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Sindicato onde, i deles, o
para a Covilh, levando na mo a cdea que no tivera tempo de mastigar.
Quando, arquejante, entrou outros operrios saam. Reconheceu Alosio:
- Vocs vieram tambm por mor das casas?
- Viemos.
La dentro estavam outros,  sua frente. Por fim, ele pde dar o nome e a morada ao empregado do Sindicato.
- H muita gente que quer as casas? - perguntou, quando o outro acabou de escrever.
- Alguma... - respondeu o empregado.
- Alguma... Mas, ento, no  muita? - interrogou de novo, ansioso pela resposta.
- Bem v... A inscrio comeou h pouco...
Horcio volveu  fbrica. No disse nada a Marreta, nem Marreta lhe perguntara coisa alguma. Mas ele sentia, no silncio do velho, que este adivinhara a razo da sua sada do refeitrio, pouco antes.
As cinco da tarde, ao abandonar o trabalho, Dagoberto confessou-lhe que talvez ele se inscrevesse tambm. No tinha f acrescentou -, mas no perdia nada em tentar.
Horcio dirigiu-se para a fiao. E, atrs do carro, indo e vindo e pegando os fios que se partiam, procedia por fora de hbito, to automaticamente como a prpria mquina. "Eram sempre muitos ces a um osso! Eram sempre muitos ces a um osso!" - monologava.
 uma hora da madrugada, quando, enfim, saiu da fbrica, velhas supersties enleavam-no. Ao vencer a rampa da Covilh, via tudo incerto, tudo precrio ; e, como daquela vez que atravessara a serra com o Serafim Caador, as casas dos Penedos Altos comeavam a tremer, a adelgaar-se, a desvanecer-se, como se fossem deixando de existir, como se, at ali, tivessem existido apenas na imaginao dele.
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A noite estava quente. No labirinto proletrio da cidade, muitos dos moradores, fugindo ao calor que os sufocava nas baicas onde habitavam e aos parasitas que lhes chupavam o sangue, haviam posto as enxergas sobre o cho das vielas e, como era seu costume, todos os anos, naquela poca, dormiam ao ar livre da madrugada. Horcio ia andando por entre esses velhos colches cheios de figuras que ressonavam, como em acampamento improvisado junto de destroos feitos por uma catstrofe. E cada vez ele sentia maior angstia, cada vez se sentia mais desamparado na noite, nos seus desejos, em toda a sua vida. Tramagal dissera que as casas no chegavam a ser sete por cada mil pessoas que precisavam delas. Assim, que esperanas podia ele ter?
 Ao chegar  sua porta, Horcio ainda levantou o brao para bater, mas, de sbito, deteve-se. De novo, velhas crenas o envencilhavam. E uma derradeira hiptese de proteco surgia no silncio nocturnal da ruela.
Perto dele, a Procpia moveu-se entre o marido e os filhos, nas duas enxergas juntas; logo, porm, aquele silncio, quente e pesado como o ar da noite, volveu. Horcio vacilou ainda um momento e, depois, meio decidido, meio hesitante, continuou a andar, afastando-se, lentamente, da sua porta.
Cidade pequena, acolhedora e pacata, a Covilh dormia. O seu prprio centro dir-se-ia abandonado. Somente no Pelourinho, Horcio lobrigou uns vultos que, falando, metiam  Rua Direita. O velho edifcio filipino, onde se instalavam os Paos do Concelho, parecia golfar, atravs do arco que dava entrada para a Rua 1. de Dezembro, um denso mistrio de outrora. E, mais adiante, as casas construdas sobre as antigas muralhas da cidade mostravam-se numa confuso de burgo pretrito, onde os camartelos renovadores no haviam conseguido fazer olvidar todos os sculos passados com suas noites infindas.
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O relgio de uma das igrejas bateu duas horas. Sempre vagarosamente, Horcio comeou a subir para as Portas do Sol. Sentia-se cansado. O corpo, de p desde a manh do dia anterior, fosse junto do tear, fosse em correrias para o Sindicato ou atrs da carruagem de fiao, amolengava cada vez mais. Mas, l dentro, a surda batalha prosseguia com a incerteza, a ideia de pouca sorte, de desarrimo no Mundo. Agora ele pensava: "Se ela d vantagens no cu, tambm as h-de dar na terra. Por que no?"
As Portas do Sol estavam solitrias, como as ruas que ele havia calcorreado. O quiosque encontrava-se fechado e os motoristas, que ali faziam praa de seus automveis, haviam desaparecido. S o paredo de onde se abarcava a plancie se erguia em frente dele. O vale jazia no escuro, mas,  direita, sobre o seu pilar, a Senhora da Conceio, envolta em luz directa, refulgia. Era uma luz verde, de profundidades submarinas, uma luz de sonho; e a imagem dir-se-ia acabada de aparecer, milagrosamente, no negrume da noite, para dominar a noite da terra e das almas e servir de guia aos homens que transitavam na escuridade do grande vale. Horcio contemplou-a um momento e tornou a perguntar a si prprio: "Se ela nos protege depois de mortos, porque no h-de proteger-nos enquanto somos vivos?"
Horcio ajoelhou e rezou as trs ave-marias que cardeais e bispos aconselhavam para se obter favores celestes. Depois, pediu  Senhora da Conceio que o patrocinasse. Murmurou novas ave-marias e prometeu que iria todos os domingos, durante um ano, rezar com a mulher aos ps da imagem, se lhe coubesse uma das casas dos Penedos Altos.
As Portas do Sol continuavam em soledade quando ele se levantou. Apenas um gato corria das bandas do quiosque para o lado das antigas muralhas.
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Horcio ps-se a arrepiar caminho. A andar, ia imaginando o que seria a sua existncia familiar se lhe fosse entregue uma das casas - e antegozava a alegria desse momento. Pagando os setenta escudos mensais da renda, ao fim de vinte anos, merc do seguro de vida, a casa pertencer-lhe-ia. Era como se a houvesse comprado. Nessa altura, ele teria pouco mais de quarenta anos; estaria ainda novo e Idalina tambm.
Ao subir a Rua Rui Faleiro, as palavras do Marreta voltaram-lhe, de repente: "Tu ficas com uma casa, mas os outros continuam na mesma." Ento, ele apressou o passo, novamente mal disposto.
Depois de lhe abrir a porta, Idalina olhou o relgio e lamentou:
- Vieste, hoje, to tarde! J passa das trs horas e tens de te levantar s sete. Assim, nem descansas...
- No faz mal... Pacincia...
- Mas porque demoraste tanto? Ele cortou:
- Deixa-me dormir. No estou agora para falar. Depois te conto.
s oito da manh, ao entrar na fbrica, ainda sonolento, perguntou a Dagotoerto:
- Voc sempre se inscreveu?
- Inscrevi.
- E que tal? Que lhe parece? Dagoberto encolheu os ombros:
- Que me vai parecer? Como por agora no fazem mais casas, se no apanhamos estas, ficamos a chuchar no dedo...
Marreta ouvia-os, mas fingia no os ouvir, como das outras vezes em que se falava das moradias dos Penedos Altos. Essa muda discordncia, de to repe 
tida, enervou Horcio: "Se Marreta se punha assim, no era s por as casas serem poucas - pensou.- Era tambm por Marreta no gostar da Cmara que as fizera. Mas ele no tinha nada com isso."
Colocou-se ao lado do tear e, despeitado, desde essa manh evitou falar daquilo em frente do velho tecelo.
Ele ia, entretanto, progredindo facilmente na sua nova aprendizagem. Poucas semanas depois de a haver iniciado, j auxiliava, durante a montagem das teias, a enrolar, a atar, a empeirar, sem que Marreta tivesse de dizer-lhe constantemente, como ao princpio: "No  assim...  assim!" E cada vez as suas mos se mostravam mais destras em meter os fios nos olhais dos lios, aqueles aramezitos que constituam as perchadas.
Marreta estimulava-o, paternalmente.
- Este  esperto - dizia, dirigindo-se a Dagoberto, mas para que ele o ouvisse. - L esperto, ! Nem precisaria de um ano para ser tecelo...
Horcio quedava lisonjeado. Quando, porm, comeavam a aproximar-se as cinco horas da tarde e num e noutro operrio se adivinhava a impacincia pelo momento da sada, ele entristecia. Os outros iam para suas casas ou falaciar no Largo do Pelourinho e s ele pegava o dia com a noite, como se fizesse dois turnos. Mudava apenas de mquina. E, junto do tear, ainda era melhor, porque ali, ao menos, no se cansava, enquanto na fiao de carruagem tinha de andar sempre a trote, para a frente e para trs, sempre no mesmo espao, sempre a fazer a mesma coisa, como um burro puxando  nora.
Passara-se o ms de Setembro e cada vez o sol ia desaparecendo mais cedo. Mas isso, ao contrrio do que ele imaginara no pino do Vero, no o consolava agora. Era uma tristeza diferente da de quando havia sol, mas no deixava de ser uma tristeza, e at maior, aquela hora cinzenta da tarde em que os outros abalavam e ele ficava. E,  uma da noite, quando,
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enfim, saa, estafado, mal disposto, muitas vezes caam potes de gua. Por mais que corresse ladeira acima, para a Covilh, chegava a casa encharcado.
Ao ouvir as pancadas violentas que ele dava, Idalina erguia-se da cama e vinha, estremunhada, abrir-lhe a porta. A princpio, Horcio falara em mandar fazer mais uma chave, mas ela dissera-lhe que queria acordar quando ele viesse, pois, de contrrio, quase nunca se veriam  sua vontade. De manh, ele estava sempre com pressa; e ao meio-dia, quando ela lhe levava a comida, havia tantos operrios  roda deles, que era como se no estivessem juntos. Horcio aceitara logo aquele desejo, que tambm a ele a ideia de chegar a desoras e encontrar a mulher a dormir e tudo morto  sua volta lhe pesava desagradavelmente. Idalina guardava-lhe, no fogo, um caldo morno, que ele comia antes de se deitar. , algumas noites, enquanto no adormeciam, os dois iam discorrendo sobre a sua vida. Para ele, esses dilogos acabavam quase sempre em desgosto, desgosto que at lhe chupava o sono, porque Idalina sempre dizia que estava tudo cada vez mais caro e j nem sequer se referia ao dinheiro a pr de banda, destinado ao Valadares.
Numa dessas noites, como a mulher suspirasse descontentamento ainda maior do que o dele, Horcio encontrou-se a repetir, para aliviar, as palavras de Marreta:
- Com o fim da guerra, isto muda. E vem outra coisa, com certeza.
Em Outubro, nova esperana medrou entre eles. O mestre da ultimao da Renovadora admitira, finalmente, Idalina como aprendiza de esbicadeira. Horcio preferia que ela fosse para a fbrica onde ele trabalhava, que ali podia t-la sob as suas vistas e obrigar todos a dar-lhe respeito, enquanto na Renovadora no faltariam matules que quisessem desinquiet-la, incluindo o Pedro, que andava sempre atrs de saias e disso ainda se gabava. Essa ideia
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enojava-o, no que lhe minguasse confiana na mulher, mas porque, s de pensar que outro poderia cobi-la ou soprar-lhe aos ouvidos palavras de seduo, punham-se-lhe os nervos em clera. O Felcio, porm, havia sempre adiado a admisso de Idalina e ele resignara-se, por isso, a que ela entrasse para a Renovadora
Quando lhe deu a notcia, Idalina disse somente:
- Vou ter pena de no poder levar-te a comida  fbrica, como at aqui...
Ele no prestou ouvidos quilo e meteu 1 logo  sua obsesso:
- Foi boa ideia isso de andares a praticar com a Procpia. Assim, adiantada como ests, no tarda e s operria. E, para o ano, eu serei tecelo. Acabaremos com o raio da dvida ao Valadares e trataremos da nossa vida...
Horcio calou-se, de olhos distantes, como se andasse a. medir o seu futuro; e, no silncio que se fez, a mulher tornou:
- Tu podes aquecer a comida l na fbrica, mas no  a mesma coisa. No tens pacincia e no a aqueces to bem como eu ta levava...
Desde esse dia, Idalina principiou a levantar-se mais cedo do que ele. S quando tinha tudo pronto, o caldo da vspera metida nas latas e estas, com o po e o conduto, acamadas nos dois cestos, o despertava. Horcio vestia-se apressadamente e saam juntos e juntos caminhavam at o porto da Renovadora, onde ele a deixava.
A concesso das casas fez-se no escritrio do fiscal do novo terreno. Estavam o presidente da Cmara, o representante do Governo, que viera propositadamente de Lisboa, engenheiros municipais e outras figuras.
O escritrio do fiscal era pequeno e nele no cabia mais ningum. C fora, os candidatos a inquilinos, com suas mulheres, muito embrulhadas nos xales, tremiam de frio. Era um domingo de Janeiro e de noite cara um nevo to forte que o presidente da Cmara decidira telefonar para Lisboa, sugerindo o adiamento da cerimnia. De l, porm, disseram-lhe que o enviado do Governo, o Dr. Navarro, j havia partido, com os jornalistas e fotgrafos, indo dormir, nessa noite, a Castelo Branco. Alm disso, os jornais da capital tinham anunciado o acontecimento para aquele dia e no convinha, portanto, adi-lo.
Agora, metidos entre outros pretendentes s casas, Horcio e Dagoberto ouviam o Dr. Navarro discursar l dentro. Ele louvara a Cmara Municipal e o Governo, que comparticipara largamente no dinheiro gasto em obra de to grande alcance. "Graas a esta iniciativa, vai-se, finalmente, oferecer um lar a quem, de outra forma, no o poderia ter. Por isso, este domingo, apesar de invernoso,  um dia de jbilo, no s para a famlia operria covilhanense, "mas para a cidade inteira, um verdadeiro amplexo entre as vrias classes da sociedade, pois s assim, pela justia social, se obtm a harmonia que constitui a base slida para o bem-estar das colectividades."
Os ouvintes percebiam que o Dr. Navarro, apesar de ser homem ainda novo, tambm sentia frio, porque, embora se esforasse por tornar a sua voz bastante forte, muitas das palavras que dizia mal se ouviam c fora.
Alguns retardatrios iam chegando, somando-se ao grupo que estava em frente da porta, sobre a neve, e todos se quedavam a escutar. Havia ali gente de vrios sectores sociais, desde os operrios enfiados em velhos sobretudos, de gola levantada, a funcionrios pblicos e a pequenos comerciantes com um alfinete na gravata; todos os candidatos s casas.
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O cu continuava soturno e via-se que, no alto da serra, continuava a nevar.
Logo que o delegado do Governo terminou o seu discurso,houve, l dentro, rumor de passos, vozes soltas, enquanto os que estavam c fora se apertavam mais, na nsia de escortinar o que se passava. Mas s os que se encontravam  frente o podiam fazer e Horcio, por muito que distendesse o pescoo, por mais que tentasse enfiar a cabea por entre os omibros dos parceiros, no divisava coisa alguma.
Subitamente, porm, no escritrio do fiscal soou uma voz que se dirigia para o exterior e que dominou tudo:
- Casas do tipo 2-A, cinco divises, setenta escudos por ms. Concedidas a: Heliodoro de Sousa, mestre da fbrica Renovadora; Francisco Teles, motorista da Cmara Municipal; Jos Bento, tecelo. ..
Horcio deixara de sentir o corpo, o frio, a neve. Dir-se-ia que toda a sua vida se concentrara nos ouvidos, como se no houvesse unais coisa alguma no mundo do que os seus ouvidos e aquela voz que soava, pausadamente, l dentro:
- Jos Antnio da Silva, empregado do comrcio; Felcio Saraiva, mestre; Roberto das Dores...
A cada nome que ouvia, Horcio esperava, ansiosamente, que sucedesse o seu. Tudo aquilo era rpido, mas a ele parecia-lhe que tudo aquilo se arrastava, se arrastava, se arrastava, se arrastava infinitamente.
C fora, a multido agitava-se e comprimia-se de quando em quando, com os movimentos de alegria que alguns dos contemplados iam tendo. Uma mulher protestava, porque um deles tantos saltos dera que lhe fizera cair o xale. Entretanto, l dentro, a voz prosseguia, impassvel:
- Mrio Tavares, padeiro; Lucas Soares, empregado da indstria...
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Houve uma pequena pausa e logo a voz tornou:
- Casas do tipo 3-A, seis divises, oitenta e cinco escudos por ms. Concedidas a...
De novo se fez um grande silncio c fora. Vieram outros nomes. Nomes a seguir a nomes. E quando, finalmente, a voz se calou, sem pronunciar o nome dele, Horcio j no via e nem ouvia nada do que estava em seu redor. Ao contrrio, ele via coisas distantes dali, a imagem da Conceio, o seu casebre na Rua Azedo Gneco e o Eir, de Manteigas, onde ele, tantas vezes, falara com Idalina da casa que haviam de ter. O corao, que estivera sempre aos pulos, sem que ele houvesse dado por isso, sempre a pulsar mais forte naquela expectativa lenta, parecia agora sossegado, mas deixara-lhe os lbios secos e a garganta quase sufocada. Ao levantar os olhos, verificou que Dagoberto estava com uma expresso sombria. Lembrou-se, ento, de que ele no fora tambm contemplado.
Em volta, a multido dividia-se e formavam-se grupos, que comentavam o sucedido. Havia homens que riam e outros que partiam de cabea baixa. Os fotgrafos que tinham vindo de Lisboa fotografavam vrios trechos do bairro. Um deles apontava a sua mquina ao Jos Bento, tecelo, e pedia-lhe:
- V l! Ria! Faa uma cara alegre!  para publicar no jornal...
O Jos Bento ps-se a rir e o outro fotografou-o.
As entidades oficiais comearam a sair da casa do fiscal. O Dr. Navarro deteve-se, um momento, a porta, a contemplar os fotgrafos e o bairro novo, todo coberto de neve. Ele tinha um olhar melanclico, pensando que no se havia tirado todo o efeito poltico do acontecimento. O presidente da Cmara, julgando compreend-lo, disse:
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- Foi pena haver um tempo destes! Seno, tnhamos embandeirado tudo isto e posto a uma banda de msica. Sempre dava outro aspecto.
O Dr. Navarro continuou calado e os dois partiram, seguidos pelos seus aclitos.
Nesse momento, Horcio sentiu algum bater -lhe no ombro, amigavelmente:
- Tambm te havias inscrito?
Ele voltou-se e viu o Felcio, mestre da ultimao.
- Tambm.
- No te deram nenhuma, v-se logo na tua cara. Tem pacincia... No pode ser para todos ao mesmo tempo...
As palavras de Felcio, que tinha sido um dos beneficiados, irritaram-no. Mas conteve-se:
- Pois ... L isso ..
Dagoberto havia desaparecido. Dando costas ao Felcio,Horcio procurou Idalina. Ela estava ao longe, junto de uma das casas novas, a conversar com a Procpia. Ele acenou-lhe, uma, duas, trs vezes, mas ela no o viu. Ento, tocado de impacincia, rumou, sozinho,  estrada. Centenas de outros operrios caminhavam  sua frente, caminhavam devagar e em silncio na neve, devagar e em silncio como se fossem num enterro.
Ao atravessar a Carpinteira, Horcio topou, mesmo na curva da estrada, grande ajuntamento. Os que vinham dos Penedos Altos cercavam um homem e quase todos faziam perguntas ao mesmo tempo. Horcio aproximou-se e reconheceu Ricardo. Plido, muito mais magro do que era, os ossos do rosto desenhavam-se-lhe, nitidamente, sob a pele. O seu fato apresentava-se cocado, lustroso, cheio de arquiplagos de ndoas, e rota a parte que se divisava da camisa. S o cabelo estava cortado de fresco. Ricardo tinha, numa das mos, um embrulho e, ao ver Horcio, abriu os braos:
- Como tens passado? J sei que casaste... A Jlia mandou-me dizer...
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Era a primeira vez que Ricardo o tratava por tu, como se a ausncia houvesse aumentado a intimidade. E ele, com uma nova emoo enxertada na que trouxera dos Penedos Altos, olhava-o demoradamente.
- Quando chegou? E o Alcafoses?
- Cheguei agora mesmo. O Alcafoses tambm.
- E a sua mulher j sabe?
- No. Vou fazer-lhe uma surpresa...
Ao lado, Malheiros insistia pelas confisses que a chegada de Horcio interrompera:
-E, ento, eles teimavam?
Ricardo mostrou-se desejoso de continuar o seu caminho:
- Depois falamos - disse.
- Homem,  s um instante!...
- Bem, eles teimavam, todas as vezes. Parece que pensavam que havia outra coisa e queriam saber quem, estava metido nela. Queriam saber tambm se no havia gente de Lisboa que nos dava ordens... Eu fartava-me de dizer que no, que ns tnhamos feito aquilo porque tudo estava caro o que recebamos de fria no chegava para nada. Ento, eles julgavam que eu estava a mentir e teimavam. Mas o que mais me custava era pensar na Jlia e nos pequenos. Quando estava incomunicvel, sem poder receber notcias deles, isso custava-me,  claro. Agora mesmo, no sei como eles esto. A Jlia tem-me escrito, mas eu adivinho que ela no diz tudo nas cartas.
Ricardo falava com simplicidade, mas num tom que pareciaainda mais firme do que antes. Voltou-se para Bernardo e perguntou-lhe.
- Tu tens visto a Jlia e os pequenos? Esto todos bem?
Alguns dos presentes conheciam a situao da famlia de Ricardo e aquela pergunta lanava-os, de repente, num embarao contagiante. Bernardo, que vivia na Aldeia do Carvalho, ps-se a gaguejar:
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-Sim... Sim... Tenho-os visto... Ainda ontem os vi... L vo andando...
Ricardo pressentia as palavras que ningum pronunciava.
- Sucedeu-lhes alguma coisa?
- No... No... -murmuravam um e outro. Depois, Bernardo disse: - Vivem com dificuldade, claro... Tu sabes... Tu calculas... Mas l vo passando... Os camaradas, mesmo que queiram, pouco podem auxiliar...
Ricardo despediu-se, bruscamente:
- Bom. Adeus! .At outra vez! Depois falamos. Os homensviram-no desaparecer na curva da
estrada e, em seguida, comearam a subir para a Covilh.
Ia o grupo a meio da rampa, quando Horcio ouviu a mulher cham-lo. Ela corria atrs dele, tropeando no gelo.
- Andei  tua procura, mas tu sumiste-te - disse Idalina, ao acercar-se.
Horcio levantou os ombros, mal-humorado:
- Estavas a dar  lngua com a Procpia... Nunca mais acabavas...
- E que a Procpia queria ver, outra vez, as casas. Ela estava muito amachucada e at chorou por no lhe ter cabido nenhuma. Eu tambm tive muita pena. So to bonitas! E, no sei porqu, tinha-me afeito  ideia de que amos para l. Eu at havia feito uma promessa...
- Tu tambm?
Idalina no compreendeu a pergunta e disse com naturalidade:
- Sim, eu havia feito uma promessa... Mas, agora, que j sabia que nenhuma das casas seria para ns, custava-me at olhar para elas. Por isso eu no queria acompanhar a Procpia... Ela l ficou. Diz que tambm a ela aquilo lhe d tristeza, mas que, mesmo assim, queria tornar a ver as casas por dentro.
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Horcio ouvia a mulher e a melancolia da sua voz ia somando, no esprito dele, a viso das moradias dos Penedos Altos com a da chegada de Ricardo  Aldeia do Carvalho, o encontro com a Jlia, os filhos, a velha, o rosrio e o gato e, de novo, as casas novas e o casebre da Rua Azedo Gneco, tudo numa confuso de imagens e de sentimentos as imagens ora acentuando-se, ora desvanecendo-se e os sentimentos permanecendo, assentando como lama no fundo de uma vasilha.
- Tive uma grande pena!-repetiu Idalina.
- Deixa l... - consolou ele. - Havemos de ter uma casa nossa. E feita a nosso gosto. Aquelas so bonitas, no h dvida, mas tm os seus defeitos. Ficam longe. Para se vir  cidade,  um castigo! E imagina um dia de chuva... Eu, para dizer a verdade, no tive grande pena, no... Ns havemos de ter a nossa, mas num stio melhor. Havemos de t-la... Tu j s esbicadeira, j ganhas alguma coisa... E eu, para o Vero, acabo o ano de aprendizagem. Depois, mais dia, menos dia, passo a tecelo. E tambm se diz que os patres vo, agora, dar um aumento de salrios. J vs que no deves arreliar-te. ..
A voz saa-lhe to triste como a da mulher, que ele procurava confortar.
IV
HORCIO fora-se assenhoreando da arte de tecer. O tear era-lhe j familiar: conhecia todas as suas peas, o objectivo dos seus movimentos e montava a enviadura, empeirava e embocava com tanta rapidez <como Marreta o fazia. Se um dos fios do barbim se quebrava, em dois segundos os seus dedos o atavam; se havia nova teia, ele sabia como proceder, desde o rgo de onde esta se desenrolava, at  sua passagem no pente, antes de se enrolar novamente, j tecida.
Quando ele comeara a aprendizagem, Marreta, se tinha de ir  cloaca, voltava-se para Dagoberto e pedia-lhe: "Olha-me por isto." Agora, partia sem dizer nada ao outro tecelo, certo de que Horcio daria boa conta do tear. E at o Dagoberto, quando precisava 'tambm de ir l fora, o encarregava de vigiar a sua mquina.
Com o tempo, Horcio pudera avaliar mesmo a capacidade profissional de cada um. A princpio, no compreendia por que Marreta punha uns culos quando tinha de empeirar e os tirava, escondendo-os apressadamente, se via Mateus aproximar-se. E se o mestre parava junto dele, Marreta procurava fazer outra coisa que no fosse introduzir os fios naqueles orificiozitos que os lios possuam. S quando Mateus continuava a sua andana, ele tornava a pr os culos e a empeirar, olhando, frequentemente, para trs,
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no fosse o outro volver pela mesma coxia. Na manh em que Horcio 'compreendera a razo daquilo, no dissera nada, mas tivera muita pena de Marreta. Da em diante evitara perguntas que pudessem lembrar ao amigo a sua velhice. E se lobrigava, ao longe, o vulto de Mateus, era ele prprio quem prevenia Marreta da aproximao do mestre. O velho tecelo parecia no gostar, porm, dessa espontnea cumplicidade, que denunciava o conhecimento dos seus receios. "Pois que venha!" - dizia sacudidamente, com um tom que no lhe era habitual. Mas, pouco depois, os seus olhos convergiam para o bolso do casaco onde guardava os culos. E se estes se entremostravam, ele impelia-os, discretamente, com os dedos, para baixo.
Horcio acabou por notar que Dagoberto, ali, ao lado deles, produzia muito mais do que Marreta. Aquele ia sempre alm dos trs "ramos" por dia, enquanto este nunca os alcanava. Ao pegar no dcimo de metal, para medir, na "pinta", o trabalho feito, a mo de Marreta tremia como quando ele tentava meter, sem culos, os fios nos olhais dos iios. De comeo, Horcio acreditava que se Marreta no tecia mais era porque, efectivamente, no queria, por no precisar de grande fria para as suas despesas de homem sozinho; mas, depois, convencera-se de que isso no era assim. Toda a gente afirmava que, na fbrica, ningum sabia, como ele, do seu ofcio e que melhor tecelo no existia tambm na Covilh inteira. Mas,  medida que os meses iam decorrendo, Marreta parecia conhecer o tear e a tecelagem mais de teoria do que de prtica, pois, ao trabalhar, fazia-o cada vez com maior lentido e cautela, como se lhe faltasse experincia. Mesmo a substituir as lanadeiras ou a embocar, Dagoberto, tido e havido como um remendo, andava muito mais depressa. Horcio detestava essa superioridade do vizinho, que contava menos vinte anos do que Marreta e no era afvel como este. Mas Horcio sabia
que ele prprio podia realizar aquilo com mais rapidez do que o velho tecelo. E, um dia, assim o fizera. Ao ver, porm, o olhar melanclico com que Marreta seguira os seus despachados gestos ao carregar, tirar e meter as lanadeiras, renunciara a mostrar-se capaz de vencer Dagoberto.
Chegara a Primavera e, Abril andante, um dia Marreta entrara na fbrica com voz rouca e tempestade no nariz. "Estou constipado" - disse, apertando em volta do pescoo um velho cachecol. Na manh seguinte, voltara ainda com mais espirros e febre. Ao terceiro dia, fora o prprio Mateus quem lhe dissera que, estando ele com gripe, o melhor seria quedar uns dias em casa, pois assim no se curava e at podia pegar o mal aos companheiros.
Ele partira e Horcio ficara com o tear. Antes de lho confiar, Mateus repetira, ao Dagoberto, as mesmas palavras que, ao princpio, Marreta costumava dizer-lhe, quando tinha de ir s instalaes sanitrias:
-Olha-me por isto.
Obediente a essa ordem, Dagoberto aproximava-se, de quando em quando, de Horcio e dava-lhe indicaes. Mas Horcio fingia no o ouvir. Fingia ostensivamente. Quando, porm, o outro estava de costas, no seu tear, ele espiava-lhe os movimentos e procurava ultrapass-lo, trabalhando ainda com maior presteza.
s cinco da tarde, Horcio verificava, envaidecido, que tecera tanto como Dagoberto e muito mais do que Marreta costumava tecer. Foi essa a primeira vez que ele se sentiu feliz ao transitar da tecelagem para a fiao, enquanto os outros operrios, que laboravam diurnamente, saam da fbrica.
Marreta regressou na quinta-feira seguinte, mais magro, e de olhos mais encovados, mais profundos, do que habitualmente.
Inspeccionou o tear e p-lo em movimento. Mas no fizera aquilo com a naturalidade dos outros dias.
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Voltava-se, de quando em quando, para Horcio, falava-lhe e procedia como se o tear j no fosse s de sua conta, mas dos dois. Procedia como se, durante a sua ausncia, houvesse perdido a primazia que tivera ali e Horcio pudesse ter por inoportuno o seu regresso. Nos primeiros momentos, parecia tocar nas coisas com timidez, como se mexesse,  vista de outrem, em objectos da casa de um parente que acabara de morrer.
Pouco depois, Marreta disse:
- J sei que fizeste boa figura. Para um aprendiz, trs ramos por dia  obra! Claro que tu j no podes ser considerado um aprendiz... Tu j sabes como um tecelo...
Depois de ver aqueles modos com que Marreta entrara, Horcio arrependia-se de, na nsia de igualar Dagoberto e de se valorizar a si prprio, haver produzido mais do que Marreta ultimamente produzia.
- Se j sei alguma coisa, a si o devo - declarou, sentindo-se vexado com a ideia que Marreta poderia fazer sobre o seu procedimento.
- Ora! Ora! Tu s esperto,  o que ! Sempre o disse! Fosses outro, e veramos!
 hora do almoo, os dois amesendaram-se no novo comedoiro. O dia apresentava-se friorento para eles se sentarem ao ar livre, como era tanto de seu gosto, coisa que irritava Azevedo de Sousa, o gerente, o prprio Mateus, sempre prontos a lamentarem ter a fbrica gasto um dinheiro a construir o refeitrio que a lei mandava e, afinal, os operrios preferirem continuar a comer arrumados a qualquer parte, l fora, ao sol, como os bichos, sem ordem, sem jeito nenhum. Apesar do dia agreste, alguns haviam ido para as bermas da estrada e, no extremo da terceira mesa do refeitrio, Marreta encontrava-se sozinho com Horcio. Ele descascara as suas batatas cozidas, comera-as e 'bebera, em seguida, o caldo que tinha aquecido. Depois, pusera-se a olhar, timora
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tamente, para o recinto onde estavam, para o tecto de vidro fosco, para a porta.
- So mais uns trs mesitos... - murmurou, como se falasse consigo prprio.
- O qu? - perguntou Horcio.
- So mais uns trs meses... que venho  fbrica.
- Por que diz isso?
Horcio j tinha adivinhado a causa das palavras de Marreta, mas sentia necessidade de lhe desvanecer aquela ideia, aaquela ideia que se fazia notar no tom da sua voz, no seu sorriso resignado, na profundidade dos seus prprios olhos.
- Digo isto, porque daqui a trs meses entregam-te o meu tear e est tudo acabado...
- Ora essa! Est tudo acabado, porqu? Primeiro, eu noaceito o seu lugar; depois, quem lhe diz que lho vo tirar?
Marreta sorriu com cepticismo:
- Quando, na semana passada, o Mateus me mandou para casa, eu percebi logo que o que de queria era experimentar-te. Queria ver o que tu davas. Farto de ter constipaes e gripes estou eu e nunca ele me disse que eu podia ir-me embora e s voltar quando estivesse bom. Algumas vezes em que me senti doente a valer e lhe pedi para me dispensar do trabalho, ele mostrou-me sempre m cara... Mas j h muito tempo que eu esperava isto: desde que tu vieste aprender e ele te ps no meu tear... Lembras-te que te perguntei se lhe havias pedido para aprenderes comigo? Tu disseste-me que no; que no era por falta de vontade, mas que tiveras vergonha de andar sempre com pedidos ao Mateus... E disseste, tambm, que se ele fizera aquilo fora, decerto, por saber que ns ramos amigos. Ento, eu no quis desgostar-te, mas eu tinha a certeza de que no era assim. De mais a mais, ele nunca quis que ningum aprendesse comigo, porque dizia que eu tinha umas ideias que estragavam os rapazes. Compreendes agora?
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Horcio deixara de mastigar o seu po. e desejava falar olhando direito, mas, ao mesmo tempo, os seus olhos acovardavam-se ao encontrar os de Marreta.
- Por mim, no lhe tiram o seu lugar, pode vossemec estar descansado. Antes queria que me quebrassem os braos do que tomar-lho.
- No mo tomas; do-to - disse Marreta, lentamente. - No tens razo para falar assim. Se no to derem a ti, do-no a outro e  a mesma coisa. E, ento, eu prefiro que o dem a ti, que s meu amigo.
-Eu no aceitarei, j disse!
- Pois eu acho que deves aceitar. Tu no tens nenhuma culpa. Se pensas que te deitarei alguma responsabilidade, ests enganado. Eles no te do o lugar para te ser agradvel. Nem a ti, nem a qualquer outro. Do-to porque eu j produzo pouco. E eles no querem ter empatado um tear com um velho que no chega a tecer trs ramos por dia...
Comovido, Horcio sentia a garganta apertar-se-lhe e vontade de abraar Marreta.
- Eu c por mim no aceito... - teimou. - Se for preciso,esperarei at arranjar noutra fbrica...
Marreta voltou a sorrir, piedosamente, como se falasse a uma criana:
- Mas  a mesma coisa! A no ser que ponham teares novos, tem de sair algum para tu entrares. Pode ser que o que saia mude apenas de fbrica, mas, no fim, algum h-de sair - para no voltar. Pode ser tambm que um arranje trabalho melhor pago. Mas isso  rarssimo. As mais das vezes, quem sai so os velhos como eu...  claro que no me queixo do Mateus. Me  ruim, mas est na sua obrigao. Eu vou fazer sessenta e cinco anos e eu mesmo vejo que j no trabalho como um homem novo...
Marreta calara-se. Horcio buscava, em vo, as palavras de consolo que queria dizer. Nas mesas vizinhas, vrios operrios comiam e pairavam. E
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gims, que tinham ido l para fora, voltavam esfregando as mos.
- Tu no deves incomodar-te com isto, j te disse -volveuMarreta.- Antes de comeares a aprender, j o Mateus andava com o olho em cima de mim. Eu trabalho aqui vai em cinquenta anos. Sou ainda do tempo do primeiro dono da fbrica. Ests a ver se no sei quando os patres ou os mestres comeam a pensar na idade do operrio e a reparar na maneira como ele trabalha... Se os mestres so boas pessoas, que tambm os h, podem fingir, por algum tempo, que no do por nada; mas l est a fria a mostrar ao patro ou ao gerente o trabalho que cada tecelo faz. Como ns trabalhamos  passagem,  fcil ver... O ano passado, por esta poca, o Mateus achegou-se amim, olhou para a teia que eu estava a tecer e disse-me de maus modos: "Voc ainda no acabou isso?" Ele sabia perfeitamente que eu ainda estava com aquele corte, mas queria mostrar-me que eu j dava pouco rendimento... O meu interesse era tecer o mais possvel, est claro; se no tecia mais  porque no podia. A no ser que eu no me importasse de deixar defeitos na fazenda, mas isso tambm me desacreditaria e ainda era pior... Mas no foi s aquilo que o Mateus me disse. Por meias palavras, tem-me dito muitas outras coisas, para eu me ir convencendo de que estou velho e que j no sirvo para feto. Tu no vs a maneira como ele olha para o que estou a fazer, quando passa pelos teares? Desde o ano passado que ele pensa pr-me na rua, tenho a certeza disso. De forma que no vale a pena tu ralares-te comigo. Se ainda me deixam estar aqui,  justamente por tua causa. Como o irmo dele se interessa por ti, o Mateus est  espera de que completes o ano, para te dar o meu lugar. Seno, j me tinham despedido e metido outro. To certo como estarmos os dois aqui a falar...
 
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Marreta calou-se um momento e, depois, acrescentou, com um tom mais melanclico:
-  uma tristeza a gente ser velho, l isso ! At temos vergonha de j no prestar para nada... Mas que podes tu fazer?
Horcio continuava a no encontrar as palavras que desejava. E, no seu silncio, ia visionando esses velhos invlidos que se juntavam, em dias de sol, no jardim pblico, mal vestidos, mal alimentados, teceles, fiandeiros, cardadores, outros profissionais que as fbricas despediam quando as energias deles se esgotavam. Via-os ali, no jardim, com o Paredes a dobrar-se e a apanhar pontas de cigarros e os outros aguardando a passagem dos camaradas que trabalhavam, na esperana de que estes lhes dessem uns vintns. Via-os, depois, pelas escadas dos antigos patres, de mo estendida  esmola, e trilhando a rua onde ele prprio morava, velhos e velhas a caminho do Sindicato, onde recebiam os vinte escudos que mal chegavam para comer dois dias entre os sete que a semana tinha. E, no meio deles, via sempre a Marreta.
- E vossemec de que vai viver? - perguntou, timidamente.
O velho tecelo fez um gesto largo:
- Isso depois se ver... No te preocupes com isso!
Logo, com um tom mais ligeiro, como se mudasse de assunto, sem, no fundo, mudar:
- Ento a guerra parece que vai para o fim... A Itlia comeou a levar bordoada rija. Tens lido?
Horcio abanou a cabea:
- No, no tenho lido. Mas tenho ouvido dizer.
- Pois tem levado porrada de criar bicho!
Marreta desatou a falar da -guerra. Noutras mesas, outros operrios falavam da mesma coisa. E nos dias e semanas que se seguiram, a evoluo da guerra imperou sobre a ateno de todos eles. O desembarque dos anglo-americanos na Siclia e as pri 
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meiras vitrias dos russos haviam acendido nova f no planeta inteiro e incinerado o desnimo dos anos iniciais. E, assim, nas fbricas e nos humildes casebres da cidade quase ignorada do mundo, a ineia encosta da brava serra de lobos, os homens das ls iam vivendo tambm as angstias e as esperanas universais. Este, aquele e aqueloutro compravam gazetas de Lisboa ou do Porto, liam-nas e os demais quedavam a comentar os avanos e os recuos dos exrcitos em luta. Dagoberto recortara, do "Primeiro de Janeiro", dois mapas coloridos e,  hora do almoo, desdobrando-os sobre uma das mesas do refeitrio, buscava, de indicador estendido, as cidades onde os aliados combatiam: "Hoje, esto aqui... Amanh ou depois, com certeza chegam ali..." s vezes, explodiam discusses, porque uns haviam profetizado triunfos ou derrotas no consumados e outros, tidos por mais espertos, a seu bel-prazer talhavam, para as tropas, caminhos de que os parceiros discordavam. Mas, acima dos seus fragores verbais e do longnquo fragor das batalhas, importava-lhes, sobretudo, o resultado do prlio, o mundo novo que, todos diziam, viria depois da guerra.
Marreta e Joo Ribeiro eram dos que mais apregoavam, ali, essa crena. Quando eles afirmavam aquilo, logo as discusses se interrompiam e todos emudeciam a ouvi-los. Joo Ribeiro trazia os bolsos sempre cheios de jornais e revistas, alguns j pudos nas dobras; e, em abono das suas palavras, puxava por eles e lia telegramas ou trechos de discursos oficiais onde se afirmava, igualmente, que, finda a grande luta, viria um mundo melhor para todos os homens.
- Mas vir mesmo? - duvidou, um dia, Horcio.
- Se at chefes de governos que so conservadores o dizem!-respondeu Joo Ribeiro.-E se eles o dizem,  porque vem mesmo;  porque ningum o pode evitar...
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Na imaginao dos operrios, a era nova que se lhes prometia, se a Alemanha e a Itlia fossem derrotadas- que se lhes prometia na imprensa, na rdio, nos parlamentos, por toda a parte -, apresentava-se de forma ainda mal definida, mas em todos eles existia a funda esperana de que essa era efectivamente viria. Horcio acabara, tambm, por se contagiar da mesma f e ela ia vinculando, dia a dia, por lenta metamorfose, de que ele prprio no dava conta, alguns dos anseios da sua vida.
Uma madrugada de Julho, quando regressava a casa, no meio de outros homens que -trabalhavam, como ele, no turno da noite, avistou, ao entrar na Praa da Repblica, um grupo de operrios que, por gestos e palavras, anunciava, a distncia, o seu jbilo.
Que seria, que no seria, mal os que estavam viram os que se 
aproximavam, correram para eles, aos gritos:
- O Mussolini caiu! O Mussolini caiu!
Os que chegavam das fbricas, cansados do trabalho, tardaram a acreditar.
- Quem vos disse isso?
- Vrias pessoas ouviram na telefonia. Eu estava j a dormir quando aqui o Ildefonso, que soube do caso, me foi acordar. Ento ns dois chammos os outros para lhes dar a novidade...
- Mas como caiu o Mussolini? - perguntou o Boca Negra.
O Ildefonso adiantou-se:
- L isso ainda no se sabe. Mas que ele foi tirado do governo,  verdade. A BBC disse-o e repetiu-o muitas vezes ...
Os homens abriram os braos e comearam a abraar-se. Havia sobre a cidade dos lanifcios um cu estrelado de Vero e os homens continuaram a abraar-se.
- Agora est por pouco! Agora falta pouco! - profetizavam um e outro. E abraavam-se de novo.
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A alegria que aquela notcia criara prolongou-se por vrios dias. E as velhas ansiedades de redeno voltaram a florir mais fortemente, estimuladas, cada vez mais, por essa propaganda que, emitida em todas as lnguas e alimentada pela boca dos estadistas, andava no prprio ar que se respirava, a garantir, sem descanso, um mundo melhor para os que trabalhavam- assim que o inimigo estivesse feito em cinzas.
Uma manh, Horcio perguntou a Marreta:
- Vossemec  capaz de tornar a emprestar-me aqueles dois livros que me emprestou logo no princpio de eu o conhecer? Eu queria l-los outra vez...
No olhar do velho houve um lume de satisfao.
- Ora essa! Esto s tuas ordens!-Logo, porm, que concluiu a mudana das lanadeiras, Marreta acrescentou:-Mas, agora, tu no tens tempo para ler... Ests sempre aqui metido...
A sua voz tomara, de sbito, um tom melanclico e do seu olhar desaparecera o fulgor de h momentos antes.
-  para ler aos domingos - explicou Horcio. -Bem. Amanh j tos trago...
Marreta ia a dizer aquilo e ele a adivinhar o que Marreta pensava. Ele pensara, de repente, a mesma coisa: "Em breve, chegaria a tecelo e teria tempo para ler. Marreta seria despedido..." Esta ideia surgia, agora, constantemente, entre os dois. No carecia mesmo de palavras ou de gestos para nascer; apresentava-se por tudo e por nada, infiltrava-se nos silncios deles ou ela prpria, depois de estar presente, criava silncios.
Numa das semanas anteriores, Marreta dissera: "Qualquer destas sextas-feiras, depois de me pagarem a fria, pem-me na rua." Marreta nunca mais se referira quilo, como se lhe fosse penoso falar do caso. Mas Horcio sentia que era verdade o que lhe ouvira. Mateus, que se dirigia secamente a todos, nos ltimos dias comeara a tratar Marreta com
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afabilidade, como se quisesse tornar-se menos antiptico durante o acto que se aproximava. Se se detinha junto do tear, os seus olhos j no fixavam o trabalho de Marreta com a expresso fria de outrora; ao contrrio, pareciam encher-se de indulgncia. E era, ento, Dagoberto quem lanava odientos olhares sobre Mateus. S Marreta continuava com o seu sorriso paternal, ali e  hora do almoo, quando falava da guerra e do mundo novo que lhe sucederia. Agora, ele afirmava:
- Fico muito contente por quereres reler esses livros. Noimaginas,  o maior prazer que tenho hoje...
Na manh seguinte, trouxera os dois volumes:
- Todos os outros ficam  tua disposio...- ofereceu. Ao ouvi-lo, Horcio pensou que, vivendo Marreta na Aldeia do Carvalho, ele deixaria de o ver frequentemente, desde que o despedissem. Mas j o velho dizia:
- Mesmo depois, se quiseres, posso mandar-tos por um camarada...
Aquele "depois" comoveu Horcio. Ele afastou-se de Marreta e andou em volta da mquina, at junto do rgo; volveu, em seguida, e louvou intimamente o fio que se partira e lhe permitia estender os braos para at-lo, para fazer qualquer coisa...
Desde essa manh os dias foram decorrendo, para eles dois, cada vez mais penosamente. Marreta parecia resignado, mas Horcio adivinhava que ele, embora no o exteriorizasse, estava atento a todos os pormenores que podiam relacionar-se com a sua situao. Uma tarde, perguntou:
- J fez um ano que comeaste a aprender, no  verdade?
- Fez anteontem...
- Sim, deve andar por a... J estou admirado como tarda...
Arremessadas por metdicas pancadas secas, as lanadeiras passavam vertiginosamente de um lado
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para o outro, como se passassem no atravs da teia, mas atravs dos olhos de Horcio; e depois iam-se liquefazendo, porque nos olhos haviam rebentado lgrimas.
- No quero! - gritou Horcio, torturado. - No fico aqui!
- No sejas tolo... Viria outro, j te disse... - Marreta tornou mais doce a sua voz: -Desculpa-me... Eu  que sou o culpado, pois no devia estar a falar disto. Mas, s vezes, esqueo-me e fao-te mal, sem querer...
Efectivamente, naquela sexta-feira, depois do almoo, Mateus parou, um momento, junto do tear, deu amveis "boas-tardes" e continuou andando at ao fim da coxia. Voltou pelo mesmo lado, sempre em passo vagaroso e no olhando para as mquinas, como era seu costume, mas para o cho. Deteve-se, outra vez, junto de Marreta e disse-lhe rapidamente, como se tivesse pena de descarregar-se da obrigao:
- Voc est cansado, est quase no limite da idade, e o melhor  reformar-se. Eu c por mim custa-me dizer-lhe isto, mas so ordens. Voc deve ir ao mdico da Caixa Sindical, para que lhe passe o atestado de invalidez e voc poder receber o subsdio... No  muito: so apenas vinte escudos por semana, mas  melhor do que nada...
EMBORA tecelo feito e com a sua fria acrescentada, todas as semanas, pela da mulher, ao fim de um ano Horcio no se remira ainda, integralmente, da dvida ao Valadares> Os industriais haviam aumentado, finalmente, os salrios, mas o custo da vida subia sem parana, agravando-se sempre a desigualdade entre o que se recebia e o que se era forado a pagar.
Horcio barafustava e desconsolava-se tanto quando falava daquilo, que Idalina, reprimindo os seus prprios enervamentos, procurava conform-lo:
- Ns ainda temos muita sorte. Somos s dois e, melhor ou pior, l vamos passando. No forramos duzentos escudos por ms, como tu queres, mas forramos sessenta ou oitenta... O ms passado, forrmos cem. Agora, essas famlias que h para a...
Ele interrompia, sarcstico:
- Forramos cem! Tiramo-los ao corpo,  que ! No gastamos um vintm que no seja preciso. No vamos a divertimentos, no comemos o que queremos, no fazemos nenhuma extravagncia - nada!
Idalina, mesmo quando pensava como ele, insistia em apazigu-lo:
- Est bem, homem! Mas os outros passam pior ainda do que ns. Tu s tecelo e no temos filhos. Quase todos os outros ganham ainda menos do que tu e esto carregados de famlia. 
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e com tudo no prego. Ao passo que ns no temos nada empenhado. E seno fora o dinheiro que deste ao Marreta e aquele tempo em que houve s quatro dias de trabalho por semana, j tinhas acabado de pagar ao Valadares...
- O dinheiro que dei ao Marreta! Vinte e cinco escudos, a grande fortuna! E isso de quatro dias por semana, pode acontecer muitas vezes... Todos dizem que antigamente era o po de cada dia.
- No digo que no... No sei... Mas os outros tambm trabalharo ento s quatro dias e tm muitas bocas a comer...
Ele calava-se, admitindo, de mau humor, que a mulher tinha razo. "Sim, l filhos a sustentar no tinham eles, graas a Deus."
Essa situao durou, contudo, pouco tempo. Uma manh, quando ele ia levantar-se da cama, Idalina disse -lhe:
- Ando desconfiada... J h dias que ando desconfiada. ..
- Desconfiada de qu? - perguntou, alarmado. Ela no respondeu e ele no insistiu.
- Era o que faltava agora...-murmurou, entre dentes.
-Mas tu dizias que gostavas muito de crianas...
- Gostava e gosto! Mas no assim...
A semana decorrera-lhe inquietante e, por fim, ele tivera de aceitar aquela ideia, que tanto o enfadava.
No domingo de manh, sentara-se  mesita de pinho e lanara-se a fazer contas. De quando em quando, detinha-se, com a ponta do lpis metida na boca e os olhos fixos na parede; depois voltava a riscar o papel. Idalina preparava o almoo, de costas para ele. A certa altura, ouviu-o dizer:
- O dinheiro que falta pagar ao Valadares ainda devemos arranj-lo... Mas mais nada.
Idalina voltou-se:
- O que dizes? No entendo...
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- Digo que no podemos pensar mais na casa. Agora, com um filho, vai-se tudo. Tu j no podes trabalhar tanto e sempre h mais despesas...
- Ora essa! E os que tm cinco e seis?
- Tm cinco e seis, mas no tm casa sua... Estive a ver... Est aqui, no papel. Mesmo que as coisas de comer e de vestir no subam mais, mesmo que no haja nenhuma doena, depois de termos um filho, se economizarmos dez ou vinte escudos por ms  j uma sorte. E com o preo que tm hoje os terrenos e os materiais de construo, nem no fim da vida tnhamos juntado o suficiente para fazer a casa. H muitos dias que ando a pensar nisto. Desde que tu me disseste aquilo...
Era a primeira vez que ele lhe expunha, assim concretamente, as suas desesperanas sobre a casa; a primeira vez em que no procurava ocultar-lhe o seu desgosto e em que sentia at uma vaga, uma indefinida volpia de faz-la sofrer tambm.
O instinto de Idalina captava esse estado de esprito dele, pressentindo, no fundo das suas palavras, algo que era contra ela ou contra o filho que ela levava no ventre. E vinha-lhe, ento, o desejo de reagir, de convencer do contrrio o marido, de se defender:
- Ora! Ora! A vida d muitas voltas! Quem sabe l o que vai acontecer? Antes da guerra as coisas eram mais baratas e podem voltar  mesma, assim que a guerra acabar.
- Tambm j estive a ver isso - objectou ele, soturnamente. - A ver quanto se ganhava antes da guerra e quanto as coisas custavam ento. As contas esto aqui... Est tudo na proporo. Um operrio ganhava  roda de dez escudos. S alguns teceles de primeira categoria iam at dezasseis. A vida era mais barata, no h dvida, mas tambm os salrios eram mais pequenos. A prova  que os operrios no faziam casas para eles. Viviam nas mesmas em que vivem agora... Eu, s vezes, pensava nisto, mas como o que eu queria era chegar a operrio, no
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dava grande ateno. Eu pensava que os outros no eram econmicos, que gastavam dinheiro em vinho, em cafs e noutras coisas que no eram precisas. O Manuel Peixoto, quando andvamos na serra, todos os dias me dizia que os operrios eram uns relaxados. E, alguns que eu conhecia, eram relaxados, no h dvida. Por essas coisas todas, eu julgava que se um homem fosse econmico, podia, s com o seu trabalho, levantar cabea. Mas, agora, vejo que no. S com o salrio no se pode fazer nada. Tu at deixaste de comprar vinho e eu, hoje, fumo menos cigarros do que quando era pastor. E, afinal,  o que se v.
- A culpa no  minha - justificou-se Idalina. - Eu fao o que posso...
Ele exaltou-se:
- Quem te est a deitar a culpa? Nunca sabes ficar calada!
Levantou-se e rasgou, nervosamente, o papel em que rabiscara algarismos.
Desde esse dia sentiu que algo alura dentro dele, algo que vinha fraquejando h algum tempo j e desmoralizando-o nas ambies, na sua prpria fora de vontade. A ideia de perseverana, de vida regrada e dirigida para um s objectivo, deixava-lhe, muitas vezes, uma sensao de inutilidade.
Comeara a no contar os cigarros - um de manh, dois  tarde e dois  noite - como fazia at a. Sentia menos desejo de estar em casa, sentia-se saturado da casa e mesmo da companhia da mulher. Parecia-lhe que tinha a vida inteira para estar ali, sempre no mesmo casebre obscuro e sempre ao lado de Idalina - e isso impelia-o para fora e para outras convivncias.
Muitos dias, ao volver da fbrica, dirigia-se directamente ao Pelourinho e s  noite aparecia em casa,  hora de comer. Tornava a sair e, como se decidira a mandar fazer duas chaves da porta, s
vezes Idalina j dormia quando ele regressava. Um dia, ela queixara-se:
- Nunca ests comigo... Parece que j no gostas demim...
- No  nada disso. Tenho outras coisas...  que um homem precisa de saber o que vai pelomundo. E no  aqui, metido em casa, que eu sei...
Ele dissera aquilo apenas para se desculpar, mas, depois, pensara que, alm de tudo o mais, tambm aquilo era verdade, que era tambm por aquilo que ele passava muito tempo fora de casa. E que, se deixasse de o fazer, seria mais infeliz, pois custavalhe, agora, viver sem ouvir falar de guerra. Tinha-se dado, h pouco, a invaso da Normandia e grandes avanos a Leste - e isso galvanizara, de novo, os operrios. Quase todos eles se haviam tornado combatentes mentais e, cada vez com maior paixo, comentavam a luta sempre que estavam juntos, j no s  hora do almoo e da sada das fbricas, mas tambm  tarde, no Pelourinho, e  noite, nas esquinas e nos cafs proletrios da cidade.
Era no Joo Leito que Horcio, depois de jantar, se reunia com o Dagoberto, o Ildefonso, o Boca Negra e outros mais. Algumas vezes Pedro ia tambm ali. Dagoberto trazia, quase sempre, um novo mapa-o ltimo publicado pelo "Primeiro de Janeiro". E, ento, todos se vergavam sobre os nomes de cidades e regies que haviam sido conquistadas ou onde se pelejava, nomes que eles no sabiam mesmo pronunciar, e iam acompanhando, pelas notcias de cada dia, a marcha dos exrcitos conjugados, como se acompanhassem a marcha das suas prprias esperanas.
Pedro era o nico que levantava grandes disputas, sobretudo com o Ildefonso. Ele interessava-se pelos acontecimentos a que os jornais se referiam, mas mostrava-se cptico sobre os resultados que os companheiros aguardavam. E, algumas noites, retirava-se antes dos demais, melindrado com o que
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Hildefonso lhe havia dito enquanto discutiam. Ento, os outros tambm maldiziam de Pedro, afirmando que ele manifestara sempre tendncias burguesas, talvez por julgar que o pai lhe deixaria uma herana. E logo voltavam ao mapa - ao mundo que eles esperavam ver desenhar-se, um dia, sobre o mapa.
Alguns domingos, em vez de ir passar a tarde ali ou no Pelourinho, Horcio caminhava at  Aldeia do Carvalho, a visitar Marreta. Mais do que a amizade, impelia-o o desejo de ouvir o antigo tecelo dizer as suas palavras de crena no futuro, aquelas palavras de que ele, agora, carecia como de um alento para a vida. Continuava a considerar Marreta mais inteligente e sabedor do que os outros - e aquilo, dito por ele, parecia-lhe mais digno de f do que escutado aos operrios da Covilh.
Contudo, dessas visitas trazia sempre um amargor mesclado  confiana nos dias vindoiros que o velho lhe insuflava. Marreta nunca falava de si prprio e, se algum se referia  sua situao, ele afirmava que no tinha dificuldades - que os vinte escudos mensais lhe chegavam para a renda da casa e para as batatas. Ningum o acreditava e toda a vizinhana sabia que ele passara a comer uma s vez por dia e que, em alguns dias, no acendia sequer o lume, alimentando-se com duas ou trs batatas cozidas na vspera. Joo Ribeiro, Tramagal, Belchior e um ou outro camarada mais dedicado procuravam auxili-lo, mas ele teimava em recusar aquilo que eles teimavam em faz-lo aceitar. Que no, que no precisava; os outros tinham famlia e mais preciso do que ele. No domingo em que Horcio lhe levara cinquenta escudos, ele no quisera receb-los. Horcio, ao partir, deixara-os, escondidos, sob um prato; mas, no domingo seguinte, ele devolvera-lhos e s depois de muito instado aceitara ficar com metade.
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Emagrecera mais do que j era e os seus dois dentes isolados dir-se-ia terem crescido na 'boca chupada. Nunca mais falara da sua correspondncia com esperantistas estrangeiros, e, uma vez que Horcio aludira ao caso, ele soltara um rpido "deixei-me disso" e metera logo a outro assunto.
Um domingo, ao chegar ali, Horcio encontrou a casa fechada. Bateu uma, duas, trs vezes - e ningum veio abrir. Era, de novo, Inverno, as ruas estavam cheias de lama e desertas, porque comeava a cair uma molinha incmoda. Horcio bateu de novo. S a ribeira, l ao fundo, lhe respondeu com seus regougos nos penedais por onde se despenhava. Depois, Horcio ouviu ranger uma porta. Voltou-se e deu com a caratula da tia Lucrcia, vizinha de Marreta.
- Ele j deixou a casa - informou a velha. - Foi para o Albergue.
- Foi para o Albergue? - repetiu Horcio, surpreendido.
- Foi; foi ontem. - E a velha, a tremer com o frio, tornou a fechar a sua porta.
Sob a chuva, Horcio pensou em refugiar-se na casa de Ricardo e l colher pormenores da partida de Marreta. Mas logo desistiu, perante a ideia de que ficaria ainda mais triste se visse a misria em que Ricardo e a sua famlia ultimamente viviam. Ps-se a correr para casa de Tramagal. A chuva aumentara e, aqui e ali, por detrs dos janelicos da aldeia, lobrigavam-se rostos de crianas colados aos vidros, na monotonia do domingo invernoso.
Tramagal estava de serrote metido a uma tbua quando Horcio entrou:
- Ol! Vens de casa do Marreta ? Horcio queixou-se:
- Venho... Voc no me tinha dito nada... Nem voc, nem ningum...
Ao contrrio do seu feitio, Tramagal mostrava-se sbrio de gestos e de palavras:
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- Tambm eu no sabia. S ontem, depois de voltar do trabalho, mo disseram. Pelo visto, o Marreta no queria que ningum soubesse do caso antes de ele sair daqui. Parece que ele pediu para entrar no Albergue logo que o despediram da fbrica, mas esteve todo este tempo  espera de vaga... Anda, senta-te!
Horcio sentou-se. Os dois homens ficaram, um momento, silenciosos. L fora a chuva prosseguia.
- Mas ele andava sempre a dizer mal do Albergue: que aquilo no prestava para nada e que at eram mal empregados os cinco tostes que ns dvamos, por semana, para l...
- Pois ... -murmurou Tramagal. -  isso que me custa... Ele no foi para l porque gostasse daquilo... Ele no podia at ouvir falar do Albergue... E  por isso que eu, hoje, no tive coragem de ir l v-lo...
Horcio examinou o seu relgio.
- Eu gostava de dar J uma saltada... Mas j  tarde. chega e no chega, faz-se noite...
- Vamos os dois no domingo que vem. Quando penso no caso, at parece que sinto uma coisa a arranhar-me c por dentro! - disse Tramagal, levantando-se. E, caminhando para a porta, abriu-a totalmente e ps-se a respirar o ar hmido de l de fora, enquanto a chuva caa diante dos seus olhos.
Vetusto casaro, com uma esplanadazita em frente, o Albergue dos Invlidos do Trabalho erguia-se no meio de outras casas velhas da cidade. Horcio conhecia-o exteriormente, por haver passado algumas vezes ali, mas nunca se detivera no seu limiar. Agora, ao premir a campainha, a mo tremia-lhe. A princpio, ele no ouviu coisa alguma. Depois, soaram uns passos que vinham de
 
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longe, aproximando-se vagarosamente - e a porta abriu-se..
Horcio viu, ento, na sua frente, uma freira quarentona, de alvo chapu engomado e faces muito brancas:
- Boa tarde... - saudou com uma voz ao mesmo tempo pastosa e doce. - Que deseja?
- Eu queria falar ao Jos Nogueira. A um que chamam Marreta...
A freira hesitou e, puxando do seu hbito um cordo, examinou o relgio que na extremidade deste se amarrava:
- Ainda no  hora de visitas...-disse. - Faltam dez minutos...-Tornou a hesitar e decidiu-se:-Bem, j que est aqui, entre!
Horcio encontrou-se numa espcie de velho ptio, ao fundo do qual uma escada subia para o primeiro andar.
- Espere aqui, que eu you cham-lo.
Mal a freira desapareceu, Horcio ouviu uma voz que rompia, de sbito, o silncio do edifcio, cantando, nervosamente, uma cantiga que nunca se conclua, que ficava sempre nos primeiros versos - nos primeiros versos sempre repetidos. A voz ora se calava, ora volvia a cantar, s vezes, com frenesi, com um tom raivoso de quem houvesse fincado o p sobre o cadver de um inimigo vencido. Os desvairados estrdulos cada vez soavam mais perto, mais perto cada vez, e, somando-se  emoo que Horcio trazia, produziam-lhe crescente mal-estar. Por fim, a voz emudecera. Mas um outro rudo atraiu os olhos de Horcio para o cimo da escada. Desgrenhada rapariga surgira ali e contemplava-o com alucinada expresso. Quedara-se um momento parada e, em seguida, fugira, soltando um grito.
De longe, chegou at Horcio outra voz de mulher, que admoestava:
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- Eu no lhe disse j, menina, que no sasse do corredor?
Houve novo silncio e, depois, a freira voltou a aparecer. Na penumbra do ptio, a brancura dos seus hbitos quase anulava a outra figura que ao lado dela vinha. Era um homem metido numa fardeta coada, que sorria a Horcio, ternamente. O velho dlman e a cala remendada, mui cingidos ao corpo, ainda amesquinhavam mais o vulto. Horcio identificou-o pelo sorriso.
- Tio Marreta... Ento? - Queria dizer mais, mas no podia. As palavras ficavam-lhe na garganta, como pedras que a obstrussem.
Marreta abraara-se a ele:
- Ento, meu rapaz? Ento... como vais? - Tinha lgrimas nos olhos e tambm dificuldade em falar.
Estiveram assim alguns momentos e, depois, Marreta disse:
- Folgo muito em ver-te...
Mas no era nada daquilo que ele desejava dizer. Ambos sentiam que a presena da freira os perturbava. Marreta passou as costas das mos nos olhos, voltou-se e pediu:
- A irm d licena que v com este amigo l para dentro?
A freira inclinou a cabea.
Alguns passos feitos e os dois encontraram-se num obscuro corredor, logo numa galeria que neste entroncava. Agora, para onde quer que ele volvesse os olhos, Horcio via figuras de velhos - velhos por toda a parte. Uns coxeavam  sua frente, outros arrastavam-se sobre o lajedo, apoiando-se a bengalas. Aqui estava um grupo sentado e emudecido; alm, um homem solitrio, que roa as unhas e olhava para ele. Alguns, mais audaciosos, saam-lhe ao caminho e pediam:
- Tem um cigarrinho c para o velhote?
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Da banda de trs, o Albergue dos Invlidos do Trabalho lanava duas alas sobre umas territas cultivadas. Nestas andava, de um lado para o outro, sempre no mesmo trilho, como animal nocturno, e sempre de olhos no cho, outro velho que falava sozinho e gesticulava incessantemente para um interlocutor invisvel. De quando em quando, detinha-se, escarrava, fazia gestos mais bruscos e depois tornava a ir e tornava a vir, todo entregue quela interminvel discusso com o seu fantasma, quele infindo monlogo consigo prprio.
Do lado de l da horta havia outras galerias, a trrea e a do primeiro piso, lembrando um trecho de pobre claustro. Tambm nelas, Horcio divisava numerosos invlidos, uns esqulidos, vergados e completamente calvos, outros com umas farripas brancas por cima das orelhas. Num deles Horcio reconheceu o Paredes, que se mostrava de perfil, falando com outro velho.
- Podemos ficar aqui - disse Marreta. Encontravam-se no extremo da galeria e, em
frente, erguiam-se, nico osis para os olhos, duas laranjeiras com o seu verde picado pelo oiro dos frutos.
Horcio sentou-se num pequeno banco, ao lado de Marreta:
- Que ideia a sua de vir para c! E sem prevenir ningum! Quando soube, no domingo passado, tive um grande desgosto...
Marreta no respondeu logo. Colocou as mos sobre os joelhos e ficou-se, um momento, a olhar para elas.
- Que ia eu fazer? - murmurou, depois. - Os camaradas vivem com dificuldade e estavam a sacrificar-se por minha causa...
- Ora! Ora! Vossemec no queria aceitar nada. E um pouco a cada um no custava.
- Eu no queria aceitar, mas ia aceitando. E, um dia, oscamaradas acabavam por se cansar. Coi
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tados! Tomaram eles ganhar para a famlia que tm...
A voz da louca voltou a descer do primeiro andar. Era a mesma cantiga de h pouco - os mesmos versos sempre iguais. Logo, porm, se calou.
Marreta deu uma leve palmada na perna de Horcio:
- Agradeo-te, mas no te aflijas comigo! Aqui no se est to mal como eu pensava... No se pode dizer que seja um paraso, mas vai-se vivendo. A princpio, pode custar... Depois, a gente acostuma-se. Eu, daqui a pouco, estou acostumado, tenho a certeza...
A desvairada cantiga tornou a reboar do piso superior. E parecia meter-se por todas as frinchas, cobrir os dilogos de todos os velhos, traspassar e estarrecer o edifcio inteiro.
-  isto que mais me custa - confessou Marreta.- Mas tambm eu me hei-de habituar...
- Ento aqui h loucos?
- H alguns... No tm onde os meter e esto para a... No digo que estejam doidos de todo, mas faz impresso olhar para eles. A alguns conheci-os eu quando ainda trabalhavam nas fbricas e, agora, custa-me v-los assim, com o juzo perdido. Essa rapariga  a que est pior. D pena, porque no tem ainda vinte anos...
Marreta calou-se e, l em cima, a louca calara-se tambm. Horcio disse:
- Eu queria trazer alguma coisa para si, mas no sabia bem o que havia de ser... Como vossemec no fuma e, alm disso,  vegetariano... Mas diga-me o que  que mais falta lhe faz, que eu, no domingo que vem, trago-lhe.
- No preciso de nada. No te incomodes. - Marreta vacilou um instante e acrescentou: - O que eu desejo  que o frio passe. Estas terras do Albergue so tratadas por ns e eu gosto muito de tratar
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de terras. Logo que o frio abrande, eu irei cuidar da horta e j me entretenho.
Horcio voltou a insistir. De alguma coisa ele devia precisar, tinha a certeza. Toda a gente garantia que a vida do Albergue era m e ele prprio, Marreta, lhe tinha dito, muitas vezes, a mesma coisa, quando falava dos invlidos. E se agora dizia o contrrio, era com a ideia de no o incomodar, mas estivesse certo de que no o incomodava nada.
Marreta baixou os olhos:
- Bem, j que teimas, quando voltares c traz-me dois selos para o estrangeiro. E umas folhas de papel de carta... Devo resposta a uns esperantistas da Argentina e no tenho podido escrever-lhes...- A voz de Marreta comeara a enternecer-se, mas ele levantou-se e perguntou, com outro tom:-J viste isto, daqui?
Do extremo da galeria abrangia-se, para baixo das terras do Albergue, as vertentes da ribeira Degoldra e as vrias fbricas de lanifcios que, nas suas margens, se erguiam. Mais alm, na encosta da serra, mostravam-se longos aglomerados de pinheiros e uma ou outra ferida branca de pedreira. Marreta estendeu o brao e indicou ao longe:
- Acol, uma vez, encontrei um lobo. Eu ainda era pequeno e vinha de Cortes do Meio. Foi h muitos anos... Quase todas aquelas casas que se vem daqui ainda no existiam...
A sua voz tornava a comover-se. Ele queria reagir, mas a voz humedecia-se sempre daquela comoo:
- Nasci cedo de mais... Tu  que ests em boa idade. Tens muitas mudanas para ver, quando a guerra acabar...
No comeo da galeria surgira o velho Paredes, agarrado  sua bengala:
- Olha o Horcio! Olha o Horcio!
Tinha um sorriso pateta, desdentado. Horcio deu-lhe os dois cigarros que lhe restavam:
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- No sabia que vossemec tinha vindo, tambm, para c...
- Pois vim... Desde que me morreu a mulher... Que ia eu fazer? Mas de quem tenho pena  aqui do nosso Marreta. Eu sou um pobre-diabo; no valho nada... Mas ele... Custa-me! L isso custa-me!
Marreta interveio:
- Cale-se, homem! Deixe-se de tolices! Ouviram-se novos passos no lajedo. E uma voz
grossa, que Horcio conhecia. Tramagal e Joo Ribeiro avanavam na galeria, A freira que os guiava retirou-se e Tramagal abriu os braos:
- D c esses ossos, meu velho! No h direito de sair assim calado, que nem um rato! Por tua causa, eu at ia serrando um dedo... Olha! -E mostrava o indicador envolto num trapo branco.
Pouco depois, Tramagal e Joo Ribeiro faziam as mesmas perguntas e ofertas que Horcio fizera e Marreta repetia as mesmas escusas e explicaes que havia dado momentos antes. Paredes interrompeu-o:
- O que ele precisa  de um cobertor...
- O qu ?! - exclamou Tramagal. - Ento ele no tem cobertores?
- Tenho... Tenho...-declarou Marreta.
-Tem dois, mas no chegam. 'Eu tenho trs, e mesmo assim, com este tempo, sinto frio. Quanto mais ele! Ainda a noite passada eu vi-o a tremer na cama, l no nosso dormitrio.
Marreta ia a falar, mas j Tramagal enchia tudo com a sua indignao:
- Parece impossvel! Um homem que trabalhou toda a vida com ls, para os outros, no ter um cobertor quando chega a velho! Onde est essa superiora, que eu you cantar-lhe das boas! No faltava mais nada!
Os outros invlidos, que se encontravam sentados nas galerias, voltaram-se todos perante o vo
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zeiro de Tramagal. Marreta conseguiu, por fim, interromp-lo:
- A superiora no tem culpa. Ela at mostra boa vontade... Mas o Albergue tem poucos rendimentos. Os operrios pagam cinco tostes por semana e, com os salrios que tm, no podero pagar muito mais. De vez em quando, as freiras fazem um peditrio, mas, mesmo assim, no arranjam dinheiro que chegue, pois se alguns ricos do qualquer coisa, outros no do coisa nenhuma... De maneira que no vale a pena dizeres nada  superiora... Ainda se fosse s eu! Mas h muitos mais assim...
Todos ficaram, um momento, calados e, depois, Joo Ribeiro perguntou:
-'E os cobertores que tu tinhas... l em casa?
- Bem... Muitas vezes tenho pensado nisso... Mas eu tinha feito umas dividazitas e, antes de vir para c, vendi-os, para pagar... Vendi tudo...
Tramagal afirmou, sombriamente:
- Amanh j ters um cobertor. E j podias ter mandado dizer que te faltava...
- No quero! Onde tens tu dinheiro para fazeres assim, de p para a mo, uma despesa dessas?
- No h-de ser s o Tramagal a pag-lo... - disse Joo Ribeiro.
- Amanh ters um cobertor - repetiu Tramagal.- E vamos c a saber: a paparoca?
Paredes ia a responder por Marreta, quando este o deteve com um olhar - um olhar que fez surgir, na boca do outro velho, um sorriso resignado, em vez das palavras que ele se propusera dizer.
Tramagal comentou:
- No presta para nada, est visto!
- A comida  boa... - corrigiu Marreta. Depois, perante o admirado olhar de Paredes, acrescentou, hesitante: -A comida no  mal feita... Nos quartis, fazem-na muito pior... Talvez os velhotes comessem mais, se lha dessem... Alguns tm bom apetite, coitados!... Aqui o tio Paredes, por exem
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plo... Mas quem vem para aqui j sabe o que estas coisas so... Agora, c por mim, vocs no estejam a preocupar-se, que eu no passo necessidades. Como sou vegetariano, com pouco me arranjo. Nos primeiros dias ainda tive a umas dificuldades. Mas, depois, falei  superiora e agora fazem, para mim, uma panela  parte, com batatas e couves. Ontem, deram-me cenouras, coisa que eu j no comia h tempos. Souberam-me muito bem.
Mais uma vez a louca desatara a cantar. Alguns dos velhos olharam para cima, como se lhes fosse possvel ver a figura dela atravs do tecto. Logo voltaram aos seus lentos dilogos ou quela modorra a que se entregavam, de cabea vergada, as plpebras cerradas, as mos postas sobre o ventre.
Tramagal olhou em seu redor:
- Ainda assim, h, aqui, muita velhada... - disse. E voltando-se para Horcio: - O que me d raiva  pensar que nenhum destes gajos fez o que quis na vida!
Horcio tornou a entristecer de repente. Fechou os olhos para no ver os velhos, mas continuava a ver os velhos dentro dos seus olhos, os velhos e a casita que ele sonhara a desenhar-se agora sobre os velhos e ele velho tambm, ali, no Albergue, entre os outros velhos. Sentiu, de sbito, uma nsia enorme de sair dali, de deixar Marreta, de ir l para fora, para o Pelourinho, para algures, onde no visse nem os velhos nem o Albergue. Mas j Tramagal chalaceava e ria forte, procurando espairecer a Marreta, nos olhos do qual ele adivinhara, tambm, uma nuvem de tristeza.
Quedaram-se ali at s quatro da tarde. Quando se despediam, Marreta puxou Horcio para uma banda e murmurou-lhe:
- Estive a pensar nisso das cartas e como, agora, com a guerra, elas demoram muito a chegar e, s vezes, vo mesmo para o fundo do mar, o melhor 
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eu deix-las para mais tarde... Assim, em vez de trazeres osselos que eu te tinha pedido, traz um bocado de queijo para o Paredes comer. Eu sei que ele gosta muito de queijo, pois ainda anteontem mo disse.
VI
O filho de Horcio nasceu com bom tempo. Nas encostas vizinhas da cidade, os castanheiros sobreviventes dos grandes soutos pretritos mostravam, de novo, as suas copas lustrosas de um verde mui vivo de Primavera. No jardim pblico, as tlias apresentavam-se, tambm, exuberantes de folhagem, enquanto as roseiras de trepar haviam j florido sob as varandas das casas ricas. Das povoaes serranas, os rebanhos comeavam a subir para os cumes, ento como h cem, h duzentos, h mil anos, e iam devorando as flores silvestres que rompiam de todas as bandas, pulcras e humildes. Nas Penhas da Sade e na Nave de Santo Antnio, os amadores de esqui tinham dado o seu lugar aos pastores. E no mesmo stio onde, no Inverno, soavam gargalhadas de moos e moas elegantes, nas suas quedas, corridas e volteios sobre a neve, o silncio das alturas s era quebrado agora pela melancolia humana de alguma cano de pegureiro. Na Covilh, quando, a horas matinais, os operrios saam de casa para as fbricas, j encontravam, no caminho, um sol lmpido que cobria a cidade e a serra e parecia encher a serra e o Mundo todo de paz - a paz doce, luminosa, perfumada, cromtica, com que, nesses dias primaveris, a Natureza realizava, em silncio, a sua obra de criao. Era uma paz que dir-se-ia segre
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gada pelas prprias ervas, plantas e arbustos, pelas prprias fragas hirsutas e s por esforo do crebro se concebia que no fosse universal o domnio que ela exercia ali, nos penedores da montanha agora reverdecidos.
Contudo, l longe, a guerra, acercando-se muito embora do seu bito, no morrera ainda. E ali mesmo a harmonia s tinha existncia entre os vegetais e minerais da serra e no na alma dos homens. Os operrios entravam nas fbricas j excitados e trabalhavam ansiosos pela hora da sada, que lhes permitia conhecer as ltimas novas da peleja. Berlim agonizava. Sitiada e fuzilada de todas as bandas, ferida a todos os instantes por bombas e granadas, a cidadela arrogante ia cedendo hoje um passo, amanh dois, cada vez mais vermelha de sangue, mais dbil e encolhida sob o retumbar incessante do ferro e do fogo.
A irm de Dagoberto, quando vinha trazer-lhe o almoo  fbrica, trazia-lhe, tambm, o ltimo jornal chegado de Lisboa ou do Porto. Em volta da gazeta formava-se copioso grupo e as bocas iam mastigando o seu po enquanto os ouvidos escutavam, atentos, a leitura que Dagoberto fazia, tambm de boca cheia. Mas era  tarde e  noite, no Pelourinho e nos encontros de rua, que eles se apossavam das mais recentes notcias, propaladas por um ou outro habitante da cidade, que as colhera nos aparelhos de radiofonia. Hitler morrera. Os russos haviam chegado  beira da Chancelaria do Reich. O almirante Doenitz formara novo governo, longe da capital. E j ningum fixava os nomes das cidades que americanos, ingleses, russos e franceses ocupavam nesses derradeiros dias de batalha.
O ms de Maio comeara e nos castanheiros da colina de Santo Antnio surgiam os primeiros laivos amarelos da sua prxima florao. Na Praa da Repblica, as tlias preparavam-se igualmente
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para florir e encher o jardim com o seu gordo aroma.
H j semanas se aguardavam, ansiosamente, palavras anunciadoras de que a guerra terminara e a paz volvera tambm s terras da Alemanha. Por fim, essas palavras vieram e, ento, nas aldeias os sinos repicaram e cortejos festivos percorreram vilas e cidades.
A guerra terminara, mas a coincidncia que se havia previsto para o seu fim no se dera e um vcuo se abrira, mais uma vez, nas esperanas dos homens que trabalhavam nas fbricas. Era como se mos invisveis houvessem cavado, repentinamente, um fosso na estrada que eles trilhavam. Os aparelhos de rdio e os jornais j no se referiam a um mundo novo para todos os homens. Agora, os estadistas tratavam de outros problemas.
Uma noite, no Caf Leito, Ildefonso procurou justificar-se perante os companheiros e perante ele prprio da f que andara espalhando durante tanto tempo:
- Ainda  cedo para se deixar de acreditar... - disse. - Ainda est tudo muito embrulhado...
Pedro sorria, sarcstico. Os outros operrios viam aquele sorriso e irritavam-se. Tambm eles, agora, acreditavam menos nas palavras de Ildefonso do que meses antes. Mas o sorriso escarninho de Pedro parecia-lhe uma ofensa a todos eles, a algo que possua mesmo mais fora do que eles.
Pedro vangloriava-se:
- Um mundo melhor!... Quem tinha razo? Eu no dizia que o tal mundo no viria? Eram tudo lrias! E vocs, uns palermas, que acreditavam nisso!
Ildefonso levantou-se bruscamente e fez o movimento de retirar-se. Mal deu, porm, dois passos entre as mesas, no pde conter-se e voltou-se:
- Palerma s tu, compreendes ?
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Pedro olhou-o, surpreendido por aquela reaco. Depois respondeu com voz cortante:
- Aprendi contigo...
Palavra atras de palavra, o nada tornara-se, de repente, muito. Boca Negra agarrou-se a Ildefonso, no momento em que ele ia levantar os braos. Os outros operrios cercaram Pedro, que se havia erguido, tambm, da mesa:
- Vai-te embora...  melhor que te vs embora...- disseram-lhe, rudemente. E as vozes de todos pareciam solidarizar-se numa ameaa contra ele.
Boca Negra e Horcio saram, levando Edefonso. E, desde essa noite, os homens evitavam falar daquilo. Mas os dilogos acabavam sempre por se aproximar daquilo. Ento, um ou outro, tinha um sorriso seco e triste.
No domingo, Horcio foi visitar Marreta, que havia adoecido. O antigo tecelo encontrava-se numa das camas de ferro, cobertas de branco, que, em duas filas, constituam o dormitrio do Albergue. O seu corao enfraquecera, em Maro tivera duas sncopes e o mdico diagnosticara tambm uma nefrite.
Era a primeira vez que Horcio vinha ali depois de finda a guerra. E no queria desgostar a Marreta falando-lhe do caso, pois isso lembrar-lhe-ia, decerto, as previses que ele, como o Ildefonso e muitos outros, fizera e no se haviam consumado. Mas fora o prprio Marreta quem, depois de ter respondido s perguntas de Horcio sobre a sua sade, dissera de repente:
- Ento, mais uma vez, tudo ficou na mesma?
Horcio no respondeu. As mos de Marreta, descarnadas e da cor do marfim velho, dir-se-iam falecidas sobre a puda colcha branca.
- Mas isto no fica assim... - tornou. - Mais ano, menos ano,isto modifica-se. Vocs, os novos, ho-de ver muitas coisas...
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Horcio continuou calado. Tambm ele, depois de finda a guerra, voltara a ter dvidas. Os projectos que fizera, relacionando-os com uma melhoria colectiva, haviam comeado a parecer-lhe, nos momentos de desnimo, to inexequveis como os que tinha imaginado  base do seu salrio. Pedro dissera-lhe, vrias vezes, que Marreta "era um homem que andava nas nuvens" e ele, agora, escutava-o quase com as mesmas reservas de quando o conhecera na Aldeia do Carvalho. Havia algo, porm, que permanecia, apesar de tudo, no seu esprito uma admisso, uma hiptese, uma semente que no germinara e que no estava l antes de ele vir para as fbricas. E essa impondervel presena criava-lhe frequentes contradies. Quando ele, resmungando, maldizendo de tudo e de todos, pensava em resignar-se, em aceitar as circunstncias, acomodando-se a elas, submetendo-se a elas, como tinham feito muitos outros, como faziam muitos outros, logo aquela esperana que parecia morta ressurgia, nublada como sempre se lhe apresentara, mas viva e dando-lhe o nico consolo que ele encontrava nas suas horas de desespero.
Agora, escutando Marreta e lembrando-se de tudo quanto parecia confirmar as palavras de Pedro, a esperana e a dvida voltavam a digladiar-se.
Marreta acabara por notar o seu silncio:
- Hoje no ests nos teus dias... Ele fez um gesto vago:
- Queria que vossemec ficasse bom... Marreta teve um sorriso resignado e triste. Depois, disse:
- Hei-de ficar bom, ento no h'ei-de! Passo as noites mal e incomodo para a a velhada e as irms, coitadas! Mas isto cura-se.
Horcio olhou para ele. E quando, s quatro horas, saiu, vinha mais triste do que o sorriso triste que Marreta tivera.
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Os dias iam-se tornando cada vez mais longos. E das Portas do Sol viam-se j os castanheiros da colina de Santo Antnio todos amarelados, todos floridos. Eram poucos e dispersos, como os das encostas sobranceiras ao Sineirinho, mas lembravam a Horcio, numa tnue saudade, os grandes soutos das proximidades de Manteigas. Ele parou, um instante, a olhar os castanheiros e a pensar no que lhe dava saudade. Desenterrou da memria dias e anos da sua infncia e da sua adolescncia e concluiu que nunca tivera nada de to bom que merecesse a pena ser recordado. Continuava, porm, a sentir saudades, uma saudade por coisas indefinidas, que no sabia explicar a si prprio. Pensou que seria pelos pais, a quem no via h j bastante tempo; que seria dos primeiros dias de namoro com a Idalina, mas, depois, convenceu-se de que no era por isso tambm.
Quando, finalmente, Horcio atravessou o Pelourinho, havia l, como todas as tardes, grupos de operrios e de empregados comerciais a pairarem. Mas ele no se deteve. Desde que terminara a guerra, voltara a passar quase tantas horas em casa como nas primeiras semanas de casado. S saa depois de jantar, quando o Joanico dormia. E era a prpria Idalina que lhe pedia, agora, para ele sair: "Vai dar uma volta, seno, assim, sempre a falar, acordas o menino."
Ele sentia-se cada vez mais preso ao Joanico e contente porque a cara do filho se assemelhava  dele. Todos diziam que raras crianas, nos primeiros meses, se pareciam com os pais, mas o Joanico, desde que nascera, parecia-se com ele; era os seus olhos, o seu nariz e at o seu queixo aguado.
Na fbrica, Horcio estava sempre desejoso de voltar a casa e, muitas vezes, imaginava que podia acontecer, na ausncia dele e da mulher, algum acidente ao menino. Depois do parto e antes de retomar o seu trabalho de esbicadeira, Idalina tentara deixar o filho na Lactria, onde a Josefa tambm
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deixava o seu. Mas l disseram-lhe que no podiam receb-lo, que no tinham lugar para mais de doze crianas, nem leite para mais de vinte e quatro, nem dinheiro para comprar mais leite e mais beros. Escusava ela de falar alto, de reclamar, pois aquilo era uma obra de particulares, de senhoras que possuam bom corao, mas no dispunham, de meios para recolher as mil ou mais crianas pobres que havia sempre na Covilh. Idaiina decidira, ento, pedir  Procpia que lhe tomasse conta do Joanico, enquanto ela estava na fbrica. A Procpia no quisera fazer-lhe preo, mas calara-se quando a ouvira dizer que, depois, lhe daria alguma coisa.
Todos os dias, durante a hora do almoo, Idaiina saa, a correr, da fbrica, disparava rampa acima e vinha entregar o seio ao filho. Recomendava sempre  Procpia que no se esquecesse do bibero das quatro e, s depois disso, regressando ao trabalho, comeava a tasquinhar, ladeira abaixo, a sua cdea e a sua sardinha. As outras mulheres, que a viam chegar e partir, sorriam, cpticas e experientes, daquela azfama - e 'garantiam, mesmo em. frente dela, que tantos cuidados s se tinham com o primeiro filho. Mas Idaiina pensava que ela seria sempre assim, por muitos filhos que tivesse.
A Horcio, a Procpia parecia-lhe mondonga, pouco cuidadosa e cada dia ele tinha maior receio de que ela no tratasse bem o Joanico.
- Ainda o melhor seria tu deixares de ir  fbrica e comeares a esbicar em casa - disse ele, uma noite,  mulher.
- Tambm tenho pensado nisso. Mas, se fico em casa, ganho menos, j se sabe... Por muito que no queira, mete-se uma coisa e outra e o trabalho rende pouco.
Horcio considerou um momento, em silncio, e, depois, concordou:
- Pois ... Isso ...
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Outra noite, ao pegar no Joanico ao colo, ele viu nas pernitas do filho uns crculos avermelhados, que nem de brotoeja.
- Que  isto? - gritou.
Idalina aproximou-se, ainda, antes mesmo de examinar a tenra pelezita, j ele berrava de novo:
- So mordeduras de percevejos, no h que ver! Essa Procpia  uma porca, eu sempre o disse!
Idalina interveio, inquieta:
- Cala-te, homem, cala-te! Fala baixo... Ela pode estar a na rua e ouvir-te...
- Pois que oua!  uma porcalhona, no h dvida! Deixa fazer isto ao menino!
Idalina sabia que no tinha na vizinhana outra mulher que pudesse, como a Procpia, tomar-lhe conta do filho enquanto ela estava na fbrica. E, aflita, procurava serenar Horcio:
- Deixa l, que no  por isso que a criana morre... Eu hei-de falar  Procpia, mas percevejos h-os por toda a parte, agora com o calor. Aqui mesmo os temos a dar com um pau. Ainda ontem encontrei dois. E tu no s, todas as noites, ferrado por eles?
- Ns somos crescidos! Uma coisa somos ns e outra coisa  o inocente, que no se pode defender! Compreendes?
Depois destas ltimas palavras de enervamento, ele pareceu ter reconsiderado - e calou-se. Mas, logo a seguir, pousou o filho na cama e comeou a tirar, lentamente, a traparia do bero e a escabich-la de um lado e de outro.
- C est um!-exclamou. E logo: - C est outro! Assim, como  que a criana no h-de estar mordida?
Novamente Idalina interveio, conciliadora:
- Pode ser que sejam mesmo da nossa casa. Neste tempo, as madeiras esto cheias deles...
- Pois ento, no domingo, vai-se fazer, aqui, uma limpeza geral. Tem de se acabar com isto!
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Efectivamente, no domingo seguinte, mal regressara do Albergue, com a alma mais aliviada porque Marreta parecia haver melhorado, metera mos  tarefa. Havia comprado petrleo e ps insecticidas e, num instante, com Idalina, desarmara a cama.
- O colcho para a rua, para arejar!
E enquanto Idalina lhe obedecia, ele buscava os parasitas entre os ferros. Surgira um, surgiram dois, surgiram dezenas, que ele ia esmagando com raiva. Posto a um canto, no seu bero, o Joanico largara a chorar.
- Cala a criana e vem c! - ordenou Horcio  mulher.
Ele acabava de descobrir que, nas junturas do soalho, por baixo da cama, tambm se acoitavam percevejos. Pusera, ento, Idalina. a esfregar aquelas tbuas velhas, enquanto ele esquadrinhava, com uma lascazita de pinho na mo, a mesa-de-cabeceira. Mas o Joanico voltara a chorar, a complicar aquilo, a irrit-lo mais.idalina 'caminhava do alguidar de gua suja para o bero e do bero para o alguidar.
Tambm a mesa de cabeceira se encontrava habitada. Ele comeara a escarafunch-la e a polvilhar-lhe o interior, quando a figura de Manuel da Boua se esboou  porta, com aqueles retrados modos de quem se tem sempre por inoportuno:
- Boa tarde...
Horcio mal lhe respondeu e continuou a sua faina.
H muitos meses j que Manuel da Boua lhe frequentava o casebre. O proprietrio do armazm onde o velho trabalhava, considerando quase inteis os seus servios, nunca lhe aumentara o ordenado. E, com a carestia dos alimentos, pela guerra provocada, dias havia em que ele passava fome. Dera-se, ento, a buscar um e outro conhecido, a aparecer-lhes  hora do jantar, a oferecer-se para recados, a precipitar-se se via ensejo de poder auxiliar a dona da casa. Estava cada vez mais decrpito e, com
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a barba quase sempre por fazer e o dorso abaulado, os seus pesados movimentos lembravam os de um velho gorila. Percebera que a Horcio no eram gratas as suas descrenas sobre os homens e sobre o seu amanh e cessara de falar delas. E se, por alguma irreprimida palavra, as deixava entender, logo as corrigia ou se calava. Humilde, servial, de suja andaina remendada por ele prprio, a fome adivinhava-se-lhe nos olhos e na tremura dos lbios quando algum comia na sua frente. Horcio compadecia-se dele, mas continuava a no lhe dar espontnea simpatia. Algumas vezes surpreendia-o de olhar fixo, muito fixo, no Joanico, como se estivesse a recordar-se de alguma coisa que s ele sabia ou a ver a cabea do menino por dentro. Nesses momentos, parecia a Horcio que aquela mirada podia fazer mal  criana, prejudicar-lhe o seu futuro, pois dir-se-ia que os olhos de Manuel da Boua estavam a ver coisas que mais ningum via. E, ento, mal disposto, Horcio soltava bruscas palavras, que faziam o velho quebrar a fixidez do seu olhar e estremecer, como se voltasse a si de algures, de muito longe ou de dentro da cabea do prprio menino.
Ao contrrio do marido, Idalina simpatizava com Manuel da Boua.
-  um pobre homem! E honrado! Nunca me fica com um tosto!-dizia, quando Horcio o criticava. -  um pobre homem e no tem ningum por ele. Quando penso que teve uma filha e se v agora assim abandonado, sinto pena...
Com Idalina, desde que trabalhava na fbrica, s aos domingos podia ir ao mercado, era Manuel da Boua quem, um e outro dia, de manh cedo, antes de entrar no emprego, lhe fazia algumas compras. E tambm ao comeo da noite, depois de sair do armazm, estava sempre pronto a obedecer-lhe, a ajud-la nisto e naquilo, a ir ali e acol, consoante ela precisava. Depois, quando a via a levantar do lume a ceia, fingia que se retirava:
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- Bom... Ento at amanh... Deus lhes d boas-noites...
- Espere a, homem!-Idalina metia-lhe nas mos uma tigela de caldo.
Posteriormente, como Horcio afirmasse que o molestava ver Manuel da Boua a olhar para eles enquanto ceavam, tanto mais que no podiam oferecer-lhe de tudo, Idalina, logo que ele simulava despedir-se, dizia-lhe:
- Volte daqui a um bocado... Preciso de si... Naquela tarde,ao encontrar a casa desarrumada
e Horcio a limpar a mesa-de-cabeceira, Manuel da Boua sorriu, desde a porta:
- Ests a dar-lhes, hem?  o tempo deles... No meu quarto tambm os h aos cardumes. Olha l: queres uma ajuda?
Horcio no lhe respondeu, mas ele tomou o seu silncio por aceitao. E, com um gancho de cabelo que Idalina lhe dera, ps-se  cata dos ninhos ocul tos em quantos cortes e gretas tinham as paredes e as madeiras. Procedia lentamente, mas com mestria, como se houvesse passado a vida naquela funo. Para ver melhor, pedira a Idalina que acendesse o candeeiro e, de quando em quando, Horcio ouvia-lhe um riso voluptuoso e surdo: "  ." Era sempre no momento em que extraa do seu aprisco um dos percevejos e o fazia estalar sobre a chama do candeeiro. Havia-os por toda a parte. Da casa j tresandava para a rua o cheiro do petrleo e muitas das frinchas estavam j tapadas com o p insecticida; apesar disso, Horcio e Manuel da Boua continuavam a encontrar parasitas. O Joanico voltara a chorar.
Horcio ouvia o filho, via a mulher agarrada ao esfrego, Manuel da Boua puxando sempre o candeeiro para junto dos seus olhos cansados, ele prprio a pesquisar os interstcios da cantareira - e rosnava: "Porcaria de casas! Grande porcaria!" De repente, ele viu o Joanico, j mais crescido, j a
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andar por seu p, num quintal que havia junto de uma casa pequena, mas que era muito branca por fora e muito limpa por dentro e de telha francesa, como as dos Penedos Altos. Depois, viu muitas crianas a brincarem em jardins, onde havia palmeiras e relvas e grandes casas ao fundo, no Estoril, na Parede e ali mesmo, no cimo da Covilh, onde estavam as casas dos patres. Pela primeira vez, ele no evocava aquilo com a simpatia admirativa de quando regressara de Lisboa a Manteigas, nem com a tristeza de quando vira que no lhe coubera nenhuma das casitas dos Penedos Altos. Pela primeira vez ele evocava aquilo com estado de esprito odiento, numa surda revolta que o fazia resmungar enquanto buscava os percevejos.
Na tarde domingueira, a Traquitanas, a Josefa e a Procpia, vendo expostos ao sol a enxerga e as mantas, vieram trazendo a curiosidade at  porta aberta.
- Boa vai ela! -exclamou a velha Traquitanas, com seu caro escuro e enrugado, quando deu pelo que se fazia l dentro. -  um trabalho que no paga a pena! Vocs limpam hoje, mas, amanh, est tudo, outra vez, cheio deles...
E as trs mulheres comearam a rir-se, umas para as outras, daquela falta de experincia da vida.
Os percevejos prosperavam no Vero - toda a gente o sabia - e os habitantes do bairro tinham-se acostumado a eles. O Vero ia em meio e os homens raramente pensavam nos percevejos, que eram um simples incidente da noite, que o Inverno eliminaria. Outras preocupaes eles moam. Naqueles meses de Estio, os jornais comeavam a falar das consequncias da guerra. Em vez do po para todos, que se anunciara para depois da luta, haveria, no mundo
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em runas, falta de po at para muitos dos que, antes da guerra, o tinham abundantemente nas suas arcas. Quando o Inverno imobilizasse os percevejos, milhes de homens na Europa, que  guerra, haviam sobrevivido, morreriam de fome e de frio.
Um dia soubera-se que, por isso, os Americanos tinham feito, tambm em Portugal, gordas encomendas de cobertores destinados queles que, nas aldeias e cidades destrudas, se encontrariiam sem abrigo quando a neve comeasse a cair na Europa. E, assim, nas fbricas da serra no haveria falta de trabalho, como era to frequente nos anos em que o mundo vivia em paz,
- Estamos com sorte! - regozijou-se Pedro, uma noite, no Caf Leito. - No iremos para os quatro dias...
Fio cardado, panos grosseiros, constituam a produo de Manteigas - e a Manteigas foi entregue grande parte da encomenda. Azevedo de Sousa que, h anos, vinha sendo instado para se associar a uma velha fbrica daquela vila, cujo dono pretendia moderniz-la, decidiu-se, ento, a entrar para ela com o seu nome e o seu dinheiro. Na Covilh, os industriais tambm se mostravam contentes, porque, afinal, o mundo no se subvertera, como alguns deles haviam chegado a temer. Os seus remotos caboucos tinham resistido ao 'grande ciclone; o capital e a propriedade subsistiam. E como a Inglaterra e outros pases concorrentes, ainda feridos pela briga, no podiam, por enquanto, voltar aos mercados com os seus tecidos, os teares da Covilh continuariam a laborar intensamente.
Viera o Outono e os castanheiros comearam a adquirir um tom acobreado e, depois, a deixar cair a folha. No Lactrio, o filho da Josefa chegara  idade de coner farinhas e fora, por isso, entregue  me, para o seu bero ser por outro ocupado. Quando Idalina viu o filho da Josefa sentiu a inveja esmordag-la. Ele estava gordinho, rosado de faces e muito
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limpo; parecia mesmo o menino que se sentava no livro de Santo Antnio, numa das igrejas de Manteigas, ao passo que o seu Joanico andava magrito, sempre mal da barriga e sempre com a cara suja.
Os jornais continuavam a falar de fome e de frio na Europa. Havia cento e quarenta milhes de bocas famintas. Milhares de crianas morriam por falta de alimentos, milhes de homens erravam de terra para terra, assaltando e matando nas encruzilhadas da noite outros homens, por um simples naco de po. A misria instalara-se na Europa, mais negra e mais densa ainda do que fora sempre e s ela parecia dominar tudo, inexoravelmente.
Os operrios liam ou ouviam falar daquilo e um ou outro soprava, cansado: "Nunca mais samos disto!" Tambm a vida deles piorara e se enchera de mais restries, de mais renncias, que cada vez era maior a desigualdade entre o que recebiam e o que pagavam para viver. Mas, no mago da alma, quase todos eles tinham como que o pressentimento de que, um dia, sairiam daquilo. E falavam assim no s pela acre volpia de se contrariar a eles prprios, mas para no parecerem, perante eles prprios e perante os outros, to ingnuos como Pedro dizia que eles eram.
Nos princpios de Dezembro cara a primeira camada de neve. De manh, ao ver a serra toda embranquecida para os lados do Sanatrio, Horcio, enquanto marchava para a fbrica, ia pensando nos homens, nas mulheres e nas crianas que, nos pases da Europa onde houvera guerra, no tinham cobertores. E apiedava-se deles. Via-os esfarrapados, os pais abraados aos filhos e todos a tremerem com frio debaixo daquelas runas cobertas de neve de que os jornais publicavam as fotografias. E cada vez sentia mais piedade. Mas, depois, comeou a pensar no Albergue, no Marreta, na Jlia, quando empenhara as suas mantas, naquele homem que ele havia encontrado morto, uma noite, na estrada da
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Aldeia do Carvalho e o seu estado de esprito modificou-se.
A neve continuou. Dos beirais dependuravam-se nveos berloques, nveas estavam as ruelas habitualmente escuras, tudo branco, tudo branco, menos as portas dos casebres, que pareciam entradas para negras covas. Os fios telegrficos e telefnicos tinham engrossado com o gelo, grossos como cajados de pastor, grossos como sogas, e j nem pardais, nem piscos, nem outras asas neles pousavam. Os velhos invlidos haviam desaparecido tambm do jardim pblico, expulsos pela neve que cobria toda a terra e dava s rvores da praa fantsticas expresses. Era a tremer de frio, dentes batendo nos dentes, que Horcio e Idalina se levantavam logo que cada dia apontava e se vestiam e abalavam estrada abaixo, cheia de vultos negros contrastando com a brancura que pisavam e dirigindo-se, como eles, para as fbricas.
Nos planaltos da serra a neve subira j muitos palmos e, ento, como todos os anos, comearam a passar pela Covilh rapazes e raparigas, filhos de gente endinheirada, que vinham de Lisboa fazer esqui. Traziam, por mor do tempo, muitos abafos, grossas blusas, luvas e gorros de l tudo ainda mais bonito do que os abrigos que se fabricavam ali. Quedavam-se, alguns momentos, no Pelourinho, enquanto se organizavam os transportes. Os motoristas olhavam-nos com contentamento, esperando que eles fossem seus clientes. Os industriais, o presidente da Cmara, outras figuras gradas da cidade ficavam contentes tambm, porque aquelas presenas contribuam para o prestgio turstico da Covilh. Por fim, os rapazes e as raparigas partiam para o alto da serra, para o Hotel das Penhas da Sade. E l, durante as manhs e as tardes, eles corriam, com seus esquis, sobre as longas superfcies nevadas, sobre os longos declives brancos, volteia aqui, tomba ali, ergue acol, e os seus
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alegres risos iam quebrando o gelado silncio da montanha.
Quando, fatigados, volviam, ao hotel,  longa varanda envidraada e aquecida, onde comeavam ou prosseguiam os derrios e se discutiam as corridas feitas, alguns deles, que haviam andado pela Sua e Pirenus, olhavam as brancas solides que rodeavam o edifcio, a neve que cobria tudo, desde a montanha  cidade que lhes ficava aos ps e lamentavam que ela no fosse ainda mais espessa, no fosse ainda suficiente para se praticar o verdadeiro esqui. As raparigas que nunca tinham ido ao estrangeiro, acendiam os seus cigarros e ficavam-se a escut-los, com admirao pelo que eles contavam de Super-Bagnres e Chamonix.
 noite, visto de longe, o hotel, com suas luzes, dir-se-ia um enigmtico navio encalhado nos ermos polares. Parecia dar  montanha um silncio diferente do seu silncio habitual, como se houvesse l um apelo sufocado e, ao mesmo tempo, uma vida autnoma de tudo o mais. Mas, visto de perto, tudo se modificava. O hotel integrava-se no todo, fazendo a luz das suas janelas brilhar, c fora, rectngulos de neve e as fantasiosas cristalizaes que se dependuravam do telhado. L dentro, os rapazes e as raparigas danavam.
Um e outro dia chegavam novos grupos. Se atravessavam a Covilh depois de encerradas as fbricas, Pedro, ao v-los passar, sentia sempre desejos de partir com eles. Uma tarde, decidiu ir, no sbado seguinte, dormir na casa do Trigo que era o guia das Penhas da Sade e l passar o domingo, como fizera algumas vezes, nos anos anteriores. Encontrando Horcio, instou para que o acompanhasse. Que valia a pena ver aquilo, que seria um dia bem gozado, e que o Trigo, por uns patacos, lhes daria cama e comida.
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- Na! - escusou-se Horcio. - Ir romper as solas por a acima e ainda gastar dinheiro, para ver os outros divertirem-se, que graa, tem.?
Pedro voltou a insistir. Que tambm ele podia aprender esqui, se quisesse. No era coisa do outro mundo e o Trigo arranjar-lhe-ia o necessrio.
Horcio riu-se dele:
- Eu sei... Tu queres ir por causa das raparigas. Mas olha l: tu pensas que elas te ligam alguma? Ricas como so, esto  tua espera...
Pedro tardou a responder.
- No fosse o raio do trabalho, que me tira o tempo - disse, depois - e tu ias ver! Pudesse eu passar l os dias como os que vm de Lisboa ou como os filhos dos industriais! No sou um homem igual aos outros? O mal  que s posso l ir aos domingos. E os outros ficam com toda a semana livre. Ainda o ano passado uma me deu sorte. Era de se lhe tirar o chapu! Bonita, o que se chama bonita, no digo que fosse, mas tinha uns olhos que faziam perder a cabea a um homem e uma boca que apetecia morder mais do que a uma cereja espanhola. Aquilo s no foi adiante porque eu no pude passar l a semana. E quando voltei, no outro domingo, j ela tinha partido...
Horcio continuava a rir-se.
- Vem comigo! - repetiu Pedro.-A gente at se esquece das tristezas que temos aqui. Pensa at sbado, e decide-te!
Passaram os dias e, no sbado  tarde, Horcio soubera que Marreta piorara. Ele fora logo ao Albergue e Marreta mal podia falar. Pedro abalara sozinho.
No domingo, Marreta parecia haver melhorado e sorria-se do "susto que -dizia- tinha visto na cara dos camaradas".
Uma das irms de caridade havia pedido a Horcio que no demorasse muito ali e dito a Marreta que falasse pouco. Mas este desobedecia-lhe e quanto
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mais Horcio se calava, mais ele ia tagarelando. Como em todos os outros domingos, voltava  sua obsesso:
- E, ento, l por fora, o que se diz? Agora nem me deixam ler jornais...
- Parece que cada vez tudo est pior...
- Pior? Qual o qu! Deixa-os l falar... Pode estar pior agora, mas tenho a certeza de que h-de melhorar... Tu no vs que todo o) mundo est tremido e que isto no pode manter-se assim?... Eu estou aqui encafuado, mas vejo as coisas perfeitamente... Um dia, todos os homens ho-de vir a ser como irmos e no haver mais uns que tm tudo e outros: que no tm coisa alguma. Haver fartura para todos. Podes estar certo disso, digo-to eu! E tamlbm ho-de acabar as guerras, assim que os homens acabarem com as fronteiras. A Humanidade ficar unida. Ningum me acredita, eu bem sei, mas, um dia, as guerras ho-de acabar...
Ao v-lo agitado, ofegante, Horcio pediu-lhe:
- No fale tanto, que pode fazer-lhe mal...
Marreta teve um gesto de indiferena. E continuou a vaticinar o futuro, com ardor crescente, como se tudo dependesse das suas palavras, da sua crena, at que a freira tornou  porta:
- Esto aqui mais dois amigos seus... Marreta, ento, calou-se e ficou  espera, mas a
freira no deixou Tramagal e Dagoberto entrarem enquanto Horcio no saiu.
A horta do Albergue estava coberta de neve, vergando-se as folhas das couves sob o peso branco que suportavam. Nos corredores, os invlidos aquietavam-se nos bancos, muito encolhidos, muito embrulhados em trapos, em velhos casacos e sobretudos rotos, quase to velhos como eles.
Ao chegar a casa, Horcio encontrou a mulher sentada, com a Josefa  beira do lume.
- Que tal vai ele? - perguntou-lhe Idalina.
- Parece que est melhor...
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A Josefa no conhecia Marreta e voltara  conversa que a chegada de Horcio interrompera. Enquanto a ouvia, Idalina olhava, com ateno diferente da dos outros dias, para o filho que ela tinha adormecido nos braos. Dir-se-ia no ser o mesmo que viera do Lactrio, meses antes. Perdera a cor das faces e estava agora magrito, muito plido e sempre ludro. S a barriga lhe crescera. Mas a Josefa parecia no estranhar aquilo. O seu filho era como os outros do bairro e j se sabia que quando as crianas, que haviam estado no Lactrio, voltavam para a misria dos pais, ficavam quase todas assim.
Logo que a Josefa saiu, Idalina pensou revelar a Horcio as suas dvidas. Mas conteve-se. E s mais tarde,  hora de se deitarem e depois de ter arrastado para junto da cama o bero do Joanico, ela disse ao marido:
- Ando desconfiada de que estou outra vez. . .
Marreta faleceu na tera-feira. Horcio soube a notcia quando atravessava a Praa da Repblica, vindo da fbrica, e caminhou direito ao Albergue. L, parecia que se no havia passado coisa alguma. S a irm de caridade, que veio abrir-lhe a porta e o acompanhou no corredor, falava mais baixo do que habitualmente.
Os velhos continuavam sentados nas galerias, muito encolhidos nos seus farrapos, como se no se tivessem movido desde a ltima vez que Horcio viera ali.
A freira parou  entrada da capela morturia do Albergue. Marreta estava estendido l ao fundo, sob um lenol branco. Algumas velas ardiam em volta dele e de um crucifixo. Horcio ia a entrar, mas, subitamente, deteve-se. Tornou a ensaiar um passo
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e tornou a deter-se. A irm de caridade murmurava uma orao. Horcio quedou-se alguns segundos a olhar, depois voltou a cabea e tossiu com receio de que as palavras no lhe passassem da garganta.
- Venho amanh ao enterro... - disse, para dizer alguma coisa.
A freira tornou a acompanh-lo. Ia, de novo, no corredor, quando o Paredes surgiu ao seu lado:
- Ento o nosso Marreta l se foi?... Horcio continuava a ter dificuldade em falar:
- E verdade...
- Para ele foi melhor assim. Em vez de estar para a a padecer...
Nenhum deles disse mais nada.
O funeral fez-se no dia seguinte, ao fim da tarde, como era costume ali, para que o pessoal das fbridas pudesse acompanhar os mortos ao cemitrio.
Vieram operrios da Aldeia do Carvalho e muitos da Covilh juntaram-se, tambm,  porta do Albergue. Marreta no pertencia a irmandade alguma, mas duas das existentes, por simpatia para com ele, haviam decidido tomar parte no seu enterro. Apareceram, porm, Ildefonso e outros mais a afirmar que, no sendo Marreta religioso, no devia ter acompanhamento de confrarias. Discusses desatadas, teima este, teima aquele, Boca Negra mostrava-se, entre todos, o mais ferrenho:
- No era religioso? Ora essa! E, ento, no Albergue? Aquilo no est cheio de freiras e de rezas?
Ildefonso encolheu os ombros:
- Que ia ele fazer?
Embora a maioria fosse crente, acabou por se deixar vencer: o funeral no levaria irmandades. Mas, horas depois, o Boca Negra arrependia-se de ter transigido. Sentia-se em luta com a sua conscincia e parecia-lhe que ele prprio nunca mais teria repouso se deixasse ir Marreta, esse amigo que ele estimava tanto, assim abandonado para a sepultura. Fala a um, fala a outro, convence este e aquele, con 
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seguiu pr,  hora do funeral, a Irmandade das Almas em frente do Albergue.
Caa a noite quando o esquife transps o porto, conduzido por quatro velhos. E, atrs destes, outros surgiram, com a sua fardeta e o seu bon de albergados - um exrcito de invlidos que acompanharia, conforme era da regra, o morto at  beira da cova.
Metido na carreta o caixo, o cortejo formou-se rapidamente.  frente, marchava a Irmandade das Almas, os Irmos levando opas vermelhas e velas acesas, enquanto outros transportavam! as bandeiras da confraria pobres oleografias religiosas emolduradas na extremidade de varas. Junto do esquife caminhava o padre e o aclito e, atrs, numa mancha negra, os homens das fbricas.
 porta do Albergue, aqueles invlidos que, tolhidos de reumatismo ou de velhice, j no tinham foras para caminhar, viam partir, em silncio, pelo mesmo caminho por onde os levariam um dia, com menor acompanhamento, o companheiro que no voltaria mais.
O cemitrio ficava num alto e o prstito comeou a serpejar pelas ruelas da Covilh, enquanto  sua retaguarda se cerrava, vagarosamente, o porto do Albergue.
Funeral igual a tantos, o habitante da cidade, se assomava  porta ou  janela ou o topava na rua, avaliava logo da sua falta de importncia, pois levando, embora, muito povo, tinha uma s Irmandade e nenhum automvel. Era certo que, de quando em quando, apareciam, na boca das ruas transversais, alguns carros. Mas nenhum deles vinha para acompanhar o morto. Todos paravam, aguardando que o trnsito ficasse livre, e, depois, prosseguiam o seu caminho. A certa altura, o automvel de Azevedo de Sousa surgiu, tambm, no flanco do cortejo. Entre os que o reconheceram, ningum estranhou v-lo ali, pois antigamente, quando algum operrio falecia, o
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(patro acompanhava-o at ao cemitrio e, ainda hoje, havia industriais que fariam isso.
Com suas escuras vestes domingueiras, algumas lustrosas de to velhas, outras muito apertadas sobre os corpos que tinham alargado depois de elas haverem sido feitas, os homens que iam no cortejo continuavam a passar em frente do automvel. Entretanto, l dentro, Azevedo de Sousa impacientava-se. H meia hora ainda estava ele mui tranquilo em casa, quando o seu novo scio de Manteigas lhe telefonara sobre vultosa encomenda que recebera pouco antes. Era fabrico de centenas de contos e bastos lucros, mas havia dificuldade em obter ls com a urgncia requerida. Ele quisera adiar a conferncia que o scio lhe pedia. Mas, depois, recordara-se de que, se no fosse a Manteigas nesse dia, at sbado seguinte o automvel no poderia circular, dado que as restries na gasolina, durante a guerra estabelecidas, se mantinham ainda. E decidira-se, ento, a ir e a volver nessa mesma noite. Agora, porm, vedavam-lhe o trnsito. Alm da pressa que tinha, era sempre penoso a Azevedo de Sousa ver funerais, que lhe faziam lembrar a fragilidade da sua vida e a sua prpria morte.
- Toca o "klaxon" e v se passas... - ordenou ao motorista.
Mas o motorista, que era supersticioso, temia cortar procisses fnebres com o carro e no obedeceu.
- Est quase no fim - disse, olhando para a cauda do prstito, que, do seu posto, ele via aproximar-se.
Azevedo de Sousa resignou-se. E, para melhor encher o tempo desagradvel, perguntou de c de trs, do assento onde ia:
- De quem ser o enterro?
-  do Marreta - respondeu o motorista sem se voltar e com o tom de quem dizia palavras inteis, pois toda a gente devia saber aquilo.
- Do Marreta... Do Marreta...
- Ele trabalhou muito tempo l na fbrica... Era tecelo...
- Ah, j sei!-lembrou-se Azevedo de Sousa... Era um que tinha dois dentes que saam da boca e que foi da antiga Casa do Povo... No sabia que tinha morrido... Coitado! H muito tempo que o no Via...
- Ele estava, h mais de um ano, no Albergue...
- Ento foi por isso... Coitado!
Azevedo de Sousa recordava-se, agora, nitidamente, das discusses e enervamentos que tivera com Marreta, quando este e outros delegados da Casa do Povo dirigiam as greves e reivindicaes, nos primeiros anos da Repblica. Muitas vezes sentira mesmo mpetos de lhe partir aqueles dois dentes e s para evitar maiores conflitos com os operrios  que ele se mostrara sempre calmo, roendo em silncio as cleras que o entumesciam por dentro. Mas, agora, vinte e cinco anos passados, tudo isso lhe aparecia sem ressentimentos e ele sentia pena de Marreta, verdadeira pena, como se, com a morte deste, morresse tambm alguma coisa da vida dele, de quando ele era mais novo e mais saudvel do que actualmente. Pensou que, estando ali, devia incorporar-se no prstito.
Quando a cauda do cortejo passou em frente do automvel, Azevedo de Sousa ordenou ao motorista:
- Segue o funeral.
O motorista, que estava com a ideia de avanar para Manteigas, julgou no ter compreendido bem.
- O que diz ? Para seguir o funeral ?
- Sim. Segue o funeral.
O carro principiou a roncar ladeira acima, atrs dos ltimos homens que fechavam o fnebre agrupamento. Estes voltaram-se, reconheceram o industrial e continuaram a sua marcha.
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O cemitrio quedava-se prximo do centro da cidade, mas to ngreme se apresentava o seu acesso, que o andamento do funeral se fazia lentamente. Ao cabo de cinco minutos, Azevedo de Sousa olhou o seu relgio. Eram quase seis horas. Por muito que corresse, s chegaria a Manteigas  hora do jantar. Depois, janta e no janta, conversa e no conversa, seriam dez horas. Dez horas, no, porque aquilo era complicado e no se resolveria assim de p para a mo. Se estivesse despachado s onze, j seria muita sorte. E no estaria, de novo, na Covilh, seno muito tarde...
O cortejo continuava a subir vagarosamente. Azevedo de Sousa sentia-se, agora, menos comovido com a morte de Marreta do que quando, momentos antes, tivera notcia dela. Mas custava-lhe, apesar disso, abandonar o funeral. J agora acompanh-lo-ia at  porta do cemitrio. No sairia do carro, porque a ele sempre custara ver enterrar algum. Ao prprio jazigo que mandara construir para si e para a famlia, s fora no dia em que o mestre-de-obras o dera por concludo. Depois, nunca mais voltara l.
Azevedo de Sousa pensou que no tinha vontade alguma de ir, naquela noite, a Manteigas. Estava frio, o sol dos dois ltimos dias no havia ainda derretido toda a neve. O que lhe apetecia era meter-se em casa, que se encontrava aquecida, ler os jornais de Lisboa, que durante o dia no tivera tempo para o fazer, jogar, depois do jantar, s cartas com os cunhados seus vizinhos e, s onze horas, ir para a cama, como de costume. Isso, sim, seria bom e ele poderia seguir, tranquilo, at  porta do cemitrio, pois a ideia, recm-nascida, de abandonar discretamente o funeral, dobrando para uma das ruas transversais e retomando o seu caminho, no o deixava bem com a conscincia.
Azevedo de Sousa ps-se a imaginar o que sucederia se ele no fosse, nesse dia, a Manteigas. O scio, s por si, no era homem para resolver aquilo
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capazmente. Era um atado e pouco esperto; por isso nunca passara da cepa torta. Falava muito, mas no tinha expediente. E aquilo metia grmios, o diabo! O mal era terem de dar uma resposta com urgncia. Isso e aquelas malditas restries na gasolina, que s permitiam a circulao de automveis s quartas e aos sbados. Seno, ele iria l no dia seguinte e tudo se resolveria. Mas, assim, se deixasse o caso para sbado, a encomenda podia ser dada a outra fbrica. E l se iam, por gua abaixo, muitos contos de ris que ele deixaria de ganhar. Pelo menos, uns cinquenta.
Azevedo de Sousa voltou a pensar no calor da sua casa e no frio e na escurido que ele iria encontrar na estrada de Manteigas. E considerou que a tranquilidade e o conforto dessa noite seriam, caros por cinquenta contos.
O funeral deteve-se um momento e o automvel tambm. Azevedo de Sousa tornou a lembrar-se de Marreta e da sua morte e de que ele prprio j estava velho para andanas por estradas desertas, numa noite fria de Inverno como aquela. Ele era, felizmente, rico e no tinha filhos - pensou; ele fora, alm disso, dos que mais ganharam com a guerra, porque a sua fbrica era uma das maiores da Covilh e os preos tabelados, ao contrrio do que, a princpio, se supusera, haviam dado muito dinheiro; ele no teria de pedir esmola mesmo se perdesse aquela encomenda, em Manteigas. Por outro lado, a vida era curta; de um! dia para o outro, estava-se mesmo a ver, um homem ia-se embora, como o Marreta. Ora ele, Azevedo de Sousa, trabalhara toda a sua vida para ser algum e, agora, tinha direito de ficar em casa numa noite daquelas, mesmo que isso lhe custasse cinquenta contos. De mais a mais, ele devia ir at  porta do cemitrio, pois, h pouco, quando evocava as suas discusses com Marreta e os outros delegados da Casa do Povo, lembrara-se de que, pelo menos uma vez, ele no tinha razo,
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como verificara mais tarde; e, se conseguira impor-se, fora somente porque os operrios e o prprio Marreta dependiam dele.
O prstito morturio recomeou a sua ascenso na calada. Quando o automvel voltou tambm a mover-se, Azevedo de Sousa calculou que, com marcha assim to lenta, demorariam, pelo menos, ainda uns quinze minutos a chegar  porta do cemitrio. Parecia impossvel que, havendo tanto frio, aquela gente no andasse mais depressa! Voltou a olhar o relgio: eram quase sete horas. A existncia do cadver, que ia l adiante, parecia-lhe, agora, um impecilho para a sua livre deciso.
Azevedo de Sousa pensou que j vrias pessoas o tinham visto no funeral. Se se retirasse agora, j ningum poderia dizer que ele no havia comparecido no enterro de um seu antigo operrio. E, alm disso, h muito tempo j que Marreta no trabalhava na sua fbrica. Ele, a bem ver, no tinha obrigao de ir ali.
Com pena de no acompanhar o morto at  porta do cemitrio e um certo peso na conscincia, Azevedo de Sousa, na primeira travessa encontrada, disse ao motorista:
- Volta a...
Com as sucessivas ordens e contra-ordens, o motorista julgou, mais uma vez, no ter ouvido bem:
- Volto aqui ?
-Sim. Para Manteigas.
O automvel desapareceu. E o cortejo continuou a subir, vagarosamente, para o cemitrio.
Tramagal sentia, de quando em quando, as suas pernas fraquejarem. No era cansao, pois ele, alguns domingos, antes de ter vendido a escopeta, batia lombas e encostas  caa de perdizes e de coelhos, sem nunca se fatigar. Aquilo provinha-lhe do mesmo mal que ele sentia na garganta quando pensava que nunca mais veria Marreta. Ao passarem por uma taberna, Tramagal separou-se do cor 
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tejo, entrou e bebeu, em dois tragos apenas, um decilitro de aguardente. Saiu a correr e a soprar fumo, para se incluir, de novo, no prstito. iJ se via, l em cima, o hospital, que ficava ao lado do cemitrio.
A Irmandade das Almas atravessou o porto e, atrs da Irmandade, o esquife, os invlidos fardados e os demais homens. Todos meteram por entre os sumptuosos mausolus dos industriais e de outras gentes ricas da cidade e, l ao fundo, junto de pequena cova, que mal se divisava  luz das velas dos irmos da confraria e da lanterna do coveiro, tudo decorreu rapidamente.
Os homens foram saindo em grupos, uns silenciosos, outros conversando em voz baixa. J na Rua Rui Paleiro, Pedro, que vinha mais atrs, juntou-se a Horcio. A princpio, Pedro no disse nada. Depois, compreendendo, pela mudez do companheiro, que este continuava a pensar em Marreta, comentou:
- Era um bom tipo. Tinha aquelas manias, mas era um bom tipo.
Horcio ia a responder-lhe, mas conteve-se, porque Manuel da Boua se cruzava com eles e os saudava.
Pedro continuou:
- Nunca vi ningum que andasse tanto na lua... s vezes, at me fazia rir o que ele me dizia com um ar muito srio. Mas, mesmo assim, eu gostava dele...
Horcio interrompeu-o, bruscamente:
- Cala-te!
- Calo-me, porqu? Ora essa!
- Cala-te, peo-te!
Pedro quedou-se a olh-lo. Mas j Horcio lhe voltava as costas, abandonando-o:
- Boa noite... Passa bem!
Agastado, Pedro hesitou um instante. Depois, fez com os ombros, um movimento de indiferena e somou-se aos grupos que desciam.
Horcio encostara-se a um. dos prdios da rua e, enquanto esperava que Pedro se afastasse, viu Ma
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nuel da Boua arrastar-se calada acima, por entre a multido que vinha do cemitrio. Tambm aquela imagem do velho cptico o molestou. E, ento, ps-se a olhar para os outros homens,vestidos de negro, que passavam na sua frente, caras que lhe eram familiares, operrios da Aldeia do Carvalho, e da Covilh, que ele conhecia da hora da sada das fbricas, dos dilogos no Pelourinho, das prprias ruas onde habitavam.  medida que iam passando, ele evocava as ideias, as embrionrias ansiedades que tinha ouvido a cada um. deles, desde que deixara o cajado de pastor e viera trabalhar para as fbricas. E cada vez se apagavam mais, nos seus olhos, as imagens de Pedro e de Manuel da Boua e cada vez ele se sentia mais confortado, mais confortado cada vez, por verificar que quase todos os que passavam na sua frente pensavam como Marreta e como ele prprio pensava agora.
Viu Tramagal, Ricardo e Joo Ribeiro a descerem a calada e juntou-se a eles. Ricardo disse-lhe:
- No sbado  noite, vamos fazer uma reunio, aqui, na Covilh, em casa do Hildefonso. Precisamos de continuar... Compreendes? Precisamos de continuar... No faltes!
- L irei - respondeu. E voltou a sentir-se menos abandonado do que quando vira, momentos antes, enterrar Marreta e muito menos do que quando, h anos, entrara para a fbrica. Parecia-lhe que uma secreta fora, que ele desconhecia quando viera para ali, partia dos outros para ele e dele para os outros ligando-os a todos e dando-lhes, com novas energias, uma nova esperana.
Ao chegarem ao comeo da Rua Azedo Gneco, onde ele vivia, Horcio despediu-se. Mesmo ao andar sozinho na viela solitria, parecia-lhe que no ia sozinho.
Quando chegou a casa, Idalina entoava uma cantiga montona, para adormecer o filho. Mas o Joanico
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, ao ouvir ranger a porta e ao v-lo entrar, abrira muito 
os olhos e sorrira-lhe.
Idalina estava com uma expresso triste e perguntou-lhe.
- Ento? Tinha muita gente?
- Tinha.
O Joanico continuava a sorrir-lhe. Ele sentiu um sbito desejo de pegar no filho e de o acariciar. Vencendo os protestos de Idalina, agarrou no Joanico, levantou-o do bero at  altura dos seus olhos e beijou-o:
- Seu maroto, que no quer dormir! - E voltando-se para a mulher: - Vamos a ver se, na Pscoa, podemos ir a Manteigas, mostrar o pequeno aos avs...
FIM DO ROMANCE

